sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Política externa

Jaime Gama vai proferir uma conferência no Ministério dos Negócios Estrangeiros, sob o tema: "Franco Nogueira - argumentação e obstinação". Tenho pena de não poder estar presente nesta evocação, que, de forma singular, reúne duas das figuras mais marcantes da política externa portuguesa do século XX.

Lembrei-me ontem de Jaime Gama ao ler as primeiras páginas do livro que o conselheiro especial de Nicolas Sarkozy, Henri Guaino, acaba de lançar. Guaino revela que, numa reunião com os seus colaboradores, após a derrota de maio, Sarkozy terá dito: "Não tenham azedume, não se constrói nada sobre o azedume".

A minha recordação prende-se com uma vitória: a eleição de Portugal para o Conselho de segurança da ONU, em 1996. Na sequência dessa dura campanha, numa conversa com Jaime Gama, eu expressei a vontade de tirar algum desforço por virtude da atitude assumida por alguns países, que militantemente haviam trabalhado contra a candidatura portuguesa. Gama disse-me: "Claro que não vamos esquecer o que se passou, mas, a partir de agora, na relação com esses países, vamos recomeçar como se nada disso se tivesse passado. Uma política externa não se constrói com base em ressentimentos".

Tinha imensa razão.

7 comentários:

Catinga disse...

Franco Nogueira: o seu "Juizo Final" devia de ser de leitura obrigatória.

patricio branco disse...

comentarios ligeiramente pessoais mas sem especial significado, apenas registos de coincidencias,
umas têm a ver com fn, outras não:

uma vez encontrei num antiquario negociante de pintura um quadro a óleo da casa onde nascera e vivera até aos 6 anos, a casa tinha sido duns avós meus, o quadro a oleo era de 1898 e o pintor josé queiroz.

a janela e o balcão da fotografia, o gabinete para lá daquela janela! como?
um quadro do recanto não ficaria mal.
coincidencias sem maior ou menor significado.

outra vez, num jantar na alameda linhas torres em setembro de 1974 nogueira foi tema, etc.

Deve ser interessante de ouvir a conferencia de gama sobre nogueira.

há 2 decadas, outra coincidencia: vi (1992) franco nogueira e jaime gama a almoçarem no espelho d'agua, muita conversa, concentrados um sobre o outro, alheios ao entorno, não sei sobre quê, estavam fora, do outro lado do vidro, bom dia de sol, mas era nitidamente conversa util, notava-se.

o post não informa sobre a data da conferencia, fazendo uma busca vi que era a 4 de outubro por convite,
nem muito perto nem longe da janela



Helena Sacadura Cabral disse...

Ora aí está uma conferência para a qual eu gostaria de ter sido convidada...
Gama tinha, de facto, parcialmente razão. Sobre o azedume pouco ou nada se constrói. Mas sobre o esquecimento também não. Saber ter a dose certa de um e de outro é o papel do diplomata e das pessoas de bom senso.

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Estou na dúvida:
"sob o tema" ou "sobre o tema"?
Julgo que se podem usar as duas, mas como o seu português é muito melhor que o meu gostava de saber.

patricio branco disse...

sim, sobre o esquecimento tambem não, concordo, aliás a memoria por vezes é mais forte do que queremos.

de qualquer maneira, votar contra no csnu pode ser algo sem importancia.
a memória e o ressentimento, o esquecer e o lembrar, o perdoar ou não aplicam-se a situações mais complexas.

ARD disse...

Verdade. O ressentimento conduz ao revanchismo, deste nasce o nacionalismo e o nacionalismo desemboca na guerra.
Mas, como acrescenta JG, e' preciso não esquecer; quem esquece repete erros cheios de ensinamentos potenciais.
E quem diz erros pode acrescentar: e crimes.

Carlos Fonseca disse...

"Claro que não vamos esquecer o que se passou, mas, a partir de agora, na relação com esses países, vamos recomeçar como se nada disso se tivesse passado. Uma política externa não se constrói com base em ressentimentos"

Tinha a razão de Estado do seu lado, o ministro das "águas profundas". Mas uma vingançazinha, servida bem gelada, sabe tão bem.