domingo, 24 de junho de 2012

O Douro e a UNESCO

Ser representante de Portugal junto da UNESCO, em acumulação com as funções que desempenho em França, trouxe-me a responsabilidade acrescida de ter de cuidar, na linha da frente, de um conjunto de questões que ligam Portugal a diversas áreas de competência da organização. Devo dizer que, nestes meses, embora tenha tido de me "desmultiplicar" para poder atender a todo esse conjunto de tarefas, aprendi muito sobre mais esta dimensão multilateral da nossa política externa. E, devo dizer, estou a gostar da experiência.

Como é sabido, esta semana, em São Petersburgo, o Comité do Património da UNESCO debaterá uma resolução, preparada pelas instâncias próprias da organização, que apela à suspensão imediata das obras de construção de uma barragem perto da foz do rio Tua, por considerar que essa obra coloca em risco o equilíbrio global do Alto Douro Vinhateiro, como conjunto considerado património mundial.

Alguns países, organizações não-governamentais e diversas outras vozes, nomeadamente na imprensa, estão de acordo com os termos dessa resolução. O Estado português considera que, sendo embora essencial garantir a preservação do estatuto internacional atribuído ao Alto Douro Vinhateiro, tal não é incompatível com a edificação de uma barragem no rio Tua. E que, por essa razão, não se justifica, sem uma análise atenta a um conjunto de medidas que entretanto foram tomadas e outras que estão em análise, que tais obras sejam suspensas de imediato. 

Não deixa de ser uma curiosa coincidência que o debate desta questão esteja a ser titulado, junto da UNESCO e em nome de Portugal, por alguém que nasceu a escassas dezenas de quilómetros do Douro e que hoje preside ao Conselho geral da Universidade da região. E que, porventura, gosta muito mais do Douro do que muitos dentre quantos, com outras legitimidades, se têm desdobrado em declarações inflamadas sobre o tema.

15 comentários:

Anónimo disse...

Ou seja, vamos ter barragem.

Anónimo disse...

Não ouso perguntar-lhe se vai defender a posição portuguesa com amargura ou convicção.
Não queria estar no seu lugar, Senhor Embaixador.
V

Isabel Seixas disse...

De facto senhor Embaixador eu sei que o Seu envolvimento Emocional com o Douro é mais que favorável ao Douro e não vai inibir o seu discernimento aquando da emissão legitima também, da sua opinião sobre o assunto.
A foto é deslumbrante.

Anónimo disse...

Se o problema é um edifício projetado pelo “indiscutível” Souto Moura, ele próprio, já o resolveu, decidindo enterrar o referido... A arquitetura de “excelência” mantem-se…”indiscutível”…

Se o problema é a submersão de troços da linha ferroviária, posso propor, se me permitirem, a utilização de um underwater. Pode ser todo envidraçado.
Assim, à superfície os passageiros contemplam uma das melhores paisagens do mundo e de baixo de água podem admirar as novas espécies que povoam os rios: Achigãs e lúcios em vez de barbos e bogas.
Simples…” Agora é só o cimento”…

Nuno Resende disse...

Exactamente, o que o primeiro anónimo escreveu, ia escrevê-lo. Com todo o respeito, que eu saiba todos os políticos ou maioria deles nasceu em Portugal e isso não impediu uma parte deles de fazer o pior pelo seu país. Já percebemos todos que a questão da barragem do Tua é um negócio que não pode ser anulado que em nada tem a ver com turismo, ambiente ou a vil campanha de filantropia que a EDP tem estado a lançar para branquear a imagem. A água do Tua empresada servirá para lavar muitos factos.

Carlos Fonseca disse...

Será correcto deduzir da leitura do seu post, que V. Exa. apoia a construção da barragem?

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Carlos Fonseca: os diplomatas, como servidores públicos, cumprem as orientações que o poder político legítimo lhes dá, independentemente de, a título pessoal, concordarem ou não com elas. Se acaso, na sua vida profissional, o cumprimento de alguma dessas orientações ofender a sua consciência, tem sempre uma solução: demitir-se. Como vê, é fácil.

Carlos Fonseca disse...

Sr. Embaixador,

Já o fiz, creia-me. Há cerca de 20 anos, sendo eu o responsável financeiro da empresa onde então trabalhava, um novo Conselho de Administração, decidiu que o trabalho extraordinário passaria a ser pago "por fora", isto é, sem o pagamento das contribuições devidas quer à Segurança Social, quer às Finanças.

Não concordando, e dado que uma das assinaturas dos cheques para pagamento seria a minha, demiti-me.

Porém, ao contrário do que afirma, e embora apenas tivesse ficado no desemprego um mês, não foi fácil, senhor Embaixador.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Carlos Fonseca: eu não disse que era uma solução "fácil" para o funcionário. O que quis dizer é que a resolução do dilema se faz de forma "fácil".

Anónimo disse...

Ou seja vão “fazer de conta” que discutem a dimensão do impacto ambiental do “negócio”…
“Custe o que custar”… tudo está mais que decidido.
Até porque quem paga (o custe o que custar), vê-se bem quem é...

Daniel Conde disse...

"Caro Carlos Fonseca: os diplomatas, como servidores públicos, cumprem as orientações que o poder político legítimo lhes dá, independentemente de, a título pessoal, concordarem ou não com elas. Se acaso, na sua vida profissional, o cumprimento de alguma dessas orientações ofender a sua consciência, tem sempre uma solução: demitir-se. Como vê, é fácil."

Demita-se, V. Exa.!

Parto do princípio que segue então escrupulosamente, sob os auspícios do plebiscito democrático e da Lei, o que quer que lhe mandem fazer, em nome da República Portuguesa. Se a ordem é erguer a barragem, erga-se.

Parto ainda do princípio, pelas declarações de V. Exa. que leu o caderno de encargos, o estudo de impacte ambiental, a declaração de impacte ambiental, e o relatório de conformidade ambiental, da barragem do Tua, como eu já li.

Moral da história: eu, orador inflamado, estou tão informado quanto V. Exa., acerca dessa messiânica barragem do Tua. Curiosamente, também moro a apenas 5 km do rio Douro, fui utente da Linha do Tua durante 17 anos, e sou trasmontano de origem, morador na bacia hidrográfica de que se compõe o rio Tua.

E tudo isto junto, tenho a plena convicção de que defender esta barragem é um crime, e V. Exa. que é um acto honroso e uma mais-valia para o "seu" Douro, como o trata outro ilustre duriense, a assumir agora o ónus da Cultura em Portugal.

Poderemos encontrarmos-nos um dia destes com a delegação da UNESCO, e trocar ideias sobre esta barragem, e o poder da demissão quando não nos deparamos com demasiadas coisas contrárias às nossas convicções - algo que já fiz recentemente também.

Cumprimentos trasmontanos;

Daniel Conde

Daniel Conde disse...

"Caro Carlos Fonseca: os diplomatas, como servidores públicos, cumprem as orientações que o poder político legítimo lhes dá, independentemente de, a título pessoal, concordarem ou não com elas. Se acaso, na sua vida profissional, o cumprimento de alguma dessas orientações ofender a sua consciência, tem sempre uma solução: demitir-se. Como vê, é fácil."

Demita-se, V. Exa.!

Parto do princípio que segue então escrupulosamente, sob os auspícios do plebiscito democrático e da Lei, o que quer que lhe mandem fazer, em nome da República Portuguesa. Se a ordem é erguer a barragem, erga-se.

Parto ainda do princípio, pelas declarações de V. Exa. que leu o caderno de encargos, o estudo de impacte ambiental, a declaração de impacte ambiental, e o relatório de conformidade ambiental, da barragem do Tua, como eu já li.

Moral da história: eu, orador inflamado, estou tão informado quanto V. Exa., acerca dessa messiânica barragem do Tua. Curiosamente, também moro a apenas 5 km do rio Douro, fui utente da Linha do Tua durante 17 anos, e sou trasmontano de origem, morador na bacia hidrográfica de que se compõe o rio Tua.

E tudo isto junto, tenho a plena convicção de que defender esta barragem é um crime, e V. Exa. que é um acto honroso e uma mais-valia para o "seu" Douro, como o trata outro ilustre duriense, a assumir agora o ónus da Cultura em Portugal.

Poderemos encontrarmos-nos um dia destes com a delegação da UNESCO, e trocar ideias sobre esta barragem, e o poder da demissão quando não nos deparamos com demasiadas coisas contrárias às nossas convicções - algo que já fiz recentemente também.

Cumprimentos trasmontanos;

Daniel Conde

J.Pinto disse...

Admito que o Douro Património Mundial pudesse ser compatível com uma barragem num afluente, mas este projecto da barragem no Tua nã e existem bastas provas disso publicadas. Tenham coragem, alterem o projecto ou cancelem enquanto é tempo e podem "salvar a face".

Anónimo disse...

Pois é, Sr. Embaixador Seixas da Costa, “(…)os diplomatas, como servidores públicos, cumprem as orientações que o poder político legítimo lhes dá, independentemente de, a título pessoal, concordarem ou não com elas. Se acaso, na sua vida profissional, o cumprimento de alguma dessas orientações ofender a sua consciência, tem sempre uma solução: demitir-se. Como vê, é fácil.”
Por isso, Sr. Embaixador, estou eternamente grata a Homens como Aristides Sousa Mendes que desafiou ordens expressas do seu ministro dos Negócios Estrangeiros e Chefe do Governo, António de Oliveira Salazar, e concedeu 30 mil vistos de entrada em Portugal a refugiados de todas as nacionalidades que desejavam fugir da França e com isso salvou a vida de milhares de pessoas, das quais cerca de 10 mil judeus. Bem sei que não estavam em causa rios, paisagens protegidas, linhas de caminho-de-ferro, mas creia, Sr. Embaixador, que a barragem Foz Tua (um negócio que apenas beneficia a EDP e C.ª) vai prejudicar, se não mesmo impedir, o desenvolvimento de uma Região tão esquecida pelos nossos governos. E nessa região vivem Pessoas, Sr. Embaixador, que terão de partir para outros pontos do País, ou quiçá para o estrangeiro, para poderem sobreviver; são os novos refugiados.

Anónimo disse...

V. Exª. demite-se pelo Douro? Oh... mas tanta viagem já feita, tanto Paris, tanto afã de servir "publicamente" não dão para acreditar que via servidores do estado..."lá em S. Petersburgo, ou cá" os interesses patrimoniais portugueses sejam defendidos. V. Exª já se deslocou recentemente ao Douro profundo (sem ser às caves, TH, provas de "tibornas" ou subidas de barco)? Já chegou a S. João da Pesqueira pelas curvas e precipícios? E viu as mãos velhas e as costas dobradas amorosamente sobre as vides secas e agrestes em Fevereiro? No seu tempo, estudava-se Geografia, Fisico-Química, sabia-se que a evaporação e a condensação tal e tal. Haverá um estudo sobre as "diferenças climáticas" que essa massa de água parada vai exercer na região sobre um micro-clima único?
Pois a nossa convicção como portugueses e democratas é que para servidores destes que abundam aqui e lá fora... mais valia que o Marquês de Pombal viesse demarcar o Douro outra vez, à luz da actualidade.
Desta vez, vindo cá regularmente, V. Exª deu-me um desgosto!