terça-feira, 31 de maio de 2011

Pero que las hay, las hay!

Há dois dias, para uma conversa, combinei com um amigo um encontro no bar de um hotel, em Lisboa. Esse amigo vai viver proximamente para o Brasil. Trocámos impressões sobre a cidade onde irá fixar-se e, nela, sobre as pessoas que seria importante que viesse a conhecer. Disse-lhe o nome de uma personalidade (como agora é moda qualificar) "incontornável" da vida daquela cidade, cujo perfil lhe descrevi. Ele tomou nota.

Acabada a conversa, olhei em frente e quem vejo eu, nesse mesmo bar de hotel? A tal pessoa do Brasil, que eu não encontrava há mais de dois anos! Apresentei-a ao meu amigo o qual, não fora o facto de me conhecer de há muito, poderia ter pensado que tudo não passara de um arranjo já combinado...

As coincidências fazem parte da vida. Em especial da minha, como poderão ver se clicarem no marcador "Coincidências", no fundo deste post.

Portugal na Finisterra

A cultura portuguesa é trabalhada em França em muitos, e às vezes remotos, locais. Em Pont-Aven, no extremo da Bretanha, Cristina Isabel de Melo, de quem já aqui falámos há tempos, desenvolve um louvável esforço de difusão, através das Edições Vagamundo

A Vagamundo editou agora, de Nuno Júdice, com tradução da própria Cristina Isabel de Melo, a "Geométrie variable".

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O triângulo

Luanda, 1982.

Eu andava deliciado com o meu Golf Diesel, recém-chegado da Dinamarca, com um confortável ar condicionado. Fui pessoalmente buscá-lo ao porto, depois de esperar semanas que o barco acostasse.

Num dos primeiros dias de utilização do novo carro, ao passar pelo Largo Maria da Fonte (a estátua da libertadora minhota, cuja pertinência num lugar central de Luanda era realmente discutível, tinha sido substituída por um tanque de guerra, razão pela qual todos chamavam ao lugar o Largo Maria do Tanque...), sou mandado parar por uma operação policial, de controlo de tráfego.

- O camarada pode mostrar se os "piscas" funcionam?

Claro que funcionavam. O guarda era jovem, delicado, com uma atitude bem simpática.

Mas a cena era surreal. Ali estava eu, com um carro novinho em folha. a ser fiscalizado (depois dos "piscas" foram os "stops" e sei lá que mais), quando, mesmo ao lado, passavam viaturas sem portas, muitas sem pára-choques, algumas sem pára-brisas, outras de faróis "descaídos" por acidentes.

Diga-se que, na Luanda desse tempo, as dificuldades eram imensas, faltava tudo, era um milagre encontrar uma peça de substituição para qualquer veículo, qualquer coisa de natureza material (a começar na alimentação) só era possível de obter através de "esquemas" ou de conhecimentos, nesse caso com quase garantidos pedido de retribuição de favores, a surgirem mais tarde. As escassíssimas lojas abertas estavam quase vazias, às vezes com alguns objetos inúteis, apenas "para encher montra".

Eu levava com grande bonomia a inspeção, tanto mais que de nada valia ter outra atitude. E a "check-list" ia prosseguindo. A certo ponto, satisfeitos até aí todos os requisitos de segurança de tráfego, o "camarada polícia" (nesse tempo, todas as pessoas eram tratadas por "camarada", recordando-me mesmo de uma testemunha de um roubo que, na televisão, se referiu ao "camarada ladrão"...) teve uma última ideia:

- O camarada tem triângulo?

Sabia lá! Fui à traseira do carro e procurei, junto à roda sobressalente. Qual quê?! Os dinamarqueses tinham-se esquecido de pôr um triângulo no carro!

- O camarada sabe que é ilegal circular sem triângulo?

Eu sabia, mas também sabia que, com ou sem triângulo, o meu novo carro oferecia mil por cento mais condições de segurança do que tudo o que, de mecânico, se movia à nossa volta, desde os automóveis à temíveis "Ifas", uns camiões da RDA que, vistos de frente, estavam sempre inclinados para um dos lados ("sempre para a esquerda", assegurava, grave e irónico, o Chico Neto) e cujo sistema de travagem tinha regulares e trágicas deficiências.

- Tem razão, camarada. Não tenho triângulo. Tenho de comprar um. Onde é que se eles se vendem?

A ironia era pesada. Talvez só a alguns largos milhares de quilómetros de Luanda fosse possível encontrar uma loja onde um triângulo de pré-sinalização pudesse ser adquirido.

O jovem polícia negro fez um largo sorriso, compreensivo, e lançou, amigavelmente:

- Vá com Deus, camarada!

Corrupção

Ontem, durante a campanha eleitoral, alguém estranhou que, de entre as medidas constantes do protocolo assinado com a "troika", não houvesse uma palavra sobre medidas de combate à corrupção, tal como existem relativamente à máquina da justiça e diversas outras áreas de atuação do Estado.

É sabido que as economias marcadas pelo tráfico de influências reduzem a confiança dos investidores e minam as condições para o crescimento, pela desregulação que introduzem no funcionamento dos mercados. Por essa razão, pode estranhar-se que, ao promover um empréstimo de elevado montante a Portugal, com contrapartidas que incluem uma imensidão de condicionalidades, instituições com a experiência e a prudência do FMI, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu não tenham aproveitado para exigir um forte pacote de medidas legislativas para reforço de combate à corrupção, a serem decididas pelo novo parlamento.

Sá há uma - única e insofismável - explicação para esta omissão: as instituições internacionais responsáveis (e aqui não falamos de ONG's, com discutíveis critérios de avaliação) entendem que a moldura legislativa que, em Portugal, enquadra esse tipo de criminalidade é hoje suficiente e adequada.

Com isto, não estou a afirmar que a corrupção não exista, em Portugal, e que não seja importante encontrar fórmulas mais eficazes para lhe fazer frente, nomeadamente no campo da aplicação da justiça. Estou apenas a dizer que, por via indireta, a comunidade internacional atesta que o nosso país dispõe já do arsenal legislativo adequado para a combater. E isto é uma excelente notícia.

domingo, 29 de maio de 2011

Grande Porto



Lembrei-me muito do meu tio Óscar, neste fim de semana. Durante a minha infância, o Porto, para mim, identificava-se muito com ele.

Oficial do Exército na reserva, ia, aos domingos, almoçar à messe, na Batalha e, durante a semana, parava as tardes num grupo de amigos, no Rialto, onde aguardava a chegada do "Diário do Norte". Sendo ele portuense, não me recordo se era portista, sequer se se interessava pelo futebol.  Coleccionava "O Tripeiro", que tinha encadernado na estante, e foi pela mão dele que conheci a "Vida Mundial", quando a publicação consistia  apenas numa recolha de artigos traduzidos da imprensa estrangeira e  ainda era editada no Montijo.

Vivia na Ramada Alta, num andar com um cheiro confortável e indefinível, que nunca esqueci, com uma varanda envidraçada, onde se tomava chá e se via a estátua da rotunda da Boavista. Em noites em que as luzes convertiam o Porto num distante sonho cosmopolita para o jovem que, como eu, visitava a cidade, com o deslumbramento dos que viviam para lá do Marão, daquela varanda via-se passar, ao fundo, um comboio. O tio Óscar, que, com carinho, me mostrou e fez para sempre gostar da sua cidade, nunca teve ocasião de cumprir a promessa que me havia feito de me levar um dia nessa linha, até à Póvoa.

Neste sábado, ao sair do aeroporto do Porto, comprei um "Andante"*, o nome irónico dado ao bilhete do Metro de superfície, que também comporta a tal linha férrea que eu via da casa do meu tio Óscar. É uma viagem calma, por vezes com a triste paisagem de traseiras suburbanas que os comboios proporcionam, outras com vista para aquelas moradias de portas altas com uma imensa numeração, bem típicas de certas ruas do Porto. A certo passo, o Metro emerge de um túnel e ouve-se a voz oficiosa: "Verdes". Aparece uma estação a justificar o nome, no meio de vegetação, de que eu nunca ouvira falar. Recordando o tio Óscar, lá fui, por aí adiante, até ao meu destino, a Trindade.

Nessa noite, ao dizer a um amigo, que encontrei num jantar na Alfândega, que estava instalado pelas bandas da Trindade, num novo hotel, ele retorquiu-me, lembrando quando por aí andávamos, há muitos anos: "Vais dormir perto da Alferes Malheiro? Ó diabo! Ainda acabas a noite na "Candeia"..." Esclareci que, a "Candeia", além de ter já fechado há uns tempos, há meio século que não fazia parte dos meus roteiros do Porto. "Então podes ir a um pomar, muito próximo do teu hotel". Porque conheço muito bem a zona, estranhei que por ali houvesse algum pomar. Ele precisou: "É na Gonçalo Cristóvão, tem excelente fruta". Não percebi nada, mas creio que a graça tem alguma coisa a ver com futebol...

Em tempo: correção feita. O "Andante" é o nome do bilhete e não do metro, como eu pensava. Desatenções...

Barcelona

A frase do treinador do Manchester United, Alex Ferguson, ao considerar este Barcelona a melhor equipa com que se confrontrara na sua longa carreira futebolística, diz muito sobre a qualidade, verdadeiramente rara, deste grupo. Há por ali um estilo de jogo, apoiado num conjunto com grande homogeneidade técnica, que, inevitavelmente, traz à memória a "laranja mecânica" holandesa dos anos 70. Eu diria mesmo: para melhor.

É com espetáculos desta qualidade que o futebol se promove. 

sábado, 28 de maio de 2011

A religião e a comunidade portuguesa

Há dias, reunimos num almoço na embaixada cerca de duas dezenas de sacerdotes católicos, de várias nacionalidades, que prestam assistência religiosa e, muitas vezes, coordenam o apoio social a setores da comunidade portuguesa na região de Paris. A agenda deste que foi o terceiro encontro deste género foi bastante alargada, suscitando a troca da diversidade das experiências que conduzem em cada comunidade.

No que me toca, foi muito importante ouvir pessoas dedicadas à ação social junto da comunidade portuguesa falarem do modo como avaliam o comportamento das várias gerações de origem portuguesa em França, do uso da língua portuguesa à sua relação com outras comunidades culturalmente muito diferentes, os problemas que afetam os mais idosos, a chegada recente de pessoas vindas de Portugal, em busca de ocupação, bem como a forma como a gerações de origem portuguesa mais jovens olham para o nosso país. As questões que se prendem com a atual situação económica em Portugal, com as preocupações que isso repercute na nossa comunidade, estiveram também presentes neste agradável encontro.  

Chandeigne

As edições Chandeigne, como outras vezes aqui foi assinalado, prestam uma contribuição inestimável para a divulgação da língua e cultura portuguesas em França, com uma atenção cada vez mais alargada aos países cujas culturas se exprimem no nosso idioma.

Recomenda-se uma visita virtual ao excelente catálogo da Chandeigne ou, podendo, vale a pena perdermo-nos nas instalações desta "Librairie Portugaise et Brésilienne", no nº 10 da rue Tournefort, a dois passos do Panthéon (tlf.: 01 43 36 34 37).

Este ano, o trabalho de Michel Chandeigne e da sua equipa comemora os seus 25 anos de existência. No segundo semestre de 2011, a Embaixada de Portugal em França vai participar nesta comemoração e no agradecimento que todos devemos a quem tem feito um notável esforço pela promoção da lusofonia cultural em França.

Neste final de semana, porque nos aproximamos do "Dia de Camões", sugere-se uma saltada ao stand 505 do Marché de la Poesie, na place Saint-Sulpice, onde a Chandeigne apresenta uma cuidada edição bilingue dos Sonetos de Luís de Camões.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Van der Saar e o Azevedo

Por compromissos da vida, não vou poder ver em direto a final da "Champions League", hoje à noite. E assim vou perder a despedida de Van der Saar, do Manchester United, que considero um dos melhores guarda-redes de sempre.

O futebol vive muito concentrado em quem pode fazer golos e menos em quem os pode evitar. É claro que um guarda-redes, por regra, não ganha os jogos, mas pode fazer a equipa perdê-los. Que o diga o Benfica de 2010/2011...

O lugar do guarda-redes é o mais ingrato de toda a equipa. Já alguma vez se colocaram na linha de golo, dentro de uma baliza? São 7 metros e 32 de poste a poste, com a trave que as liga a 2 metros e 44 do chão. À frente, a marca dos penaltis é a 11 metros. Parece longe, mas, vista da baliza, é logo ali, podem crer. Repito: se nunca experimentaram, coloquem-se um dia numa baliza, para poderem melhor apreciar a dificuldade do mais ingrato lugar do futebol.

Van der Saar deu-me sempre a ideia de ser o guarda-redes ideal para gerar confiança a uma equipa. Com o ar falsamente "boyish" dado pelos cabelos espetados, de fácies algo angustiado, denotando extrema concentração, vi-o fazer maravilhas perante situações impossíveis. A seleção holandesa e o United devem-lhe muitas horas felizes. 

Mas é claro que Van der Saar não é "o" Azevedo... 

Para quem o não saiba, convém explicar que o Azevedo é algo que faz parte da mitologia do Sporting. Trata-se de um guarda-redes que ganhou foros de lenda, nos tempos em que o clube era vitorioso em campeonatos nacionais, quase com a mesma facilidade com que o Porto agora o faz. Apenas algumas fotografias nos restam do Azevedo (aqui está uma), o qual, um dia, terá mesmo terminado um jogo de braço ao peito! 

Recordo-me que o meu pai, leão sofredor (o tempo tem consagrado a expressão como pleonasmo), durante décadas, quando se falava da qualidade de um qualquer grande guarda-redes do Sporting, de Carlos Gomes a Damas, relatizava sempre: "mas está muito longe de ser o Azevedo...". Eu não tinha argumentos para contrariar, nunca vi jogar o Azevedo, até pela simples razão de que ele terminou a sua carreira um ano antes de eu nascer! Mas, aqui entre nós, acho que o Van der Saar não lhe deve ficar longe. É a melhor homenagem que um sportinguista lhe pode prestar.

Jóias

É uma atividade económica muito particular, onde a indústria de confunde com a arte. Ontem, apresentámos na Embaixada, para jornalistas, profissionais e alguns convidados, um conjunto de jóias produzidas em Portugal, no norte, pela Rosior. Pelas reações ouvidas, a exposição dessas peças únicas surpreendeu pela positiva.  

A imagem de Portugal, num mercado tão exigente como Paris, também se faz destas mostras daquilo que o país produz, com grande qualidade e rigor na promoção comercial.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A política e o ridículo

Tendo em atenção o facto das canções em flamengo não constituirem uma base musical que possa comparar-se à produção existente em língua francesa, nomeadamente em termos de popularidade, o metro de Bruxelas tomou a sábia decisão de passar a colocar no ar, como música ambiente, apenas canções em inglês. O objetivo é preservar o equilíbrio a que o estrito biliguismo franco-flamengo (duvido mesmo que seja legal usar este termo) obriga.

Quase que dá vontade de pedir uma "chance" para o esperanto. Mas "chance" é francês, cuidado.

Jornal da tarde

Senti que havia qualquer coisa de Lisboa, anos 70, no Paris de hoje. 

Num restaurante da "rive gauche", a animação da chegada do vendedor do "Le Monde", à hora do café, no fim do almoço, que João Gomes Cravinho e eu pudémos testemunhar, fazia lembrar (a mim, porque ele não tem idade para isso) o surgimento dos ardinas, na tarde lisboeta, a anunciar o "Diário de Lisboa" e os restantes vespertinos. Mesmo a impublicável graça com que o "Monde" foi anunciado.

Será também por isso que Paris "diz" tanto a uma certa geração portuguesa.

"Kill the messenger"?

Há uns tempos, quando uma aluna agrediu uma professora que lhe retirara o telemóvel numa aula, recordo que o primeiro cuidado foi procurar saber quem filmara a cena e a colocara no YouTube, para a respetiva responsabilização criminal. 

Agora, perante a difusão, pela internet, de  brutal agressão de que uma adolescente foi objeto por parte de duas colegas, a televisão portuguesa entrevistou "sumidades" sobre a gravidade... da filmagem e difusão da cena. Com a descoberta de que o "realizador" tem antecedentes criminais, as consciências acalmaram-se. 

A divulgação de ambas as cenas, independentemente da motivação de quem o fez, acaba por ter um efeito pedagógico. Eu diria mais: acaba por permitir que alguém trate dos factos ocorridos, o que provavelmente não aconteceria se o YouTube não tivesse intervindo.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Dobragem

Nunca, em toda a minha vida, vi um filme ou um episódio completo de uma série televisiva que fosse objeto de dobragem. É uma opção pessoal, de que nunca me afastei. Tendo vivido em alguns países em que a dobragem das séries estrangeiras era a regra, há muita coisa que não vi e outra que tive de comprar em DVD. 

A primeira vez que recordo de me ver confrontado com uma dobragem terá sido em Verin, em Espanha, nos anos 60. Na sala de estar do único hotel daquela vila, desatei às gargalhadas, para espanto dos restantes clientes, ao ouvir, na série televisiva "Bonanza" (quem se recorda?), passada no Texas americano, as exclamações ingénuas de Hoss, ditas em castelhano. Há pouco tempo, noutra cidade espanhola, apareceu-me, na televisão do quarto de hotel, o "Casablanca" dobrado. Foi como assistir a uma comédia, particularmente para quem, como eu, conhece, de cor, diálogos de certas cenas. Para bem se entenderem os malefícios da dobragem, basta que se imagine em que "estado" ficariam os ditos lisboetas de Vasco Santana ou de António Silva se "O Pátio das Cantigas" fosse dobrado em espanhol...

Hoje, assisti, por minutos, à cena mais ridícula a que dobragem pode conduzir. Tratava-se de um diálogo entre uma escocesa e um inglês. A totalidade da graça subjacente ao texto tinha a ver, não apenas com a fonética e as diferenças no sotaque, mas igualmente com alguns trocadilhos, que só seriam possíveis de entender em língua inglesa. Pressentia-se essa graça "ao longe", por detrás da dobragem, mas apenas para quem conseguisse presumir o texto original. Um puro absurdo. Em francês.

A indústria da dobragem é uma "mina" para os atores, pelo que é imensamente protegida por esse lóbi e por um comodismo da habituação no público, que acaba por funcionar em detrimento de um melhor conhecimento das línguas estrangeiras. Em alguns países ainda tem, como justificação com fundamento "democrático", a existência de analfabetismo e a necessidade de facilitar a essas pessoas o acesso ao conteúdo dos filmes. Só que esse argumento não colhe, aqui em França.

Em tempo: reconheço que a dobragem de filmes infantis é um caso bem diferente

Lobo Antunes

Há um notório fascínio, em França, pela escrita de António Lobo Antunes. Com exceção de dois dos seus livros, toda a obra do escritor português está já traduzida em francês. Ontem, no centro cultural da Gulbenkian - que estás prestes a mudar de endereço, aqui em Paris - Lobo Antunes falou, para umas largas dezenas de atentos ouvintes, sobre o modo como um livro nasce.

Na sua exposição solta, de mais de uma hora, deu exemplos curiosos sobre a experiência de alguns autores e, com grande franqueza, não se eximiu a expor a sua (às vezes chocante) hierarquia de preferências literárias, dando também notas sobre o modo como avalia o estado atual da literatura em diversos países. Na resposta a uma pergunta, referiu que talvez nunca viesse a escrever "o" livro, considerando que a consumação de uma obra, para um escritor, seria o "encadernar da vida". E, citando John dos Passos, concluiu que escrever é, no fundo, "passear pela rua".

A contrastar com a cruel ironia que marcou muito da sua palestra, pude observar, horas depois, toda a frágil sensibilidade do escritor exposta na emoção com que evocou, num pequeno grupo, a saudade do seu íntimo amigo Ernesto Melo Antunes.  

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ainda Strauss-Kahn

Pode parecer excessiva a insistência sobre o caso de Dominique Strauss-Kahn. A verdade, porém, é que isso mais não corresponde do que à importância que o assunto assume aqui em França, onde é objeto de comentários por parte de qualquer cidadão, no exercício daquilo a que Jean-Luc Godard chamava o "direito à impressão". Dando também razão à ironia clássica de Oscar Wilde segundo a qual "só as pessoas superficiais é que não julgam pelas aparências".

Hoje deixo duas notas, muito diferentes, sobre Strauss-Kahn.

A primeira sobre o seu trabalho à frente do FMI. Relembro apenas o subtítulo do editorial do último "The Economist": "Whatever the man did, do not forsake his ideas: they are more important". Quero com isto dizer que é da maior relevância conseguir preservar, na liderança que lhe irá suceder, o espírito novo que Dominique Strauss-Kahn soube transmitir ao FMI, o modo como conseguiu modular a rigidez e a cegueira dos números, a insensibilidade social que marcou muitos dos "ajustamentos estruturais" liderados e impostos, no passado, por esta instituição de Bretton Woods. Os "developing countries" podem ter muitas reticências sobre a personalidade de Strauss-Kahn, mas é hoje uma evidência que não irão esquecer o modo como ele soube adaptar positivamente a filosofia de atuação da organização. Além disso, vale a pena também ter presente a forma como Strauss-Kahn soube impor o FMI no quadro do G20, como conseguiu reforçar substancialmente os meios financeiros ao seu dispor, contribuindo também para um mais justo posicionamento relativo dos países emergentes no processo decisório dentro do Fundo. O mandato de Strauss-Kahn dentro do FMI foi um imenso sucesso, agora contrastantemente sublinhado pela tragédia pessoal em que está envolvido.

Apenas uma vez, e por breves minutos, me recordo de ter falado com Strauss-Kahn, nos momentos que antecederam um almoço oferecido por Lionel Jospin a António Guterres, em Matignon, creio que em 1999. Nem faço ideia do que falámos. Durante esse almoço, teve lugar uma cena algo caricata. 

A certo momento do repasto (aliás, recordo, com excelentes vinhos), achei que deveria transmitir ao primeiro-ministro português uma informação, que me parecia poder ser-lhe útil na sequência da conversa. Eu estava à esquerda de Jospin, que tinha em frente António Guterres, o qual, por sua vez,  dava a direita a Dominique Strauss-Kahn. Gatafunhei umas notas nas costas de um menu, em que devo ter escrito qualquer coisa do estilo: "Seria importante lembrar a Jospin que..." ou "A França não pode esquecer que..." ou outros comentários do género. Era uma nota para ser lida apenas por António Guterres, porque, lembro-me, tinha elementos algo sensíveis na forma como estavam apresentados. Dobrei o menu e, a um empregado de mesa que passava, pedi que o entregasse ao primeiro-ministro português, do outro lado da mesa. O homem terá entendido menos bem o que eu disse, deu a volta à mesa e passou a minha nota a... Dominique Strauss-Kahn, que estava precisamente à minha frente. 

A conversa entre Jospin e Guterres ia animada e eu não tinha a menor possibilidade de a interromper, para dizer ao ministro da Economia e Finanças francês que a nota não lhe era dirigida, mas sim ao seu parceiro do lado. Embaraçado, gesticulei discretamente para chamar a atenção de Strauss-Kahn, o qual, no entanto, se dedicava a ler, com toda a atenção, aquilo que eu tinha escrito, em letras maiúsculas, desejavelmente "for the eyes only" do meu primeiro-ministro. O governante francês deve ter percebido o essencial do texto. Quando acabou a leitura, olhou para mim, esboçou um sorriso e passou o papel a António Guterres. Enfim, imprudências que se cometem...   

Saudades de Woody Allen

Durante anos, fui um consumidor compulsivo da obra de Woody Allen. Não vi todos os seus filmes, mas creio ter visto os principais. Como é óbvio, de alguns gosto mais do que de outros, sendo que coloco certos trabalhos seus no registo das obras-primas de estimação. Allen é uma personalidade genial, como raras que aparecem na história do cinema.

Há dias, fui ver "Midnight in Paris", o seu último trabalho. É um filme "certinho", para consumo fácil, uma caricatura quase "turística" de Paris, recheada de clichés. Trata-se de uma imagem da capital francesa e da história mitificada da sua vida intelectual, desenhada por um americano culto que retrata alguns que o são menos, o qual tem a (superior) qualidade de, uma vez mais, utilizar atrizes (ou quase) bastante bonitas. Enfim, Allen converteu-se hoje num eficaz autor comercial, tecnicamente muito competente, mas um mero criador de produtos de que facilmente nos esquecemos, minutos depois de saírmos da sala de cinema.

Que saudades de "Annie Hall", "Hannah and her sisters", "Crime and Misdemeanors" ou "Zelig" !

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Notícias da lavoura

No auge dos tempos revolucionários de 1975, o Alentejo vivia sob as movimentações da Reforma Agrária, com a ocupação das propriedades rurais e o ataque aos respetivos detentores - os "grandes agrários", tidos como historicamente responsáveis por graves injustiças sociais e económicas, autorizadas e protegidas pela lei e pela repressão policial, durante a recém-abolida ditadura. "A terra a quem a trabalha" era o lema que dava corpo a um movimento tendente a forçar uma reversão de poder, onde o Partido Comunista Português teve grande influência, nele se destacando a criação das UCP's (Unidades Coletivas de Produção), estruturas emblemáticas no novo modelo produtivo em expansão nas grandes propriedades. A realidade agrária alentejana iria ter impactos muito fortes nos equilíbrios da governação do país, podendo considerar-se que, durante vários anos, marcou fortemente a evolução da política interna portuguesa, muito embora o saldo final de toda essa turbulência tenha ficado muito longe dos objetivos revolucionários originais.

Com a Reforma Agrária a marcar então, quase quotidianamente, a agenda política nacional, passava-se, na televisão portuguesa, um fenómeno bizarro, quase marginal mas que, visto à distância, não deixa de ter alguma curiosidade. Sobrevindo do tempo anterior ao 25 de abril, mantinha-se na grelha de emissão da RTP o programa "TV Rural", dirigido pelo engº Sousa Veloso, uma figura sorridente e cordial, que anos de presença regular no écran haviam transformado num visitante virtual da casa de todos os portugueses. E de que falavam os programas de Veloso? Da "outra" vida rural, da "lavoura", de experiências agrícolas e de práticas de produção tidas por exemplares. Enquanto no Alentejo arrancavam as campanhas mobilizadoras para a viabilização produtiva das UCP's ou das novas cooperativas, Sousa Veloso mostrava-nos, impávido aos ventos da Revolução, a glória da pêra-rocha do oeste, a safra desse ano dos melões de Almeirim, os resultados do combate ao míldio nas uvas do Dão ou as novas técnicas usadas no azeite da terra quente transmontana. Nem uma palavra sobre o Alentejo!

O blogue de um embaixador de Portugal, neste "verão quente" da política portuguesa, pode, por razões que a obviedade explica, ser comparado ao "TV Rural" de Sousa Veloso. Digo isto para que não estranhem que, nestes tempos mais próximos, eu me continue aqui a ocupar apenas da minha "lavoura".

Narrativa

Começou em Portugal há poucos anos, insinuou-se em alguns discursos - primeiro nos académicos, depois nos mais vulgares -, foi retomada, como nota de procurada erudição, pela imprensa escrita (neste sábado, contei-a um monte de vezes em vários textos no "Expresso") e agora persegue-nos por todo o lado, dos blogues à conversa: é o uso intensivo da palavra "narrativa". 

Estejam atentos! É um dos vocábulos da moda. Dele não vem mal nenhum ao mundo, mas a mim irrita-me, por ser hoje produto de uma espécie de mimetismo. Neste blogue, garanto, não haverá nunca "narrativas"...

domingo, 22 de maio de 2011

DSK e as siglas

O destino do antigo diretor-geral do FMI e putativo candidato socialista à presidência francesa, Dominique Strauss-Kahn, continua a dominar o mundo mediático local. As televisões despacharam correspondentes para Nova Iorque, que dizem mais ou menos aquilo que opinam os nossos esforçados enviados, mas, nem por isso, os telejornais têm um minuto que seja a mais, para além dos 30 habituais. Em Portugal, bem deveria aprender-se com este exemplo.

Strauss-Kahn é aqui vulgarmente referido na imprensa escrita pela sua sigla do seu nome - DSK. Ontem, dei comigo a tentar lembrar-me a quem esta simplificação nominal também se aplicou ou aplica aqui em França. Pode ser que haja outros, mas, de memória, só vejo os seguintes: o desaparecido jornalista e político Jean-Jacques Servan-Schreiber (JJSS), a atriz Brigitte Bardot (BB), o jornalista televisivo PPDA (Patrick Poivre d'Arvor), a antiga ministra Michèle-Alliot Marie (MAM), o filósofo Bernard-Henri Lévy (BHL) e a ministra do Ambiente, Nathalie Kosciusko-Morizet (NKM). 

Não é fácil uma justificação para a ocorrência destes diferentes casos e, em especial, para não haver muitos outros. A única destas siglas que representa um acrónimo (isto é, que se lê como uma palavra) é "MAM" e há quem diga que o estilo pessoal "régalien" da antiga ministra pode também ter ajudado a fixá-lo. No caso de JJSS, a sua frustrada tentativa de reproduzir na Europa um estereótipo americano, na senda de Kennedy (JFK), terá contribuído para a criação da sigla. Nas restantes siglas, a sonoridade fácil de BB e PPDA e a complexidade dos dois outros nomes (com as consoantes H e K a reforçarem a "estranheza" fonética) igualmente podem ser uma justificação. Mas não sei se estarei certo. Verdade seja que ser identificado mediaticamente por uma sigla acaba por ser um fator distintivo bastante prestigiante, porque traduz um duplo reconhecimento público (o nome e a sigla que o simplifica). Tenho a sensação que nenhum político desdenharia essa possibilidade. Diria mesmo mais: todos lutariam para a obter.

Não conheço bem a situação noutros países. Nos Estados Unidos, surgem-me à ideia Franklin Delano Roosevelt (FDR) e John Fitzgerald Kennedy (JFK), ajudados, no presente, pelo facto de, no primeiro caso, dar o nome a uma importante artéria de Nova Iorque (FDR Drive) e, no segundo, a um aeroporto da mesma cidade (JKF Airport). Com um grau diferente de popularidade, aparece LBJ (Lyndon Baines Johnson), vice-presidente e sucessor de Kennedy, que se presume tenha começado a ser designado por uma sigla na senda da daquele. No Brasil, julgo que há apenas três nomes que a imprensa consagrou como siglas: os antigos presidentes Juscelino Kubitchek (JK) e Fernando Henrique Cardoso (FHC), bem como desaparecido político baiano António Carlos de Magalhães (ACM).

Desconheço o que passa noutros países, mas noto que, por exemplo, no Reino Unido não há esse costume, muito embora a importância da sua imprensa tablóide, com títulos garrafais a incitar à simplificação, pudesse ajudar a isso.

E em Portugal? Não me recordo de algum político ou figura pública* objeto de designação simplificada por uma sigla. Salvo um velho jogador do Vitória de Setúbal, Jacinto João, que a imprensa sempre designava por JJ. Sigla idêntica à que, nos anos 60 e 70, utilizávamos informalmente para um professor universitário, que o destino viria a trazer para as páginas dos jornais. Também por razões de justiça.

* Em tempo: os comentários começam a corrigir este post 

Falhas detetadas no texto
Em França: VGE (Valéry Giscard d'Estaing)
Em Portugal: MEC (Miguel Esteves Cardoso), BB (Baptista Bastos), EPC (Eduardo Prado Coelho) e APV (António-Pedro de Vasconcelos)

sábado, 21 de maio de 2011

Campanha eleitoral

Imagino que alguns possam entender que não fica bem a um embaixador de Portugal confessar isto, mas devo dizer que tive uma imensa (e, até agora, íntima) surpresa ao constatar que, oficialmente, a campanha eleitoral, em Portugal, só hoje é que vai começar...

Mas, muito a sério, vote!

Fim do mundo

Hoje, segundo alguns setores religiosos nos Estados Unidos, é o dia em que o mundo vai acabar. Não sabemos a hora, mas convém aproveitar o que ganhamos com a diferença dos fusos. Até amanhã.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Schengen

E volto a lembrar o Luxemburgo, onde fica a pequena localidade de Schengen, que deu o nome ao acordo de que tanto se fala.

O acordo de Schengen, que prevê a livre circulação de pessoas num muito alargado espaço dentro da União Europeia, foi uma das mais emblemáticas conquistas do processo integrador do continente. Portugal revelou-se um dos países mais impulsionadores do início do projeto, através de Vitor Martins, o secretário de Estado dos Assuntos Europeus que me antecedeu, como sempre fiz questão de sublinhar. E a ele nos temos mantido fiéis, a partir de então.

Todos os países aderentes a Schengen tiveram, desde sempre, a consciência de que haveria alguns riscos associados à fixação desta zona de liberdade de movimentos. Muitas dessas preocupações, à época, ligavam-se à criminalidade interna. Recordo-me que, um dia, em Bruxelas, nos anos 90, quando alguém louvou publicamente, numa reunião, a maravilha que iriam ser as facilidades de deslocação de turistas da Bélgica para as belas cidades italianas, alguém ter comentado: "... e dos mafiosos da Sicília para cá!". Mas as grandes discussões iniciais em Schengen estavam centradas na questão do reforço das fronteiras externas, em especial dos aeroportos, pela consciência que se tinha de que a fragilidade revelada por qualquer dos países integrantes acabaria por se repercutir sobre a generalidade dos parceiros. E, diga-se, a peculiaridade da situação geográfica italiana, que hoje domina o debate, era, já então, o centro das atenções.

Durante seis meses, em 1997, Portugal presidiu ao acordo de Schengen. Organizámos então uma importante reunião de ministros em Lisboa, na qual, devo hoje confessar pela primeira vez, como alguns especialistas portugueses então lá presentes poderão testemunhar, só consegui fazer vingar um compromisso final... pela fome! Prolonguei a reunião por horas, com sucessivos "drafts", até conseguir o que pretendíamos. O almoço oferecido aos delegados, no CCB, só começou quase às 4 horas da tarde, com alguns a perderem aviões.. Nessa reunião foi longamente debatida a questão da calendarização do processo de adesão da Itália. O ministro italiano do Interior tão contente ficou com a fórmula que adoptámos que, no final, me pregou dois repenicados beijos na cara. Chama-se Giorgio Napolitano e é hoje presidente da República do seu país. Durante a presidência portuguesa da UE, em 2000, acabaria por ser graças a ele, como presidente da comissão institucional do Parlamento Europeu, que conseguimos o "avis" que permitiu o lançamento da negociação da Conferência Intergovernamental. A Europa faz-se também destas retribuições.

O compromisso de Lisboa consagrou também, entre outras conclusões, aspetos importantes da ligação de Schengen à zona nórdica de livre circulação, que inclui países não membros da União Europeia, como a Noruega e a Islândia, num período que era ainda distante do que viria a ser o grande alargamento da UE - que acabou por acarretar novas questões para o acordo. E fomos também nós quem lançou as bases para o lançamento do importante sistema de informações pessoais, sem o qual Schengen não poderia funcionar. Curiosamente, anos mais tarde, em 2007, voltaria a ser Portugal a estar no centro da melhoria desse mesmo sistema, durante a presidência portuguesa da UE, em 2007.

Hoje, o funcionamento de Schengen, um acordo agora plenamente integrado na UE (coisa que não era em 1997), é objeto de algumas fortes críticas, sob pressão dos novos problemas criados pelos fluxos migratórios externos e pela emergência de dificuldades sentidas em alguns países, onde mobiliza as agendas políticas internas, em temáticas ligadas à imigração e à criminalidade. Algumas salvaguardas, cumulativas às que já existem, podem, assim, vir a ser necessárias, numa eventual revisão do acordo. Tenho esperança, contudo, que elas não venham a colocar em causa o essencial do sistema. Porque Schengen, na sua essência, constitui uma das faces mais significativas da integração europeia.

O estado da bola

Um amigo, que tem tempo para pensar, fez-me chegar a seguinte questão:

"Porque é que neste país em que nada funciona, funciona tão bem o futebol? Que regras o regem que não são utilizadas nos demais sectores? Como se poderia adaptar o modelo do futebol aos demais sectores do país, económicos e outros? "

Não sendo eu tão radical quanto à constatação de que em Portugal nada funciona, não deixo de considerar pertinente este questionamento.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Música

Há uma caricatura, frequentemente tida por regra, segundo a qual a vida de um diplomata é feita entre cocktails e outros momentos tidos por lúdicos. Não é esse o nosso quotidiano, muito longe disso, podem crer.  Mas esses momentos, às vezes, acontecem.

Ontem, ao final de um dia cansativo de trabalho, devo dizer que me fez muito bem ir ouvir, a convite e na residência do meu colega luxemburguês, um magnífico espetáculo de música dos séculos XVII e XVIII, interpretada pelo conjunto Artemandoline. Uma curiosidade: trata-se de um grupo luxemburguês composto por músicos de várias origens... mas nenhum luxemburguês! Quase estranhei não ver um português entre eles, tal a dimensão da nossa comunidade local. O Luxemburgo é um excelente exemplo da riqueza da diversidade europeia.

No final, todos elogiávamos o espetáculo, mas as conversas convergiam, maioritariamente, sobre as peculiaridades da justiça americana e a saída da prisão de Dominique Strauss-Kahn, de que tínhamos acabado de ter conhecimento. A França, dividida e interrogativa, continua a viver esta questão como tema central de polémica e curiosidade.

Saí cedo, porque ainda queria ver o debate eleitoral da noite portuguesa. É que a nossa música é outra. 

"L'air du temps"

Não há necessidade de revelar em que ministério isto se terá passado, já há bastante tempo.

Uma tarde, um elevador parou num andar. Uma senhora entrou, logo seguida de um governante da época, acompanhado por colaboradores. Amável, o político perguntou-lhe:

- Para que andar vai?

- Para o quarto, por favor.

Reação pronta e risonha do governante:

- A esta hora?

A história é verdadeira. Tendo em conta “l’air du temps”, apeteceu-me recordá-la.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Azul

Merecida e incontestável vitória da onda azul do Porto - sem a menor dúvida a melhor equipa portuguesa da atualidade. Esta conquista da competição sucessora da Taça das Cidades com Feiras completa uma bela época.

Foi bonita uma final portuguesa em Dublin, embora o futebol jogado estivesse muito abaixo daquilo que seria de desejar. Como se costuma dizer, o Braga foi um "digno vencido". Mas foi também sido um merecido derrotado.

Neste mesmo dia em que o Lille, aqui em França, acaba praticamente de ganhar o título nacional, dias depois de ter vencido a Taça, não me posso esquecer que assisti, há meses, precisamente em Lille, àquela que hoje se sagrou como a melhor equipa de França a ser derrotada por 3-1 pelo Sporting, com uma equipa quase de reservas. Ia-nos valer de muito...

terça-feira, 17 de maio de 2011

Délio Machado

Chegou-me a notícia: morreu, em Vila Real, Délio Machado. Imagino que a esmagadora maioria dos leitores deste blogue não faça a menor ideia de quem ele era. Tratava-se de um homem simpático, na casa dos 80 anos, com um permanente sorriso, uma figura cuja imagem fazia parte do meu cenário da cidade, desde a infância. De uma família visceralmente "republicana" (vocábulo para significar "democrata"), foi um cíclico activista nas escassas aberturas "eleitorais" do Estado Novo.

No pequeno mundo que era Vila Real, no final dos anos 60, aproximei-me dele por via da política. Ele era um moderado, num tempo em que eu era um radical. Recordo, por exemplo, discordarmos fortemente sobre o modo de abordar o tema da política colonial. Trabalhámos juntos, e conhecemo-nos melhor, na montagem da máquina da Comissão Democrática Eleitoral, que, em Vila Real, concorreu às "eleições" de 1969. No alto dos meus 21 anos, com ele e com Otílio de Figueiredo, coube-me então a honra de integrar a delegação que fez a entrega formal da lista oposicionista do distrito ao Governador civil do regime.

Délio Machado era um eficaz operacional político. No seu rápido NSU - ele que foi sempre um homem dos automóveis - corremos "seca e meca" a tentar mobilizar figuras tidas como "gente fixe", em diversas localidades, pessoas que tinham estado "conosco" (não comigo, claro) nos tempos "do Norton e do Delgado". Tivemos então algumas boas surpresas, muitas outras desilusões e, numa tarde, escapámos por uma unha negra a uma sova de varapau em Abaças, ameaçados por gente da "situação". No final dessa bela aventura política, levámos uma já esperada "abada", sob a criativa aritmética de resultados da ditadura. Mas divertimo-nos imenso. E ficámos, para sempre, com uma relação de amizade e solidariedade.

Passaram, entretanto, quatro décadas. A vida fazia com que nos encontrássemos apenas a espaços, nas minhas passagens por Vila Real. Falávamos da política de hoje e recordávamos, por vezes, episódios dessa intensa jornada de outrora. Chegámos mesmo a planear organizar algo para fixar a memória desses tempos. Tal, porém, nunca se proporcionou.

Há poucos anos, teve a amabilidade de me oferecer a sua documentação política, que ainda não tive oportunidade de tratar. Agradeci-lhe o gesto, numa visita que lhe fiz, no lar onde estava alojado, no último dia de 2009, a desejar-lhe um bom ano. Não tive possibilidade de lhe ir dar um novo abraço, como era minha intenção, no final do ano passado. E, agora, já não o posso fazer.

Justiça

Todos vivemos, desde há décadas, com o mundo judicial americano perante os nossos olhos, pelas centenas de filmes e séries que fomos consumindo, pelas cenas das audiências e de interrogatórios cruzados que fazem parte do nosso imaginário.

Um dia, na minha adolescência, fui assistir, presencialmente, a um julgamento num tribunal português. Lembro-me de ter ficado surpreendido, porque a realidade que observava, em toda a sua liturgia e coreografia, era substancialmente diferente daquilo que eu considerava normal. É que a "normalidade", para mim, eram Perry Mason e outras personagens desse universo judicial onde se jura sobre a Bíblia.

Lembrei-me disto ao ver, há minutos, já não em ficção mas em crua realidade, Dominique Strauss-Kahn, com algemas nos pulsos, a comparecer, sob a curiosidade das câmaras de todo o mundo, a um tribunal novaiorquino. Chocou-me o tratamento humilhante a que um suspeito é sujeito nos Estados Unidos, numa exposição cruel e prematura da sua imagem, sem direito à uma proteção salvaguardadora da presunção legal de inocência, nesta fase primária do seu processo.

Dir-me-ão que cada sistema judicial tem as suas regras, que a justiça americana é eficaz e deve ser respeitada nos métodos que utiliza, pelos vistos aceites pelos seus cidadãos. Concedo que assim possa ser. Contudo, ninguém me pode negar o direito de pensar que, tal como considero bárbara e inaceitável a pena de morte, tal como lamento que os EUA eximam os seus cidadãos ao Tribunal Penal Internacional, há aspetos do sistema americano de justiça que ficam muito àquem dos valores de civilização a que devo obediência. Mesmo sem Bíblia.

Gosto demasiado da América para me privar do dever de dizer aquilo que nela não gosto.   

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Belmondo

Não é pacífica a doutrina crítica sobre as virtualidades de Jean-Paul Belmondo como ator. 

Amanhã, vai ser homenageado no festival de Cannes e grande parte da França congratula-se com isso. Belmondo ainda é um ícone para uma certa geração francesa. 

Apetece-me recordá-lo hoje aqui, ao lado de Jean Seberg, numa cena de um filme de Jean-Luc Godard que - esse sim! -  faz parte da minha eterna memória afetiva, o "À bout de souffle".

domingo, 15 de maio de 2011

Música na Embaixada

Teve lugar na Embaixada de Portugal em Paris o 10º concerto da série "Entre-pautas/Entre-partitions". Desde há cerca de dois anos, iniciámos a apresentação, que tentámos fosse tanto quanto possível regular, de artistas portugueses, cultores de diversos estilos musicais, em sessões dedicadas, essencialmente, a convidados franceses e a setores diplomáticos. Mostrar a cultura de Portugal aos estrangeiros é uma das tarefas que incumbem às nossas representações diplomáticas.

O número limitado de lugares disponíveis impede-nos, em absoluto, de ir mais longe na abertura a outros públicos, como seria desejável. Acresce que estes espetáculos são realizados com escassíssimos meios financeiros (nem um euro sai do orçamento da Embaixada, convém notar), quase sempre contando apenas com a "prata da casa", com a colaboração benévola dos artistas e obrigando, caso a caso, a uma complexa reconversão de áreas da residência oficial portuguesa.

Na passada sexta-feira, desta vez em articulação com a Casa de Portugal na cidade universitária parisiense, apresentou-se Ana Paula Russo, acompanhada ao piano por Pedro Vieira de Almeida, com a participação de Ariana Moutinho-Russo. A soprano ofereceu, para mais de uma centena de pessoas, um excelente programa, com música e palavras de grandes autores portugueses. Um belo fim de tarde.   

Choque

A França é, no dia de hoje, uma sociedade em estado de choque, pelos acontecimentos que envolvem Dominique Strauss-Kahn. 

Aquele que era a mais importante personalidade francesa investida de um cargo internacional, e que se sugeria como o potencial melhor candidato da oposição à eleição presidencial de 2012, entrou num ciclo de tragédia pessoal que, aconteça o que vier a acontecer, mudou já o curso da história política da França nos tempos mais próximos. 

Uma grande simpatia vai, neste momento, para a autora do homónimo blogue "Deux ou trois choses".

Mourinho

Vale a pena ler a análise ao papel que José Mourinho desempenha atualmente no imaginário dos adeptos do Real de Madrid, no artigo hoje publicado pelo "El Pais", sob o título Fe en Mou.

Polarizador de emoções, o treinador português suscita sentimentos contrastantes, corre nos limites dos riscos e acabou por se tornar numa figura central no futebol e até na própria sociedade espanhola.

sábado, 14 de maio de 2011

"Homens da luta"

Não sei (nem me interessa, confesso) se esta minha afirmação vai parecer pouco patriótica a alguns, mas ao passar ontem pela cobertura televisiva do famigerado festival da Eurovisão, não senti a menor saudade pelo facto de por lá já não ver os "Homens da Luta", o grupo "musical" que, aparentemente, terá sido escolhido para representar um certo Portugal (digo "um certo", porque me não representou a mim, pelo menos) nesse certame.

Há alguns tempos, menos bons, em que os povos se envolvem em atitudes de pungente auto-flagelação, que conduzem à consequente degradação da sua imagem, à revelação de facetas de si próprios que o bom gosto, e até um mínimo de urbanidade, recomendaria fossem mantidos em pudico recato.  Esses são também os momentos em que, por exemplo, vemos o léxico público descer dos limites recomendáveis de salubridade verbal, em que o abandalhamento parece tomar conta de alguns discursos. Quando assistimos, infelizmente já sem nos surpreendermos, ao nível a que desceram certas "queima das fitas", bem como à escolha das figuras musicais que são convocadas para animar algumas alarves libações, isso diz-nos bastante sobre o país que hoje, infelizmente, (também) somos.

Neste campo, devo dizer que só com um imenso esforço de imaginação seria possível escolher melhor, como representação caricatural daquilo que alguns estrangeiros sempre pensaram de nós, uma "euro-visão" do nosso país como aquela que os "Homens da Luta" por aí apresentaram. E mais não digo, porque isto é triste, porque isto existe, porque isto é (o nosso) fado.   

E esta, hein?

A informação

A elaboração de "informações de serviço", em folhas de papel amarelo, era, em tempos idos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, um método através do qual às chefias era dado perceberem se os jovens diplomatas sabiam... escrever português. O mesmo acontecia, aliás, com os chamados "apontamentos de conversa", neste caso em papel azul, que relatavam contactos testemunhados entre os chefes e visitantes estrangeiros, aqui com a vantagem acrescida de permitirem aferir se quem os elaborava tinha, ou não, o bom senso de transcrever o essencial do que fora dito. E, muito em particular, a sabedoria de omitir o que fora dito mas não deveria ser anotado.

Num desses tempos de início de carreira, a um jovem "adido de embaixada" foi pedido que preparasse um estudo sobre as relações económicas entre Portugal e um determinado país. Com os elementos recolhidos dos arquivos do MNE, de documentação do então Fundo de Fomento de Exportação (que veio a redundar na atual AICEP), da Direção-Geral do Comércio Externo e de outras fontes ministeriais então muito ligadas às "Económicas" (como era conhecida a Direção-Geral dos Negócios Económicos), o nosso jovem preparou, com todo o cuidado, um trabalho recheado de quadros quantificados, listas de produtos de importação e exportação, evolução de "taxas de cobertura", notas sobre os acordos bilaterais em vigor, rol de empresas de cada país que operavam no outro, cifras sobre investimentos, fluxos de turismo, visitas ministeriais e "tutti quanti" fazia parte do modelo tradicional desse tipo de informações.

Acabado o trabalho, que demorou vários dias, apresentou-o ao "chefe de repartição", que o fez subir ao diretor-geral, o qual, por sua vez, com um elogioso "visto com apreço" escrito no canto superior direito, o mandou, "capeado por um ofício de cobertura", à embaixada relevante, situada no país estrangeiro a que o texto se reportava.

Passaram-se umas semanas, até que um dia, na mala diplomática oriunda desse posto, chegou uma comunicação, subscrita pelo nosso embaixador nessa capital, sobre a "informação de serviço" que havia recebido. Nela se elogiava calorosamente o trabalho do jovem adido, se destacava a qualidade e a pertinência da informação recolhida, o cuidado colocado na coleta feita, bem como a importância de que aquela "informação de serviço" se iria revestir para o trabalho futuro da missão diplomática.

O jovem diplomata, que tivera acesso ao ofício da embaixada antes dele seguir para o seu "chefe de repartição", estava deliciado e muito expectante quanto ao modo como o seu chefe direto iria reagir. Um ou dois dias depois, foi chamado:

- Meu caro, não sei se você já tem conhecimento, mas queria dizer-lhe que o seu trabalho foi muito apreciado pelo nosso embaixador. Parabéns.

O tom deste comentário, que soava a excessivamente seco, foi interpretado pelo nóvel diplomata como podendo talvez significar algum despeito, quiçá mesmo inveja, por parte do seu chefe. Mas porquê? Era um profissional muito mais velho, com uma carreira feita, que necessidade teria ele de agir dessa forma? Deveria haver, com toda a certeza. qualquer outra razão para a falta de entusiasmo demonstrada. E havia, como logo percebeu:

- Mas sabe, colega, há elogios e há... elogios!

O nosso adido estava cada vez mais confuso.

- Com os anos, você vai aprender que, quando se recebe um elogio, a sua relevância depende muito de quem o formula. O colega é ainda muito novo para poder ter uma avaliação própria sobre os embaixadores e eu, até por uma questão de camaradagem, não quero elaborar muito sobre este assunto. Mas sempre lhe direi que o embaixador que agora o elogiou está muito longe de ser uma figura tida como de grande importância na nossa carreira. Por essa razão, o elogio que ele agora lhe fez... vale o que vale!

O jovem diplomata, que mais tarde viria a ser uma proeminente figura da nossa carreira, percebeu, nesse instante, que há coisas que vão para além do seu valor facial. Ontem contou, num grupo de amigos, esta significativa história.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"En panne"

Não me perguntem o que aconteceu, mas a empresa Blogger, que dá acolhimento a este e a muitos milhares de blogues, "passou-se", por quase dois dias: retirou, temporariamente, alguns posts e, definitivamente, todos comentários que neles tinham sido colocados, suspendendo o serviço de atualização. Imagino que imensos blogues, em especial os "da política", devem ter andado "à nora" (desculpem o plebeísmo, mas dizem-me que a sua utilização está na moda, pelo menos em Portugal), sem espaço de ringue para a troca de farpas que está no ar do tempo.

Bem vistas as coisas, não me posso queixar muito. À parte o susto da desaparição de textos (tenho de começar a fazer um "back up"), os leitores puderam descansara por umas longas horas. Espero que tenham apreciado a pausa.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Alentejanos

Aquele meu amigo português estava a ter dificuldade em descobrir, nas campaínhas do prédio, o andar da pessoa a casa de quem ia jantar, naquela noite, em Bruxelas. 

Na indecisão, ligou para a porteira. Esta acabou por assomar à porta. Era uma mulher nova que, rapidamente, percebeu ser portuguesa. O sotaque da senhora era, iniludivelmente, alentejano. Por curiosidade, o meu amigo perguntou:

- De onde é que é, no Alentejo?

- Eu não sou do Alentejo.

Um pouco surpreendido, ele voltou à carga:

- Não é do Alentejo. Então onde é que nasceu?

- Eu nasci aqui, em Bruxelas. Nunca vivi no Alentejo, mas já lá fui de férias, duas vezes. É uma terra muito bonita. É a terra dos meus pais, que trabalham aqui na Bélgica, há mais de 30 anos.

E disse tudo isto com um forte e belo sotaque alentejano. 

São estas as malhas que a nossa diáspora tece.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Mulheres

Lembrei ontem a figura de Maria Lamas, na intervenção que fiz, na universidade de Nanterre, na abertura do importante colóquio internacional "As mulheres portuguesas na diáspora", que ali decorre até 14 de maio.

Julguei importante relembrar esta corajosa mulher portuguesa, desaparecida em 1983, que esteve exilada em Paris entre 1962 e 1969, e cujo trabalho pela emancipação da mulher deve ser relevado. A obra e a vida de Maria Lamas deveriam ser melhor conhecidas dos portugueses.

Cinema

Começou o festival de cinema de Cannes. 

Para assinalar a ocasião, apetece-me reproduzir aqui esta já clássica imagem, retirada do "Manhattan" de Woody Allen.

Nuno Júdice

Nuno Júdice é um dos mais importantes poetas portugueses contemporâneos. Já aqui falámos dele, também a propósito do facto de, há alguns anos, ter sido conselheiro cultural na embaixada em Paris.

Desde a passada semana, numa merecida homenagem, uma sala do Consulado-Geral português em Paris passou a ter o seu nome. 

No dia 9 de maio, no centro cultural Gulbenkian, em Paris, o espetáculo "Le mouvement du monde", sob a responsabilidade de Jacqueline Corado da Silva, desenhou uma curiosa viagem pelas palavras de Nuno Júdice, traduzidas por Michel Chandeigne.

Debate eleitoral

Ter alguns compromissos inadiáveis obriga a que não possamos ver programas televisivos a horas normais. Por isso, retirando longos minutos ao meu sono, entretive-me, com grande gosto, nesta madrugada, a ver a gravação, que passou na televisão, aqui em França, do debate eleitoral de que, a propósito da data de ontem, muito se falou. 

Devo confessar que fiquei impressionado: elegância, profundidade, acutilância e, acima de tudo, um sentido claro do interesse do país, na abordagem dos grandes temas importantes para a opinião pública. Um estimulante e educado combate de palavras, esclarecedor, que, imagino, terá proporcionado a quem viu e ouviu uma chave para a decisão no sufrágio.

Nesta rememoração que ontem se viveu, da eleição que, em 1981, levou François Mitterrand à presidência, foi para mim muito educativo poder apreciar, na íntegra, o seu derradeiro embate com Giscard d'Estaing, que só conhecia pela imprensa da época.   

terça-feira, 10 de maio de 2011

Mitterrand e nós

Um interessante improviso de Mitterrand, em 1987:

Nous sommes français, nos ancêtres les gaulois, un peu romains, un peu germains, un peu juifs, un peu italiens, un petit peu espagnols, de plus en plus portugais, peut-être, qui sait, polonais, et je me demande si déjà nous ne sommes pas un peu arabes."

O adeus à UEO

A União da Europa Ocidental (UEO) foi sempre uma organização europeia de segurança e defesa pouco conhecida. Nascida há 63 anos e reatualizada em 1954, a UEO pretendia-se uma espécie de articulação entre a NATO e as instituições de unidade europeia, num tempo em que a "guerra fria" se projetava sobre a Europa. Independentemente das críticas à sua inoperacionalidade, sempre considerei que a UEO representava um interessante espaço de aculturação continental em matéria de segurança e defesa.

Até aos anos 90, a UEO tinha sede em Londres. Fui então representante permanente adjunto de Portugal junto da organização, antes dela ser transferida para Bruxelas, em 1993. Por essa altura, um português, o embaixador José Cutileiro, foi eleito secretário-geral da UEO. Noutras funções, recordo-me ainda de ter representado Portugal em reuniões ministeriais da UEO, em Ostende, Roma, Bremmen e Luxemburgo.

A UEO, enquanto organização, acabou oficialmente em 31 de maio de 2010. Mas a Assembleia Parlamentar da UEO prosseguiu a sua existência. Até ontem, data em que estive, sob o Arco do Triunfo, com os deputados portugueses que se deslocaram à cerimónia que consagrou este derradeiro ato da UEO. 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mitterrand e a moda

Foi há 30 anos. Lembro bem a noite de 10 de maio de 1981, o dia da vitória presidencial de François Mitterrand. Eu vivia então na Noruega e organizámos um jantar em casa para acompanhar as notícias, que nos iam chegar pela rádio de ondas curtas e pelas televisões norueguesa e sueca, as únicas que nos eram acessíveis. Convidei amigos que nos podiam ajudar a "decifrar" os noticiários naquelas línguas, além de outros que o acaso juntou nessa noite nórdica.

A esmagadora maioria dos nossos convivas, onde se contavam alguns diplomatas estrangeiros, muitos temerosos da anunciada chegada dos comunistas ao poder, acabava por alinhar num "giscardianismo" de oportunidade. Nada de estranho, se pensarmos que a guerra fria estava ainda muito presente na vida internacional e que a experiência francesa assustava então muita gente. Estas coisas hoje parecem ridículas, mas, à época, havia quem falasse, sem rir, na possibilidade de tanques russos não tardarem na place de la Concorde.

Quando as notícias da vitória de François Mitterrand se confirmaram, esse núcleo de amigos conservadores entrou numa aberta e pública depressão. As teses sobre o que iria suceder em França eram catastróficas: de desordens públicas a um conjunto de malfeitorias que a nova maioria seguramente iria desencadear, tudo era de esperar da "révanche" da chegada da esquerda ao poder.

Num certo casal estrangeiro, em que ela era bastante mais nova, notei que o marido estava a ser carinhosamente consolado pela mulher, na sua conjuntural desventura política. Mas era por demais evidente que ela tinha muito pouca consciência da complexidade do que estava a ocorrer. O marido disse, a certa altura: "Isto vai provocar uma desvalorização fortíssima do franco, vai ser gravíssimo!".

Eu lançava umas piadas, em jeito de provocação e, a certa altura, saiu-me esta: "Bom, há grandes vantagens numa desvalorização do franco. Por exemplo, a roupa que se vende em França vai ficar muito mais acessível, a moda francesa vai embaratecer, agora é que vai valer a pena ir a Paris, às compras". 

O que eu fui dizer! Mal eu tinha acabado de falar, vejo os olhos da jovem brilharem, a cara abrir-se-lhe num esgar de felicidade, como que por uma súbita descoberta das virtualidades da vitória da esquerda. Voltou-se então para o marido e, numa voz bastante audível, tanto mais que ele era meio surdo, disse-lhe: "Ouviste? É verdade que os vestidos vão ficar mais baratos? Não podíamos ir agora a França?".

O meu amigo ignorou-a, olimpicamente, e fuzilou-me com o olhar. Eu ria, olhando na televisão a place de la Bastille cheia de gente, com imensa pena de lá não estar. 

Migrações

Nestes tempos em que algumas notícias tendem a provocar surtos depressivos em alguns dos nossos concidadãos, talvez faça bem à nossa auto-estima notar que, entre 31 países avaliados (os 27 da UE e os EUA, Noruega, Suíça e Canadá), Portugal é considerado, depois da Suécia, o segundo melhor país em termos de políticas de integração de migrantes. O nosso país assume mesmo o primeiro lugar no tocante ao "ranking" de acesso à nacionalidade, bem como no tocante ao reagrupamento familiar.

Sporting

Lendo, com todo o cuidado, o acordo da "troika" com Portugal, não consegui encontrar nenhum ponto onde esteja previsto o "resgate" do Sporting. Vou ler outra vez...

domingo, 8 de maio de 2011

Dia da Europa

Hoje, comemora-se o dia da Europa. Sei de algumas pessoas que, nos dias que correm, sentem escassa vontade para o celebrar.

Aqui em Paris, as instituições europeias tiveram a bizarra ideia de o fazer no passado dia 5. Não percebi muito bem porquê. Um amigo, que não renega ironicamente algumas heranças, aventava que talvez tivesse sido para aproveitar a boleia do aniversário de Karl Marx...

Percebo que, com a "zizanie" no euro, com as divisões na Líbia e com as hesitações em Schengen, entre tantas "eurochatices" recentes, alguns possam ser tentados a não dar muita importância a esta data.

Como português, eu dou. Com toda a convicção, comemoro este fantástico projeto de paz e liberdade que, para além de todas as hesitações e contradições, contribuiu para manter largas décadas de convivência democrática.  E que, naquilo que nos toca, ajudou a fazer de Portugal um outro país.  

Nota: utilizo, como imagem, uma fotografia que me acaba de ser mandada, de Brasília, pelo meu amigo Hermínio de Oliveira.

Economia

O famoso acordo há dias concluído entre três entidades financiadoras internacionais (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) e o governo português só tinha, até agora, uma versão em língua inglesa.

O blogue Aventar decidiu fazer uma tradução (não oficial, claro) deste complexo texto, cuja aplicação vai marcar o futuro do nosso país nos próximos anos. Trata-se de um documento denso, muito técnico, nem sempre de fácil leitura. Mas essencial.

Ele aqui fica este verdadeiro serviço público do Aventar.

sábado, 7 de maio de 2011

Paul Anka

- Olha! O Paul Anka vem a Paris, em novembro. Não sabia que ele ainda cantava...

Ouvi hoje o comentário a alguém, ao deparar com um grande cartaz a anunciar o espetáculo. Revelei então que não tinha a mais leve intenção de ir ouvi-lo. O cantor está muito longe de fazer parte das minhas nostalgias de estimação.

Outro amigo comentou:

- A mim o que me espanta não é que ele venha a Paris cantar. É que, com aquela idade, arrisque marcar um espetáculo só lá para Novembro...

Há gente muito màzinha...   

Foto

Não há nenhuma razão particular para publicar hoje esta fotografia. Apenas porque, num blogue, deparei com esta "American girl in Italy", uma imagem clássica de Ruth Orkin, de 1951.

Em si mesma, é um tratado de antropologia mediterrânica.

Cliquem sobre a imagem, para verem em detalhe.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Nós e a Finlândia

Há dias, foi aqui publicada uma modesta carta a um virtual diplomata finlandês.

Surgiu agora, na internet, um vídeo, em inglês, que consubstancia uma mensagem portuguesa a todos os finlandeses.

Ganhe seis minutos de bem-estar vendo este Portugalnomics.

Da forma

O presidente da República portuguesa entra num auditório e a maioria dos presentes permanece sentada.

Há uma sessão parlamentar de receção a um chefe de Estado estrangeiro e alguns deputados à Assembleia da República aparecem sem gravata.

Chega-se a qualquer cerimónia oficial e cruzamo-nos com fotógrafos e repórteres de imagem calçados de ténis e vestidos com trajes que, por vezes, os confundem com arrumadores.

Assiste-se a um debate televisivo e ouve-se locutores dizer, como se tivessem andado na escola com os entrevistados: "Paulo Portas, o que é que acha..." ou "Diga-me lá, Jerónimo de Sousa...".

Por contraste, olhe-se para um sessão do parlamento britânico. Assista-se à entrada do presidente francês numa sala. Atente-se no modo como estão vestidos os jornalistas numa conferência de imprensa na Casa Branca.

Nada disto tem importância? Talvez não. Mas é também por estas e por outras, por esta perca progressiva de formalismo, que representa um desrespeito ostensivo pelos símbolos e pela representação do Estado, que certas coisas chegaram onde chegaram.

Relógio

Havia quem considerasse irrelevante saber a "hora de Paris", que era dada por um relógio digital que este blogue tinha na coluna lateral direita. Uma sobrinha arquitetou a teoria de que era "irritante" aquele "flashar" dos segundos. Pronto! Fiquei convencido. Depois da tradução automática, e porque sou um adepto do "simplex", eliminei o relógio. Mais alguma coisa?

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Angola e o Corredoura

Ontem à noite, alguns embaixadores e diplomatas dos países da CPLP, depois de uma comemoração na UNESCO, juntaram-se em casa do embaixador angolano em França. Foi interessante ver como uma língua comum une, com facilidade, o humor e o sentimento, garantindo horas de boa disposição e de são entendimento.

A certa altura, falámos da Angola de outros tempos, da guerra civil, dos períodos de grandes dificuldades que afetavam então a vida quotidiana em Luanda, uma cidade sitiada, com frequentes cortes de água e luz, com recolher obrigatório.

Nesse tempo, de inícios dos anos 80 do século passado, vivi por alguns meses no Hotel Trópico, na capital angolana. Nele se acolhiam muitos estrangeiros, em especial portugueses em negócios. Com o cônsul-geral e com o ministro-conselheiro da embaixada, eu almoçava e jantava, quase por regra, no "grill" do hotel, uma facilidade rara, que não era estranha à nossa invejada condição diplomática. Nesse tempo, obter uma "reserva" para o "grill" era uma benesse pouco comum, muito apreciada pelos portugueses e angolanos que para lá convidávamos. Diga-se que esse privilégio acontecia não obstante as tensões políticas que, à época, marcavam fortemente as relações entre Lisboa e Luanda, o que só revela que alguma afetividade, fruto de certas cumplicidades, se sobrepunha à conjuntura política.

Com algum exagero, o humor corrente afirmava que, no restaurante normal do Trópico, havia, ao almoço, "arroz com peixe frito" e, ao jantar, "peixe frito com arroz". No "grill", as coisas era ligeiramente melhores, mas a variedade de menus não ia muito longe. Longe, sim, iam os tempos em que os grelhados haviam dado nome ao local. Recordo apenas um cíclico "émincé" de vitela e o sempre presente bolo Trópico, uma espécie de pão-de-ló coberto com claras de ovos, que fechava a maioria das refeições.

O "chefe de sala" era um velho e simpático angolano que havia trabalhado no "Café de Paris", em Lisboa, o Smith. Quando perguntado sobre o menu do dia, costumava ironizar sabiamente, respondendo coisas como: "Eu hoje aconselhava um magnífico caldo verde, seguido de um bacalhau à lagareiro. Depois, teremos um bife à marrare. E fecharemos com um pudim abade de Priscos, que está "de truz" ". Esses e outros pratos virtuais, que se deliciava a relembrar, com expressões do léxico luso, fruto da sua longínqua memória da culinária e da vida lisboeta, logo contrastavam com as limitações do pobre menu do dia, a única realidade a que iríamos ter direito.

O vinho era, invariavelmente, o mesmo: português, de uma marca que nunca esquecerei, de que nunca mais ouvi falar - Corredoura. Não o retive, contudo, na minha memória sensorial como um néctar digno de figurar na história vinícola portuguesa, embora, nas condições locais, a minha escala de valores em matéria de consumo tivesse então atingido generosos limites de complacência.

O serviço às mesas do "grill", chefiado pelo Smith, coadjuvado pelo excelente Sambo, era feito por alunos da escola de hotelaria local, que rodavam com grande frequência. Eram jovens muito simples, inexperientes, terreno fácil para ensaiarmos algumas graças. A piada cíclica era perguntar ao jovens alunos: "Há vinho?". A resposta era sempre positiva, como já sabíamos. Essa era então a oportunidade para que um de nós lançasse, variando cada dia de fórmula, uma coisa assim: "Hoje, estava-me a apetecer um vinho português. Um maduro tinto. Por acaso não tem um Corredoura, não?". Ou assim: "Para acompanhar o almoço, traga-me um tinto. Pode ser Corredoura, tem?"

Os olhos dos ingénuos e solícitos rapazes brilhavam de felicidade. "Por acaso" tinham - esse que era o único vinho existente, à época, em toda a Angola, "de Cabinda ao Cunene", para utilizar um lema então em voga. E, minutos depois, a uma temperatura "impossível", lá surgia, saído da cave, um Corredoura tinto.

Consumimos hectolitros de Corredoura. Provavelmente esgotámo-lo. Deve ser por isso que nunca mais ouvi falar desse vinho. E, devo confessar, vá-se lá saber porquê, não tenho nenhumas saudades dele.