terça-feira, 17 de janeiro de 2012

João

- "Ó homem! Você descanse! Esses lugares são infernais!"

- "Vou ver se aproveito o fim de semana..."

Este final de conversa telefónica, comigo a dar o conselho, teve lugar ao início da noite da passada 5ª feira. O João Teotónio Pereira, chefe de gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros, tinha sempre a atenção de me responder no próprio dia às chamadas que eu lhe fazia para o gabinete (raramente ligo para telemóveis de quem tem muito que fazer), talvez porque soubesse que nunca o incomodava por razões fúteis. Dessa vez, a conversa foi sobre dois temas de política externa que eu lhe havia anunciado como delicados, que nada tinham a ver com a França, mas que eram suficientemente importantes para, através do João, serem transmitidos ao nosso ministro. Interessou-se por eles e prometeu fazê-lo, logo que possível.

Já o tinha dito a amigos comuns: desde há meses, sentia o João cada vez mais cansado na voz, talvez stressado pelo ritmo intenso de um trabalho a que se dedicava com afinco e empenhamento. O João era um homem intenso, preocupado com tudo, diligente ao pormenor, de uma lealdade à prova de bala em relação ao seu e nosso ministro.

O João Teotónio Pereira era senhor de um sorriso saudável, num fácies "boyish", de uma alegria natural que promovia a relação pessoal e abria, com facilidade, a porta à amizade. Éramos de gerações diferente, nunca trabalhámos juntos - saiu de Paris, onde foi cônsul-geral, uma semana depois da minha chegada, o que só me deu tempo para lhe oferecer um breve almoço de despedida - mas tivemos sempre um excelente relacionamento, marcado pelo respeito e pela amizade. Nunca esqueci gestos de solidariedade que teve para comigo, em tempos menos fáceis.

Ontem, o coração deixou o João, aos 51 anos, no fim da linha da vida. 

15 comentários:

ARPires disse...

A morte não escolhe idades e como sói dizer-se, elas não moem, mas matam.
Paz à sua alma.

patricio branco disse...

o stress é mau, pode destruir. Conheço 3 ou 4 casos semelhantes.
Se vemos que o lugar está acima das nossas capacidades fisicas e mentais de aguentar, melhor mudar de lugar.
Gozar a vida em nosso proveito será a prioridade, em proveito dos outros depois.
Triste o caso.

Anónimo disse...

Caro Senhor Embaixador,

Atraves do "duas ou tres coisas", e com as lagrimas nos olhos, quero prestar a minha sentida homenagem ao Dr. Joao Teotonio Pereira com quem tive a honra de trabalhar.

Era um ser humano com uma enorme capacidade de trabalho e um sentido de humor notaveis.

Esta manha, fiquei chocada com esta triste noticia.

Ate sempre Dr. Teotonio Pereira. Vou sentir a sua falta!

Isabel BP

Anónimo disse...

Tive a satisfação de trabalhar com o João, o que recordo com muita saudade.
Acho que também ele comungava da sua opinião sobre aqueles lugares pois, quando o felicitei pelas novas funções disse-me, com aquela alegria e boa disposição naturais que refere: "Eh pá... não sei se tenho vida para isto."
Quis o coração que não tivesse.
E assim perdêmos um amigo.

JR

Alcipe disse...

Também nunca cheguei a conhece-lo. Falamos, claro. De raspão, entre duas portas, num corredor, a saída ou a entrada do ministério, pelo telefone. Mas nunca conversamos.

O Joao Quintela, o Monteiro Portugal...

Lavorare stanca (Pavese)

Neste caso uccide.

Francisco Seixas da Costa disse...

Bem lembrado, Alcipe: também nos fazem muita falta o João Quintela e o António Monteiro Portugal.

Monchique disse...

Acreditem:era mesmo um bom colega. Vai mesmo fazer falta no Ministério

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Soube desta noticia hoje às 8h56m por um sms enviado por uma cunhada minha que era também cunhada do João. Fiquei derreado. Rezo pelo João pela Carmo, pelo Tiago e pelo Pedro.
Que Deus te tenha já na Sua Santa Guarda Caro João.

ARD disse...

Soube por um SMS de um colega.
Tinha falado com ele há dias.
O João serviu em Belgrado; morreu aos 51 anos , do coração , tal como o Ricardo Passos Gouveia, que, morreu
U das mesmas causas, com a mesma idade e também tinha passado pela Embx em Belgrado.

Helena Oneto disse...

Triste noticia, Senhor Embaixador.

cgptoronto disse...

Apagou-se uma força da natureza. Leal, amigo do seu amigo, direto e frontal na expressão dos seus pensamentos.
Falta fará à sua Família, aos colegas que com ele nutriam amizade e respeito, enfim, à carreira diplomática.
Até sempre João.
Júlio Vilela

g. disse...

o JTP como nós lhe chamávamos aqui pelos corredores do MDN desde 05.1999-02.2004. 5 anos e 5 ministros (Veiga Simão, Jaime Gama, Castro Caldas, Rui Pena e Paulo Portas) com uns esteve pouco tempo com o CCaldas e o PPortas o tempo mais que suficiente para magoar muito esta partida, connosco, o pessoal que lhe dava apoio administrativo, o tempo para esta saudade ser enorme essencialmente porque era um Homem incrível e todas as palavras são poucas para o descrever. mas quem conhece o JTP, quem trabalhou com ele sabe quem o quanto era "stressado" por natureza, esse stress tão próprio dele aliado ao stress das funções que desempenhava fez-nos acordar com um valente murro nos queixos.
escolheu o dia 16 para partir, 9 anos e 2 meses depois do mano Bebé e esses 2 malandros estão lá em cima em valentes gargalhadas por nos terem pregado a partida de partirem tão cedo, tão sem nós contarmos ou estarmos preparados.

como está escrito no livro do Bebé que os manos fizeram para a família e amigos recordarem aquele ser excepcional que era e são os Teotónio Pereira

"...
se precisarem chamem-me que eu venho logo
mesmo se não conseguirem ver ou tocar,
eu estarei aí... e se ouvirem o vosso coração,
poderão experimentar o alívio e a felicidade que vos dou
e quando chegar a vossa altura de partir,
estarei lá para vos receber.
ausente no corpo, presente em Deus..."

deixo um abraço a todos nesta dor partilhada dos amigos

Anónimo disse...

Chocado com a noticia. Conheci o Joao em Belgrado, escassas semanas apos chegar a capital Servia, para assumir funcoes na missao da ONU. Ele, tambem, acabado de chegar de Roma. A minha estadia em Belgrado tornou-se num periodo particularment dificil na minha carreira, tanto no aspecto professional como pessoal. Tornarmo-nos amigos inseparaveis. Raro era a semana que nao nos encontravamos. Foi, direi, gracas ao Joao, que superei essa quadra bastante dificil da minha carreira. Nunca poderei e posso esquecer o apoio que me deu durante esse periodo. As suas palavras de apoio, amizade e carinho, assim como presenca foram, direi, a razao que consegui superar esse periodo. Era um verdadeiro professional. Quantas vezes o telefonei tarde na noite para a embaixada a sugerir que fossemos jantar. A resposta era sempre a mesma: "tenho que terminar algo que estou fazendo para enviar para Lisboa ainda hoje". Embora, talvez tarde, querido amigo, muito obrigado pelo o teu apoio e amizade. Nunca seras esquecido. Rest in Peace.

Anónimo disse...

Portugal e a diplomacia portuguesa perderam um homem de uma rectidão moral e profissional pouco usuais no nosso pais.

Ainda que durante pouco tempo, tive o prazer de trabalhar com ele e guardo na memoria a imagem de um homem generoso, leal e frontal.

Partiu hoje e as saudades que deixa ja são muitas!

Um abraço JTP.

Até sempre!

EMS

Anónimo disse...

Todos, ou quase, apressamo-nos em apontar mordomias, regalias e outras "ias" no microcosmos político. E é necessário fazê-lo... Mas não devemos esquecer quem trabalha por vezes doze horas ou mais horas por dia, não conta os fins-de-semana, vive largos períodos da sua existência longe da sua família e amigos, para desempenhar um trabalho de extrema competência e com muita sensibilidade.... As moedas têm duas faces... Mal conheci João Teotónio Pereira... Tive o privilégio de o contar no público da defesa da tese de doutoramento e de conversar com ele meia dúzia de vezes... Não o privilégio por ser na altura Cónsul-Geral, mas por ser quem era...

Manuel Antunes da Cunha