terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Corgo

Ao longo da vida, fui aprendendo a não ter opiniões perentórias (é assim que se escreve, nos termos do novo Acordo Ortográfico, por muito que isso custe a alguns) sobre assuntos de que pouco sei. Posso ter sentimentos ou "feelings", posso emitir opiniões "de mesa de café", mas habituei-me a estudar os assuntos antes de sobre eles me pronunciar de forma categórica. E, quando não os conheço, assumo-o claramente. Fico mesmo surpreendido com a imensidão de "tutólogos" (os que falam e escrevem sobre tudo) que por aí anda, alguns, aliás, bem pagos "à peça". Que sabedoria!

Vem isto a propósito do anunciado termo formal da linha do Corgo, a ligação ferroviária entre a Régua e Chaves, passando por Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Pedras Salgadas e Vidago, que teve belas carruagens antigas (1ª, 2ª e 3ª classes) e, durante muitos anos, fumarentas locomotivas a vapor. Não faço ideia se há ou não razões sólidas para a decisão. Deve haver, pela certa.

Tenho no meu ouvido, desde a infância, a voz de um funcionário da CP a chegar à casa da minha família, em frente à estação das Pedras Salgadas, à procura do meu tio João Santos, secretário da Câmara municipal de Chaves: "o senhor chefe da estação manda perguntar ao senhor Joãozinho se ainda se atrasa muito, pois o comboio tem de partir...". E recordo-me que o mesmo responsável pela estação ia frequentemente buscar um banco de madeira para ajudar algumas senhoras da família a galgar a distância entre o cais e o último degrau do comboio. Penitencio-me por nunca ter feito o percurso entre as Pedras Salgadas e Chaves, com a gabada descida do Reigaz, a passagem em Oura e no Vidago, com vista para o Palace, até ao cruzamento com a linha do Tâmega, antes do fim da linha (cujo projeto de continuidade internacional para Verin ficou sempre no papel). Mas ficaram-me na memória, para sempre, apeadeiros com nomes tão sonantes como Nuzedo, Zimão, Tourencinho, Fortunho ou Cigarrosa.

A CP decidiu agora assumir a decisão de fechar a linha do Corgo, ao que parece por imperativas razões financeiras. Não sei quanto custaria manter, para efeitos turísticos, o percurso que ainda existia, entre Vila Real e a Régua. De uma coisa estou bem certo: custaria muito menos do que os oito milhões de euros que as greves dos maquinistas, só no ano de 2011, fizeram perder à empresa. Mas essas são outras contas. 

15 comentários:

Anónimo disse...

Há sem dúvida os tutólogos. Mas há também os que escrevem, e escrevem muito bem, sem receberem em troca qualquer outra "recompensa" (nem se fala de remuneração) que o elevado prazer de partilha...
Os que frequentam o "Duas ou três coisas" que o digam . 
José Barros     

José Ferreira Borges disse...

Em Tourencinho, o comboio já deixou de passar há mais de vinte anos. De nada serviram, na altura, os protestos da população contra o encerramento da linha.

patricio branco disse...

o comboio está condenado em portugal, excepto lisboa porto. trata-se de uma morte lenta que começou há 2 ou 3 decadas. só não percebo porque sendo um transporte extremamente dinamico, essencial e de primeira importancia em toda a europa, em portugal é exactamente o contrario.

zamotanaiv disse...

Ou bem menos que a auto-estrada que faz o mesmo percurso e por onde passa um carro de quando em vez...

Anónimo disse...

É o betão...

E a população?...

Só mesmo num país mal governado, sem ofensa aos Filipes.

Portugalredecouvertes disse...

Sr. Embaixador
eu diria que os portugueses não conseguem escapar a esse problema de andar constantemente com pontos de interrogação no seguimento das decisões que ninguém entende, que confundem e possivelmente lhes retiram muito ânimo!

Ainda bem que temos a energia do sol que todos os dias está a postos, e felizmente e por enquanto, bem longe do alcance dos humanos

bom ano com muita saúde.

jmc disse...

Há 105 anos foi assim - http://postaisdantigamente.blogspot.com/2009/03/vila-real-chegada-do-comboio.html

De notar a data de inauguração da linha - 1 de Abril 1906

JMC

ARPires disse...

É com alguma, senão com muita tristeza, que assisto à morte lenta dos caminhos de ferro em Trás-os-Montes. Só falta mesmo a linha do douro para o toque de finados. A região e o país podem e devem "agradecer" aos sindicatos que como cogumelos nasceram em volta da CP, para servir o PC. Espero sinceramente que este ou outro governo, tenha a coragem necessária para por estes senhores na ordem. Privatizar a CP é urgente. Os milhões de euros de prejuízo que estes trogloditas dão com as greves permanentes, só merecem mesmo um prémio.

Anónimo disse...

Caro Francisco,

Acompanho com profunda tristeza a agonia da linha do Corgo.
Viagei diversas vezes com os meus avós entre Pedras Salgadas e Chaves e já na altura a viagem era uma delícia.
O senhor joãozinho era, por acaso, o meu avô materno.
Rápidas melhoras e bom 2012.

Isabel Botelho

gherkin disse...

As suas reminiscências em relação à Linha do Corgo, que infelizmente não conheço, pois só viagei de automóvel nessas belas bandas, evocam-me as muito minhas, da minha longínqua infância em que na Linha entre Santa Comba Dão e Viseu, já há muito inexistente, todos os dias de manhã fazia qustão de ir à estação buscar o ávido jornal, O Primeiro de Janeiro! Que tempos, que saudades! Pena que linhas como estas não sejam devidamente exploradas pelo turismo, como acontece, como sabe, em muitos ramais comercialmente extintos, aqui na Inglaterra. Cumprimentos e renovados votos de rápido restabelecimento!
PS. Gosto dessa dos "tutólogos"!

Anónimo disse...

Eu fiz essa ligação há 25 anos. Na altura chama-se a linha do Tua e o objectivo era chegar a Vila Real. Acho que a linha chegava só até a vila Pouca de Aguiar. Mesmo considerando os 25 anos, aquilo já nessa altura deveria ser um museu e não um comboio. Eu lembro-me que as carrugens ainda eram com interiores de madeira e nas curvas a malta saltava fora da carrugem para fazer xixi e voltava a apanar o comboio noutra curva com muita calma e sem stresses !

Mas a linha ficou assassinada quando aonteceu um determinado acidente e meses depois já o sucateiro mais famosos de prortugal tinham feito a limpeza do ferro e das solipas de madeira!!!
Enfim, Portugal às avessas!!!

OGman

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro OGman: informe-se melhor. Uma coisa era a linha do Tua, outra coisa era a linha do Corgo. É um mundo de diferença.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador

Permite-me que rectifique ARPires?
Se permite aí vai:

---O sindicato dos maquinistas foi fundado por militantes do CDS e do então PPD e continua muito fiel às suas origens. Não pertence sequer a nenhuma central sindical. Nem à CGTP nem à UGT.
--- A CP nunca será privatizada porque sempre foi uma empresa que deu prejuizo ... e os privatizadores só privatizam o filet mignon.
V

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

A mim não me custa, porque nunca cairia no ridículo de escrever «perentórias» em vez de «peremptórias».

Anónimo disse...

Caro Embaixador ,

Pois , só tive o prazer de andar na linha do Tua. Na do corgo não andei. Peço - lhe desculpa pelo equivoco, mas as realidades não devem ser muito diferentes , no entanto erro é erro !

OGman