terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Siglas

De há uns anos para cá, a diplomacia tem vindo a converter-se ao uso intensivo de siglas e acrónimos, nos seus documentos e comunicações. Parte significativa da "telegrafia" multilateral, nomeadamente europeia, passou a estar recheada dessas fórmulas, que parece deliciarem os iniciados. Lentamente, há mesmo o risco de começarmos a aproximar-nos dos militares - categoria profissional que permanece imbatível no uso e abuso dessa escrita "económica", que deixa de fora quem não é da casta ou quem não lhe frequenta, com devoção, a liturgia organizativa.

Há menos de dois meses, fui a Lisboa a um almoço comemorativo dos 30 anos do fim de um partido de que fiz parte na minha juventude - o MES - Movimento da Esquerda Socialista. No dia seguinte, ainda em Lisboa, a caminho do aeroporto, recebi, no meu telemóvel, uma mensagem de um colega, embaixador em Paris de um país do norte da Europa, que dizia simplesmente: "Il faut qu'on parle sur l'évolution du MES". Liguei de volta, mas estava incomunicável.

Que diabo quereria aquele amigo sobre o MES? Como tinha sabido da minha presença, no dia anterior, no almoço comemorativo do fim do partido? Nunca tinha percebido que ele mantinha qualquer interesse pela situação política portuguesa, no tempo da Revolução dos cravos.

Horas depois, chegado a Paris, telefonei-lhe, intrigado. E lá me disse, então, que queria trocar impressões comigo sobre o modo como Portugal via a evolução do MES, o "Mechanism Européen de Stabilité", um dos instrumentos da Europa do euro, que pode ser uma das chaves para dar a volta a crise...

4 comentários:

Isabel Seixas disse...

Bem, este post é de uma pertinência, quase transversal a toda a esfera social, no uso de siglas em exagero, até como nomes próprios de instituições, serviços, e diversidade de classificações.

Identifico-me na integra na forma como expressa este fenómeno no primeiro parágrafo e a confusão que pode vir a gerar na ausência da escrita por extenso ou descrição do significado na oralidade.

Desagradável quando são utilizadas na sua especificidade com convicção, como de domínio público, em contextos multidisciplinares.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Nos bons e velhos tempos do PREC, mais precisamente em 1976, o Diário de Notícias publicou na sua terceira página uma prosa com o título seguinte:

PCP, MDP/CDE, PS, PPD e CDS discutiram na AR abolição dos BRI. . E em subtítulo MRPP, PCTP, , PRT, PRP e MES querem ser ouvidos

Um redactor mais antigo e calejado sugeriu que o jornal editasse um Siglário para ser distribuído aos leitores. Ou seja um Prontuário de Siglas.

Anónimo disse...

Todas as profissões utilizam no seu vocabulário escrito e oral uma quantidade de siglas para economizar tempo. Na aparência toda a gente se entende. Mas quando há siglas que mantêm a sua atualidade anos a fio os próprios profissionais acabam por perder o conteúdo exato das palavras que a sigla encerra... Aqui em França viver no Achéléme todos sabem o que é mas muitos há que não sabem o que está por detrás da sigla HLM.
Nos meus primeiros tempos de interveniente na área social participei em reuniões sobre o alojamento que era, na altura já, uma das grandes preocupações do setor. Recordo uma intervenção demorada de um representante do governo de então, estávamos na época Giscard d’Estaing, em que a orientação do momento pretendia apoiar a construção de casas individuais, e, invariavelmente, aquele alto funcionário concluía que “o Papa resolvia tudo”. Ora o Pape, como todos ouviam, não resolvia não senhor.
O PAP era o “Prêt Aidé d’Accession à la Propriété”, que um Crédito do Estado disponibilizava mas cujo acesso para as famílias com mais dificuldades era impossível...
José Barros.

Helena Sacadura Cabral disse...

Para quem continue sem saber a:
HLM - habitation à loyer modéré,
ou seja casa a preço acessível.