quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Adriano Moreira

Lembro-me muito bem da primeira aula a que assisti, tendo Adriano Moreira como professor. Foi em outubro de 1968, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU), de que Adriano Moreira era diretor. Caramba, foi já há 44 anos! E Adriano Moreira fez ontem 90 anos.

Adriano Moreira era, à época, um nome de que muito se falava - mas sobre o qual, por razões que a conjuntura tornava óbvias, muito pouco se escrevia. Dias antes, Marcello Caetano fora nomeado pelo presidente Tomaz para o cargo de "presidente do conselho", em substituição de Salazar. Nos conciliábulos do regime e não só, o nome de Adriano Moreira havia sido citado como uma possível opção, mas os equilíbrios que se refletiram na decisão do presidente da República não o favoreciam. À época, referiram-se muito as resistências que o seu nome suscitaria em certos círculos militares, embora outras opiniões fossem no sentido de que outras tendências castrenses desejavam vê-lo em S. Bento. A verdade é que, no saldo final, Adriano Moreira ficou arredado da sucessão de Salazar, em benefício de Marcello Caetano. E, este, logo que pôde, pela mão do ministro José Hermano Saraiva, cuidou em afastá-lo da direção do ISCSPU, nos primeiros meses de 1969.

Para os estudantes, esta evidente conflitualidade com Caetano dava a Adriano Moreira uma auréola de alguma "oposição", que se vinha a somar à imagem vaga, que alguns "connaisseurs" espalhavam, dos seus tempos de jovem advogado, em que chegara a estar detido pela polícia política, pela sua ação de defesa dos interesses da família do general Godinho, cuja morte misteriosa na prisão, na decorrência de uma tentativa de golpe militar, fazia parte das mitilogias recorrentes do "reviralhismo". Não parecia, assim, estranho que o movimento estudantil dentro do ISCSPU, que se vira provocado pela "não homologação" ministerial da lista vitoriosa nas eleições desse ano para a associação académica, acabasse por se aliar taticamente a Adriano Moreira. Como membro dessa direção associativa, tenho uma memória muito viva da gestão dessa "aliança", que teve em Narana Coissoró uma figura proeminente. Recordo bem a dificuldade que alguns de nós tínhamos em ver a nossa ação ligada à de um antigo ministro de Salazar, pelo "risco" de estarmos a ser instrumentalizados por uma das facções dentro do regime.

Adriano Moreira era um professor brilhante, com uma exposição atraente, que nos gerava vontade de irmos mais longe naquilo que nos transmitia. Começava as aulas em voz muito baixa, para desfazer as conversas residuais na sala. Ao falar, circulava o olhar, fixando-se, por instantes, em cada um de nós, o que dava a impressão de se nos dirigir individualmente. Como a "política" era, como dizem os franceses, o seu "fond de commerce", nós distinguiamo-la sempre por detrás de todos o seus comentários, onde o "esquerdismo" de alguns procurava sempre descortinar o que se assemelhasse a heterodoxia. Adriano - era assim que a ele nos referíamos, entre nós - tinha a rara habilidade de suscitar uma controlada polémica política entre os alunos. A minha colega Maria João Bustorff lembrava, há tempos, o modo como Adriano estimulava debates entre mim e o António Marques Bessa, cada um de nós em lados bem antagónicos do espetro político, em confrontos nas aulas que sempre tinham temas do "programa" como motivo. Belos tempos!

Pouco a pouco, nessas aulas, íamos sendo introduzidos na matriz do pensamento de um homem que, um dia, Salazar escolhera inesperadamente para a pasta do Ultramar, na sequência da rebelião angolana de 1961, mas cujo espírito reformista o regime não acomodara e cuja frontalidade acabaria por conflituar com o poder administrativo do governador de Angola, general Venâncio Deslandes, o que levaria o chefe do Governo a tomar a decisão de ver-se livre, simultaneamente, dos dois. Adriano Moreira não era um proselitista deliberado, não cuidava em endoutrinar-nos, não veiculava uma ideologia clara. Era um questionador do quotidiano, alguém que problematizava e nos obrigava a refletir. Sentiamo-lo, claramente, do "outro lado", mas, estranhamente, não provocava uma antagonização aberta. E isso, às vezes, enfurecia-nos: nós fazíamos parte de uma geração maniqueísta e Adriano Moreira "furava" essa fácil dualidade.

Com o 25 de abril, o radicalismo saneador dentro do ISCSP (que, entretanto, perdeu o "U", como o país também perdeu o "ultramar"...) fez com que Adriano Moreira saísse para o Brasil. Uma decisão estúpida e sem sentido, para alguém que, não obstante o seu percurso político anterior, tinha tido sempre um comportamento exemplar face aos alunos e face à "nossa escola" (era assim que Adriano Moreira se referia sempre ao Instituto), que nela nunca perseguira ninguém e a quem o ensino universitário português - e as Ciências sociais, muito em particular - muito deviam. Fiquei satisfeito quando esse seu afastamento chegou ao fim e tive o prazer de então lho poder dizer, cara a cara, uma noite de 1979, na Gulbenkian. E gostei muito da sua resposta: "fico contente de ouvir isso, particularmente vindo de si".

Adriano Moreira, depois do seu regresso de Portugal, envolveu-se na política democrática, sempre de uma forma elegante, sem chicanas nem grandes polémicas. Naturalmente, a área conservadora foi o seu meio natural de expressão cívica. Porém, fê-lo sem "travestismos", sem saltitar em conúbios oportunistas, umas vezes com a esquerda, outras vezes com direita, como outros cataventos da história portuguesa contemporânea. Manteve, em paralelo, uma atividade académica intensa e, pela imprensa, tem espalhado um pensamento em matéria de relações internacionais com uma profundidade muita rara entre nós.

Há pouco tempo, Adriano Moreira publicou um livro com as suas memórias. Nesse seu reencontro com o passado, e embora se possam entender as razões por que o terá feito, o texto de Adriano Moreira ficou, na minha perspetiva, bastante aquém da síntese de vida que seria de esperar de uma figura com a sua estatura. Senti por ali inesperados compromissos, de uma natureza idêntica àqueles que, no passado, o levou, algumas vezes, ao desnecessário facilitismo de rodear-se de gente que não estava ao seu nível, nomeadamente no mundo académico.  

Nos últimos meses, tenho-me cruzado com Adriano Moreira nas reuniões de uma comissão a que ambos pertencemos, nomeada pelo governo, que tem como tarefa preparar o novo Conceito estratégico de Defesa nacional. Nesses encontros, Adriano Moreira tem produzido comentários e lançado ideias que estão ao nível do seu melhor fulgor intelectual, a todos nos ajudando a pensar melhor o país. E isso aos 90 anos, ontem completados. Os meus parabéns, professor.

16 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Só lhe faltou referir o poder de sedução que, ainda hoje, tem sobre as mulheres.
Confesso-lhe que, sendo visita do casal, sempre aprendo alguma coisa quando converso com ele.
Aos 90 anos, é obra!

Anónimo disse...

Um Grande Senhor!
P.Rufino

Anónimo disse...

Gostei de ler este seu texto sobre o Prof. Adriano Moreira. Em meu entender é justo, equilibrado e merecido. A celebração dos 90 anos de um Mestre com esta estatura intelectual e cívica permite uma apreciação que não se subordina aos interesses imediatos de quantos o conhecem ou rodeiam. A sua personalidade já paira acima do tempo presente. Entrou, há muito, na História de Portugal. Gostei de ver a sua referência ao facto de Adriano Moreira ter regressado à política e intervenção cívica «sem "travestismos", sem saltitar em conúbios oportunistas, umas vezes com a esquerda, outras vezes com direita, como outros cataventos da história portuguesa contemporânea». Daí o respeito com que sempre tem sido tratado, pelos diferentes partidos e analistas políticos, após o seu regresso a Portugal. Felizmente continua a ser chamado para tarefas de conselho e de reflexão sobre gaendes temas nacionais. Assim a sua opinião avisada possa ser devidamente tida em conta pelos responsáveis políticos nacionais.
José Honorato Ferreira

Fada do bosque disse...

Será então verdade Sr. Embaixador, que passamos um momento de branqueamento da História de Portugal, ou será que o que está neste site sobre Adriano Moreira e a prisão do Tarrafal é mentira?

Será assim uma pessoa tão democrática?

http://www.forcv.com/politics/4329-documento-prova-que-adriano-moreira-mentiu-sobre-o-seu-envolvimento-no-campo-de-concentracao-de-tarrafal

Anónimo disse...

Segundo o documento o "ex-facista" (SIC) fê-lo para acomodar militantes dos movimentos de "libertação". Raios, se assim foi, o homem ainda merece mais consideração! Reabrir um campo de prisioneiros para enfiar lá com tipos que militavam em movimentos que andavam aos tiros à população portuguesa... Muito bem!

Anónimo disse...

Fico contente por saber que o Senhor Embaixador o conheceu em 68. Antes fora ministro do Ultramar, num tempo em que corria a notícia na Madeira de que a famílias "exemplares" poderia ser entregue uma habitação e uns hectares de terra em Moçambique. No norte da ilha, em Ponta Delgada passava as férias de Verão na casa de minha avó paterna com um bando de primos. Na beira-mar, havia um casebre com onze pessoas. Miúdos eram 7. O pai deles já tinha tentado emigrar clandestinamente, tendo sido trazido pela polícia à fazenda do patrão para acabar o dia "de trabalho" até ao anoitecer... No norte da ilha o Feudalismo acabou por altura do 25 de Abril. Julgo que sabem. Uma noite à luz do "busico" - lata de petróleo que costumava ficar na esquina da casa para iluminar o terreiro da entrada coberto de latada até a estrada principal - decidi começar a carta ao Senhor Ministro. Em papel de 25 linhas contava todas as peripécias que os emigrantes faziam para embarcar e o dinheiro que ficavam a dever (a quem lhes tinha emprestado) quando eram apanhados pela polícia, ou denunciados por algumas pessoas (de quem referia o nome e a importância que tinham na produção do vinho...). Não sabia que estava a descrever uma actividade que tinha a PIDE na ilha. Resultou. Um dia no Liceu vieram com a mensagem de que fulana, tinha que ir ao Palácio de São Lourenço a pedido do Senhor Governador. A senhora do Governador tinha um chá já pronto pois julgava que eu seria filha do meu tio mais velho, e, isso era compliado... Quando perceberam que eu era sobrinha a coisa ficou mais distendida. O Senhor Governador fora informado de que as passagens para aquela gente já podiam ser levantadas. Foi-me dito que não deveria ir à "pontinha" vê-los embarcar... Na Av. do Mar, naquela manhã de 1 de Dez desfilavam os milicianos de farda castanha e de luvas brancas, quando o "Infante" apitou a terceira vez, já em mar aberto... Tenho de memória alguns dos momentos em que as lanchas antes do aumento da doca, levavam aqueles enxames de imigrantes para os "Vapores do Cabo". Passados anos, acontece o 25 de Abril e os mais velhos da família que tinham ficado em Moçambique regressaram à Madeira de onde queriam partir normalmente para a África do Sul. Minha mãe ficou admirada por me procurarem. Disse-lhes que eu já estava em Lisboa. Assim, sem mais responderam-lhe: se ela nos resolveu a ida na primeira vez que fomos, agora ajudava no resto... Na altura que abalaram de Ponta Delgada durante muito tempo se contava que tinham deixado os animais: porco, galinhas, cão e gatos aos vizinhos para os alimentarem, sem que tivessem dito uma palavra... Na ocasião em que na Uv. Católica se apresentava a revista sob o tema do "Maio de 68" contei ao professor Adriano Moreira a minha diligência em cinco folhas de papel azul, que levou alguns amigos de Verão pelo azul daquele Atlântico que banhava o Ultramar... mas para onde não se podia ir sem uma "Carta de Chamada". Que acordo diplomático terá havido entre Portugal e a Inglaterra para que fosse bem mais simples embarcar no Funchal nos "Vapores do Cabo"?!

Anónimo disse...

Ao ler o seu texto fiquei com uma enorme e imensamente sentida invídia de todos aqueles que puderam "in loco" beber dessa fonte de sabedoria.

Nuno 361111

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai Zé Honorato o que eu ri dos "travestismos". Ainda ontem ouvi um deles na tv a pronunciar-se sobre o país! Até parecia que não tinha sido ministro...
Mas, pelos vistos, os males de saúde corporal - da mental já tenho dúvidas - que o levaram a afastar-se já o não incomodavam!

Anónimo disse...

No geral, afirmações muito bem freitas...

Isabel Seixas disse...

"Começava as aulas em voz muito baixa, para desfazer as conversas residuais na sala."In FSC
Excelente estratégia de repente lembrei-me e constatei que independentemente do mérito do Professor nomeadamente através da progressão e promoçao profissional e académica, O aluno/estudante tem um papel determinante na vinculação da sua imagem de marca.

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Anónimo das 19:51
Embora amaralíssimas...

Anónimo disse...

Percinto uma personalidade um tanto ambígua, em contraste com J.H.S. de uma clareza cristalina. Como o “super-homem” dizia: sejamos claros para sermos profundos. Aliás entrechocaram-se.
Mas quem somos nós para apreciar seja o que for neste País.
Ao contrário do que pensávamos, não há políticos corruptos, nem governos, nem administrações…
A haver corrupção deve ser como a gravidade no universo: existe mas não se sabe como. Para a gravidade há a teoria da partícula designada por bosão de Higgs. Pode-se criar uma teoria para a corrupção, também com uma partícula, a designar por “gozão de Cândida”.

Anónimo disse...

Pressinto que suscitei uma gargalhada geral...

Isabel Seixas disse...

já não caro anónimo das 19:51 todos já damos conta dos verdadeiros lapsos de linguagem são irrelevantes de genuinos...

Gargalhadas gerais só das promessas eleitorais, causam dolo.

fgm disse...

Senhor Embaixador,
Julgo haver aqui um pequeno erro, em 1961; Horácio de Sá Viana Rebelo era Brigadeiro e só chegará a General em 64. Pelo que, o episódio que descreve se passou com o então Governador Geral, General Venâncio Deslandes. Penso que este caso é das histórias mais tristes do brilhante percurso do Professor Adriano Moreira.
Cumprimentos
fgm

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro fmg. Tem toda a razão. Foi um lapso. Agradeço-lge muito a correção