quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Falkland/Malvinas

Foi já há 30 anos. Na velha lógica segundo a qual um conflito exterior se constitui num útil fator de reforço da unidade nacional e contribui para o esquecimento dos problemas internos, a ditadura militar argentina decidiu ocupar as ilhas Malvinas, o arquipélago adjacente ao seu território, que o Reino Unido mantém, desde há muito, sob a sua soberania (e a que chama ilhas Falkland). Tratava-se de dar concretização a um sentimento histórico que de há muito atravessa o imaginário argentino, que considera como um injustificável resquício colonial a presença britânica nas suas costas (um pouco como sucede com Gilbraltar, perante a Espanha, ou sucedia com Hong-Kong, perante a China).

A reação britânica acabou por ter uma dimensão inesperada. Meses antes, o vice-ministro Nicholas Ridley havia tentado convencer a população das ilhas a aceitar uma compensação financeira, em troca do seu acordo com um modelo de "leaseback" que permitiria a retoma, a prazo, da soberania argentina. Esta atitude parecia indiciar uma fragilização da vontade de Londres de manter a presença no arquipélago. Mas os argentinos "leram" mal a disposição britânica: o Reino Unido reagiu, "à antiga", à tentativa de invasão e enviou uma imensa esquadra que, embora com significativo custo, mas com um reconstituído orgulho, retomou o controlo das ilhas. A primeira-ministra Margareth Thatcher obteve uma retumbante vitória militar, que acabou por funcionar como um "boost" político para a manutenção dos conservadores no poder.

Eu vivia então na Noruega e recordo bem as lágrimas do meu colega argentino, Miguel Angel Cuneo, num final de tarde em minha casa, comentando a humilhação a que o seu país fora sujeito, dividido entre o que era um desiderato nacional e as consequências pesadas de uma iniciativa mal sucedida. O afundamento do cruzador "General Belgrano", a "jóia" da armada argentina, foi talvez a imagem mais dramática dessa imensa e histórica derrota, que acabou por representar o princípio do fim da ditadura militar de Buenos Aires.

Ao tempo da preparação do envio das tropas britânicas, o Reino Unido fez, em Lisboa, uma diligência junto do MNE, no sentido de poder utilizar facilidades nos Açores, como ponto de apoio da sua frota marítima. O secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros de então, o embaixador Leonardo Mathias, solicitou que o pedido fosse feito, formalmente, "à luz do tratado de Windsor", procurando, desta forma hábil, assegurar, de um modo implícito, que os britânicos se sentiam vinculados ao espírito da "oldest alliance". O embaixador britânico Hugh Byatt, não sem uma visível relutância, acedeu a apresentar uma nota com o "wording" exato que o nosso governo pretendia, referindo o tratado de Windsor. Ora esse era exatamente o mesmo tratado que Londres se havia recusado a considerar como invocável, quando, exatamente duas décadas antes, o governo português o havia lembrado, ao solicitar a ajuda de Londres, aquando da ocupação, pela União Indiana, das possessões portuguesas na costa malabar.

Dizia Disraeli, antigo primeiro-ministro britânico, que "a Inglaterra não tem amigos, tem interesses". Neste caso, a diplomacia portuguesa provou a Londres que, às vezes, pode ter interesse em ter amigos...

13 comentários:

Anónimo disse...

"facilidades" ou "estruturas", "equipamentos", "instalações" ?...

Anónimo disse...

De verdade, teriam chorado muitos madeirenses pelo "nosso" Canberra... que os militares argentinos davam como certo que ficaria encalhado por lá. Voltou fiel à rota anual da volta ao mundo. Voltei a visitá-lo até a sua última viagem. O apoio aéreo foi mais eficaz, com alguns pontos estratégicos como por exemplo a ilha do Porto Santo, bem portuguesa. A "armada" com o gorducho e pesado Canberra foi a encenação de uma Inglaterra que gostava de cruzar os mares... Obrigada pela recordação... matei saudades do Canberra!

ARPires disse...

Sempre dois pesos e duas medidas, mas sempre a pesar mais para uma das partes e essa fomos sempre nós.

Rui Franco disse...

Em 2006 ainda vi, em Buenos Aires, várias referências à questão das Malvinas. Havia monumentos aos soldados, coisas escritas nas paredes e, até, um quiosque de churrasco, com uma pintura patriótica que podem ver em:

https://lh3.googleusercontent.com/-IeK463MqveU/Rw3ldLAN66I/AAAAAAAACYY/m9GY1_rDorA/w315-h420-k/CIMG0435.JPG

Anónimo disse...

Os embaixadores também choram///

Anónimo disse...

Fiquei confundido: afinal de contas, "ajudámos" os Ingleses, ou não?

Foi uma daquelas "vitórias morais" tão ao nosso gosto?

Mônica disse...

Sr Francisco
Eu lembro desta noticia. Fiz até trabalho na escola sobre ela.
com amizade e carinho de Monica

patricio branco disse...

não entendo, será defeito meu, o comentário que fala do nosso canberra e madeirenses e de saudades. Mas tenho curiosidade em saber o que se passou. Será o aeroporto de porto santo ou as lajes, onde teriam passado os aviões do ru?

A guerra das falkland teve de facto a virtude e o beneficio de desagregar o infame regime militar argentino.
E tambem a força dum país democratico quando se trata de defender a soberania nacional.
Agora volta-se a falar das falkland e ideias do governo do r u para lhes dar autonomia ou independencia, li algo nesse sentido num jornal inglês há dias. li apenas o título da noticia.
Boa manobra a do MNE invocando a aliança para dar apoio de escalas.

Anónimo disse...

O Senhor Embaixador esqueceu-se de referir ainda outra ocupação colonial que urge terminar: A ocupação de Ceuta, Melila e das ilhas de Tura, tudo em território marroquino, que continua ocupado pela Espanha.

Cumprimentos,
MS

Anónimo disse...

MS,

E Olivença, não? Ai que nos esquecemos sempre das nossas coisas, tão ocupados que andamos a olhar para as dos outros...

Francisco Seixas da Costa disse...

A propósito deste post, recebi do embaixador Leonardo Mathias o seguinte texto, que agradeço e muito enriquece o que aqui foi dito:

(PRIMEIRA PARTE) "Sendo eu Secretário de Estado, em 1981, e estando num programa em directo da Rádio Renascença, que procurava definir, com alguma leveza e muita musica á mistura, o perfil do convidado, chegou a noticia da invasão das Malvinas pelo exercito argentino. Os jornalistas deram - me a ler essa notícia no curto intervalo de uma canção e logo me disseram que me iriam interrogar sobre a posição do Governo na matéria mal reabrisse a emissão. Nessa altura, segundos depois, respondi que não me cabia definir a posição do Governo mas podia traçar as linhas gerais que seriam as suas. Condenaríamos a invasão porque não podíamos considerar a intervenção armada como uma solução para os conflitos e nessa perspectiva apoiaríamos nas Nações Unidas, onde o assunto seria inevitavelmente colocado, a posição do Reino Unido. Confiávamos que fosse possível evitar um conflito armado e esperávamos que uma solução pacífica acabasse por prevalecer até por que não esquecíamos que tínhamos boas relações com a Argentina como ali vivia uma vasta comunidade portuguesa. Esta foi depois a posição oficial do Governo e eu fiquei encarregue de a ir formalizando em termos de política externa junto de aliados e amigos e não só dos Embaixadores da Grande Bretanha e da Argentina em Lisboa. O primeiro veio logo ver – me e passou a vir ter comigo regularmente para me ir dando conhecimento das reacções e das iniciativas de Londres na matéria, que eu retransmitia ao Governo. Recordo a surpresa com que recebi a notícia de que a Senhora Tatcher decidira, além do acompanhamento da questão nas Nações Unidas, reocupar as ilhas, estando a preparar uma armada que se dirigiria ao Atlântico Sul. Sir Hugh Byatt que eu conhecera quando ele servira em Lisboa como jovem Secretário de Embaixada, era um Senhor, como a Inglaterra produz. Era suficientemente discreto para não deixar perceber facilmente a sua inteligência e o seu sentido de observação e podia parecer tímido. Gostava de Portugal e exprimia – se correctamente em português, tendo servido em Lisboa e Luanda, na sua Carreira, antes de vir a ocupar aqui as funções de Embaixador. Uma tarde, bem depois de iniciadas as hostilidades com os argentinos, disse-me que solicitava, em nome do Governo de Sua Majestade, autorização para que aviões Nemrod da RAF, pudessem aterrar nos Açores para ali reabastecer e seguir para o Atlântico Sul. Era assunto urgente e para o qual pedia toda a nossa possível atenção. Respondi que isso podia implicar Portugal numa aventura contra a Argentina onde vivia uma numerosa comunidade portuguesa. Era assunto que eu pensava só poderíamos ponderar se nos fosse apresentado por escrito e evocando a velha Aliança Luso – Britânica. Sir Hugh manifestou-se surpreendido. Repetiu que o caso era grave. Estavam a morrer soldados britânicos naquele momento. Os Nemrod contribuiriam para acabar o conflito mais rapidamente. Confiava que o Governo Português não iria atrasar a sua resposta. Dei claramente a entender que uma referência à nossa Aliança secular, quando justamente estavam em causa tantas vítimas iria ao encontro das legítimas preocupações de Lisboa em relação aos portugueses que viviam na Argentina. No dia seguinte Sir Hugh veio mostrar-me, a título pessoal, um rascunho de Nota que aludia ás relações seculares entre os dois países para formular o pedido de utilização dos Açores. Voltei a dizer-lhe que a ausência de menção á Aliança me deixava perplexo e tornava bem mais difícil uma resposta do Governo Português. Que dificuldade levava Londres a omitir essa Aliança, como se não valesse? E insisti na defesa do meu ponto de vista que naturalmente Londres não estava interessada em utilizar.

(VEJA NOUTRO COMENTÁRIO A SEGUNDA PARTE)

Francisco Seixas da Costa disse...

(SEGUNDA PARTE)

"O Embaixador não tinha argumentos e deve tê-lo dito para o Foreign Office. Quando me voltou a ver pela terceira vez trazia a Nota já redigida formalmente e aludindo directamente à Aliança no pedido formulado, nos termos que eu lhe havia solicitado. Mal saiu do meu Gabinete falei para o Primeiro Ministro e depois para o Ministro da Defesa e redigi logo a Nota de resposta afirmando que tendo o Governo de Sua Majestade apelado a Portugal em nome da Aliança, podia comunicar que a autorização solicitada havia sido concedida, nos termos reservados que as circunstâncias impunham."

Anónimo disse...

Na Wikipedia não há qualquer menção a Portugal...

http://en.wikipedia.org/wiki/Falkland
s_War