terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Do Golfo à Turquia

Nestes tempos em que a pressão das questões internas (com a Europa comunitária tida como tal) aparece quase como obsessiva na nossa agenda política, é muito importante, e prova da maturidade das nossas relações externas, que Portugal continue a assumir a sua vocação internacional e a afirmar-se, em vários outros espaços, como um parceiro fiável e coerente. Por isso, é relevante a atual presença do ministro dos Negócios estrangeiros no Golfo, tal como é de destacar a deslocação que o primeiro-ministro hoje fará à Turquia. Portugal tem de continuar a apostar na crescente abertura da sua economia a novos espaços e novos mercados. Mas, para que isso frutifique, a política é indispensável. Estas duas deslocações configuram a desejável continuidade com uma linha diplomática que vem de há muito e que importa prosseguir.

A região do Golfo, com o petróleo e o gaz que lhe alimentam as ambições, é vista pelo mundo como uma "mina" onde todos procuram o novo ouro. O Golfo - os "golfos", porque cada país da área é um caso e só uma grande ingenuidade poderia aconselhar a tratá-los da mesma forma - é uma zona geopolítica onde, por detrás das torres do progresso, espreitam inquietações regionais, algumas variadas tensões internas latentes e a comum preocupação com o futuro. Ainda há dias tive oportunidade de testar no Oman, com interlocutores locais, mas também com amigos do Qatar, dos Emirados e do Bahrein, o modo como o nosso país é "lido" na região, a simpatia histórica de que disfrutamos, a confiança que em nós depositam, talvez pela nossa dimensão e seguramente pelo apreço que lhes merece a nossa atitude. Claro que podemos e devemos explorar economicamente esta realidade, e ninguém levará a mal que o façamos, mas não é menos importante, para Estados que vivem num contexto regional muito particular, que saibamos dar notas claras e inequívocas do modo como somos fiéis aos nossos compromissos para com eles, nas arenas internacionais onde nos movemos, no tocante aos seus interesses e aos cenários que mobilizam as suas preocupações. Isso é válido para a questão do Irão, como o é para o caso sírio e, naturalmente, na atitude quanto à Palestina*.

O caso turco tem uma dimensão diferente, mas nem por isso deixa de ser menos relevante. Desde há vários anos, Portugal tem tido para com a Turquia um comportamento político de uma coerência exemplar, em especial nos quadros da União Europeia e da NATO. O nosso país cedo compreendeu e disse alto que era essencial para a Europa conseguir estabelecer com Ancara uma sólida relação de confiança, não hesitando em deixar públicas mensagens de apoio à sua aproximação às instituições europeias, mesmo quando, a partir de certa altura, essa linha de abordagem entrou em contra-ciclo com a atitude de outros parceiros, como é o caso do país onde estou acreditado. No caso da NATO, Portugal não esqueceu nunca que a Turquia funcionou como a linha da frente das tensões com o mundo soviético, tendo sido, por décadas, um fiel aliado ocidental, pelo que as suas mais recentes crises de segurança, como foi o caso do Irão e agora da Síria, não nos podem ser indiferentes. Ancara é hoje um país emergente da maior importância, um parceiro indispensável numa vital zona de confluência de poderes e temos que perceber que uma errada atitude europeia face à Turquia poderia, inclusivamente, ter consequências detrimentais para quantos, dentro do país, pugnam pela prevalência de valores que nos são caros. Basta olhar para um mapa para se perceber a cegueira que significaria o alheamento europeu face à evolução deste país. E Portugal tem dado provas de que percebe muito bem isto (leia-se aqui).

Por isso, nestes tempos de "Europa, Europa, Europa", é bom que a política externa portuguesa saiba olhar para além da espuma do euro.  

* Alguns amigos árabes perguntaram-me, nas últimas semanas, se não havia uma contradição pelo facto de, recentemente, termos votado a favor do novo estatuto da Palestina na ONU quando, há uns meses, o país se havia abstido em idêntico voto no seio da UNESCO. Expliquei que entendia que a posição do governo português fora assumida sob a seguinte racionalidade: a sede para o "upgrading" do estatuto da Palestina eram as Nações Unidas, pelo que era aí que uma primeira decisão deveria ser assumida. Quando ela finalmente teve lugar, Portugal votou a favor, como seria expectável, à luz do nosso tradicional posicionamento na questão. Nessa assumida lógica, a decisão de antecipar, num órgão subsidiário do sistema onusino como é a UNESCO, a elevação do estatuto internacional da Palestina terá parecido, aos olhos do governo português, uma inversão da hierarquia natural das coisas. Contudo, convirá notar que, mesmo nessa votação na UNESCO, Portugal não se opôs à proposta apresentada e que acabou por ser aprovada, tendo apenas optado pela abstenção.

6 comentários:

Anónimo disse...

Quem sabe, sabe... Assim se pode ir ajudando os mais novos.

patricio branco disse...

um país de todo o respeito, a turquia, pela sua história e seu presente, uma potencia regional economica e militar sólida, amiga do ocidente mas que tambem se faz respeitar pelos seus vizinhos do oriente e nordeste. um país que a europa deve tratar bem (e trata) e que estaria bem, um dia, na ue (embora neste momento deva pensar que melhor afinal não pertencer, pelo menos por agora). optimo que seja da nato e um membro dos bons. um país onde se cruzam e coexistem exemplarmente o ocidental e o oriental. mesmo o problema curdo, que é assim como o basco transportado para lá, tem sido tratado com energia e há muitas décadas sem matanças ou violencia despropositada.
reforcemos pois as nossas relações com a turquia.

Anónimo disse...

Pos é....
Optimo exemplo da importância da diplomacia política.
Recolha de informação, elaboração da mesma e reprodução dos dados obtidos em função do que se pretende esclarecer. É o mesmo método que se aplica a qualquer investigação científica.
Mas, eu não sei

Anónimo disse...

O Senhor Embaixador é um profissional distinto. O que disse aoas seus amigo árabes é uma boa história, muito bem engendrada. Mas sabe bem que não é verdade. É assim não é?

Anónimo disse...

o voto contra na unesco teria sido um desastre. a abstenção constituiu um erro, que foi depois felizmente emendado na onu.
a diplomacia também serve para embrulhar convenientemente os erros dos governantes.
parabéns pelo elegante embrulho!

a) franquelino da motta

Defreitas disse...


Ao Sr. Patricio Branco, que escreveu:"mesmo o problema curdo, que é assim como o basco transportado para lá, tem sido tratado com energia e há muitas décadas sem matanças ou violencia despropositada.
reforcemos pois as nossas relações com a turquia.")


Bom, a Turquia também sabe fazer "matanças" e "violências" despropositadas! Que o digam os Arménios e os sobreviventes das dezenas de milhares de vítimas do genocídio.

Quanto à presença na UE , se a Europa fisicamente acaba no Bósforo, não vejo nenhuma razão para integrar um país muçulmano na Europa Cristã. E porque não uma esticadela da fronteira da UE, até ao Irão ou o Afeganistão, que também são vizinhos ?