domingo, 1 de janeiro de 2012

Nathalie

Há dias, o programa dominical televisivo "Vivement Dimanche" foi dedicado a Gilbert Bécaud, que morreu já há 10 anos. Para quem, como eu, testemunhou a imensa popularidade que Bécaud teve em Portugal, foi interessante conhecer aspetos da sua vida e trabalho de que nunca tinha ouvido falar, bem como obras de um período em que a canção francesa já tinha deixado de ser popular no nosso país. Curioso foi também ouvir Charles Aznavour contar histórias daquele que foi um seu rival de audiências.

Uma das canções de Gilbert Bécaud que ficaram no ouvido de mais do que uma geração foi "Nathalie", uma música de ritmo pretendidamente russo, que referia episódios de uma estada em Moscovo e, em especial, a companhia de uma guia local, nesses tempos misteriosos de "guerra fria" (anos mais tarde, Elton John, num outro estilo, mas com a "distância" idêntica, faria uma "Nikita", de cariz tendencialmente similar).

À época, as letras das canções não apareciam escritas nas badanas dos discos. Por isso, os mais dotados para línguas lá as iam repetindo com algum rigor, enquanto que outros "seguiam" o som e repetiam coisas que apenas lhes pareciam similares (o caso mais "trágico" eram as, então populares, canções italianas, que eram trauteadas de forma ridícula, muitas vezes sem se ter a noção do que se estava a dizer).

Numa tarde, na mesa vila-realense da Pastelaria Gomes, assisti a uma divertida discussão a propósito da letra da "Nathalie". Um teimoso colega, já um tanto esquerdista, insistia que Bécaud, no texto que cantava, se referia ao "temps beau de Lénine", em glória da Revolução de outubro (que, por acaso, foi em novembro...). Essa "revelação" deu origem a uma gargalhada imensa, até o convencermos (nesse tempo não havia Google nos telemóveis, para acabar imediatamente com as teimas) que a canção fala simplesmente do "tombeau de Lénine", o túmulo do fundador da União Soviética, na Praça Vermelha...

13 comentários:

Mônica disse...

Francisco
Eu achei a letra da musica na internet
Será que te interessa?
La Place Rouge était vide

Devant moi marchait Nathalie

Il avait un joli nom, mon guide:

Nathalie...

La place Rouge était blanche

La neige faisait un tapis

Et je suivais par ce froid dimanche

Nathalie...

Elle parlait en phrases sobres

De la Révolution d'Octobre

Je pensais déjà

Qu'après le tombeau de Lénine

On irait au café Pouchkine

Boire un chocolat...

La place Rouge était vide

Je lui pris son bras, elle a souri

Il avait des cheveux blonds, mon guide

Nathalie... Nathalie

Dans sa chambre à l'université

Une bande d'étudiants

L'attendait impatiemment

On a ri, on a beaucoup parlé

Ils voulaient tout savoir, Nathalie traduisait

Moscou, les plaines d'Ukraine,

Et les Champs-Élysées

On a tout mélangé et on a chanté

Et puis ils ont débouché

En riant à l'avance

Du champagne de France

Et on a dansé...

La, la la...

Et quand la chambre fut vide

Tous les amis étaient partis

Je suis resté seul avec mon guide,

Nathalie...

Plus question de phrases sobres

Ni de révolution d'octobre

On n'en était plus là

Fini le tombeau de Lénine

Le chocolat de chez Pouchkine

C'était loin déjà...

Que ma vie me semble vide

Mais je sais qu'un jour à Paris

C'est moi qui lui servirai de guide,

Nathalie... Nathalie
Pena eu nao saber Frances.
E mamae sabe alguma coisa mas esta internada no hospital por causa de crise de asma
com amizade e carinho Monica

Anónimo disse...

Não ouso escrever o nome do intelectual da nossa praça que traduziu muito livremente "l'ombre de mon chien" por 'o ombro do meu cão'. Vá lá que não caprichou e não traduziu o título da canção de Jacques Brel para 'Não me quites, pá'.
Juro que não inventei. Li num jornal.
xg

Anónimo disse...

Errata: l'ombre de TON chien'e não MON chien.

Helena Sacadura Cabral disse...

O que pode uma Nathalie!

Catinga disse...

Esta questão das letras mal entendidas ocorre, até, entre os falantes nativos do idioma de uma canção.

Se forem ao Youtube e procurarem por "misheard lyrics" encontrarão muito com que se divertirem.

Julia Macias-Valet disse...

Nasci no mesmo ano que a cançao e por um triz nao me baptizaram Natalia. Uff !!! Safei-me por pouco...

Catinga,
Continuo a preferir a de perfil...com o narizinho arrebitado : ))

patricio branco disse...

lendo a letra dada por uma comentarista, sem duvida que é bonita e sugestiva, uma canção da guerra fria como se diz no blogue. Está lá a beleza da mulher russa,o frio e a neve de moscovo, o tumulo de lenin, a praça vermelha, o café com o nome do grande escritor (existirá?), a curiosidade dos estudantes sovieticos pelo ocidente e em falarem com um ocidental,o momento a sós dos dois já sem ideologias, momento de igualdade para todos os homens e mulheres que se relacionam afectivamente, a posterior recordação em paris da guia nathalie, etc. Tem bonitos versos para uma canção:
"Elle parlait en phrases sobres/ de la Révolution d'Octobre" (mas mais tarde) "Plus question de phrases sobres/ni de révolution d'octobre".
(este verso do Plus question de phrases sobres, será o mais ousado da canção)
Está bem, sem duvida, e cantado com a melodia e orquestração apropriadas.
Optimo que fsc nos tenha recordado esta canção contando o divertido episódio do debate sobre a letra na pastelaria gomes, certamente cenário de muitas outras histórias

Anónimo disse...

O Café Pushkin é um dos mais interessantes (se não dos melhores) restaurantes de Moscovo e um lugar emblemático da cidade.
Segundo parece, terá sido fundado e crismado exactamente por inspiração da canção de Bécaud que a cantou no dia da inauguração.
Um dos seus frequentadores foi o português Joaquim (Quim) Filbi, do ramo luso da conhecida família inglesa Philby.
Creio que o senhor Embaixador teve ocasião de se cruzar com esse indivíduo no Pushkin, nos idos dos anos 80.
Pelo menos, Quim Filbi afiança que esse encontro teve lugar...

Anónimo disse...

"Vivement Dimanche" - au secours, Rimbaud, Vian, Ferré, Baudelaire!

ZéBonéOaparvalhado disse...

Sr. Embaixador.

Acordei, hoje, a pensar na senhora Edith Piaf - por tudo o que ela passou - fez um obra assinalável na música Francesa - um ícone como a nossa querida Amália

http://www.youtube.com/watch?v=xujvIs0DhJU

patricio branco disse...

havia/há fantasticos cafés historicos, belíssimos e emblemáticos nos paises de leste, entre os quais, dos que conheço, o new york cafe, o gerbeaud, o ruszworm e o angelika (este mais recente mas mesmo assim dos anos do comunismo) e um na cidade velha de que não lembro o nome (anos 50).
tive ocasião de neles me sentar tanto antes como depois de 1989.
Outros países não conheço, mas deve haver igualmente.
Pena não terem sido cantados tambem por g b.

Catinga disse...

Bem... e há o Café de Paris, em Tânger, que também tem um ambiente bem interessante e é um daqueles locais cheios de história (e histórias).

Anónimo disse...

ERA UMA VEZ

E o primo Jota chegou de Bruxelas.
Maravilhado com a Exposição Internacional.
As fotografias eram fascinantes. E o símbolo, o Atomium!Uau!
A trabalheira que me deu uns dez anos mais tarde para conseguir convencer o grupo de amigos a ir até lá...aliás nada tinha a ver com o imaginado. Pouco menos que ferrugento, degradado. Espero que hoje seja outra coisa.

Enquanto avidamente víamos as fotos o primo Jota "cantarolava" uma coisa francesa e dizia"toda a Europa está deslumbrada com este fulano".
Como ele não tinha grandes dotes vocais "a miudagem" não se entusiasmou grande coisa.

Alguns dias mais tarde a rádio dava a conhecer Becaud.
Aí percebémos mesmo que o primo Jota nos descrevera muito bem a exposição mas quanto ao "gilbert", enfim...Cada um é mesmo póquenasce!!!
...Et maintenant?...