quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Liberdade

Muitos, com carradas de razão, acham extremamente provocatória a iniciativa do "Charlie Hebdo" de publicar, uma vez mais, um número com desenhos satíricos sobre Maomé.

Porém, o direito à liberdade de expressão leva a que, num país como a França, se não possa proibir a difusão destas caricaturas, muito embora isso esteja a suscitar uma onda de indignação em vários setores da comunidade nacional internacional e obrigue, por exemplo, a pesadas medidas de segurança das embaixadas e estruturas culturais francesas, um pouco por todo o mundo árabe e muçulmano.

A liberdade das nossas sociedades tem um preço, mas nenhum preço é demasiado grande para a salvaguarda dessa liberdade. Esta é, e espero que seja sempre, a nossa diferença.

Em tempo: deixo aqui um extrato do editorial do "Libération" de hoje: "Em democracia, liberdade a cada título de estabelecer a sua linha editorial; liberdade ao leitor de ler ou não ler; liberdade às pessoas que se sentem ofendidas de pedir reparação perante os tribunais, a única arma que é legal. E esperemos que, sob outros regimes, armas de outra natureza não sejam utilizadas".

23 comentários:

Isabel Seixas disse...

Sem sombra de dúvida.

margarida disse...

Isso é assim, mas escusavam de provocar os muçulmanos nesta altura em que já andam em pé de guerra.
Se queremos que nos respeitem e aos nossos valores, também há que tentar não colocar o dedo na ferida. E se há uma ferida aberta!
Receio? Pois claro! Há onze anos (para não recuar um bocadinho mais, aos ataques preparatórios) que foi declarada uma guerra ao ocidente e, das duas uma: ou os esmagam de vez e para sempre (e isso implicaria um absurdo inimaginável) ou tentam não os "cutucar com vara curta".
Se eles se abespinham por dá-cá-aquela-palha, para quê incendiar ainda mais as emoções que já tanto disparate (e mortes) provocaram?
Liberdade, sim, claro, e, sobretudo, nos nossos países tolerantes, plurais e com sentido de humor (brincar connosco é da maior inteligência); mas se os muçulmanos são assim rígidos e inflamáveis, coisas destas são perigosíssimas.
Aliás, se virmos com alguma atenção o que se vai passando pelo mundo, parece que anda tudo a preparar-se para a terceira.
Que será a última.
Está é tudo doido!

margarida disse...

"(...)nenhum preço é demasiado grande para a salvaguarda dessa liberdade. (...)"
olhe que é, excelência, olhe que é...
Ai esse 'lirismo', homessa...

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Margarida: não deixe que o realismo lhe embote a sensibilidade. Acabará cínica...

Anónimo disse...

OK. Então se a liberdade de expressão é universal e sem limites decerto que concorda com a publicação de caricaturas de judeus de nariz curvo e de olhar perverso, a roubar dinheiro e a matar criancinhas, como se fazia na Europa de outros tempos?
Decerto que seria uma provocação mas mais alto se levanta o valor da liberdade de expressão...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro anónimo das 02.12: uma coisa é a liberdade para o humor, por mais corrosivo e acre que possa ser, outra é a estigmatização e o apelo ao ódio sectário. Não acho tolerável o anti-semitismo, tal como não acho aceitável a islamofobia. Mas meter no mesmo saco humor e racismo é a melhor maneira de conduzir uma discussão... à portuguesa.

Anónimo disse...

Isto é tudo culpa dos Deuses!
Eu sou pela liberdade, liberdade completa, como a que descreve o Sérgio.
José Barros

Santiago Macias disse...

Também espero que continue a ser essa a nossa diferença.

Mas em França há outros antecedentes. Uma piada de mau gosto sobre a morte do General De Gaulle levou ao encerramento imediato do semanário "Hara-Kiri".

Catinga disse...

Se o boneco árabe na capa da revista é o Maomé, quem é o judeu?

Dito de outra forma: porque razão qualquer representação de um muçulmano tem de ser uma caricatura de Mafoma?

Religião: esse cancro para o qual não se encontra cura...

Anónimo disse...

“Freedom's just another word for nothing left to lose,
Nothing don't mean nothing honey if it ain't free.”

Nem com as canções aprenderam!
Outra:

“R-E-S-P-E-C-T
Find out what it means to me…”

Seja quem for incluindo mesmo um muçulmano…

Deixem-se de “armar” em arautos da liberdade!

Até o grande mestre da liberdade do nosso país continua a “ditar leis” sobre a matéria: a partir de agora basta o povo apodar de gatunos o governo, para ele cair. Porquê que não se lembrou disto quando governava…com estaria tudo tão melhor…

margarida disse...

Não receie, excelência; a essência não se muda assim.
Serei sempre uma idiota de uma sentimental - é genético, sabia?
Como remata a querida Helena-de-Paris: Bien à vous…

Helena Oneto disse...

Senhor Embaixador,

Publicou o "Le Monde", com data de hoje, um artigo intitulado: "Le blasphème, une notion incompréhensible pour des contemporains détachés du sacré" on a certa altura se lê: "Tout en mettant en avant la liberté d'expression, le premier ministre, Jean-Marc Ayrault, a d'ailleurs indiqué mercredi 19 septembre : "Si vraiment des personnes se sentent heurtées dans leurs convictions et pensent qu'il y a eu dépassement du droit - nous sommes dans un Etat de droit, cet Etat de droit doit être totalement respecté -, elles peuvent saisir les tribunaux."
En France, les tribunaux pénalisent "l'injure, l'attaque personnelle et directe dirigée contre un groupe de personnes en raison de leur appartenance religieuse" ou l'incitation à la haine raciale ou religieuse : ils jugent donc régulièrement des affaires qui concernent la diffamation des individus. Mais la justice profane déboute quasi systématiquement les groupes religieux qui, devant les tribunaux, questionnent la liberté d'expression au nom de la défense de leur religion. "Les droits de l'homme ne protègent pas et ne doivent pas protéger des systèmes de croyance", défendent ainsi les représentants de l'Union européenne devant l'Organisation des nations unies (ONU), confrontées à ces débats depuis une quinzaine d'années.
Tous les ans depuis 1999, les 57 pays de l'Organisation de la conférence islamique (OCI) s'efforcent de promouvoir devant la commission des droits de l'homme de l'ONU, le concept de "diffamation des religions", autre appellation du "délit de blasphème", surtout en vigueur dans les pays musulmans. Nombre d'observateurs voient dans cette invocation récurrente du blasphème le signe d'un repli identitaire(...)".

Estou totalmente de acordo com o PM francês e com o meu Embaixador (que continua fiel a si proprio e às ideias que sempre defendeu e que disse um dia: "No Mundo globalizado, a unica guerra justa é a guerra à intolerância: temos o direito e o dever de ser intolerantes perante a intolerância. Mesmo a dos nossos amigos.") e com a minha querida amiga Margarida, que é um "poço" de generosidade e bienveillance!

E mais não digo para não atiçar a polémica:)

Bien à vous, mes chers ami(e)s

Anónimo disse...

Pensamentos avulsos sobre o tema:

1) A liberdade não pode servir de argumento para fazer aquilo que ofende terceiros, mesmo que não consideremos possível sermos ofendidos por algo idêntico.

2) Há uma frase, que todos conhecemos, de Hilel, líder religioso dos Judeus, "contemporâneo" do jovem Jesus, que "reza" como se segue: Não faças a outro o que não queres que se faça a ti. Eis toda a Lei. O resto é comentário."
E se sabes que o que fazes não é querido, não o faças mesmo que o desejes para ti .... poderia ser um dos comentários à Lei.

3) Tudo sem esquecer que a liberdade se conquista exactamente com situações como esta ora relatadas, como não há muitos anos se ganhou com um famoso pedaço de borracha numa extremidade nasal.

Ah ... como gostaria de ter, nesta situação, um opinião completamente fundada e inequívoca.

Nuno 361111

Anónimo disse...

Pois é..... França tem destas coisas principalmente depois de 1881. No entanto já deveria ter compreendido que os moçulmanos de hoje não são iguais aos cristãos de há um século nesta guerra contra o ópio do povo. As consequências disto iremos ver com o tempo, mas..... eu não sei

patricio branco disse...

não sei, mas são grupos ou organizações muito especiais nos seus métodos de retaliação e vale a pena pensar na relação beneficio/maleficio ao caricaturar maomé apoiando-se na liberdade de expressão. se uma embaixada francesa sofresse o mesmo que a dos eua na libia teria valido a pena?
há que medir a partir de que ponto é util publicar

Anónimo disse...

(nao é o mesmo anonimo)

resta saber senhor embaixador se do ponto de vista dos muculmanos de franca estas boutades nao sao sentidas como estigmatizacao e odio sectario

e nao é muito comum em franca mas charlie hebdo tambem caricatura a comunidade judia


bem haja

Anónimo disse...

Há alturas em que "cautela e caldo de galinha não fizeram mal a ninguém".

Anónimo disse...

Cá a Senhora Engenheira não vai nessas provocações e islâmicos aqui no Golungo Alto é uma troça! Para que veja, Senhor Embaixador!

a) Feliciano da Mata, o laico do Golungo Alto

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Feliciano: ainda por aí se come bem na venda do Guigas Coutinho. Era um "must" no Golungo Alto. Bem, no meu tempo e não no da Senhora Engenheira (quem é?)

Anónimo disse...

Concordo inteiramente consigo, senhor embaixador. A liberdade tem um preço (e quantas vezes caríssimo!), como todos os valores que nos são mais preciosos. Cada cedência na sua defesa é um recuo perigoso e terá um preço ainda mais alto, mais cedo ou mais tarde.

Ana Vidal

margarida disse...

Aninha (olá!), mas, morrer, que seja pela vida de outrem, pela liberdade latu sensu de um País, não porque andamos a ferir os valores religiosos de terceiros com cartoons impertinentes numa época sensível.
As confissões de fé ocidentais aceitam piadas e provocações até deselegantes, os muçulmanos não toleram nem um acto inocente de uma criança com Trissomia 21, como recentemente sucedeu.
A questão é: para quê instigar um sentimento tão nefasto como aquele que eles já nutrem irracionalmente por nós?
( e como eu assumo essa teoria da batalha das civilizações...)
As religiões já não são apenas "o ópio do povo", são o caminho perfeito para a sua aniquilação.
Começa no espírito, acaba na matéria.

Anónimo disse...

Querida Margarida (olá! há quanto tempo!), eu percebo muito bem o que diz e é quase impossível não concordar consigo. Mas o busílis da liberdade de expressão é que não podemos limitá-la ao nosso gosto... as provocações gratuitas e de mau gosto (do nosso ponto de vista, não do de outros) também cabem nela, com todas as consequências que daí advenham. Seja como for, e mesmo com todos os incómodos, falando de liberdade prefiro sempre o excesso ao defeito. Beijinhos!

Ana Vidal

Anónimo disse...

Concluindo e para esclarecer, liberdade de imprensa devia ser dito, liberdade de ofensa. Assim não havia mais dúvidas...