segunda-feira, 25 de junho de 2012

Memórias de além muro

Haviam já passado muitos anos desde que aquele diplomata português saíra da capital de um certo país do leste europeu, onde permanecera algum tempo, nos anos 80 do século passado. A vida levara-o, entretanto, por mais de uma década consecutiva, por outras partes do mundo.

Uma sapateira, adquirida numa casa de velharias nessa cidade, seguira, entretanto, para Lisboa, com destino a um armazém onde se amontoavam outras tralhas, compradas por aqui e por ali, coisas que os diplomatas vão acumulando pelos apeadeiros da sua carreira e de que, no final, já mal se lembram.

No seu regresso definitivo a Lisboa, já a caminho da reforma, o diplomata reencontrou a velha sapateira. Veio-lhe então à memória a negociação tida com o vendedor, o inevitável regateio do preço, a competição virtual com um colega egípcio que, de acordo com o homem, também seria candidato à aquisição. Olhando agora para a sapateira, perguntava-se por que diabo teimara em comprar aquele mono, que não lhe servia para nada. A certa altura, ao revolvê-lo, do fundo de uma prateleira descolou-se uma pequena peça retangular, escura e achatada, que lá devia estar, desde há muitos anos, desde a compra da sapateira. Observou, intrigado, o minúsculo objeto, do qual que destacava um fio metálico. O filho, dado às coisas técnicas, não teve dúvidas: era um microfone.

Apesar de todas as escutas, o muro caiu. 

6 comentários:

patricio branco disse...

boa historia, bom ponto de partida para uma pelicula de espionagem a puxar para o cómico.

Anónimo disse...

Essas práticas dos microfones seriam mais "costumeiras" nos paises de Leste... Mas elas também "watergueitaram" por outras bandas como se sabe. Aqui em França até procuraram diamantes na redação de um jornal satirico! Só que  os picheleiros que colocavam os micros (e não sapateiros) foram "apanhados" naquela tarefa que a democracia declarou "fora de jogo" com cartão vermelho.
José Barros  

Anónimo disse...

O Peter Falk teria descoberto mais cedo e guardaria o segredo até a ocasião certa para sacar o "espião" do bolso da gabardine.

Anónimo disse...

Quase todos os colegas que passaram por países de leste terão histórias semelhantes, e algumas muito engraçadas, para contar! a Alemanha e a Roménia seriam as campeãs dos microfones...

Helena Sacadura Cabral disse...

Tão engraçada a história. Especialmente para mim que tive um irmão sucessivamente na Russia e na Roménia...
Quando chegava a Portugal depois das visitas familiares, dava comigo, a falar com os outros, em tom de autêntico "cochicho".
Velhos tempos. Hoje podemos falar...mas ninguém nos ouve!

Isabel Seixas disse...

"No seu regresso definitivo a Lisboa, já a caminho da reforma, o diplomata reencontrou a velha sapateira..." In FSC

Gosto imenso desta forma de redigir histórias além de imprimir movimento no decurso atribui animismo ás coisas...
"Tudo no Cosmos tem ânima;
Todo o ânima é transferível;"

De qualquer forma para mim um microfone é sempre para cantar até que a alma doa, daí que não concordo com a análise de suspense do filho porque colide com a minha conotação.
Quem nos diz que não era a base de conceção de um MP3, com a caixa acústica numa sapateira, é outra hipótese!