quinta-feira, 1 de março de 2012

Diplomacias

"Having said that..." - já me tinha esquecido da fórmula anglo-saxónica através da qual, depois de se terem elencado, de forma habilmente fragilizante mas com um ar de quem os subscreve, todos os argumentos num determinado sentido, se parte para a sustentação da posição contrária. Sorri ao ouvi-la, hoje de manhã, na minha primeira reunião formal na UNESCO, durante a qual revisitei as velhas práticas onusinas.

A reunião foi muito bem dirigida por uma colega embaixadora, que defrontou, com sabedoria, algumas sérias dificuldades políticas, conseguindo garantir um bom ritmo aos trabalhos.

Um presidente de reunião tem de saber identificar, com precisão, os pontos potencialmente conflituais e tem de desenhar uma tática específica para ultrapassar essas dificuldades, eventualmente gizando prévias cumplicidades com certos delegados. É um exercício difícil, que combina a autoridade com a habilidade. Quando um presidente é demasiado autoritário irrita "a sala" e pode provocar intervenções que vêm complicar o debate, tornando muito difícil a sua gestão posterior. Pelo contrário, um presidente "banana", que dê a palavra a toda a gente e não procure definir limites temporais para a abordagem de temas, é pressentido como permissivo e, se acaso cair na armadilha de permitir que os "chatos" e os prolixos se excedam, abre precedentes que depois não pode reverter. Mas o pior presidente é aquele que "a sala" identifica como alguém que está a tentar enganá-la, que procura utilizar estratégias regimentais para coartar direitos, para iludir determinadas questões ou menorizar certas temáticas ou delegações. A verdadeira chave de sucesso de uma presidência é a criação de um sentimento de respeito em torno de si própria.

Tenho uma muito longa experiência de chefia de reuniões, desde assembleias gerais de associações de estudantes até conselhos de ministros da União Europeia, passando por comissões, com multidões de delegados, na ONU e na OSCE. E ainda hoje assim me aturam, no Conselho geral da UTAD. Em todas essas funções, sem exceção, cometi erros, mas aprendi muito com eles. Por azelhice (mas também por tática), deixei, por vezes, arrastar situações até a um ponto de pré-caos mas, noutros casos, consegui dar a volta ao que parecia (ou que queria deixar parecer) impossível de controlar.

Nestes últimos, conto como "glórias" o "comité de ministros" de Schengen, em Junho de 1997, no CCB, e o "conselho permanente" final da nossa presidência da OSCE, em Dezembro de 2002, na Alfândega do Porto. Em ambos as situações, a minha "habilidade" para forçar compromissos baseou-se na... alimentação. Nas duas reuniões, com temas muito delicados e posições, à partida, bem distantes, só consegui fazer vingar as propostas portuguesas (que se iam sucedendo com fórmulas diferentes, na busca de um consenso) através do prolongamento do debate. Em ambos os casos, reuniões que decorriam desde manhã acabaram por arrastar-se, por deliberada "perfídia" da presidência, até cerca das 4 da tarde, com as delegações exaustas, quase já dispostas a tudo, ansiando pelo almoço que tardava, e que eu, sadicamente, mencionava "en passant", nas minhas intervenções, como estando à nossa espera. Os vários colegas portuguesas que me acompanharam nessas maratonas devem lembrar-se bem dessa minha tática - dessa diplomacia lusa da fome.

10 comentários:

Catinga disse...

Da vasta experiência exclui-se o tipo de reuniões mais difíceis: as de condomínio!

Anónimo disse...

O sr. Catinga acertou na mouche nas reuniões mais difíceis de presidir.

Já agora, sr. embaixador, ainda existe outro tipo de presidência que cada vez mais grassa na nossa sociedade global faminta de poder e vassalagem: a do medo!

O filme "conspiração" de Frank Pierson, está actualizadissimo.

Anónimo disse...

Estas reuniões só se passam (ou quase) na Administração pública e, estamos mesmo a ver, que é no lóbi (com bons sofás e bebidas) que se decide tudo…

Alturense disse...

Há ainda uma fórmula mágica para fazer aprovar propostas em certas assembleias gerais.

Quando o presidente põe a proposta à votação fá-lo,deste modo, sem pausas:

"Quem aprova a proposta deixa-se estar como está; está aprovada por unanimidade!"

É tiro e queda.

Carlos Fonseca

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 17:41: olhe que não, olhe que não...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Carlos Fonseca: quando é "a doer", não é bem assim.

Gil disse...

Gavinha saída that, quando vem Vexa a Lisboa para jantarmos?

Isabel Seixas disse...

E entretanto já vão 550, a deixar-se presidir por diplomacias, claro que é mérito.

EGR disse...

Este blogue tem-me propiciado a aquisição de variados conhecimentos
em diversas areas e desvendado alguns mistérios da diplomacia mas confesso que a tactica que hoje nos revelou é verdadeiramente extraordinária.

Anónimo disse...

Sobre as tacticas para gerar consensos há muito a dizer, mas há uma muito eficaz. que pressupõe um moderador_facilitador que deixa a discussão avançar com muita simpatia e cortesia até se definirem os grupos antagónicos e de repente, de acordo com a sua premeditada intenção, mete-se à frente a criticar ferozmente um determinado elemento que pertence a uma facção e a seguir os elementos da outra facção caem-lhe em cima que nem lobos levando determinada posição a parecer fora de contexto !

Assim aparece o concenso numa reunião. Os grupos são previamente treinados para determinadas posições.

Aqui não funciona o "jeitinho" . É tudo treinado e encenado! Os consensos são construidos através de tacticas !


O sr embaixador pode até nem tomado consciência do sistema durante as sua vasta experiência mas agora na Unesco vai de certeza perceber como funciona o sistema !

OGman