sábado, 21 de janeiro de 2012

Afeganistão

A decisão ontem anunciada pelo presidente Nicolas Sarkozy, de suspender temporariamente a atividade das tropas francesas presentes no Afeganistão, na decorrência da morte de quatro soldados seus e ferimentos em vários outros, provocada deliberadamente por um militar afegão, foi um gesto que encontrou grande eco na opinião pública deste país. Com efeito, há qualquer coisa de estranho quando tropas que estão no terreno para ajudar à formação e à ação de pacificação de um exército se tornam vítimas indefesas de membros dessas mesmas forças armadas, por virtude da falta de um mínimo de condições de segurança para a sua atividade.

O envio de forças para o Afeganistão, por parte de vários países, que se iniciou há cerca de uma década, foi um gesto de solidariedade política para com os Estados Unidos, no pós-11 de setembro, e, ao mesmo tempo, foi o reconhecimento de que a segurança futura de todos nós começava nessa longínqua fronteira, onde o terrorismo se afirmava e prosperava com impunidade. Foi uma iniciativa justa, coberta por um mandato internacional incontestável, cuja legitimidade não pode ser posta em causa. E Portugal foi, com toda a naturalidade, parte desse esforço, que honra a sua política externa.

Os resultados desta iniciativa estão, porém, muito longe das expetativas então criadas. O Afeganistão é uma sociedade muito complexa, onde os aliados internos de quantos pretendem ajudar à pacificação do país parecem, por vezes, enredar-se em estranhas flexibilidades táticas com o inimigo, muitas vezes cruzadas com comprovadas venalidades. Dá frequentemente a sensação de que aqueles que se esforçam por criar condições para uma sociedade afegã mais justa e democrática são como que forçados a "respeitar" um certo relativismo cultural, tido como essencial para a estabilização do poder interno, mesmo à custa de uma fragilização de princípios básicos em matéria de direitos fundamentais. E, aqui e ali, fica a impressão de que algum transigência, nomeadamente na política de alianças, pode colocar em causa o caminho para o futuro democrático e de tolerância que não pode ter deixado de estar por detrás da contribuição externa para a operação militar.

Começa a ficar claro que os parceiros internacionais do governo afegão, que têm procurado encontrar soluções para garantir as melhores condições para a solidificação do seu estatuto de autoridade, se começam a interrogar sobre se esse imenso esforço está a ser devidamente recompensado com reais resultados e com um total empenhamento de quantos, no país, têm obrigação de acelerar as condições para virem a tomar nas suas mãos, de forma autónoma, o seu próprio futuro.

A decisão francesa de repensar a sua ação no Afeganistão, deixando aberta a porta a uma possível retirada das suas tropas antes da data prevista de 2014, no caso de não encontrar uma resposta satisfatória às suas preocupações, é talvez um momento de verdade que pode ser útil a uma reflexão mais alargada, que ajude a ver mais claro quanto ao futuro do conjunto da ação militar internacional no país. O respeito pelos mortos em ações militares no Afeganistão, como os muitos que a França já teve de enfrentar nesta década, justifica bem este gesto. 

5 comentários:

Mônica disse...

Francisco
Veja a noticia que li hoje no njornal Estado de Minas Gerais:A crise economica portuguesa segundo dentista mineiro que trablha em Lisboa provocou medidas drasticas para os trabalhadores inclusive profissionais liberais . já foi acertada aredução de ferias de 25 para 22 dias, a eliminação do pagamento de horas extras, diminuição de indenização por demissao eddo auxilio desemprego. tambem sera cortada mais da metade dos feriados dias santos e pontos facultativos. e ainda foi proposto o aumento da jornada diaria de oito horas para oito horas e meia. enfim terror total diz ele. Estado de Minas 21 de janeiro de 2012 Mário Fontana
Uma das poucas noticias que li sobre Portugal
Fiquei triste e pesarosa pois acho que existe muitos brasileiros morando em Portugal
com carinho e amizade de Monica

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Mônica: as coisa estão difíceis, mas há algum exagero no que foi escrito. Por exemplo, nem a jornada de trabalho diário é de oito horas em Portugal, nem foi aumentada em meia-hora. De qualquer forma, obrigado pela sua solidariedade.

Helena Oneto disse...

A sua analise, correctissima,leva-me a pensar que esta guerra vai-se eternizar sem que se encontre um fim satisfatório para o povo afegão. Como no Vietname, são milhares de vidas ceifadas "pour rien"... Porquê? Até quando?

Anónimo disse...

Já vai sendo horas de os países europeus saírem do atoleiro do Afeganistão, para onde foram conduzidos pelos motivos errados.
Os contribuintes portugueses, em particular, já não têm razões nem orçamento para sustentar esta aliança que é cada vez mais um falhanço e uma desunião de países que nem na Europa se conseguem entender, quanto mais num cenário de guerra.

Se já nem podemos manter uma unidade de transplantes hepáticos pediátricos, com que justificação nos permitimos continuar nesta aventura absurda?

Quanto custa a participação portuguesa na "pacificação" do Afeganistão, será que alguém sabe?

DL

Anónimo disse...

O Afeganistão é um país onde se produz muito opium.Actualmente segundo especialistas produz cerca de 85% da produção mundial.

Como sou fraquinho a analisar guerras não percebo como é possivel tamanha performance agricola num pais invadido e em guerra ?


OGman