terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A. Campos Matos

Já uma vez por aqui falei de A. Campos Matos, uma das pessoas que, na minha opinião, ao longo das últimas décadas mais tem contribuído, em língua portuguesa, para a divulgação e aprofundamento de vários aspetos da vida e da obra de Eça de Queirós. Tenho pelo seu trabalho uma imensa admiração e, devo dizê-lo, tenho como intenção, após o meu regresso definitivo a Portugal, conhecê-lo pessoalmente, a fim de lha testemunhar.

Um amigo enviou-me agora o seu "Eça de Queiroz - silêncios, sombras e ocultações", uma interessante recolha de ensaios que teve uma primeira edição (embora mais limitada) no Brasil, terra onde a memória de Eça é tratada com desvelo e muita atenção.

Com a vida, aprendi que a devoção comum às grandes figuras literárias está longe de ser um fator de unidade dos devotos, como ingenuamente se poderia supor. Há dias, a propósito da colocação de uma placa na primeira morada de Eça de Queiroz em Paris, fui objeto de remoques de um descendente, que entendia que eu teria o dever de o convocar para o ato. Pelos vistos, A. Campos Matos também não escapa a estas polémicas, desta vez noutra sede, como o revela um opúsculo que publicou, chamado "Um caso insensato da cultura nacional - querela inútil mas inevitável".

O que Eça se haveria de divertir se soubesse as "guerra" de Alecrim e Manjerona que a sua memória ainda suscita.

14 comentários:

Eduardo Saraiva disse...

Post muito oportuno porque os portugueses foram e são assim, mas espero que mudem.

patricio branco disse...

não tenho seguido bem o tema, os estudos queirozianos, e será uma boa sugestão ir folhear a uma livraria o livro de que trata a entrada.
a entrada fala do escritor eça, do estudioso campos matos e aproveita para falar de quezilias associadas.
é um facto que quando apareceu há uns 11 anos a biografia do escritor por maria filomena mónica, houve gritos e sussurros, que ela não era especialista em literatura nem em historia literaria nem no eça, etc.
mas depois da biografia de joão gaspar simões deve ser das melhores a contar a vida do homem, embora fantasie um pouco quando não há documentação sobre algum momento (a descrição da viagem de eça ao egipto como correspondente à inauguração do canal tem momentos de mau gosto).
haverá outras biografias de qualidade? não tenho presente, não sei.
mas o proprio eça tambem teve as suas polemicas com outros escritores, coisas da vida...

há um livro esquecido não reeditado, ou assim me parece, que fez as minhas delicias há mais de 40 anos, os ensaios queirozianos de antonio coimbra martins, publicados creio que pela euroopa america. eram 5 ou 6 ensaios sobre aspectos da obra e vida do escritor, magnificamente escritos. perdi o livro, ou melhor, ficou na biblioteca que perdi quando mudei de estado civil e não sei se foi reeditado, bem gostaria do reler.

compreendo que o familiar de eça de queiroz se tenha sentido triste por não estar presente, até compreendo, espero que não tenha sido inconveniente nos remoques.

eça tem sido bem traduzido, incluindo em françês, e muito gostaria dum dia o ver editado na pleiade da gallimard, isso seria uma forma de o projectar e consagrar em frança onde está relegado para editoras de qualidade mas de menor relevo.

e com tudo isto, veio-me o gosto de reler eça, talvez as cartas de londres e os bilhetes de paris. e de folhear os silencios, sombras e ocultações do campos matos.

Isabel Seixas disse...

Realmente, já ajuda muito quem não estorva...
Pelo menos podiam e deviam oferecer-se como colaboradores dando os seus contributos e agradecendo a nutrição das memórias aos verdadeiros "Nutricionistas", mas fazer o quê?...

!"Também não me importo nada de me sentar com o diabo à mesa, desde que...Ele não ache que o diabo sou eu..."

Anónimo disse...

Estes duelos deixam-nos sempre sem saber o que realmente estava em causa. As polémicas ao fim e ao cabo são as mesmas que foram suscitadas na "Questão Coimbrã". Até por isso têm sempre actualidade... Mais aquela "nossa" inveja portuguesa que tem lugar em todas as gerações. Vou apanhar o livro para o oferecer a alguém que lhe aponte "aqueles defeitos" de estimação de quem pretende saber do assunto. Depois fico mais esclarecida sobre os defeitos dos fazedores dos "estudos queirosianos" mais os do Clube e ainda mais das falhas do próprio Eça. Tenho saudades de ver o Dr. António Maria Pereira a falar das touradas com o mesmo empenho que aplicava no seu gosto por Eça ou por quem fosse um seguidor de Voltaire... Com esta crise toda só espero que estes hábitos "menos lúcidos" mas divertidos não se percam na voragem da austeridade por aí extremada...

Anónimo disse...

Patricio Branco, se quiser deixar aqui uma direcção para eu tentar com que possa reaver os Ensaios queirozianos do Coimbra Martins, talvez consiga. Fica combinado?

Helena Sacadura Cabral disse...

As questões queirozianas retratam o país. Fomos, somos e seremos sempre assim...
Também os pessoanos brigam muito.
Deliciei-me com o comentário de Patricio Branco que, ao mudar de estado civil, perdeu o livro de Coimbra Martins, porque eu, já por mais de uma vez, fui à procura dum livro que afinal ficara com a cara metade.
É a vida!

ARD disse...

Tenho o "Dicionário de Eca de Queiroz" e lembro-me de ter lido, em tempos, uma biografia do EdeQ (não tenho cedilha...).
O Dicionário e' muito interessante, a biografia não me deixou grandes memórias.

patricio branco disse...

caro comentador das 13,38, muito obrigado pela sua simpática disponibilidade que espero poder retribuir:

p b
apartado 362, correios Zarco
9001 - 954 Funchal

patricio branco disse...

verdade que os pessoanos tambem brigam, oportuna observação.

Anónimo disse...

A Patrício Branco devo informar que depois da biografia de Filomena Mónica surgiu a biografia de A Campos Matos intitulada "EÇA DE QUEIRÓS. UMA BIOGRAFIA" (600 páginas), que teve, em 2009, dois prémios: o Grande Prémio Literário da Literatura Biográfica da Associação Portuguesa de Escritores e o Prémio Jacinto do Prado Coelho da Associação Portuguesa de Críticos Literários.

Melhores cumprimentos.

Anónimo disse...

O meu nome é Pedro Larsen e vivo nos E.U. Em 2009 prefaciei o notável álbum publicado pela Parceria A.M. Pereira: OS MAIAS UMA ANTOLOGIA ILUSTRADA,da autoria de Rui Campos Matos, filho do conhecido queirozianista. Só agora me é dado conhecer o blog tão vivo do embaixador Seixas da Costa. Para os interessados devo dizer que Eça é o meu autor de cabeceira. Tenho 1.837 títulos, sobre ele, catalogados na minha biblioteca, sem contar com 40 caixas de recortes de revistas e jornais. Tenho por vezes a sensação de que sei tudo sobre o Eça (e até mais do que ele, como é óbvio). Mas Sartre também dizia isso de Flaubert !... Gostei das palavras do embaixador acerca do arq.to Campos Matos que conheço pessoalmente, e que, naturalmente, sabe mais do que eu de tudo quanto respeita ao autor d'Os Maias.

Isabel Seixas disse...

Boa...
"O que Eça se haveria de divertir..."In FSC

"É na época das Arcádias que surge o teatro de António José da Silva, o Judeu.

A sua obra – Guerras do Alecrim e Mangerona – é uma célebre peça levada à cena em 1737."

Até hoje diz-se que o alecrim é um excelente amuleto contra o "mal olhado".
"A manjerona é usada na aromaterapia para melhorar o sono, acalmar os nervos e aliviar a dor"

Penso que ambos alecrim e manjerona nas suas propriedades terapêuticas melhoram a dor de cotovelo...

Isabel Seixas disse...


Eça...
“Sobre a nudez forte da Verdade o manto diaphano da phantasia"

patricio branco disse...

interessantes as informações que nos dá pedro larsen e que precioso o arquivo queiroziano que tem.
já agora posso dizer-lhe que uma edição inglesa do primo basilio, a traduzida por roy campbell, não foi editada com o texto integral, faltavam-lhe inteiros paragrafos, não sei se o tradutor resolveu encurtar o trabalho e a editora não controlou.
pois um dia ao comparar o texto português com a tradução reparei nisso, faltavam com frequencia paragrafos ou linhas (não tiravam a sequencia logica da historia). Escrevi à editora dando conta do que tinha verificado e que não havia nenhuma indicação na edição para o leitor comprador que não se tratava do texto integral. a fundação gulbenkian de londres que patrocinava as edições agradeceu o reparo e informou que estavam a preparar nova tradução, por margaret jull costa, livro que me iriam oferecer logo que fosse publicado, o que aconteceu 2 ou 3 meses depois. neste já não verifiquei nada.
a edição inglesa com a tradução de roy campbell, num texto bem traduzido e agradavel de ler, sentimos que é eça, embora incompleto (devem-lhe faltar uns 5pc do texto)era a da carcanet, com capas duras, uma bonita edição.
que interessante sería ver essa biblioteca e arquivo dde eça que pedro larsen construiu e possui!