domingo, 25 de novembro de 2012

Duas igrejas

"Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar" - o estribilho deste hino do progressismo católico, ontem ouvido a Francisco Fanhais, no jantar para recolha de fundos para a Santa Casa da Misericórdia de Paris, reconduziu-me, por instantes, a um tempo em que a inquietação que atravessava setores da igreja católica portuguesa era um prenúncio do estertor do regime ditatorial.

Francisco Fanhais era uma das vozes mais conhecidas desse mundo do cristianismo crítico, então apresentado como "Padre Fanhais", condição que exerceu por três anos, antes de proceder a uma rutura com a Igreja. À época, mesmo quem, como eu, vinha de "outra freguesia", não podia deixar de olhar com simpatia aquela figura que, em si mesma, consubstanciava o mundo dos baladeiros contestatários e o catolicismo agitado, ambos conjugados na luta contra o regime.

Agora, ouvindo-o ecoar esse discurso poético e musical, para alguns muito datado, dei comigo a interrogar-me sobre as ondas de dúvida que hoje devem estar a abalar os católicos portugueses, neste novo tempo de crise, embora num quadro político-institucional que contém, em si mesmo, todos os espaços para a descoberta das soluções de futuro. Graças à democracia que a luta de gente como Francisco Fanhais ajudou a consolidar.

5 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Não terá sido o cortar com a Igreja que lhe deu a aura de que gozou. Outros, como o padre Abel Varzim, ficaram e fizeram obra revolucionária.
Ou até Felicidade Alves que saíu tarde, para casar, mas continuou ligado à Casa Mãe.
Possivelmente o problema de Fanhais foi ter entrado na Igreja. Não o ter saído dela. Penso eu de que...

patricio branco disse...

sim partilho da opinião de hsc, talvez tenha sido caso de vocação errada, outros sairam mas continuaram a exercer embora fora do esquema oficial o magisterio cristão de apoio e ajuda aos proximos.

Anónimo disse...

Pois é.... as dúvidas.... estão a atravessar os portugueses transversalmente sejam católicos ou não. O que me preocupa são aqueles que não querem duvidar e por isso irão no tsunami que aí vem. Mas...eu não sei

Anónimo disse...

A falta de baladeiros contestatários não será devido à falta de aulas de canto coral, tal como havia na época?
Se assim for e se na Madeira chegarem a esta conclusão, rapidamente alteram os programas de ensino e mudam o regime num instante…
Porém não se tratará de um problema de ideologia ou de fé. Estando nós divididos entre injustos e muito poucos justos, uniformemente distribuídos (e isto é admirável), as decisões justas são um bem escasso…

Anónimo disse...

Antes, como também um pouco hoje, havia um certo "chauvinismo de freguesia", mas no essencial sabiamos encontrar o "essencial" e foi possivel convergir para pontos de liberdade e fraternidade comuns que eclodiram no 25 de abril.
Fanhais saíu da igreja porque sabia que havia verdades noutras "capelas". Conheci-o aqui, já antes de 74, numa quase comunhão de ideias com o Zeca Afonso cuja vida perdura em Fanhais.
Hoje a luta volta a ter sentido. A roda voltou a parar e em muitos aspetos (a fome e a emigração por exemplo) retomaram quase as dimensões do antigamente. 
A luta é a mesma parecendo ser outra porque o ponto fulcral está coberto de nevoeiro. E não pode ser a Liberdade de expressão que  nos resta em Portugal que nos vai servir de pretexto para "aguentarmos" tudo...
Estou pessoalmente ativo na obra da Santa Casa mas considero que estas obras são uma anomalia da sociedade. Não deveria, pura e simplesmente, haver lugar para obras de caridade desta natureza.
Então porque é que estou ativo aqui? Porque não posso passar por cima de corpos acidentados na estrada como se os não visse! E os "acidentados" são cada vez mais numerosos. Chegamos mesmo ao ponto do limite do suportável para uma sociedade democrática. Hoje, as nossas sociedades, já não reunem todos aqueles "desideratums" necessários à sua consistência e os organismos civis são chamados a  agir.
A noite de solidariedade de ontem foi um sucesso. Também financeiramente. De certo e até devido à situação de crise a receita foi além das previsões. Os 337 participantes foram generosos. O quadro oferecido pelo pintor João Moniz, sorteado ali em poucos minutos, "rentabilizou" muito perto de 3.000 euros... E o premiado ofereceu-o de novo à Santa Casa que, com este gesto, começa a constituir um principio de património... 
Registaram-se outros donativos importantes respondendo à dinámica da Campanha da Santa Casa: Unir para Multiplicar. 
Ontem e ali, naquela excelente confraternização, houve conteudo de peso para a palavra solidariedade.
José Barros