quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Discursos

Por aqui, os jornais trazem, nos últimos dias, citações de frases que, no passado, foram pronunciadas, por responsáveis políticos franceses, por ocasião de encontros franco-argelinos. São expressões que, no respetivo contexto histórico, pretenderam ter um significado próprio, por assinalarem uma linha política que era desejado destacar. E, de facto, juntar hoje essas citações ajuda a perceber melhor o esforço que, em cada época, foi feito para tentar melhorar as relações da França com a sua ex-colónia magrebina.

A profissão ensina-nos, contudo, a ter alguma prudência quando observamos o débito de um discurso político. É importante que se saiba que, a um certo nível elevado de responsabilidades, raro é o político que escreve os seus próprios discursos - ou porque não tem tempo ou porque não tem jeito ou por qualquer outra razão. A maioria dessas prestações públicas ou são colagens de contribuições diversas ou assentam no trabalho de um "ghost writer" ou, o que é mais comum, resultam da combinação de ambas as coisas. É claro que também há alguns raros políticos que, perante um projeto que lhes é apresentado, "trabalham" os textos, os reescrevem, em especial para certas ocasiões tidas por importantes. Mas já fui testemunha de figuras políticas a pronunciarem, sem alterarem uma vírgula, discursos preparados por outros. Algumas vezes sem sequer se darem ao trabalho de os lerem antes...

Não é este o caso dos "grandes" discursos, claro. Mas, mesmo nestes, no tocante às "grandes frases" que se pretendem deixar para a História, eu recomendaria a quem as ouve que relativize sempre a genuinidade da sua real paternidade. Porquê? Porque a história política prova que grande parte das citações que fixaram um lugar no imaginário público foram, de facto, escritas por outra pessoa que não o político que as pronunciou, isto é, são obra de um "ghost writer" ou, como se diz em francês, de um "nègre", às vezes possuidor de uma escrita genial, que ajuda muito um político a brilhar.

Mas a vida política também prova que não é possível fazer uma boa carreira apenas "às costas" dos discursos dos outros e que, por essa razão, os verdadeiros grandes políticos são aqueles a quem a História fez merecer as belas frases que alguém lhes colocou na boca.        

8 comentários:

Anónimo disse...

Ou, como se diz em Português, um "escritor fantasma".

Anónimo disse...

Sr. Embaixador isso era antes ... hoje em dia não existem mais "ghost writers" são "sound bytes makers", até aqui se assistiu ao abastardamento da política, com honrosas e escassas excepções.

N371111

Gonçalo disse...

Sr Embaixador, tendo visto que foi hoje publicado em Diario daa Republica a sua passagem à disponibilidade, espero que não abandone este seu Blogue, que tanta companhia nos tem feito. Continue que "nós" gostamos.

Gonçalo Brito

patricio branco disse...

por outro lado tambem há tremendas improvisações, uma vez ouvi o pr j sampaio lançar-se numa, tinha um discurso escrito preparado, olhou para o papel e disse que não ia ler aquilo, rasgou ali mesmo as folhas e lançou-se num magnifico discurso improvisado, em inglês, com conteúdo, principio, meio, fim. ouvi pessoas dizer, grande presidente o de portugal.
também há falsas improvisações, discursos memorizados, ou os metódicos, com esquema e tópicos.
o de m l king i have a dream teria sido improvisado, preparado? E o sermão da montanha? E o de marco antónio depois do assassinato de césar?
a expressão the people'princess atribuida a tony blair, dita por ele, sabe-se que foi obra da equipa que preparou a intervenção televisiva dele, vê-se no filme the queen.
um bom discurso, coisa hoje difícil de ouvir. os ingleses editam todos os anos uma escolha dos melhores discursos do ano (também dos melhores sermões) mas têm uma escola de oratória que continuam a seguir, os políticos não deixam de meter uma graça nos seus discursos para descontrair e manter a tenção, raramente deixam de incluir também uma citação dum grande escritor inglês, Shakespeare, Dickens. o falecido fco inglês robin cook no inicio duma presidência da ue disse ao terminar o seu discurso: e desejo-vos todo o sucesso estes 6 meses que agora começam numa noite de reis e terminam com o sonho duma noite de verão. Bonito, sobretudo dito em inglês.
Grandes oradores políticos? de gaulle, mitterrand, churchill, religiosos padre antónio vieira e bossuet, e como seriam ao vivo os dos pais da revolução francesa?
portugal é um país de bons oradores?
etc, etc,

Anónimo disse...

Pois é.... Alguém que foi com o Ptresidente Carmona nas suas viagens à África contava que ao prerarem-lhe os discursos ele concordava com tudo. Na altura de os fazer metia o papel no bolso, discursava de improviso e nem sempre bem.
Mas eu não sei

Carlos Fonseca disse...

A falta que faz ao Sr. Passos Coelho um "ghost writer" inspirado, ou que, pelo menos, tivesse conhecimentos médios da Língua Portuguesa.

Assim...

Anónimo disse...

Sobre as formas eficientes de comunicação há certamente um meio-termo a procurar entre os "post-it", via facebook, hoje na moda, e os discursos hiper-abstractos de antigos Chefes de Estado que, mesmo com boa vontade, não dava mesmo para entender...

Sá da Bandeira disse...

Caro Embaixador, sobre esta tema saiu agora em Portugal uma obra a não perder: Grandes Discursos do Século XX, a política portuguesa em 100 de história nos melhores discursos à nação. Verdadeiramente a não perder! Feliz Ano 2013!