sábado, 7 de julho de 2012

Imprensa de referência

Vi, há pouco, na televisão, um velho amigo de Portugal e dos portugueses, Xanana Gusmão, por ocasião de um ato eleitoral em Timor-Leste.

Recordei-me que, outubro de 1999, Xanana fez uma triunfal visita a Portugal. Com o país ainda a viver a ressaca da emoção que o mobilizara pela causa timorense, a chegada do líder histórico da Fretilin provocou uma onda de grande mobilização. A simpatia e a genuinidade de Xanana Gusmão fizeram o resto.

Nessa ocasião, foi-me pedido que, em representação do governo, me fosse despedir dele ao aeroporto militar de Figo Maduro, de onde partiria para um qualquer destino europeu, num Falcon na nossa Força Aérea. Vi que estava exausto, embora feliz, com o fraternal acolhimento que Portugal lhe proporcionara, em que pudera testemunhar a profunda sensibilização do povo português para com a questão timorense.

Saímos a pé do edifício da base aérea para o avião, situado a umas escassas centenas de metros. Ao longe, dei-me conta que um grupo de jornalistas, colocados junto a uma barreira, fazia sinais e gritava "Xanana", desejosos de poder obter as últimas palavras do visitante.

O avião estava já atrasado, o "slot" para a descolagem podia perder-se, como nos tinha dito o comandante da base. A primeira reação de Xanana foi dizer: "Vou já para o avião". Olhei os jornalistas e, apontando-os ao líder timorense, fui de opinião contrária: "Eu acho que devia dar-lhes umas curtas palavras. A imprensa portuguesa tem sido fantástica consigo". Xanana hesitou um segundo, mas acabou por seguir a minha sugestão, com os militares das Força Aérea, junto dos quais eu ficara, pouco contentes com o meu alvitre.

No dia seguinte, um bem informado jornal escrevia mais ou menos isto: "Contrariando abertamente a vontade do secretário de Estado português que o acompanhava, que procurou, sem êxito, dissuadi-lo de ir falar com os jornalistas, Xanana fez questão de prestar declarações à imprensa portuguesa".

Enfim, é o que se chama imprensa "de referência".

7 comentários:

Isabel Seixas disse...

Sr. Embaixador é curiosa e significativa a sua análise, mas fosse qual fosse a sua orientação O Deus já estava referenciado e o Senhor era só o Anjo, bom, a meu ver, mas da velha guarda .

Santiago Macias disse...

Como diria um político português, cujo nome agora me escapa, "é a vida". Na atividade política é-se, desde as esferas internacionais aos pequenos círculos locais, condenado pelo que se fez, pelo que não se fez, pelo que dizem que se pensou, pelo que supostamente se disse etc. Há quem esteja ao serviço de agendas de terceiros. Há quem se preste a isso.
E nem sempre é a "popular press" que está nessa linha da frente...

Portugalredecouvertes disse...

Será para chamar a atenção dos leitores, quando se dá uma boa notícia tem de ser acolada a qualquer efeito negativo!

C.e.C disse...

Cada mais vejo o meu ideal de informação estóica como uma utopia.
Deixa-me, no entanto, a pensar... se o jornalismo cada vez mais se destaca pelo interpretativo, para quê os comentadores ou as crónicas?

Carlos Fonseca disse...

Ao escrever "de referência" entre aspas, já deixou tudo dito.

Na realidade, não há actualmente em Portugal um único jornal que se possa, honestamente, considerar de referência.

O que há são jornais "de frete".

Anónimo disse...

É da vida!

Ângelo Ferreira disse...

Delicioso!!!!