quarta-feira, 21 de março de 2012

Crise académica de 1962


Comemoram-se, por estes dias, os 50 anos do movimento de agitação universitária que ficou conhecido, entre nós, pela “crise académica de 1962”. No ano anterior, a ditadura tinha passado pelo seu “annus horribilis”, desde o início da guerra em Angola até à perda da soberania sobre a possessões na costa da Índia, passando por diversos outros episódios que abalaram o regime, como o “golpe de Beja” ou o assalto ao paquete Santa Maria. No meio de tudo isto, Salazar conseguiu sobreviver ao “golpe Botelho Moniz”, uma tentativa de “pronunciamento” palaciano, cujo fracasso pode ter sido responsável pelos 13 anos de guerra colonial que se seguiram - uma triste aventura nacional contra a História.

Em Lisboa, nesse início de 1962, o mundo universitário iniciou um ciclo de inquietação que, com surtos irregulares, nunca mais iria parar, até ao 25 de Abril. Era essa a juventude que o regime ia utilizar como tropa de choque nas guerras coloniais, inicialmente em Angola (1961), depois em Moçambique e na Guiné (1964). Atravessada pelos ventos de liberdade que haviam soprado forte aquando da candidatura de Humberto Delgado (1958), com o “putchismo” militar a espreitar nas Revoltas da Sé (1959) e de Beja (fim de 1961), a “crise" de 1962 demonstrou também que o episódio Botelho Moniz não havia esgotado as tensões dentro do próprio regime: a demissão de Marcelo Caetano, de reitor da universidade de Lisboa, em solidariedade com os estudantes, fazia transparecer algum mal-estar e revelava que alguns preparavam já o pós-salazarismo.

A crise académica de 1962 é já vivida num interessante compósito ideológico que, a partir daí, vai passar a marcar o mundo associativo universitário. Do cultivo dos valores do republicanismo tradicional, que até então estivera sempre no eixo de toda a luta oposicionista, os novos tempos mostravam a prevalência de uma agenda cada vez mais socializante, com uma forte e tendencialmente hegemónica presença do PCP, mesclada com um catolicismo radical emergente e até alguma sedução pelo modelo castrista (bem presente na LUAR). Só a partir de 1962, com a cisão marxista-leninista protagonizada por Francisco Martins Rodrigues, é que os grupos maoístas viriam a imiscuir-se nessa luta.

Basta olhar para as lideranças académicas de 1962 para podermos entender o que aí vinha. Ao lado de Jorge Sampaio, de uma esquerda marxista não-alinhada, apareciam nomes como Vítor Wengorovius, ligado à nova “inquietação” católica (nascida, organizativamente, depois da “carta do Bispo do Porto” e do "documento dos 101”), Eurico Figueiredo, importante quadro do PCP, ou José Medeiros Ferreira, que seria candidato da "oposição democrática" às "eleições" legislativas de 1965, em cujo perfil político se projetava já o socialismo democrático, que haveria de dar origem ao PS, mais de uma década mais tarde. Com exceção dos maoístas, pode dizer-se que na crise de 1962 estão presentes as linhas fundamentais da movimentação política oposicionista dos anos seguintes, que iriam ter expressão organizada (e dividida) nas "eleições" legislativas de 1969 e, de uma forma singularmente bastante unitária, no exercício idêntico em 1973.

A crise académica de 1962 não se ter ficou por Lisboa, alastrando também às comunidades académicas de Coimbra e do Porto, onde, a partir de então, nas associações ou nas "pró-associações", as movimentações políticas entraram num crescendo. Todo o mundo universitário português, a partir desse ano charneira de 1962, se tornou num palco fundamental para a luta política contra o regime.  

9 comentários:

Isabel Seixas disse...

Curioso, batizar de crise o despertar de sensibilidades para a Liberdade individual de exercer as liberdades individuais, um acordar de assertividades para a mais justa insurjeição contra os açaimes em homens de Si livres...

Depois o arrojo empreendedor dos estudantes no desprezo pelo material em detrimento das grandes causas do espirito...

Oh como também gosto dos Estudantes...

"Quero Ser sempre estudante"

Amores de Estudante

Quero ficar sempre estudante
para eternizar
a ilusão de uns instantes
e sendo assim
o meu sonho de amor
será sempre rezado
baixinho dentro de mim.(...)

São como as rosas de um dia
os amores de um estudante
que o vento logo levou.
Pétalas emurchecidas
deixam no ar profundo
do sonho que se sonhou.
Capas negras de estudante
são como asas de andorinha
enquanto dura o verão.
Palpitam, sonham os instantes
aninhadas nos beirais
do palácio da ilusão!

Os amores de um estudante
são como as ondas do mar
que o vento logo varreram.
Enchem a vida uns instantes
logo nascem, depois morrem
mal se sabem se nasceram.
Mocidade, oh mocidade
louca, ingénua, generosa
e faminta de ilusão
que nunca sabe os motivos
de quanto era o capricho
ou lhe chega o coração!

Anónimo disse...

Como os dias de hoje se parecem com os daquela "guerra conlonial"! Querer perpetuar um modelo económico-financeiro que já deu o que tinha a dar. Triste cegueira que leva os nossos estudantes a "fugirem" sem saberem bem porquê. Sim, porque naquela altura, mesmo que não soubessemos o que queriamos, sabia-se bem o que não se queria. Tudo teve a ver com o "não-querer" o que outras potências na Europa, por ex. já tinham percebido: prazo de validade do sistema colonial caducado. Esta desregulação do comércio global já nem enriquece ninguém no Ocidente. Caducou. E, em todo o mundo ocidental. Toca a negociar para os trabalhadores chineses: segurança social; saúde pública; planos de reforma e, viagens de lazer para os dias de folga... Sabem que os chineses, ao contrário do que por aqui se diz, até gostam de mais coisas do que trabalho/trabalho? Gostam de: jogar, de fazer Tai Chi, de passear o passarinho, de apanhar sol virados para o sul, de passear nas noites de mudanças da lua e, acima de tudo de confraternizar com um bom Dim Sam, seja no restaurante, seja nas lojas aonde fazem o seu comércio... Dêem-lhes um salário melhor, ou segurança social e verão como eles vão adorar uma "Primavera marcelista"!

Portugalredecouvertes disse...

Há quem diga que estão a incentivar os chineses a gostarem tanto de carros como os outros,
então será desejável que se inventem carros movidos a água do mar!

patricio branco disse...

a crise academica de 1962 vai voltar, embora de forma muito diferente e não limitada à zona do estadio universitario.

Helena Sacadura Cabral disse...

Desse grupo misto conheci bem alguns elementos. Melhor os chamados católicos progressistas e alguns comunistas.
Quando hoje olho para alguns dos que estão vivos e vejo o seu percurso, pergunto-me para onde terão ido as ideologias que, então, os animavam.

A. disse...

Sra. Dra. Helena Sacadura Cabral, creio quique as ideologias que animavam os seus amigos dessa época não foram para lado nenhum. Ainda cá estão. Algumas pessoas mudaram de sítio ; mas nem todas.

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro A
Por isso mesmo, eu disse "alguns" e não "muitos" ou "todos".
É importante ler bem!

manuel augusto araujo disse...

Meu caro Francisco Seixas da Costa
Algumas pequenas precisões:
1- Francisco Martins Rodrigues, rompeu com o PCP em finais de 1963 e em 1964 funda a FAP,com João Pulido Valente e Rui d'Espiney.
2- A LUAR só foi fundada em 1967, embora entre os seus fundadores se encontrem participantes no assalto ao Santa Maria, ao desvio de um avião da TAP que despejou panfletos anti-salazaristas sobre Lisboa em 1961, e em 1964 o assalto a um Banco na Figueira da Foz.
3- Por último, a Crise Académica,é justo lembrar que além dos seus dirigentes visíveis, teve dirigentes invisíveis. O mais importante foi José Bernardino que tinha pertencido à direcção da Casa dos Estudantes do Império (era natural de Huambo, Angola, onde nos anos 80, o irmão, David Bernardino, médico, seria assassinado pela UNITA) presidente da Associação de Estudantes do Técnico e era secretário-geral da RIA,em 1961,quando foi obrigado a entrar na clandestinidade. Esteve profundamente ligado à Crise Académica de 62, tendo sido preso em Maio desse ano, sendo brutalmente torturado a que resistiu com imensa dignidade. Ficou sete anos na prisão.
Hoje lá estivemos em aberta confraternização na Reitoria e na Cantina da Cidade Universitária.Todos muito mais velhos, tinha 17 anos na altura,mas sem precisarmos de bengalas. Um abraço

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Manuel Augusto Araújo:

1. Tem razão. Eu deveria ter escrito, de facto, "mais tarde bem presente na LUAR". Com efeito, nesse ano de 1961, foi o DRIL (Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação" que esteve por detrás do assalto ao Santa Maria e foi a efémera "Frente Antitotalitária dos Portugueses Livres no Estrangeiro" (uma designação com o evidente "dedo" anti-comunista de Henrique Galvão) a responsável pelo assalto ao voo da TAP entre Casablanca e Lisboa. É (também) dos operacionais destas duas ações que, bem mais tarde, vai sair a LUAR. O que eu pretendi dizer (de forma muito simplificada e, por isso, menos rigorosa) é que ao lado das forças oposicionistas internas então organizadas (PCP, Resistência Repúblicana Socialista e Diretório da Ação Democrato-Social) começavam a emergir novas linhas ideológicas.

2. Tem também razão quanto à referência de que o maoísmo se expressou "a partir de 1962". FMR só rompeu efetivamente com o PCP em fins de 1963, criando o CMPL e a FAP em inícios de 1964. Mas também noto o que diz Manuel Cardina em "Margem de certa maneira", "Tinta da China", outubro de 2011, pag 37: "Entre 1960 e 1964, (FMR) redigiu uma série de cartas ao CC (do PCP) que no conjunto refletiam a cisão em curso no movimento comunista internacional provocada pelo conflito sino-soviético". Dir-se-ia que estávamos já num proto-maoísmo... E, já agora, além de FMR, JPV e RE, convirá não esquecer Manuel Claro, que também esteve na origem da FAP e de que pouco se fala.

3. Não tenho a menor dúvida sobre a grande importância de José Bernardino, cujo papel sei ter sido determinante na crise de 1962, como responsável pelo setor estudantil do PCP. "Escolhi" Eurico Figueiredo pelo facto de ter acabado por ser publicamente mais proeminente (tal como Wengorovius, Sampaio e Medeiros), sendo então da mesma linha ideológica de José Bernardimo. E ainda conheci em Luanda, em casa de Arlindo Barbeitos, o seu irmão, David Bernardino, no início dos anos 80. E aqui sou eu quem o corrige a si: ele foi assassinado pela UNITA apenas em 1992.

Um abraço amigo, grato pela correções (sendo meu leitor regular, sabe como as aprecio e aceito) e, em especial, pela sua atenção.