quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Guiné

A Guiné-Bissau atravessa um momento triste, com a morte, há dias, aqui em Paris, do seu Presidente da República. Ela ocorreu, por coincidência, pouco depois de mais um episódio de instabilidade institucional, dos que ciclicamente atravessam aquele Estado. Os países amigos, como Portugal, tudo têm feito, e tudo farão, para ajudar a Guiné-Bissau a ultrapassar os seus problemas.

A ajuda à Guiné-Bissau, por parte de Portugal, começou logo após o reconhecimento daquele Estado por Lisboa, em 10 de setembro de 1974. Recordo que o país tinha declarado unilateralmente a sua independência, ainda antes do 25 de abril, num ato formal que teve lugar em Madina do Boé, em 23 de setembro de 1973.

Imediatamente após a minha entrada para o MNE, em Agosto de 1975, fui colocado no então Gabinete Coordenador para a Cooperação. Uma das primeiras tarefas de que fui encarregado foi fazer uma pré-seleção dos candidatos a professores cooperantes para prestar serviço na Guiné-Bissau. Verificava se esses candidatos tinham as condições mínimas exigidas para o exercício das funções e, posteriormente, representantes guineenses faziam a seleção final, em função da adequação do perfil técnico dessas pessoas às necessidades do ensino local. O Estado português pagava uma parte do salário e as autoridades guineenses a outra parte. Era esse o espírito das ações de cooperação.

Devo dizer que foi uma experiência muito interessante, que se prolongou em recrutamentos para outras antigas colónias, e, quase quatro décadas passadas, ainda mantenho contacto com pessoas que conheci nessas circunstâncias, alguns dos quais sei que são leitores deste blogue. À época, muitos eram simples licenciados à busca de um primeiro emprego, que queriam tentar uma experiência nova, em terras distantes e promissoras. Outros eram pessoas manifestamente em rutura com a vida profissional, e às vezes familiar, que tinham em Portugal. Outros ainda, eram idealistas que procuravam transportar para as antigas colónias as ideias revolucionárias de um certo Portugal de então.

Não sei se está escrita, em algum sítio, a história dessa curiosa aventura da cooperação portuguesa, feita de algum voluntarismo, por vezes mal sucedida, por razões diversas, nem sempre por culpa dos próprios. Anos mais tarde, em Angola, convivi durante mais de três anos com várias dessas pessoas, porque me cabia coordenar na nossa embaixada o setor educativo da cooperação bilateral. Guardo uma recordação muito forte de alguns casos, por vezes dramáticos, que então cruzei e tive de ajudar a gerir. E já fui convidado para ir a encontros onde alguns desses antigos professores cooperantes alimentam a memória dessa sua aventura.

Na sequência da primeira vaga de professores cooperantes para a Guiné-Bissau, em cuja contratação participei, surgiu, poucos meses depois, um primeiro conflito, que me coube resolver. Um dia, recebi uma chamada telefónica de um colega da nossa embaixada em Bissau, informando-me de que um determinado cooperante português havia recebido ordem de expulsão das autoridades locais. Ao que me foi dito, esse professor teria, num acesso de descabido militantismo, numa reunião de escola, acusado o PAIGC de estar "a trair o espírito de Amílcar Cabral". Compreensivelmente, as autoridades guineenses deram-lhe ordem imediata de saída: era o que mais faltava estarem a receber lições políticas de estrangeiros!

O homem - porque era um homem, embora houvesse entre os professores bastantes mulheres - teimava em considerar que o seu contrato tinha sido suspendido sem justa causa e, por essa razão, informou a embaixada de que não abandonaria o território sem ser ressarcido da totalidade da retribuição nele prevista. Naturalmente, os guineenses recusaram, na parte que lhes cabia. Como os meus colegas na embaixada portuguesa em Bissau, muito sensatamente, o aconselhassem a regressar no primeiro avião, para evitar ter mais problemas e, eventualmente, ser detido por intromissão na vida política local, o professor cooperante, num derradeiro recurso, pediu que ligassem para Lisboa, porque queria falar comigo, a pessoa que o tinha recrutado.

Nessa conversa, antes da qual eu fora informado sobre os reais e fundamentados motivos da expulsão, fui muito claro: deveria seguir estritamente o parecer da embaixada e embarcar no primeiro avião para Lisboa. O nosso homem mostrou-se, contudo, muito renitente: achava-se cheio de razão e insistia que não partiria sem ser totalmente reembolsado. Tentei convencê-lo por várias formas, sem grande sucesso. Até que me ocorreu uma ideia:

- Diga-me uma coisa: onde é que esteve instalado, desde que chegou a Bissau?

- Inicialmente, num hotel. Uma coisa impossível, nem imagina! Sem o mínimo de conforto e com muito más condições de higiene. Agora já estou numa casa melhor, com outros colegas.

Eu sabia que isso era pura verdade. Muitas das antigas colónias portuguesas tiveram grandes dificuldades, por falta ou degradação de instalações, nesses primeiros tempos pós-independência, para alojar convenientemente os primeiros professores cooperantes, como eu próprio tive oportunidade de constatar noutros locais. Bissau não era, naturalmente, exceção. Mais tarde, e exatamente por essa razão, por lá foi construído por nós um bairro para cooperantes portugueses.

A minha pergunta não fora inocente. Por isso, adiantei:

- Olhe, meu caro! Você já teve oportunidade de experimentar os hotéis de Bissau. Imagine agora como serão as prisões. E se não apanhar o próximo avião para Lisboa, há grandes probabilidade de lá bater com os costados, sabe-se lá por quanto tempo...

O homem regressou nesse dia.

Em tempo: uma correspondente enviou-no o link para um blogue dos atuais professores cooperantes portugueses na Guiné-Bissau.

15 comentários:

Catinga disse...

Veja lá se ainda faz com que a FENPROF declare uma greve de solidariedade!...

Anónimo disse...

O impasse foi evitado!
Um exemplo de psicologia aplicada...Paradoxo ?

Cordiais saudações
C.Falcao

Helena Sacadura Cabral disse...

Ó Senhor Embaixador esse rasgo foi de génio!

Gil disse...

Como os tempos mudam!
Hoje há projectos de cooperação para a construção de prisões porque elas, simplesmente, não existem.
O nosso cooperante nem por isso ficaria a ganhar: diz-se que alguns assassinatos ocorreram porque, não havendo prisões, a forma de evitar a impunidade era a eliminação física...
Este é um comentário cruel: apesar da terrível situação a que chegou o país, amo a Guiné Bissau e admiro o seu povo.
Os guineenses saberão debelar esta crisse que dura há 14 anos.

patricio branco disse...

maravilhosa fotografia a ilustrar a entrada.

Alturense disse...

"...diz-se que alguns assassinatos ocorreram porque, não havendo prisões, a forma de evitar a impunidade era a eliminação física...", escreveu o comentador Gil.

Fez-me lembrar o meu tempo de tropa, em Angola.

No "quartel" onde estava a minha Companhia não havia prisão. Quando algum militar era castigado com pena de prisão, nada mudava no seu dia-a-dia. Isto é, mudava num aspecto: se o seu grupo de combate saísse para operações, ele, que estava oficialmente preso, ficava no bem bom, no quartel.

Como se está a ver, o fulano não só não era penalizado, como ainda gozava com os camaradas que iam para o mato correr riscos.

E, desta forma, as penas de prisão não eram dissuasoras.

Foi aí que o comandante de Companhia decidiu que quem estivesse a cumprir pena de prisão, também ia para o mato. Mas com uma diferença: em vez de levar a espingarda-metralhadora que estava distribuída a todos, ia "armado" apenas com uma catana.

Foi remédio santo: as infracções diminuiram de forma acentuada.

Carlos Fonseca

Anónimo disse...

Os Post deste Blogue começam a ser demasiado extensos.
Não tendo perdido em qualidade, perdeu no interesse.

Telma disse...

Senhor Embaixador, é muitíssimo interessante ler pormenores dos primeiros professores cooperantes portugueses na Guiné. Actualmente somos cerca de 30 no Programa de Apoio ao Sistema Educativo na Guiné-Bissau - PASEG e trabalhamos em Bissau, nas regiões de Gabú, Bafatá e Canchungo e na ilha de Bolama.

Podem ver-se algumas fotografias no blog das Oficinas em Língua Portuguesa:
www.oficinasemmovimento.blogspot.com

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 22:12: este blogue é como a "slow food": é para apreciar com tempo. Quem tem pressa vai ao McDonald's, que é o que por aí mais há, em matéria de blogues, a imitar o jornalismo em "pastilhas", de 300 letras por notícia, às vezes escritas pelos mesmos...

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Telma: fico muito satisfeito por ter estado no início do processo que, 36 anos depois, vocês prolongam. Bom trabalho e boa sorte.

Anónimo disse...

sr embaixador

e tinha ou nao o paigc traido o espirito de cabral?...



bh

Julia Macias-Valet disse...

Sabem porque gosto TANTO da minha terra ?

Porque é um local incrivel onde pessoas extraordinarias sabem o que quer dizer a palavra : COOPERAÇAO !

http://www.portaldemoura.com/index.php?option=com_content&task=view&id=1298&Itemid=1

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Interessante saber que esteve envolvido no inicio daquilo que é hoje a Cooperação Portuguesa. É lamentável que tantos anos depois, e de finalmente se traçar um caminho e estratégia para este sector, o actual Governo não tenha a minima das noções do que significa Cooperação para o Desenvolvimento. Fundir dois Institutos cujos fins e objectivos são tão diferenciados é um acto de uma muito limitada visão das potencialidades de ambos. Apenas mais um retrocesso.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador:
Chamo-me Maria do Céu Mascarenhas e fui cooperante na Guiné-Bissau no ano lectivo l977/78.Escrevi com paixão um livro sobre esses tempos(fi-lo durante os frios serões dos dois últimos anos dos dez em que fui Leitora do ICALP/IC na Alemanha). Chama-se "Rosa no País das Flores da Luta". Era minha ingénua intenção doar os direitos de Autor ao Hospital Simão Mendes, de Bissau. Infelizmente, o editor que se propôs editar esse livro pediu-me um adiantamento de 3000 euros, que eu retirei da minha conta poupança-reforma para fazer. Contudo, ele apropriou-se desse dinheiro, nunca publicou o livro e o contrato de 5 anos e em exclusividade expirou. O assunto com o editor encontra-se agora em Tribunal, mas o livro está livre, registado em meu nome, e gostaria ainda de o editar nas mesmas condições no que se refere aos direitos de autor. Caso o Sr. Embaixador ou alguém que leia estes posts (se este meu post for admitido pela moderação)puder e quiser mediar o contacto com editor interessado, já que não possuo conhecimentos na área,ficaria grata. Pelo que li aqui, existem ainda muitas pessoas interessadas em conhecer experiências desses primeiros tempos de cooperaçao. Melhores cumprimento. MCM (Vou colocar o post como anónimo porque apenas tenho uma conta no Facebook, sob Maria C. Mascarenhas com acesso público, mas ainda nenhuma nas contas abaixo requeridas).

Anónimo disse...

Senhor Embaixador: Em relação ao meu post de 1/02/2012,informo - e peço, na medida do possível divulgação - que o meu livro nele referido,"Rosa no País das Flores da Luta", que tem como fulcro os meus tempos como professora cooperante no Liceu de Bissau no ano lectivo 1977/78, vai ser lançado - por Editora diferente - no próximo dia 26 de Janeiro de 2012, às 16 horas. POR CADA EXEMPLAR DA EDIÇÃO REVERTERÁ UM EURO PARA A PEDIATRIA DO HOSPITAL SIMÃO MENDES, DE BISSAU.O lançamento ocorrerá no Auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa, perto do Metro de Telheiras e da Escola alemã. Todos são, naturalmente, bem vindos. Os meus melhores cumprimentos. Maria-do-Céu Mascarenhas.