sábado, 21 de janeiro de 2012

Protocolo

Há dias, fui jantar a uma determinada embaixada, aqui em Paris. Deveríamos ser oito pessoas à mesa; só estivemos seis. Um casal faltou, sem dar qualquer explicação, fruto de uma eventual confusão com a data ou outra razão de última hora. Depois de mais algum tempo de espera do que habitual, a mesa "rearranjou-se" a tudo correu a preceito. Imagino que, no dia seguinte, os donos da casa tenham esclarecido com os faltosos o acontecido. 

Este é um cenário que pode ocorrer a qualquer um: já me aconteceu, algumas vezes como anfitrião, uma vez como faltoso, frequentemente como testemunha. Mas, por vezes, em jantares oficiais, um incidente deste género pode tornar-se bastante desagradável. Já assisti a várias confusões similares, algumas delas mesmo com impactos políticos, por vezes não deliberados. 

A cena mais bizarra em que estive envolvido passou-se em Genebra, em 2001. Eu era vice-presidente do Comité Económico e Social (ECOSOC) da ONU e, com o respetivo presidente, tinha-me deslocado de Nova Iorque para com ele dirigir as reuniões de trabalho do chamado "segmento de alto nível", que aí tem lugar durante o mês de julho de cada ano. São duas semanas de longas reuniões plenárias, encontros sectoriais e diversos outros eventos formais, com alguma negociação pelo meio.

Logo no início das sessões, recebi um convite para estar presente num jantar que um grupo de países do G77 (o grupo dos "países em desenvolvimento", que hoje agrupa, não os originais 77 Estados, mas 130 países) iria organizar, de homenagem ao presidente do ECOSOC, um diplomata africano, representante do seu país na ONU. 

Aceitei, como é óbvio, e, num determinado dia, lá fui para o jantar, que tinha lugar na residência de um embaixador asiático. O evento envolvia algumas largas dezenas de pessoas, desde diplomatas a funcionários superiores da ONU. Havia uma mesa principal, retangular, num modelo a que eu chamo "última ceia", e várias mesas redondas. O lugar do presidente do ECOSOC era à direita do dono da casa, à esquerda de quem eu me sentava.

Ao final de mais de uma hora de espera, constatou-se que o convidado de honra não aparecia. Ter-se-ia perdido no caminho? Teria feito confusão com a hora ou a data? Ainda tentei o seu telemóvel, mas estava desligado. Nas conversas, prolongavam-se as dúvidas. A certo passo, com muitos convidados a olhar já para os relógios, o anfitrião não teve outra solução senão decidir passar à mesa, mesmo sem o homenageado. 

Porém, o dono da casa, em lugar de procurar "aligeirar" a ocasião, informalizando-a, teimou, de forma um tanto estranha, em manter a prevista homenagem, não obstante a ausência do homenageado! E, com o lugar vago à sua direita, leu um discurso escrito, com elogios rasgados ao ausente. No final, para imenso espanto de todos e insuperável embaraço meu, passou-me a palavra, na minha qualidade de vice-presidente.

Aquela era uma das ocasiões em que um bom orador, com ironia e sentido de oportunidade, teria podido fazer uma intervenção de antologia. Eu não estive à altura do momento de humor que se me proporcionava. Disse umas palavras de circunstância e de agradecimento em nome do meu colega, sem ousar um registo divertido que o momento proporcionava, talvez para evitar ofender o anfitrião e alguns dos presentes.

Na manhã do dia seguinte, no palácio das Nações, procurei afanosamente o presidente do ECOSOC: "Então ontem faltaste ao jantar em tua homenagem?!" O homem olhou para mim, impávido, com um ligeiro sorriso, comentando: "É verdade! Não me sentia muito bem para ir ao jantar. Fui ao cinema..."

O protocolo, tal como os costumes, pode ser muito diferente, de país para país.   

12 comentários:

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Sem nada se parecer, o que vou contar, à homenagem e ingratidão do faltoso,
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li há uns anos uma biografia do armador grego Onassis que nos grandes e pomposos jantares que oferecia na ilha Skorpios,
antes de chegarem seus convidados e porque era um bom “prato” enchia a malvada da ´pança´.
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Durante o jantar apenas "bicava" umas poucas comidas. O processo de Onassis era o de em vez de comer palrar para seus convidados.
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E contaram-me, há anos, que um abade de uma aldeia portuguesa, nunca faltava a um convite de almoço ou jantar, que lhe era feito pelos seus paroquianos.
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A hora era uma questão de marcação do santo abade...
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E quando acaba o jantar ou almoço despedia-se: “ficai com a graça do senhor que eu tenho outro convite à espera”
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Saudações de Banguecoque
José Martins

Anónimo disse...

"setoriais"

Anónimo disse...

O homem também talvez não gostasse dos anfitriões!

Eu também já fui anfitrião de um alto representante do Banco Mundial que tinha que fazer um relatorio sobre o andamento das obras resultantes do financiamento. Ele era Indiano e apresentou-se de turbante e suas vestes tradicionais. No inicio fiz-lhe uma curta apresentação geral da Obra e seu andamento e depois subimos no elevador e levei-o ao ultimo piso para ver a paisagem e quebrar a informalidade.Estavamos em Maputo e a vista era espectacular.

Ele apressou-se e disse que iria viajar para Nova iorque e que queria levar umas papaias , logo , perguntou-se onde as podia comprar.Por acaso , o Bazar era lá em baixo e apontei-lhe mesmo para baixo do edificio. Ele fez um sorriso de orelha a orelha e eu levei-o ao Bazar e não quis ver Obra nunhuma.

Eu fiquei preocupado porque o relatorio dele era importante para libertar verbas~. Ele tranquilizou-me enquanto apertavamos as mãos dizendo-me que estavamos a fazer um bom trabalho e que na Nigéria as visitas eram de Helicoptero porque não chegavam a fazer obras nenhumas !!

OGman

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 09:06 : Nos termos do Acordo Ortográfico, a palavra pode grafar-se das duas maneiras, porque há quem pronuncie o "c".

patricio branco disse...

Um pouco grosseiro, convenhamos...

Sobre o tema:
um politico alemão, presidente do
governo de um estado da rfa e depois chanceler do governo federal presidia a almoços que oferecia sem comer, apenas fumando, bebendo cerveja ou água e falando, enquanto os convidados eram servidos e iam comendo.

sei tambem duma história em que foi o casal anfitrião que não apareceu, ou melhor, não abriu a porta de casa aos convidados amigos que iam chegando, que tinham de desistir de tocar à campainha e se iam confusos. Parece que na tarde desse dia tinha havido forte briga domestica e perderam completamete a disposição para ter convidados em casa.

Anónimo disse...

Efetivamente a perceção do ativo corretor ortografico anonimo nao e correta, nao havendo aqui que retificar o autor do blog

a) Feliciano da Mata

Les Paraboliques de Soffleweyersheim

- aguardando o convite de Vossa Excelência, Senhor Embaixador, para o seu jantar de aniversário; oferecer-lhe-ei na ocasião uma parabólica personalizada

Anónimo disse...

Comecem com histórias de "eu pronuncio, tu não pronuncias", que logo veem a confusão que se espalha por aí...

A ideia da dupla grafia tem a ver com "blocos de pronúncia" e não propriamente com os gostos de cada um.

Pedro Reis

Julia Macias-Valet disse...

Se calhar o homenageado precisava de um coachingzito de Isabel Amaral. Mas se calhar agora também ja nao vale a pena...

Bom, mas deixo aqui a ideia porque outros precisarao do contacto, certamente : )

Helena Oneto disse...

Cher Feliciano da Mata,
Depuis que la crise vous a forcé à délocaliser votre entreprise de pose de paraboliques à Soffleweyersheim, je ne peux plus faire de commentaires dans le blog de votre cher maître. Je me demande si le professeur Tournesol y est pour quelque chose, ou si c'est la faute des incompétents frères Dupond... en tout cas, dites lui, s'il vous plaît, que ma peine est imense.

Alcipe disse...

Chère Madame Oneto:

Quoi! Vous n'arrivez plus à écrire des commentaires sur le blog de ce pauvre incompétent d'Alcipe, qui se prend pour Tintin? Ce sera plutôt la faute à Oliveira da Figueira...

Feliciano da Mata Paraboliques et Déménagements

Soffleweyersheim

Anónimo disse...

Estupida reforma ortographica esta, que adopta egual graphia para corretor e corrector, palavras que já poucos conseguiam distinguir e pronnunciar correctamente em Portugal.
Um abraço,
Zé Barreto

Isabel Seixas disse...

Que ânimo leve teve o "Tal senhor homenageado" Para subverter o protocolo à "delicadeza" de não estar presente.