sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O embaixador e o ministro (2)

As personagens são as mesmas do episódio ontem relatado: o ministro para as questões europeias e o seu embaixador junto da União Europeia, ambos de um país cujo nome, por qualquer razão, agora me escapa.

As duas figuras detestavam-se, mas era imperativa a sua convivência, para a defesa dos interesses do respetivo país. E o embaixador, forte das proteções de que dispunha, gozava regularmente com o ministro.

Um dia, durante uma reunião negocial em Bruxelas, o ministro, com o embaixador a seu lado, decidiu citar, numa sua intervenção, a opinião abalizada de uma figura marcante do seu país, muito conhecida internacionalmente, mas desaparecida então já há uns anos. Tratava-se de uma qualquer ideia sobre o futuro ou o sobre passado da Europa, já não recordo bem.

Fê-lo, como era seu timbre, com uma solenidade algo pomposa, pretendendo tirar efeito desse sábio comentário que a tal figura teria, em tempos, produzido, na sua presença.

A personalidade citada era de um campo político oposto ao do ministro, o que dava foros de alguma estranheza à sua invocação. A sala estava silenciosa, eu diria que menos por reverência e mais por curiosidade pela "performance" a que assistia.  Num determinado momento, com um procurado dramatismo, o ministro confidenciou:

- Eu vi-o, falei com ele.

Com isso, o ministro queria significar que, por mais estranho que isso pudesse parecer, atentas as suas diferenças políticas, tinham-se encontrado e, desse momento, resultara a ideia que agora nos transmitia.

Ora isto era "demais" para o embaixador, o qual, de viés, o olhava com visível ironia desde o início da intervenção. E não resistiu. Chegou-se à frente, inclinou-se para o microfone que partilhava com o ministro, o qual gozava um segundo de pausa, explorando o efeito da sua frase, e "esclareceu" sobre o momento da conversa:

- Antes da morte dele, bem entendido! - não fosse alguém suspeitar de qualquer diálogo do governante com os espíritos.

A sala soltou-se em gargalhadas. Todo o efeito pretendido pelo ministro se esvaiu, naquele instante. Já ninguém se lembrava mais o que de tão decisivo teria dito o ilustre falecido. Todos olhávamos para a cara furiosa do ministro, que se entaramelava a tentar recolar o discurso perante um fundo sussurrante de risotas contidas, e para o ar divertido do embaixador, ao seu lado, ciente de que tinha ganho o seu dia...

4 comentários:

patricio branco disse...

o ministro era assim como um conselheiro acácio e o embaixador aproveitava todos os momentos para o zurzir, desmascarar a sua baixa competencia e apontar o ridiculo do personagem.

Anónimo disse...

Pergunto-me sempre: o que seria de nós sem os sábios esclarecimentos do preclaro Patrício Branco?
xg

Isabel Seixas disse...

Estou em crer que quem gostaria que o Embaixador fosse também para os trópicos era decerto o Ministro...
A personagem deste episódio da série, claro.

Anónimo disse...

Ministro sofre...