quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O dilema das gravatas

Pode ser impressão minha, mas acho que anda por aí um dilema não muito bem resolvido no tocante ao porte de gravata em certas ocasiões, mais ou menos oficiais. Isto passa-se em Portugal, mas não só.

Conhecendo os usos e costumes dos serviços do protocolo, acho que a crescente intermitência com que algumas personalidades  usam ou deixam de usar gravata em certos e não determinados momentos públicos deve estar a provocar sérias dores-de-cabeça em quantos têm por missão dar recomendações sobre o vestuário a utilizar nas comitivas oficiais. Tanto mais que este "desgravatamento" está longe de ter ainda um registo solidamente tipificado em função das diversas ocasiões, suscetível de poder ser identificado como a criação de uma regra: para assinar um acordo usa-se gravata, mas para visitar uma feira comercial o adereço é dispensável? E para um encontro técnico? E se ele for ao ar livre é diferente? "Negoceia-se" com os interlocutores se se aparece ou não com gravata?

Assim, ou muito me engano ou anda hoje muita gente perdida nessas comitivas oficiais, pelo mundo fora, fazendo e desfazendo o nó, sem regra e sem rumo, apenas sempre cuidando, disciplinadamente, de seguir o padrão observado pelas chefias das delegações.

Em Portugal, eu próprio, devo dizê-lo, sofri desse "gravatal" dilema este Verão, numa reunião de trabalho, em Portugal. Levado pela filosofia subjacente à decisão do Ministério da Agricultura de abolir as gravatas nos seus serviços, preparava-me para ir de colarinho aberto para uma reunião nesse domínio com técnicos da UNESCO, no calor estival da Régua. Pensava eu que ia "na moda". E não é que, afinal, para essa reunião, estava previsto o uso da gravata? Lá afivelei à pressa o adereço... 

Há dias, nessa observação antropológica a que me tenho dedicado, nesta semiótica da gravata, assisti, na televisão, a uma cena algo curiosa. Um governante passeava por uma rua, num país bem quente, sem gravata. Nada de estranhar: a ocasião estava longe de ser solene ou de rigor e o mais natural era adotar um traje aligeirado em matéria de protocolo. Porém, logo atrás, surgia um destascado membro da comitiva de fato completo e gravata. Segundos depois, numa outra imagem, quase sequencial, essa mesma segunda figura já era vista sem gravata, parecendo assim ter adotado, a meio do percurso, o exemplo liberal dado pelo seu superior. A reportagem prosseguiu e, alguns instantes mais tarde, o membro do governo, sempre sem gravata, era entrevistado para a câmara. Atrás, a tal figura da comitiva, lá estava, de novo, com gravata! Que grande complicação! (A explicação estará porventura no "cuidado" com que a comunicação social terá feito a montagem da peça).

Neste domínio, aqui pela embaixada em Paris, as coisas, muito em breve, vão ficar facilitadas. Ou melhor, pelo menos com as gravatas, o problema não se colocará nunca. O futuro embaixador só usa "papillon"...

18 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Sempre me pareceu que o problema das gravatas nos homens se assemelhava , para as mulheres- agora em todos as áreas profissionais -, em usarem calça ou saia. É um berbicacho, acredite!

Isabel Seixas disse...

De facto um dos dilemas é a analogia com uma espécie de pré forca...

Agora, bonito era o uso das gravatas (nesse contexto, pelos Embaixadores,)servir para propagar uma imagem do País representado, com simbolos alusivos ,por exemplo a bandeira.
A aquisição de gravatas com bandeiras de Portugal,(numa rápida prospeção de mercado)tem um preço aproximado de 26,15 € por cada gravata ou 19,45 € se a compra for em grandes quantidades(não compensa assim muito).

No lacinho é mais dificil incorporar a bandeira mas não impossivel...

Talvez assim o uso dos referidos acessórios,amplie de longe o cariz da missão diplomática, inibindo até a sensação de aperto, através da ilusão psiquica do quem tem brio...

Fica bem num fato azul marinho , até cinza, preto ou verde seco.

Anónimo disse...

Afinal não havia outro... E mesmo o do "papillon". Mas que pena esta do Senhor Embaixador partir logo na hora em que vou passar mais tempo por ca. Comprei um "ordinateur' à francesa e agora cad'e os acentos? Esta UE nunca podera dar certo "pelo menos como nos disseram, no tempo de irmos para o pelotão da frente"! Como? Se a França tem o "seu" estimado teclado e não entra em generalidades... So agora me dei conta desta. E, deve haver mais nesta França "um pe dentro, outro de fora". Haja Europa pelo menos, porque o acento agudo não encontro!

gherkin disse...

Como sempre, o distinto bloguista BATE NO PREGO CERTO! Mais outro assunto, que embora obediente ao agora considerado "velho" hábito,sou fiel à gravatinha, pelo menos fora de casa. E esclareço: patriota como sou, há uma das muitas que tenho, que não dispenso em casos mais ou menos oficiais dos poucos que ainda frequento. Trata-se daquela vermelhinha-azul às riscas que também me foi oficialmente oferecida, a TAL que diz "PORTUGAL 2007" em que tanto o distinto amigo se notabilizou no prestígio do nosso País, facto que muito me orgulhou quando uma então ministra do governo de Tony Blair fez questão de me chamar ao seu gabinete para exaltar o esmero com que o nosso Portugal (mérito de um esforçado e conhecido Secretário de Estado!)estava a conduzir a preparação da Presidência Portuguesa na UE. Lembra-se? No país de adoção, lamento o uso e abuso, particularmente nas televisões, do abandono da gravata. O que é mais grave, numa população cada vez mais "casual" é observar-se o predominante desleixo na indumentária, particularmente nos homens! Acho também interessante essa menção de que no Ministério da Agricultura tinha-se decidido o não uso da gravata. Quando recentemente vi a foto de um governante, aliás amigo de há longa data, numa cerimónia oficial algures no extremo oriente desgravatado, foi assunto que não hesitei em apontar-lho... Possivelmente o mesmo a que se refere nesta sua crónica! OS RENOVADOS VOTOS DE UM FELIZ, SAUDÁVEL E MUI PRÓSPERO ANO...de gravata! Gilberto

patricio branco disse...

o uso ou não de gravata e casacos em serviço, publico ou privado, está tambem ligado a outros factores como os verões cada vez mais quentes e o custo da energia gasta pelos ares condicionados.
ao mesmo tempo que foram dadas instruções por administrações europeias centrais e regionais para regular o ar condicionado para temperaturas superiores (entre 23 e 24 cº) para economizar, tambem se libertaram os funcionários da obrigação tradicional de levar gravata e casaco no horário de trabalho, usar camisa de manga curta ou polos, para melhor se aguentar o calor.

depois, haverá um numero enorme de variantes ditadas pelas circunstancias do acto em que se está, tipo de função, de assistencia, no exterior, no interior, jantar de mais ou menos de cerimonia; contará tambem a decisão ou gosto pessoal ou outras mensagens que se querem dar aos assistentes, etc.
Creio que em muitos casos a escolha é intuitiva, ministros ou dirigentes partidários umas vezes vão de gravata aqui, outras sem ela ali, os comentadores na televisão ou apresentadores de telejornais usam umas vezes gravata outras não, etc
veja-se p ex a quadratura do circulo, como vão, não há regra aparente, ontem antonio costa ia de pulover, o que o engordou, um outro de gravata, e o nó era grosso, outro sem gravata mas de casaco, e cada semana é diferente.
há muitos anos lembro-me de numa conversa entre amigos a propósito de preconceitos ouvir dizer, mas vejam os israelitas os ministros ou na knesset, nenhum usa gravata, assim é que é, sem complexos, e não fazem pior trabalho...
o certo é que actualmente se usa menos, a gravata, seja verão, primavera, outono, etc.

Anónimo disse...

Pois é.... Mas gravatas depois de 1975 era crime usar. Agora ainda há resquicios disso ou há quem queira fazer esqucer esse tempo e com razao. Mas eu já nao sei

Anónimo disse...

Pois é.... Mas gravatas depois de 1975 era crime usar. Agora ainda há resquicios disso ou há quem queira fazer esqucer esse tempo e com razao. Mas eu já nao sei

Anónimo disse...

bem visto, um papillon eléctrico faz de ventoínha em dias mais quentes.

Anónimo disse...

Portugal continua a ser super formal e, vindo de África recentemente, surpreendeu-me, ao aterrar na Europa, depois de uns meses de ausência, um país profundamente envelhecido e ensimesmado. No jardim da Parada há um velho que continua metodica e ostensivamente a pôr gravata todos os dias, apesar de não necessitar. E lembra-me sempre a presença tutelar de Salazar no nosso País que parece ainda não se ter ido embora...

jj.amarante disse...

Uma pessoa ligada a estes temas de "dress code" (existirá expressão portuguesa equivalente?) dizia que a "casual friday" revelara o mau gosto de muita gente, escondido até então pelas regras rígidas. Com a liberdade de escolha, bastantes vezes as escolhas afastavam-se da concepção dominante de bom gosto. Mas ao escrever este pequeno texto dei-me conta do mundo de perigos que espreita este tema, nomeadamente a distinção entre "bom" e "mau" gosto.

Anónimo disse...

É claro que cada um se veste como quer, usando os acessórios ou adereços que bem entende, e é por isso que há gente bem ou mal vestida, queiram ou não.
Se é pelo calor, porque é que tiram a gravata em vez de tirar o casaco?
Se não usam gravata, por que usam camisas com botões de punho e colarinho desenhado e entretelado para usar com gravata?
É mais ou menos como usar gravata com um polo de malha... ou usar um jaquetão desapertado, ou não usar cinto numa calça de passadores. Há alguma coisa que não coordena, e nada tem a ver com a casual friday, como seja usar um blazer com umas jeans.
Porque não usam camisas de colarinho singelo, com ou sem botão?
E quantos botões desapertam? Um, dois ou mais? Ocultar a farfalhuda pelugem peitoral, ou mostrar os tocos dos pelos depilados há dois meses?
As gravatas não são baratas, é um facto, mas fazem parte de um executivo bem vestido.
Que o diga o Sr Serafim, gerente do Santander de Celeirós...
GS

Anónimo disse...

Permita-me, Dra Helena, que discorde.
Saia ou calça, nas mulheres, não terá a ver com o calor mas com o realce ou disfarce que conseguem.
Também não tem a ver com bom ou mau gosto nem com o calor, mas com os calores que os conjuntos podem provocar. Ou não.
GS

Anónimo disse...

Permita-me, Dra Helena, que discorde.
Saia ou calça, nas mulheres, não terá a ver com o calor mas com o realce ou disfarce que conseguem.
Também não tem a ver com bom ou mau gosto nem com o calor, mas com os calores que os conjuntos podem provocar. Ou não.
GS

Helena Sacadura Cabral disse...

É sempre surpreendente como, após quase quatro décadas de Revolução dos Cravos, ainda se lembre Salazar a propósito do uso da gravata. Ainda se fosse dos botins...
:-))

patricio branco disse...

ora vejam, o presidente do parlamento de corbata e o miniustro da industria sem, debate em que se fala tambem do imperador do japão:


http://www.elcorreo.com/vizcaya/20110720/mas-actualidad/politica/bono-sebastian-enzarzan-corbatas-201107201146.html

Anónimo disse...

Caso para trazer à colação o velho rifão: "O que é que tem o U com as Alças?"

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro/a GS
Pois eu ainda conservo um "despacho" em que o então Director da Aeronáutica Civil me autorizava a "usar calças", no exercício das minhas funções.
E, tempos depois e já noutra casa, um convite especificava para as senhoras "vestido comprido".
Mais tarde, ainda apanhei com um "traje de gala".
Como vê, o género ainda marca a diferença, não por calores, mas por rigores.
Acontece que me dou pessimamente com uns e com outros.

Isabel Seixas disse...

Minha querida e cara amiga Sra. doutora Helena Sacadura cabral, como eu leria com gosto essas Suas memórias escritas por Si.