sexta-feira, 1 de junho de 2012

Luis Abreu

Volto a constatar uma obviedade: cada vez tenho mais mortos conhecidos.

Há semanas, morreu o José Guilherme Stichini Vilela. Um dia, em Angola, nos anos 80, o José Guilherme revelou-me que conhecera, já não sei por que luas, um arquiteto que tinha encarregado da renovação de um velho apartamento que comprara, em Lisboa. Olhei os desenhos e vi que estava perante um homem de extremo bom gosto. Chamava-se Luís Gomes de Abreu. Nesse entretanto, também eu comprei um apartamento, que queria remodelar. Numa vinda a Portugal, conhecemo-nos e encarreguei-o de me dar ideias para essa obra. Não podia ter feito melhor opção. O seu profissionalismo era imenso, a sua engenhosidade era inesgotável, embora o seu preço não fosse nada barato. A obra saiu muito bem.

O Luís não tinha um feitio fácil, era muito teimoso, muito orgulhoso daquilo que fazia, renitente até à exaustão às sugestões dos "donos das obras". Mas eu conseguia ser ainda mais obstinado e, como cliente, era "chatíssimo" (expressão dele). Exigi-lhe pormenores impensáveis: "nunca encontrei um cliente que me pedisse um desenho de uma sanca em tamanho natural, sem aceitar um desenho em escala", disse-me um dia, "só você!". Tivemos cordiais "pegas", mas também belas jornadas de conversa e copos, divertidíssimas, em que ficámos amigos e, depois, quase vizinhos. Recordo bem uma noite, no velho "Botequim", com o Luís a envolver-se numa polémica homérica com a Natália Correia, que acabou por se mudar para a nossa mesa, até às quatro da manhã.

Viamo-nos a espaços. Voltei a tê-lo como arquiteto, numa outra casa. E, claro, voltámos a "pegar-nos" sobre a obra... Mas continuámos amigos e ele continuava a fazer as coisas sempre muito bem. Quando vim para Paris, disse-me que fora ele quem tinha renovado o centro do Instituto Camões, na rue Raffet.

Desde há 30 anos, o Luís tinha uma rotina ímpar: era a primeira pessoa a mandar-nos boas-festas. Chegavam sempre no início de Dezembro. Este ano não chegarão. Dizem-me que o Luís morreu.

4 comentários:

Isabel Seixas disse...

"cada vez tenho mais mortos conhecidos."IN FSC

Bem erigido este Seu cemitério Vivo

Helena Sacadura Cabral disse...

A partir de uma certa idade, essa será, infelizmente, a regra.

Portugalredecouvertes disse...

espero que fique gente viva a merecer comentários de obra bem feita

Anónimo disse...

Não conheço a pessoa responsável por este comentário, mas numa saudade do meu ex professor Luis Abreu , decidi fazer uma pesquisa e deparei me com este belo texto.
Luis Abreu foi um excelente professor , muito difícil, orgulhoso e teimoso, mas muito especial. Tinha poucos amigos na escola, mas era perceptível, quanto maior a sabedoria maior a inveja .
Poderia escrever infinitamente coisas boas sobre ele, não por me ter dado 19, o que fez com que eu tivesse poucos amigos (hahah ), mas por termos discutido, chorado ... Entre outras coisas..
Se hoje me tornei num grande profissional , ainda com muito a aprender , foi graças a este homem que na mesma semana que faleceu conversou comigo discretamente e disse para nunca desistir .

Obrigado , Luis , obrigado professor !