
Eu e o João Niza Pinheiro tinhamo-nos aprimorado para que o discurso que aquele ministro, de uma pasta técnica, ia proferir numa reunião internacional, numa certa cidade europeia, acabasse por ser uma bela peça de oratória.
Havia semanas que por lá estávamos como membros da delegação portuguesa, numa conferência em que o ministro ia intervir, como o mais alto representante do governo português, acabado de chegar de Lisboa. Estudámos o tempo disponível e decidimos que havia que fazer uma "obra" para 10 a 12 minutos.
Com falaciosos argumentos de autoridade técnica, para termos as nossas mãos completamente livres na elaboração do texto, havíamos convencido o ministro, que estava há escasso tempo em funções, a afastar a hipótese do seu gabinete ter um "droit de regard" final sobre o discurso: adiantámos que só nós conhecíamos a "chave" dos equilíbrios que era preciso introduzir na mensagem, que havia que ter em conta certos aspetos (que não revelámos) que a presidência rotativa europeia gostava de ver refletidos em todas as intervenções nacionais, que havia pormenores de política externa que havia que fazer transparecer subtilmente no texto, etc. Nós trataríamos de tudo, ninguém precisava de se preocupar. Enfim, vetustas técnicas do MNE para evitar que alguém viesse perturbar o nosso trabalho...
Obtida que foi a total "luz verde" do crédulo governante e arranjadas umas cervejas, umas sandwiches e boas doses de café, em um pouco mais de três horas de trabalho, comigo ao teclado e com o Niza Pinheiro a dar sugestões de frases, aviámos, num muito razoável francês (melhor o do João que o meu), uma intervenção que tinha algumas subliminares graças de que eu e esse meu colega, agora embaixador num posto europeu, ainda hoje nos rimos. Ao final da noite, fomos deixar duas cópias do discurso ao hotel em que o nosso ministro se hospedava.
No dia seguinte, aguardámos pela chegada do governante, na imensa sala de conferências. Era um homem cordial e simpático, sem uma grande experiência das coisas internacionais, mas com uma boa bagagem técnica. Inteligente, deve ter percebido que o que lhe propúnhamos era perfeitamente aceitável. E era, de facto. A nós, agradou-nos a circunstância de ter gostado do texto. Missão cumprida, assim.
Neste tipo de reuniões internacionais, que contam com largas dezenas de delegações, cujos discursos se distribuem ao longo de vários dias, as salas estão, em geral, pouco compostas. Há muitos países cujos lugares estão sem ocupantes. Raramente um ministro ouve o discurso de outro, isto é, os oradores chegam apenas uma ou duas intervenções antes da sua vez e, acabada que é a sua função, logo partem para contactos bilaterais. Ou para as compras, quando é caso disso.
Na sala, ao longo dos dias, orgulhosos atrás das placas com o nome dos países, ficam, em geral, os mais jovens funcionários das delegações. Compete-lhes, acabada que seja cada intervenção, dirigir-se à delegação que a proferiu e pedir uma cópia do texto. Pelo sim pelo não, esses funcionários novatos tomam também nota de algum aspeto que tenham por mais relevante, que haja surgido durante as intervenções, por forma a delas poderem fazer um registo, que será enviado às capitais, as mais das vezes acompanhadas dos textos proferidos. Uma tarefe chata, mas essencial.
Esses funcionários de plantão são comummente designados, entre nós, como os "orelhas de aço", porque têm de manter, em permanência, um auscultador plástico no ouvido, para acesso às traduções. Ora fazê-lo por horas seguidas coloca uma pressão na orelha externa, a qual chega dorida ao final do exercício. Perceber-se-á agora melhor o apôdo.
O nosso nóvel ministro chegou à reunião bem antes da sua hora. Sentou-se no centro da delegação, conosco a rodeá-lo (guardo uma fotografia do instante). Chegado o momento da sua intervenção, foi chamado à tribuna pelo presidente da sessão e lá leu, para nosso descanso, numa pronúncia de francês aceitável, o texto exato que lhe havíamos preparado. Recordo de antes ter visto marcadas a lápis, no exemplar que levou para o palanque, as pausas para respiração, prova de que estivera a ensaiar o discurso, na véspera ou nessa manhã. Coisa de "maçarico" mas, igualmente, de pessoa responsável.
O texto saíu-lhe fluído, escorreito... tal como o tínhamos escrito. No final da prestação, enquanto se dirigia ao seu lugar,, ressoaram na sala umas palmas oficiosas e tépidas, nem mais nem menos calorosas do que as que acolhem, neste tipo de reuniões, intervenções idênticas, do Burundi a... Portugal.
Recolhido o ministro ao conforto patrioticamente consensual da nossa bancada, uns nossos "parabéns!", ou "esteve muito bem!" sossegaram-no. Nesse instante, o largo bando de "orelhas de aço" presentes na sala, quais abutres à procura de presa fácil, começou a avançar, de todas as partes da sala, sobre a nossa delegação, com a finalidade de colher exemplares do texto, que entretanto tínhamos fotocopiado às largas dezenas.
Mas, no momento, não foi essa a interpretação do inexperiente ministro. Convencido que todos esses diplomatas de deslocavam à delegação portuguesa para o cumprimentar, deixou-se ficar de pé, no centro da delegação e, para nosso disfarçado embaraço, passou a distribuir apertos de mão, à esquerda e à direita, para espanto e orgulho dessa colmeia de adidos e de terceiros secretários, desses "orelhas de aço", de todas as cores e extrações geográficas, que mais não queriam do que obter simples cópias do discurso, mas acabaram presenteados, cumulativamente, com um caloroso "thank you very much". Foram longos minutos em que nós esperámos, com ansiedade, o fim da romagem.
À saída, tivemos de retorquir ao ministro, que perguntava: "É sempre assim? Vem sempre tanta gente cumprimentar? O nosso discurso caiu bem, não caiu?" Claro que caíu!