sábado, 29 de dezembro de 2012

Ondas

Este Natal, como despedida de Paris, tive direito à oferta de um magnífico trabalho de Gérard Castello-Lopes.

Não revelo, mas gostei muito, da interpretação que quem mo ofertou fez da natureza das ondas deixadas pelo cacilheiro.

10 comentários:

gherkin disse...

Embora bonito, MAS SÓ? Este, o prémio pelo culminar de uma BRILHANTE E INVULGARMENTe ESFORÇADA CARREIRA ao serviço de um ingrato país? De Ingratidão das ingratidões está o nosso País cheio!Gilberto Ferraz

Helena Sacadura Cabral disse...

É uma bela foto de uma sinuosa onda no rio. Lembrou-me os meus tempos de criança, onde andar nos cacilheiros de então, era uma aventura de intenso sabor marítimo, que o meu Pai aproveitava para nos ir explicando a riqueza do Tejo! Houve tempos assim...

Anónimo disse...

Bem bonito!Muito sugestivo...

Anónimo disse...

Na nossa carreira aprende-se a arte de não fazer ondas...

Isabel Seixas disse...

O Andaime

(...)
Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

margarida disse...

Lindíssimo olhar; uma bela escolha de quem o ofertou.

A suave sinuosidade sugere a linha feminina.
Um perfil longilíneo, adoçado pela neblina do encantamento.
Ele afasta-se deixando a nostalgia da sua presença.
Ela segue-o com o olhar, espreguiçando-se langorosamente.
É um affair, donc 'cherchez la femme'.

Tratar-se-á de um presente pessoal e não institucional. Ou não; que sei eu de etiqueta e protocolo diplomáticos?

Luis Moreira disse...

Nada disso. Estas ondas são aproveitadas para serem "surfadas" pela rapaziada da "outra banda".
Eu sou do "Banda Larga"blogspot...se me quiserem visitar.

Helena Oneto disse...

Tapete de espuma branca
onda doce, triste travessia
cacilheiro leva-me a Lisboa
onde nasci e onde morria

margarida disse...

para uma écloga do tejo


agora cai a noite, ainda vejo
aquela fita branca
a rebocar a tarde ao rés das águas
talvez seja de um barco, mas não quero

olhar o barco, a minha vida é ver
desentrançar-se a espuma
numa leve torção de múltiplos silêncios
como um rasto de tudo o que passou,

de ausências várias várias a horas e desoras
que se tornam presentes como na
música acontece ou na melancolia
daquela fita branca a atravessar

as tardes sobre o rio, outra banda
posta no meio, a dividir a corrente
do tempo raso, desolado, agora
a pele da noite ondula.

Vasco de Graça Moura

Lembrei-me do meu livro de fotografias de Gérard Castello-Lopes sobre textos de Vasco Graça Moura, apresentadas na Europália, em 1991. Obra que também reúne” onze poemas de circunstância e um labirinto sobre imagens de Gérard Castello-Lopes.”

Este foi o poema para essa fotografia. Perfeito.

Anónimo disse...

Cara Isabel Seixas
Cumprimenta-a a nossa velha amiga pela escolha de 'O Andaime', de Pessoa, e sugere a publicação do poema na íntegra, de tão belo que é - se Sexa o permitir:

O Andaime

O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.

A ‘sp’rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que a minha ‘s’prança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam — verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças,
Mas as mortas esperanças —
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim —
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser — muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o olvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.

Fernando Pessoa, 29-8-1924 (?), in 'Presença' de junho de 1931