terça-feira, 25 de setembro de 2012

Nós por lá

Tive ontem em casa, para um pequeno-almoço de trabalho com um responsável português da área do comércio externo e do investimento, um grupo de figuras daquilo a que vulgarmente se chama "os mercados". A ideia, que julgo ser sempre útil, é procurar sublinhar aspetos caraterizadores da atual situação económica portuguesa, dando conta de números e tentando esclarecer algumas questões.

Saio sempre destes exercícios com insolúveis dúvidas sobre a sua real eficácia, mas em diplomacia, como em publicidade, todos cremos que "água mole..."

Muito para além destas conversas especializadas, em que nos esforçamos por levar aos ouvidos do exterior aquilo que julgamos ser o interesse que nos cumpre defender, acho muito curioso ouvir as questões que os estrangeiros nos colocam sobre a nossa situação interna, na economia como na política. Tenho para mim que Portugal, nos últimos anos, se tornou um país "transparente". Não apenas o essencial do estado das nossas contas, salvo alguns incidentes insulares, correspondia àquilo que delas reportávamos internacionalmente, como o nosso dia-a-dia é hoje escrutinado ao pormenor, com alguns estrangeiros a saberem da nossa vida pelo menos tanto como nós. Não sei se isto é bom ou não, mas é o que é. 

Portugal foi, durante muitos anos, um "não-assunto" para o cidadão comum dos vários países, que sobre nós apenas conhecia, como caricatura tosca, o fado e a Amália, o futebol e o Eusébio (depois o Figo, agora o Ronaldo), a mania do bacalhau e o vinho do Porto, e, ainda, cumulativamente ou não, Mário Soares, Fátima e o 25 de abril, com o Algarve à mistura.

Por más razões (estas coisas têm de ser assumidas), Portugal, e o estado da sua economia, passaram a ser hoje temas da conversa corrente (quase sempre com o simpático "mas vocês não são a Grécia!"), mais ainda quando se apanha um embaixador à mão de semear. Tal como me aconteceu, ainda há horas, no barbeiro, que, tesourando-me as brancas, me perguntava (talvez aculturado na conversa da "gente fina" do XVIème) sobre o estado dos "spreads" das nossas obrigações (ainda bem que eu tinha lido, de manhã, o "Financial Times") ou o ritmo de queda dos salários em Portugal (tema sobre o qual entendi dever ser parco em comentários).

Nestes últimos anos, tenho vindo a concluir que, talvez mais interessante do que saber o que os outros pensam de nós, acaba por ser curioso tentar perceber, por detrás das questões que nos colocam, o que esperam que comentemos sobre o nosso próprio país, numa espécie de jogo de espelhos em que não podemos, como a Alice, passar facilmente para o outro lado.

11 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Não há como Barbeiros e taxistas para "difundir" informação...
Nem lhe falo dos cabeleireiros, onde entro muda e saio calada!

patricio branco disse...

entrada muito densa que não se comenta num curto comentario, mas dá pano para mangas.
a situação das nossas exportações, sobre as quais se dão apenas noticias e informações concretas ocasionais, leva-me a pensar que se o nosso nicho é o dos produtos caros, de design e de elite, pois então que exploremos esse caminho e o desenvolvamos a serio: os sapatos carissimos mas que se exportam praticamente todos e cuja produção não dá para as encomendas, o das bicicletas personalizadas, o vinho do porto vintage ou lbv, etc. que se desenvolva a gama dos produtos caros e elitistas de exportaçãpo portanto. pena não fabricarmos rolex ou ferraris.
numa outra noticia de há dias soube que existe uma boa produção de pelicula de plastico para uso domestico e industrial, bastante significativa, mas que os fabricantes não têm possibilidades de aumentar a produção devido à recusa de credito para investir em mais maquinaria e espaço, apesar da crescente procura.
o papel renova não sei como está depois que lançou o carissimo papel higienico preto, mas parece que se vendia todo.
Isto são coisas que vi na televisão, neste blogue (as bicicletas) mas não tendo consultado publicações do aicep ou do ine não sei quais são os produtos e serviços significativos que integram as exportações, sobretudo os de massa.
ontem falou-se que estávamos a exportar produtos antes importados mas que não se vendiam internamente, carros, electrodomesticos, ou medicamentos retirados ao consumo interno, não sei que mais (efectivamente nas farmacias desaparecem agora com frequencia certos medicamentos, não recebemos há 2 semanas, estão esgotados, dizem-nos)
sobre outros produtos tradicionais referidos, fátima parece que até dá, pois há uma corrente turistica pereginatória que vem de todo o mundo, mesmo dos antípodas, para ir ver a virgem. e interna deve ser cada vez maior, pedir ajuda nestes tempos é natural.

o interesse do barbeiro é interessante (outra tautologia, porque não?). eu opto por dizer as coisas sem rodeios, há cada vez mais desemprego em portugal, os nossos salários estão a diminuir vertiginosamente com vários cortes directos e indirectos, a emigração cresce muito, etc etc.
não, não somos a grecia, mas não percebo, nem ninguem explicou, porque não estivemos no encontro grecia, italia, espanha, irlanda?
de qualquer modo a grecia tambem dirá que nós não somos portugal, não duvido.
um reparo ainda sobre os incidentes insulares. existe uma forte oposição e incompreensão em relação às autonomias, nunca percebi porquê, mas quando no centro se fala das ilhas descentralizadas, é sempre de desconfiar da conversa (não me estou a referir ao blogue, mas à mensagem sistematicamente negativa que os poderes centrais há muito querem dar das ilhas, a ponto de quase se ter dito que a madeira era a grande culpada do defice, escondendo-se o bpn p ex).
entrada que foi bom ler, obrigado sincero, bom exercicio comentar logo de manhã estes temas.

Anónimo disse...

Ao ler a publicação do Senhor Embaixador dei-me conta, não pela primeira vez, da importância dos delegados da AICEP para as embaixadas portuguesas espalhadas pelo mundo, nem que seja na tarefa "sempre útil de procurar sublinhar aspetos caraterizadores da atual situação económica portuguesa" (adpt).

E dado que, finalmente, se assumiu que o Ministério é dos “Negócios” Estrangeiros e não, como em algum dos países de expressão portuguesa, das “Relações Exteriores” (considerando uma história que partilhou recentemente de uma bela diplomata africana parece que o nome precedeu o hábito, ou será que hábito fez o monge … não sei), torna-se imperativo que à AICEP se atribua o papel que merece e é seu por direito, perdão é seu por trabalho.

Nuno 361111

Anónimo disse...

da proxima vez talvez possa o sr embaixador fazer a reuniao matinal no barbeiro
e assim, entre outras coisas, escusara a leitura do financial times...

bem haja

ARD disse...

Imagino o desconforto e, sobretudo, a dificuldade em apresentar, hoje, de uma forma minimamente positiva, as condições, as políticas ou as perspectivas deste pobre retangulo.
Quanto ao mote das diferenças com a Grécia, demos tempo ao tempo; o descalabro deles começou um pouco antes mas a trajectória parece tirada a papel químico. Além de que, em França, esse "elogio" deve corresponder aos louvores quanto a honestidade da concerte e da boné portugaise.

Anónimo disse...

Aqui no Golungo Alto o meu barbeiro só fala do Sporting, o que agora e tão penoso, Senhor Embaixador, como falar da economia portuguesa.

O sonho dele e estabelecer-se como cabeleireiro unissexo e transsexo no Hotel Palácio do Estoril, em sociedade com uma cabeleireira de Luanda, assaz assaz, que trabalhou em tempos para a Senhora Engenheira e tem muitos empenhos em Portugal.

O Senhor Embaixador e que podia ajuda-los...

a) Feliciano da Mata, traficante de influencias, Golungo Alto

ARD disse...

Odeio auto-correctores de tratamento de texto:
não era "concerte" e "boné portugaise" que eu queria escrever mas sim "concierge" e "bonne portugaise".

ié-ié disse...

Boa tarde, sr. Embaixador. É off-post, mas li hoje no "Negócios" que o Estado português colocou o apartamento do Dakota à venda.

Cumps

LPA

Francisco Seixas da Costa disse...

Ó Feliciano, porque quem é! (já sei que é pelo Sporting). Diga ao seu amigo cabeleireiro do Golungo Alto que terei o maior gosto de promover a sua vinda como cooperante para o Estoril. Aliás, não precisa de "sair de casa". O Hotel Palácio já é angolano, não?

Helena Sacadura Cabral disse...

O que eu me ri com o "nosso" Feliciano da Mata.
Amigo Feliciano venha já estabelecer-se cá. No Palace do Estoril ou no de Lisboa. É tudo angolano ou chinês e em breve também será brasileiro...

Anónimo disse...

Os estrangeiros poderão saber tudo sobre as nossas contas, das regiões onde se produz bom vinho ou dos melhores sítios para se comer bem, mas não sei se percebem que o nosso Embaixador em Paris tem uma escrita muito atractiva e "as letras e os sinais" que descrevem bem o pitoresco do dia a dia e o modo como retratamos as nossas insuficiências. Faz lembrar outro escritor que tão bem "pintou" Lisboa. Obrigada por mais esta prosa/poética...