segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Jantar de fim-de-semana

Era sempre assim, lamentava-se o embaixador. Os nacionais do país em que estava acreditado só convidavam para as suas casas durante os fins-de-semana. Quando muito, na sexta-feira à noite. Isso destruía-lhe o sossego do sábado e do domingo, que tanto prezava, utilizado para passeios pelos arredores da capital. Mas, que se havia de fazer?!, era quase sempre assim...

Pelo menos, naquele sábado, os anfitriões seriam um casal simpático, com o qual os embaixadores se haviam cruzado diversas vezes e que tinham já ido jantar à embaixada. A informalidade do convite levava a que não tivessem recebido sequer um cartão escrito, mas uma simples indicação do endereço, surgida numa conversa no meio de uma receção. Sendo assim, seria adequada a hora escolhida para aparecerem? Que tipo de vestuário seria mais próprio? Era uma pena não terem esclarecido isso, a tempo. Pelo sim pelo não, o embaixador levava um "blazer" com gravata. Se a informalidade fosse muita, logo poderia tirar o adereço do pescoço... ficando com o traje a que os brasileiros chamam "esporte fino".

O embaixador e a sua mulher tocaram à porta. Tiveram esperar alguns minutos. (Ora bolas! Parece que chegámos demasiado cedo). Seria o dono da casa, ele próprio, a vir abrir a porta, conduzindo-os para a sala. Estava de "jeans" e "pullover" (Que chatice! Viémos um pouco 'overdressed'). Foi muito simpático e, rapidamente, ofereceu bebidas. A dona da casa demorou um pouco mais a aparecer e, quando surgiu, denotava ter-se arranjado um tanto à pressa. (É isso! Chegámos muito cedo. Das próximas vezes, temos de saber a hora exata). A embaixatriz tinha-lhe trazido flores, que a senhora agradeceu muito.

A conversa fluiu, durante as horas seguintes. Os anfitriões eram gente interessante e culta. E muito mais simples do que os embaixadores supunham. A dona da casa, a certo passo, deslocou-se para a cozinha. Afinal, seria ela própria quem faria o jantar. (Que casal encantador!). A embaixatriz ofereceu-se para ajudar e o embaixador acabou também por ir abrir o vinho, selecionado na pequena adega, numa incursão feita com o dono da casa. O jantar, muito simples mas saboroso, acabou por ser bastante tardio, num ambiente verdadeiramente familiar. (Gente muito agradável e simples! Mas, claramente, esperavam-nos mais tarde).

E a noite chegava ao fim. Os embaixadores agradeceram a simpatia do jantar, sublinhando, com sinceridade, o caráter intimista do acolhimento, dizendo as tradicionais amabilidades sobre as capacidades culinárias da dona-da-casa e sublinhando, com sinceridade, o excelente ambiente que haviam partilhado.

Foi então, à saída, que o anfitrião comentou: "Amanhã, domingo, teremos cá os embaixadores franceses e também um casal de médicos, nossos amigos". (Por que diabo se lembrou agora de nos revelar quem serão os hóspedes de amanhã?). "E, como lhe disse na semana passada, cá os esperamos também. Oito e meia é uma boa hora?"

O meu Óscar

Geoffrey Rush, em "The king's speech"

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Hierarquia

Entrava sempre para o tarde. Era uma figura de recorte antiquado, com o cabelo oleado, puxado para trás, risca bem marcada. Dizia-se que não "regulava" bem e, de facto, a sua cara não convidava a grandes familiaridades. O olhar era fixo, mas logo fugidio, não sorria muito e falava ainda menos. Sabia-se que tinha tido uma carreira sofrível, povoada de incidentes de comportamento, marcada por um crescente destrambelhamento, fruto ou razão de crises familares. A sua ascensão à categoria de conselheiro, que à época permitia chefiar missões diplomáticas, era mais do que improvável.

E, dessa forma, por ali estava ele, "velho primeiro secretário" (como então se dizia de outros em idênticas circunstâncias), naquela repartição secundária do MNE, sem grandes tarefas atribuídas, até porque a experiência provara que, para além da irregularidade da sua prestação, dava mais trabalho corrigir o que fazia do que fazer as coisas por ele. 

Desde o início, recebera com indisfarçada incomodidade a nova colega que integrara o serviço, do grupo das primeiras mulheres diplomatas que haviam sido admitidas no ministério. Não se dera sequer ao trabalho de ser simpático com ela, como que reagindo ao convívio de géneros que, pela primeira vez, a profissão lhe impunha. E apenas grunhia um som indecifrável, quando esta, pacientemente, lhe dava os bons-dias, remetendo-se depois a um silêncio que a prudência geral do pessoal da sala não ousava quebrar.

Por tradição, à época, cada repartição tinha direito a um "Diário de Noticias", que o contínuo religiosamente levava ao chefe, no gabinete ao lado. Quando, por uma qualquer razão, este não estava ao serviço, o jornal era trazido para a sala, onde a sua leitura era partilhada.

Um dia, a recém-admitida "adida de embaixada", ao entrar na sala comum dos funcionários, viu o "Notícias" sobre uma mesa e, sentando-se no único sofá existente, decidiu passar uma vista de olhos pelo jornal. Estava ela a meio da leitura quando irrompeu na sala o nosso bizarro diplomata. Ao passar em frente à colega, agarrou o jornal e arrancou-lhe das mãos, exclamando, com ar grave: "Eu sou o primeiro secretário!", como que sublinhando o facto de, formalmente, estar a assumir a  direção, em lugar do ausente chefe da repartição. E sentou-se, refastelado, na cadeira de braços da sua secretária, abrindo o jornal sobre a mesa.

O estupor apossou-se da jovem colega, que não esperava tal indelicadeza e que, num assomo de coragem, se preparava para reagir à grosseria. Quedou-se, porém, pela intenção, ao ver o "velho primeiro secretário" tirar do bolso do casaco nada mais nada menos que uma pistola, que colocou, displicente, ao lado do jornal.

Tempos depois, o homem desapareceu da circulação. Nunca houve notícias concretas sobre o tipo de tratamento a que veio a ser sujeito no Júlio de Matos. Por estas e por poucas outras, o seu nome ficou para sempre na memória da casa.    

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Portugueses

Ela era lindíssima, bielorussa, com vinte e poucos anos, funcionária da missão da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), em Bishkek, no Quirguistão. Chamava a atenção de toda a gente. Era um jantar oferecido pelo chefe da missão aos cinco embaixadores, idos de Viena, numa "fact-finding mission" de duas semanas, por todos os países da Ásia Central.

O ambiente era descontraído, numa espécie de taverna típica, um pouco fora do centro da cidade. Não havia protocolo, a ocupação das mesas era informal, "free seating". A bela jovem sentou-se ao meu lado, anunciando, alto: "Eu quero ficar aqui, para falar com o embaixador português". Desfiz-me num deliciado sorriso, perante a onda de ironia invejosa da esmagadora maioria dos parceiros masculinos do repasto. A bielorussa logo esclareceu, contudo, as suas castas intenções: "Tenho a maior admiração por um grande escritor português e quero falar sobre a sua obra. Tenho a certeza que o embaixador a conhece bem".

Preparei-me, intimamente, para lhe explicar as grandezas de Mafra, no "Memorial do Convento", de José Saramago. Ou, no caso de ser Lobo Antunes, tentaria contextualizar uma literatura angustiada, nascida na guerra colonial, como em "Os cus de Judas". Não estava a ver que outro escritor português pudesse mobilizar o interesse de beldades bielorussas e, embora não fosse um alargado conhecedor de todos os títulos daqueles dois autores, poderia garantir uma dose suficiente de conversa.

Foi então que a jovem me lançou um desafio impossível: "Conhece o Paulo Coelho? É o maior escritor português, não é? Li tantos livros dele..."

Paulo Coelho, durante esse jantar, foi um português dos sete costados.

O "Expresso" e eu

Hoje, o "Expresso" publica o seu nº  2000 (2000 sábados! Mais de 38 anos!). Ao constatar isso, dou-me conta de uma outra realidade: nunca deixei de ler nenhum dos números do jornal, desde o seu célebre nº 1 até ao que hoje me chega às mãos. Não falhei um único número. Tenho disso absoluta certeza.

Em 1973, quando foi criado, o "Expresso" representou um choque de modernidade sem par na imprensa portuguesa (como o "Público" o seria, anos mais tarde, para a imprensa diária). Para além de ter introduzido, entre nós, a "moda" dos jornais semanários (até então, só havia revistas), ao jeito britânico do "Observer" ou do "Sunday Times", o jornal significava então a abertura de um espaço crítico que passava as margens formais do regime, estimulando os que, dentro dele, punham em causa o seu percurso e, simultaneamente, abrindo os espaços possíveis a quem a ele se opunha. O 25 de abril deve alguma coisa ao "Expresso".

Com a Revolução, o jornal passou a ser uma tribuna determinante, por onde passava - e onde se "fazia" - muita da política portuguesa da época. Tudo o que era opinião relevante teve acolhimento do "Expresso" e muitas das grandes notícias que fizeram sensação foram anunciadas pelo jornal. Navegando sempre num espaço político que, de forma simplificada, poderemos designar como de "bloco central", o "Expresso" cuidou sempre em nunca calar, sectariamente, outros setores. Bem pelo contrário, por vezes deu-lhes uma voz bem superior àquilo que eles representavam ou representam.  

Como disse, li todos os números do "Expresso", embora com desigual atenção. Em Lisboa, porque o compro sempre tarde e sem lugar certo, chego a correr seca-e-meca para encontrar um exemplar. No estrangeiro, chegou-me muitas vezes por "mala diplomática" a Oslo, a Luanda, a Londres, a Nova Iorque, a Viena ou a Brasília. Mas procurei-o também em Bruxelas ou em Genebra, em estadas mais prolongadas por essas cidades. Em Paris, compro-o, ainda no próprio sábado, num quiosque perto da Étoile. Se acaso me falha um jornal, movo mundos-e-fundos (e até meto "cunhas", junto de amigos) para arranjar o número que está em atraso. E que leio sempre, nem que seja duas ou três semanas depois.

Escrevi, fui entrevistado e fui criticado no "Expresso". Nele tive e tenho amigas e amigos, pessoas que muito respeito profissionalmente. Desde logo, o seu fundador Francisco Pinto Balsemão, uma das figuras fundacionais da nossa democracia. Durante muitos anos, a leitura do "Expresso" foi-me fundamental e até "urgente". Depois, com o tempo e a concorrência, acho que o "Expresso" deixou, cada vez mais, de ter muitas "caixas" apelativas; pior, passou a criar (não foi o único) algum sensacionalismo artificial. E passou a ser lido com mais rapidez, com o que isso significa de menor atenção.

Com todos os seus defeitos - e, de certo modo, eles têm vindo a aumentar*, diga-se em abono da verdade -, continua a ser um jornal necessário. Eu, pelo menos, com maior ou menor gosto,  talvez já por mero vício, não passo sem ler o "Expresso".


*em tempo: desde o momento em que escrevi este texto, tenho a sensação de que o jornal melhorou substancialmente.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Abébias

- "Não dou abébias, prontos!"

Confesso que não percebi, à primeira, a frase-exclamação do taxista, que havia "fechado" ostensivamente a entrada de um carro na fila onde íamos, na Fontes Pereira de Melo, à chegada ao Marquês. O homem mantivera-se calado desde o aeroporto, naquele silêncio ofendido com que essa inenarrável espécie que são os "taxistas das chegadas" por vezes nos presenteia, como retribuição pelo facto de lhes termos tirado da sorte um turista incauto, com quem faria um involuntário "sightseeing" por Odivelas, num percurso até ao Rossio. 

Em fundo sonoro, André Vilas-Boas explicava, em tom catedrático, do tipo "sucedâneo de Mourinho", as subtilezas da passagem da eliminatória. Como vingança pelo facto de eu o ter obrigado, por duas vezes, a baixar o som da conferência de imprensa (que durou todo o tempo da viagem), o motorista tinha aberto a sua janela, por onde expelia o produto da sua tosse, deixando entrar o frio desse fim de tarde de Lisboa.

- "Nunca mais dou abébias! Aqui há uns dias, deixei entrar uma fulana na minha fila e um gajo arrebentou-me logo a traseira. Tenho o outro carro na oficina vai para vinte dias. Foi em Santa Iria da Azóia. Agora, eles que se amanhem. Não dou mais abébias..." 

E com este discurso reiterado à saciedade, em versões diversas em que a inabalável recusa das "abébias" sempre figurava, a que se somaram comentários impublicáveis sobre polícias e outros sobre o ódio aos peões ("nas passadeiras, comigo, estão lixados! Se esperam que eu seja bonzão, bem podem tirar o cavalo da chuva! Levam com um farolim no olho, ai isso é o mais certo!"), lá consegui chegar a casa. Uhf!

O que é o problema do défice, comparado com isto?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Crónicas do inesperado

Da minha passagem pelo Brasil trouxe a certeza de que é por lá que existem os melhores cronistas da língua portuguesa. De Nelson Rodrigues a Ruben Braga, de Fernando Sabino a Carlos Heitor Cony, de Millôr Fernandes a Luiz Fernando Veríssimo - o Brasil detem alguns dos grandes mestres na arte de contar uma boa história, com espírito sintético, com adjetivação q.b., com riqueza lexical, sentido de ritmo e "crescendo" de densidade narrativa, tudo servido por um sábia subordinação ao respeito pela oralidade.

Há dois dias, por amável e inesperada oferta do autor, chegou-me às mãos "Crónicas do inesperado", de Renato Prado Guimarães, que me conheceu através deste blogue. Trata-se de um volume editado pela Imprensa Oficial do Estado de S. Paulo, em 2009, ilustrado por belas fotografias de Marcos Vilas Boas, onde são reunidas mais de 40 deliciosas crónicas, espelho de uma vida rica e atenta, em que a experiência diplomática tem um papel maior. É que o autor, com um "background" de jornalismo profissional na "nata" da imprensa paulistana, é embaixador aposentado do serviço diplomático brasileiro, residindo atualmente na Alemanha. E, tal como alguns dos grandes mestres que atrás referi, é possuidor de uma escrita ágil, fluente e culta, através da qual desenha, a traço fino, vivências riquíssimas, que conosco partilha, com grande elegância estilística.

Sem o menor exagero, quero dizer que foi dos livros que mais prazer me deu ler, nos últimos meses. Com a devida vénia, a necessária e completa citação da fonte  e a indulgência do autor, vou-me permitir, daqui a uns dias, transcrever aqui alguns extratos deste excelente livro.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Pseudónimos

Ontem, no "Le Monde" um grupo de diplomatas, sob o pseudónimo de "Groupe Marly", expressou uma violenta crítica contra a política externa francesa. É muito raro os profissionais da diplomacia virem a terreiro desta forma. Mas não é inédito, quer em França, quer noutros países.

Portugal não tem essa tradição, até porque, por uma regra com escassas (e lamentáveis) exceções, as grandes orientações assumidas, em democracia, em matéria de política externa tendem a corresponder a um alargado consenso político.

No final dos anos 80, alguns diplomatas no ativo sentiram, contudo, a necessidade de se expressarem coletivamente, sob pseudónimo, em artigos de imprensa - neste caso por motivos que relevavam da defesa de importantes interesses profissionais. O pseudónimo utilizado por esse grupo foi "Luiz da Cunha", nome de uma figura tutelar da carreira diplomática portuguesa, que acabou a sua carreira como embaixador em Paris.

23 de fevereiro

Faz hoje 30 anos que a recém-restaurada democracia espanhola passou pelo seu maior teste. Um setor das Forças Armadas, esperando poder contar com a complacência conjuntural de diversas áreas partidárias e, essencialmente, com o beneplácito real, pretendeu instituir um governo com chefia militar, que responderia ao que entendia ser a incapacidade do executivo (aliás, demissionário) de Adolfo Suarez. As coisas, felizmente, não correram bem para os golpistas e a Espanha pôde prosseguir na construção da sua magnífica democracia.

Nesse tempo, eu vivia na Noruega. Por esses dias, em casa do meu colega espanhol em Oslo estava, de visita, uma sobrinha do promotor militar da revolta, o general Milans del Bosch. Recordo a noite de 23 de fevereiro, em que as incessantes repetições televisivas do "todo el mundo al suelo!", do "carabinero" Tejero eram interrompidas por chamadas telefónicas angustiadas de e para Madrid, na tentativa de saber mais pormenores sobre o evoluir da crise - com os presentes a disfarçarem, delicada e educadamente, o radical contraste das suas posições. E comigo a fazer brindes íntimos, a comemorar a derrota dos golpistas.

Hoje sabemos bastante mais sobre a "tejerada", sobre o papel central do general Armada em todo o golpe, sobre o tempo e o modo do rei nessas horas e, também, sobre a atitude - não tão clara quanto seria de esperar - de alguns partidos políticos, que viriam a revelar-se centrais na nova democracia espanhola. Para a história do momento, ficou o gesto valente de Adolfo Suárez, de Gutiérrez Mellado e de Santiago Carrillo, as três únicas pessoas nas bancadas das Cortes espanholas, entre algumas centenas, que revelaram coragem física e dignidade cívica, ao recusarem esconder-se sob as mesas, como lhes era ordenado pelos invasores do parlamento.

Nestas três décadas, li muita coisa sobre a transição espanhola e, em especial, sobre esse dia decisivo, as mais das vezes através de relatos de personalidades políticas da época. Há uns meses, um amigo espanhol, num congresso em Badajoz, recomendou-me a obra "Anatomia de un instante", de Javier Cercas. Não tendo conseguido então a versão original espanhola, comprei, há meses, uma tradução francesa e não dei por mal empregue o tempo da sua leitura. O autor não é um historiador e, ao que parece, tinha inicialmente a intenção de escrever um romance baseado no evento. Talvez por essa razão, o seu texto tem um ritmo muito diferente do tradicional, ao utilizar um método pouco comum de abordagem do fenómeno "23 de fevereiro", enveredando por uma segmentação do papel de cada uma das três personagens políticas acima referidas, tratando-as na sua contextualização própria, recortando-as psicologicamente, no seu brilho e nas suas sombras, sem, porém, perder o cenário global de fundo. E, não sendo, na base, um historiador, Cercas não esquece nunca os factos.

Aprendi imenso com este livro, o que significou dessacralizar algumas figuras, assumir as suas fraquezas mas, ao mesmo tempo, descortinar outros atores que só são secundários para a má historiografia. Não é um livro fácil, em especial para quem não seja iniciado na história contemporânea espanhola e, em especial, na trama do 23-F, mas, para mim, foi uma obra fascinante.

Pastoral

Nunca tinha pensado que poderia vir a ter o ensejo de ler uma Pastoral sobre o Sporting.

Com o devido respeito, aqui deixo o piedoso e oportuno pronunciamento.

Em tempo - Alguém notou que "Mubarak se demitiu antes de Paulo Sérgio, embora do ponto de vista humanitário os pretextos para as respectivas demissões sejam equivalentes."

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Saudades de Alvalade

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Líbia

Os acontecimentos na Líbia recordam-me, inapelavelmente, outros tempos.

Num final de tarde de 1977, à chegada a Tripoli, tudo começou a tornar-se-nos estranho, logo à saída do avião. O funcionário líbio que aguardava a delegação portuguesa, com uma cara de poucos amigos, acompanhou-nos, sem um gesto de menor simpatia, para a longa fila que antecedia a verificação dos passaportes. E aí nos deixou, indo colocar-se do lado de fora da infernal alfândega. Por lá nos aguardava, passada que foi uma boa meia-hora de trapalhadas burocráticas. Bela ajuda!

A delegação técnica portuguesa, que eu integrava, era composta por três elementos. Vínhamos mandatados para colocar as assinaturas finais nos protocolos para obras de construção civil e obras públicas que, desde há uns meses, estavam a ser negociados entre entidades portuguesas e a administração líbia.

Tudo começara no ano anterior, em 1976. Uma missão oficial líbia, que se deslocara a Lisboa para um congresso partidário, fora recebida protocolarmente no Ministério dos Negócios Estrangeiros, pelo secretário de Estado, João Lima. As relações entre Lisboa e Tripoli eram mínimas. A Líbia tinha uma embaixada em Lisboa, chefiada por um encarregado de negócios, mas Portugal não tinha qualquer representação na Líbia. E foi com alguma surpresa que vimos então entrar alguns membros da delegação líbia, sobraçando uns estranhos tubos de cartão (lembro-me de um comentário: "serão tapetes?"). O mistério iria esclarecer-se, minutos depois: os visitantes traziam projetos de obras públicas, para a construção das quais pretendiam contratar empresas portuguesas. Era a forma como queriam demonstrar o interesse em reforçar as relações bilaterais.

A capacidade lusa de improviso torna-nos, embora raramente, capazes de ações expeditas e eficazes. Foi o que aconteceu. Em poucas horas, montámos um programa para a delegação, com a tradicional visita ao LNEC e a algumas empresas. E, também com uma incomum prestreza, cerca de um mês e pouco depois, por decisão do ministro José Medeiros Ferreira, uma delegação portuguesa, creio que composta por 8 pessoas, de diversos setores técnicos (engenharia, banca, obras públicas) partiu para a Líbia.

Fui encarregado de representar o MNE nessa delegação. Eu era então um jovem diplomata, com pouco mais de um ano de casa. E logo constatei, com o orgulho dos novatos, que iria ser o primeiro funcionário diplomático português a visitar, em representação do MNE, esse país do Magreb.

Essa visita de 1976 durou quase 20 dias e os seus resultados não podiam ser melhores. Conseguíramos lançar as bases para uma futura presença empresarial portuguesa na Líbia. Recordo que fomos então recebidos com "tapete vermelho", desde a chegada ao aeroporto até à nossa partida, rodeados de todas as atenções.

Precisamente pelo contraste com esse precedente, os três integrantes desta nova missão, que haviam feito parte da delegação anterior, estavam muito surpreendidos com a frieza com que, menos de um ano depois, estavam a ser tratados. E mais admirados ficámos quando, em lugar do razoável hotel onde antes nos haviam colocado (Tripoli não tinha, à época, boas instalações hoteleiras), nos enviaram para um subúrbio, bastante distante do centro, onde nos foi proporcionado um alojamento bem medíocre. 

Durante três dias, fomos sujeitos a um completo isolamento, agravado pela retenção dos passaportes e dos bilhetes de avião. Além disso, não havia então telemóveis e as comunicações telefónicas com Lisboa revelaram-se impossíveis. A nossa perplexidade era imensa. Estávamos totalmente sem contactos, num país de língua estranha, havíamos perdido já as reservas de voos e, acima de tudo, ninguém nos dizia nada. Restava-nos ir testando as diferenças entre o "couscous" do almoço com o "couscous" do jantar e medir a muito discutível qualidade dos refrigerantes que nos serviam, constatada, como é óbvio,  a rigorosa impossibilidade de acesso a qualquer álcool.

Até que, ao final do quarto dia, apareceu para me ver o antigo encarregado de negócios líbio em Lisboa. Em termos veementes, manifestei-lhe o nosso desagrado e a nossa surpresa com o acolhimento que nos estava a ser dado, em completo contraste com o do ano anterior. E perguntei-lhe, de forma um pouco brutal, se, como parecia, estávamos a ser "reféns" e de quê. 

Senti que o homem ficou um tanto tocado com a minha forte reação, a qual, aliás, tinha por objetivo evitar que ele fosse confrontado com o estado de bem maior exasperação do chefe da delegação, que tencionava fazer um "casus belli" da situação bizarra em que nos encontrávamos.

E foi então, na conversa com esse colega líbio, que percebi, a razão de tudo.

- Você deve compreender que, depois das declarações portuguesas em Copenhaga, tenha havido uma reação da nossa parte, disse-me o diplomata.

- Declarações em Copenhaga? A que é que se está a referir?

- Então não sabe?! O seu primeiro-ministro anunciou, durante uma reunião da Internacional Socialista, na Dinamarca, que Portugal ia estabelecer relações a nível de embaixada com Israel. O mundo árabe e o meu governo ficaram ofendidos, claro!...

Assim fora, de facto. O Dr. Mário Soares decidira o início de uma mudança de política face a Israel, a qual, aliás, não deixaria de ter algumas consequências políticas internas, levando (entre outras razões, ao que parece) à demissão do ministro Medeiros Ferreira (ver aqui). Mas a última coisa com que o Dr. Mário Soares sonharia é que, no dia seguinte àquela sua declaração, uma delegação portuguesa ia aterrar no maior adversário norte-africano de Israel!

Fiz ver ao meu colega líbio a insensatez da nossa "quarentena" - a qual, repeti, a nossa delegação quase era obrigada a interpretar como um "rapto", dado que, sem bilhetes nem passaportes, estávamos tecnicamente impedidos de sair do país. Assim, para além das consequências práticas para aquilo que nos tinha levado à Líbia, adverti de que estavam criadas as bases para um "sério incidente diplomático".

Creio que o diplomata líbio mediu bem a situação e disse ir fazer o possível para a resolver de forma expedita. E fez. Para a história (com "h" pequeno), acabámos por ser recebidos logo no dia seguinte, assinámos os acordos, embora com alguns curiosos incidentes de percurso à mistura, que não vêm para o caso. 

Depois dessa visita, muitas obras públicas foram construídas na Líbia por mãos portuguesas, naquele que foi um excelente exemplo de "diplomacia económica", embora com alguns quase "reféns" à mistura...

Como disse, os tempos são hoje outros, lá pela Líbia. Eu recordei os meus.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Euro

Há quatro anos, quando vivia no Brasil, fui convidado para fazer uma palestra na universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Antes do evento, foi-me oferecido um almoço, por responsáveis e professores. A certo passo da refeição, um docente canadiano, atirou-me, de chofre:

- A vossa zona euro está a dar sinais de degradação. A Alemanha e a França começam a não conseguir cumprir os critérios de convergência. Quantos anos mais Portugal conseguirá resistir, antes de ser forçado a abandonar a moeda única?

Confesso que fiquei aturdido. Até então, nunca ninguém me tinha colocado semelhante questão, que, à época, me parecia sem o menor sentido.

Recordo-me bem do que respondi:

- O custo que poderá representar, para Portugal, a tomada de medidas que venham a revelar-se necessárias para se manter na zona euro será sempre muito inferior àquele que o país teria de suportar se acaso viesse a ter de sobreviver fora dessa mesma zona, de regresso a uma moeda nacional.

O mundo deu, entretanto, muitas voltas e a discussão sobre a nossa posição face à "eurozona" anda agora por aí. Mas continuo a acreditar piamente na resposta que então dei.

Mísia

... e, regressando ao fado, noto que Mísia voltou a Paris, para um espetáculo em que deu voz a textos escritos por mulheres portuguesas, que intitulou "Senhora da noite". Por lá se encontram versos de Agustina, Hélia Correia, Lídia Jorge, Adriana Calcanhoto, Amália e da própria Mísia.

Ontem, como me dizem que aconteceu nos restantes dias, o magnífico teatro Bouffes du Nord estava a abarrotar, com o fiel público que Mísia soube por aqui criar e que lhe correspondeu em pleno. À sua cuidada presença em palco, servida por um bom apoio instrumental, Mísia soma uma capacidade muito rara de comunicação com a plateia, onde sempre se insere uma atenção particular aos portugueses presentes.

Surpreende-me sempre a ousadia da cantora, que teima em seguir um caminho exigente e inovador em matéria de poemas e, frequentemente, na própria seleção das músicas, embora seja cada vez mais constante o recurso a temas tradicionais, em detrimento do "outro fado" que ensaiou em alguns dos seus primeiros discos. O que, para o meu gosto, é uma boa notícia.

Em tempo: a pedido, aqui fica um belo fado de Mísia.

Resignação II

"Estivemos no limite da banca rota", escreveu a agência estatal Lusa, julgando citar Pacheco Pereira.

Manifesto a minha solidariedade pessoal com a opção do jornalista: sempre é preferível ter a "banca rota" do que cair na "bancarrota".

Não se pode... ensiná-los? Ou será já irremediavelmente tarde?

Resignação

"Notícias às 24", RTPi, há minutos: "O presidente Saleh, do Iémen, anunciou que se vai resignar dentro de dois anos".

E nós, resignamo-nos com este "jornalismo"? 

sábado, 19 de fevereiro de 2011

João Moniz

Há já algum tempo, tive uma mostra sua na Embaixada. Na sexta-feira, fui ver os seus novos trabalhos, nas paredes do Consulado-Geral de Portugal em Paris, na exposição "Singularités du blanc", que é possível visitar até 11 de março.

João Moniz trabalha entre Lisboa e Paris. Nesta sua nova série, a cor desempenha um papel cada vez mais relevante, sobre o seu branco tradicional.

Cristina Branco

Uma das maiores vozes do nosso fado regressa agora com um novo disco, chamado "Não há só tangos em Paris". 

Pois não, também há por aqui fados e, na minha muito pessoal opinião, pena é que a fadista os não privilegie nos seus discos e no seu percurso musical. É que se a sua inegável versatilidade lhe facilita tomar outros caminhos, para além do fado, talvez Cristina Branco um dia venha a perceber - como outros cantores portugueses tardiamente entenderam - que a fidelização de um público se faz pela afirmação de uma identidade específica. O ecletismo é uma virtude, mas a virtude nem sempre é popular.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Carta de Inglaterra

Para um diplomata, o regresso a uma cidade onde viveu estimula um inevitável (e às vezes obsessivo) exercício de comparação das duas realidades temporais. No meu caso, sinto também um incontrolável tropismo para fazer juízos pessoais de valor sobre as permanências e as mudanças. Feitios...

Sucedeu-me agora com Londres, em dois dias que por lá passei.

Gostei de passear na calma de algumas ruas de Kightsbridge ou no bulício da Oxford Circus, de voltar a testar os sentidos no majestoso Food Hall do Harrods, de comprar chás bizarros no Fortnum & Mason, de me "atulhar" de livros na serenidade civilizada da Waterstone's de Picadilly, de apreciar as montras de fatos em Saville Row e das lojas de camisas em Jermyn Street. Não gostei de ver a Ryman, onde comprei as minhas primeiras "agendas-para-ano-e-meio", ter sido substituída por um loja de tecidos, de ver fechado para sempre o Oriel de Sloane Square, onde almoçava a lavar o olhar nas belezas londrinas, ao primeiro sol da primavera, de concluir que destruíram a casa de Park Lane onde Edgard P. Jacobs colocou o professor Mortimer a morar, no "A marca amarela". Gostei de ver a noite da City transformada numa festa que não existia no meu tempo, de sentir que o Peter Jones continua orgulhosamente impermeável à mudança, e que, poucos metros adiante, numa transversal a King's Road, a John Sandoe persiste com a mais criteriosa (e que só é anárquica para os não iniciados) escolha de livros de toda a cidade. Gostei de regressar à poeira de pub do Granadier, de ler que Taki segue politicamente incorreto e reacionário no insubstituível The Spectator, que o Evening Standard, apesar de gratuito, continua a dar razão a quantos acham imprescindível um jornal da tarde e de confirmar que, em matéria de rigor financeiro os motoristas de táxis londrinos batem bem a Standard & Poor's. E gostei, muito!, de rever amigas e amigos de sempre, essas âncoras, dispersas mas sempre sólidas, de uma vida de andarilho.

E, claro!, gostei de estar com mais de duas das quatro centenas de colegas "scholars" da Crabtree Foundation, no jantar anual de gala, que, desde 1954, sempre tem lugar na 4ª feira mais próxima do Valentine's Day, nessa perene instituição que se dedica ao culto da etérea memória de um homem que tem um passado cada vez mais cheio de futuro, que dá pelo nome de Joseph Crabtree. E, embora com o peso da especial responsabilidade que incumbe a um "foreigner" (não devemos ser mais de uma dezena, num mar de "bifes"), não direi que não tenha gostado da surpresa de ser entronizado como presidente anual da Crabtree Foundation, para 2011/2012. O Bartolomeu Cid dos Santos, por cuja mão entrei para este clube de culto, há quase duas décadas, deve estar a rir-se a bom rir...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

"Diplomatie"

Intitula-se "Diplomatie" uma peça recentemente estreada, aqui em Paris, em que é imaginado um diálogo, em agosto de 1944, entre o cônsul sueco em Paris e o general alemão que comandava as tropas ocupantes, a quem Hitler havia ordenado que destruísse a capital francesa, na véspera da sua libertação pelas tropas aliadas. 

Na peça, o diplomata acaba por convencer o militar a não respeitar as suas instruções, através de um argumentário feito de inteligência e de intuição, onde elementos de humanidade se confrontam e misturam com lógicas políticas. Para a História: sabe-se que o diálogo nunca teve lugar, embora o cônsul sueco conhecesse pessoalmente o general. Este último viria a explicar as razões da sua decisão num livro de memórias, em que revelou como superou - da melhor forma! - o dilema que o atravessava.

Na audiência, os parisienses como que tomam consciência de que a sua bela cidade esteve "por um fio", com todos os seus grandes monumentos prestes a serem dinamitados. E, não obstante nunca se deixar de estar no domínio da ficção, talvez esta peça possa contribuir para saiam da sala com uma melhor imagem dos diplomatas...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

"Convite"

O truque só ficou revelado após alguns dos interlocutores terem trocado, entre si, experiências similares.

Aquele diplomata, homem jovial e simpático, já desaparecido há muito do mundo dos vivos, cuidava sempre em inquirir, através dos seus contactos, qual era a data e hora da partida das delegações portuguesas que lhe constava que visitavam a cidade onde estava colocado, como Cônsul-Geral.

Imaginemos, então, que uma delegação tinha previsto partir, de regresso a Portugal, numa 5ª feira, num voo à hora do almoço. Sabedor disto, o nosso homem, aí pela 3ª feira, cuidava em procurar o contacto com a chefia da delegação e formulava o seu "convite":

- Soube que estão por cá. Tenho uma semana complicada, cheia de compromissos há muito agendados, mas teria um grande prazer em convidá-los para jantar, em minha casa, na 5ª feira à noite.

A resposta era a óbvia. Os convidados "revelavam" que iriam partir na tarde desse mesmo dia, pelo que não podiam corresponder ao amável "convite" do Cônsul geral.

E o diplomata, "compungido", lá retorquia:

- Que pena! Tinha tanto gosto...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Françoise Giroud

Françoise Giroud foi uma figura marcante do jornalismo francês. Fundadora, com Jean-Jacques Servan-Schreiber, do "L'Express", destacou-se na afirmação do papel da mulher na sociedade francesa, o que a levaria a um governo de Valéry Giscard d'Estaing.

A sua biografia, agora publicada pela Grasset, representa-a como uma mulher cuja genialidade se cruza com a tragédia, onde os êxitos profissionais da vida se confundem com uma vida pessoal atribulada. O livro de Laure Adler tende, porventura, a sobrevalorizar excessivamente o tempo do "L'Express" e a dar a este, bem como a Servan-Schreiber, um lugar central no texto, assentando muito na (bem conhecida) bibliografia de Giroud e menos em testemunhos que a tenham por centro da investigação.

Mesmo assim, ou talvez porque na história do "L'Express" muita da nossa geração se revê bastante, o livro agora publicado tem interesse.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Navegações

Era no tempo em que, no palácio das Necessidades, ainda havia ocasião para longas conversas (mas podia passar-se hoje...). Um jovem diplomata, em diálogo com um colega mais velho, revelava o seu inconformismo. A situação económica do país era complexa, os índices nacionais de crescimento e bem-estar, se bem que em progressão, revelavam uma distância, ainda significativa, face aos dos nossos parceiros. Olhando retrospetivamente, tudo parecia indicar que uma qualquer "sina" nos condenava a esta permanente "décalage". E, contudo, olhando para o nosso passado, Portugal "partira" bem:

- Francamente, senhor embaixador, devo confessar que não percebo o que correu mal na nossa história. Como é possível que nós, um povo que descende das gerações de portugueses que "deram novos mundos ao mundo", que criaram o Brasil, que viajaram pela África e pela Índia, que foram até ao Japão e a lugares bem longínquos, que deixaram uma língua e traços de cultura que ainda hoje sobrevivem e são lembrados com admiração, como é possível que hoje sejamos o mais pobre país da Europa ocidental.

O embaixador sorriu, benévolo e sábio, ao responder ao seu jovem colaborador:

- Meu caro, você está muito enganado. Nós não descendemos dessa gente aventureira, que teve a audácia e a coragem de partir pelo mundo, nas caravelas, que fez uma obra notável, de rasgo e ambição.

- Não descendemos? - reagiu, perplexo, o jovem diplomata - Então de quem descendemos nós?

- Nós descendemos dos que ficaram por aqui...

Bilhete de Paris

Há dias, passou aqui por Paris a jornalista Maria João Avillez. Falámos bastante sobre a Europa, em especial sobre o que resultou do último Conselho Europeu. 

No seu "Dia sim, dia não", na revista "Sábado" (10.2.11), que só ontem pude ler, sou citado a dizer:

"Daqui de Paris, sinto existir, um pouco por toda a Europa, a consciência de que chegámos a um processo de inevitável reajustamento dos equilíbrios de poder, que está já muito para além daquilo que pode ser gerido no quadro do Tratado de Lisboa. Goste-se ou não, as estruturas comunitárias foram ultrapassadas pela força do poder que determina a gestão do euro. A Europa percebe agora, com toda a crueza, que, no fundo, “aderiu ao marco”, pelo que tem de adotar, não apenas os critérios do “pacto de estabilidade e crescimento” que Theo Weigel impôs em 1997, mas outros que Berlim agora acha imperativos, à luz da recente experiência, para controlar possíveis derivas na zona euro, para cuja colmatação é pedido um esforço financeiro particular à Alemanha."

E, sobre a nossa posição nacional, disse:

"Neste contexto de exigência, Portugal assume, sem pejo, a sua fragilidade conjuntural mas, igualmente, mostra uma determinação rara para tomar todas medidas necessárias para lhe fazer face. Sem surpresa, alguns países europeus mostram bem maiores dificuldades do que nós para incorporarem o novo “pacto para a competitividade”. Não o lemos como um “diktat” de Berlim, mas como o último e razoável comboio para salvar a família do euro. Também por isso, parece-nos prematura a imputação de que, de uma Alemanha europeia, está a nascer uma simples Europa alemã."

É, de facto, o que eu penso. Outra coisa é saber se terei, ou não, razão.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Vergès

Jacques Vergès é uma espécie de "advogado do diabo". Aos 86 anos, esteve, há semanas, na Costa do Marfim a preparar a fundamentação para sustentar juridicamente a teimosia de Laurent Gbagbo em não abandonar o poder. No passado, entre muitas outras figuras, defendeu o terrorista Carlos, o nazi Klaus Barbie, o exterminador Pol Pot e outras figuras de recorte controverso. Saddam Hussein e Slobodan Milosevic estão entre os que não aceitaram a sua ajuda. George W. Bush é um nome que já anunciou desejar defender, no caso de ser possível a sua inculpação.

Membro da resistência francesa na 2ª guerra mundial, foi militante comunista e anti-colonialista, mantendo-se sempre próximo das ideias radicais de esquerda. É filho de pai francês e de mãe vietnamita, tendo vivido na ilha de Reunião e na Argélia, onde se tornou mundialmente famoso pela defesa com sucesso de uma militante da FLN, que viria a ser sua mulher. A sua história pessoal tem um "buraco negro" entre 1970 e 1978, período em que, sem explicação até hoje, desapareceu  de cena - o que gerou lendas sobre a sua eventual presença junto dos Khmers Vermelhos, do Cambodja, ou em campos da guerrilha palestiniana.

Mas a que propósito falo hoje dele aqui? Porque Vergès, numa iniciativa inédita mas muito curiosa, apresenta, duas vezes por semana, um espetáculo num teatro parisiense. Num monólogo de mais de hora e meia, em cenário do um escritório de advogado, fala dos criminosos e dos seus casos, contando histórias e desenhando perfis, tentando demonstrar que a sua famosa "estratégia de rutura", com que orienta as defesas, acaba por ser um modo de melhor fazer conhecer as pessoas por detrás dos crimes. A forma como apresenta a sua relação com a justiça torna a sua apresentação, apesar de algo monocórdica, bastante atrativa na substância. Com o caráter chocante que sempre confere a tudo em que se envolve, Vergès dá à sua prestação teatral o título de "Serial plaideur", da mesma forma que, em 2007, se prestou a ser a cara do filme com o nome de "O advogado do terror".

A juristas conhecidos que venham a Paris - com especial dedicatória ao meu velho amigo Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados - recomendo esta provocatória "performance" do seu incómodo confrade francês, em cena até 11 de abril.

Cumplicidades

Quando, aqui, há dias, eu me referia à proximidade das diplomacias da Índia e de Portugal, estava longe de pensar no que iria suceder, horas depois, no Conselho de Segurança da ONU.

Durante uma sessão a que estavam presentes os ministros dos Negócios Estrangeiros dos países que têm assento nesse órgão, o ministro indiano, por lapso, agarrou no texto que estava sobre a mesa, que o ministro português tinha preparado para a sua anterior intervenção (mas que não tinha usado, porque fez um improviso) e leu-o, durante alguns minutos. Só quando, a certo ponto, se dá conta de que o ministro fala como se fosse membro de um país da União Europeia é que é interrompido pelo seu embaixador, que lhe dá o texto do discurso indiano, não sem que tivesse havido uma embaraçosa hesitação.

Alguns detratores da vida diplomática viram neste incidente a prova de que, salvo em pormenores, a "langue de bois" das intervenções "onusinas" acaba por ser comum aos vários países. Mas as coisas podem ser vistas de outra forma: é cada vez mais natural que membros de governos democráticos possam sentir-se próximos na afirmação de uma linguagem comum sobre grandes temáticas internacionais. Por isso, o político indiano ter-se-á sentido confortável com o tom adotado no nosso discurso. A qualidade de membro da UE é que já seria demais!

Veja tudo aqui.

Gerard Castello-Lopes (1925-2011)

Há quase dois anos, tive o gosto de estar presente na inauguração de uma exposição de Gérard Castello-Lopes, num festival próximo de Angoulême. O fotógrafo estava, de há muito, incapacitado por doença. Faleceu ontem, aqui em Paris, aos 85 anos.

Conheci Gérard Castello-Lopes há uma boa década, num daqueles divertidos almoços de Agosto, em Sintra, em casa do Bartolomeu Cid dos Santos, em que o também já desaparecido anfitrião tinha o condão de juntar um grupo magnífico, de alguns dentre os seus inúmeros amigos. Recordo-lhe a voz forte e as gargalhadas francas, com que desfiava e acompanhava histórias da vida. Conhecia as suas anteriores andanças pelo quadro do meu ministério, quando fora tentado por José Cutileiro a fazer parte da delegação junto do Conselho da Europa, em Estrasburgo. E, naturalmente, sabia do seu trabalho na área da cultura, em especial ligado ao cinema, uma paixão e negócio de família.

Curiosamente, iria ser na fotografia que Gérard Castello-Lopes mereceria um maior reconhecimento público. Os seus trabalhos, onde se podem ver as influências de Cartier-Bresson, desenharam um inultrapassado retrato antropológico de um certo Portugal e colocaram-no na escassa galeria dos nossos grandes fotógrafos. Por isso, creio que a melhor maneira de lembrá-lo hoje é publicar uma das suas belas fotografias.

À Danièle, deixo aqui o nosso abraço solidário.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

"Les gardiens des murs"

 
Argel, a cidade branca, é uma das mais interessantes paisagens urbanas do Mediterrâneo. Ontem foi cenário de fortes tensões, ecoando o Cairo e Tunis.

A cidade tem uma história trágica de violência, desde a heróica luta pela independência até aos "anos de chumbo" dos atentados islamistas, que muito ajudam a explicar, embora não a justificar, os equilíbrios do seu atual regime.

A Argélia é também um país que diz bastante a muitos portugueses, que  aí foram acolhidos em tempos de exílio. Exílios que começaram com um dos últimos presidentes da I República, Teixeira Gomes, que se recolheu, até à sua morte, em Bougie (hoje Béjaia). Mais tarde, nos anos 60 e 70, Argel viria a funcionar como um dos principais centros da oposição ao Estado Novo, que por lá se cruzava com os independentistas das colónias portuguesas, para quem o novo país era um apoio seguro. O endereço da rue Auber, nº 13, onde funcionava a "Rádio Voz da Liberdade", que, pela noite, nos trazia épicas mensagens dos revolucionários portugueses, faz parte da memória de muitas pessoas da minha geração.

Estive em Argel algumas vezes, infelizmente quase sempre em grupos com forte segurança, pouco podendo usufruir daquele magnífico panorama que borda o porto e sobe pela encosta, com uma bela arquitetura colonial que, aos poucos, se perde no dédalo do casbah. Um dia, ao conseguir passear um pouco por uma rua comercial, com várias lojas a exibirem posters de Madjer, dei por mim a perguntar  à pessoa que me acompanhava, numa distração pateta, apenas para fazer conversa, o que fazia tanta gente sentada ou encostada aos prédios. A resposta dada pelo funcionário teve a graça cruel de quem assim qualificava os seus compatriotas sem emprego: "sont les gardiens des murs..."

Ontem, os "gardiens des murs" terão dado um passo em frente.

Temores

Telejornal do almoço da RTP 1, hoje: "Depois dos acontecimentos no Egito, teme-se que o movimento alastre a outros países vizinhos".

Teme-se?

Saudades de Brasília

Oferecido por um amigo brasileiro, chegou-me hoje um belo livro produzido pela "Camargo Corrêa", comemorativo dos 50 anos da cidade de Brasília. 

Das fotografias contemporâneas que o trabalho apresenta faz parte esta imagem. No típico léxico brasiliense, ela representa as "tesourinhas", o "eixão" e os "eixinhos", na "Asa Norte".

Em tempo: o "Correio Braziliense", o mais importante jornal de Brasília, herdeiro de um órgão de informação homónimo criado em 1808, em Londres, faz hoje (4.3.11) a este post. Leia aqui.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Notas egípcias

1. É impossível, para quem o viveu, não deixar de pensar no nosso 25 de abril, ao observar a alegria simples do povo egípcio. Estes são os momentos mágicos da esperança, que antecedem o que aí vai vir, inevitavelmente, as muitas divisões e contradições de um processo que só agora começou. Mas este dia, para o Egito e não só, será sempre um fantástico momento.

2. Uma grande interrogação é saber o que farão as Forças Armadas egípcias, a partir de agora. Convém ter presente que elas estão no poder, naquele país, há quase 60 anos, sempre apoiando ditadores. Todos os presidentes egípcios, desde Nasser, foram militares. Não o tendo assumido até agora, poderão as Forças Armadas egípcias vir a ser tentadas a ter um papel "kemalista", como na Turquia?

3. Se as coisas correrem bem, esta nova situação pode abrir uma "janela de oportunidade" para a resolução da questão israelo-árabe. Pena é que o poder em Israel não dê mostras de perceber esse ensejo e se feche na sua lógica tradicional de só se sentir confortado com a instabilidade fragilizante ou com ditaduras à sua volta, como melhor alibi para justificar a sua própria rigidez.

4. Se "houvesse" Europa, o que se conseguiria agora fazer com o Egito! Não "havendo", vamos assistir, nos próximos tempos, à agitada coreografia de alguns Estados europeus, colocando-se em bicos de pés para seduzir as forças que lhes parecerem mais aptas a assumir o poder no Cairo. E ainda há quem por aí se preocupe com o Serviço Europeu de Ação Externa...

5. Se há algo que, depois dos acontecimentos da Tunísia e do Egito, ficou bem provado foi a importância da internet, o papel decisivo das redes informáticas para o contacto entre as pessoas e para a difusão da informação. Quase que valeria a pena, como gesto de reforço da liberdade e da democracia, incluir o livre acesso informático como um dos novos Direitos do Homem.

"Live"

Começo a ficar farto da sofreguidão imediatista de quem me telefona, logo de manhã, a comentar "Já viste o estado da praça Tahrir?'" ou, à tarde, "Olha que o Mubarak já está em Charm el-Cheikh!".

Será que não podemos esperar pelos telejornais da noite?

Em tempo: pelos vistos, não! Chegou-me, entretanto, o "O Mubarak já se demitiu!".

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Embaixadas

A embaixada britânica em Paris situa-se hoje no nº 39 da rue du Faubourg Saint-Honoré, um imponente edifício, a dois passos do palácio do Eliseu, sede da presidência da República francesa.

Ontem estive por lá, num encontro de trabalho. A certo ponto, quando alguém gabava a dimensão e o porte da residência, bem como o seu belo jardim, não me contive de dizer, para espanto de muitos: "Este prédio já foi a Embaixada de Portugal, no final do século XVIII". E revelei que também o edifício onde hoje está o Hotel Ritz, na place Vendôme, foi também residência de antecessores meus.

A Embaixada de Portugal está hoje muito bem instalada, num edificio adquirido em 1936, no nº 3 da rue de Noisiel. Mas muitos outros endereços tivemos já por esta cidade de Paris, como o hotêl des Bretonvilliers, na Île de Saint-Louis, de que mostro uma imagem da época.

Bem gostaria de, um dia, poder fazer um completo inventário da nossa presença por aqui.

Em tempo: um nosso comentador fez notar que a nossa atual Embaixada fará, em 2011, 75 anos. Boa lembrança para ser explorada... 

Alberto Oliveira e Silva (1924-2011)

Alberto Oliveira e Silva tinha um belo historial de luta contra a ditadura. Era advogado. Foi ministro da Administração Interna, em 1974, e governador civil de Viana do Castelo. 

Em Outubro passado, por motivos ligados à sua qualidade de provedor da Santa Casa da Misericórdia de Viana de Castelo, tivemos uma derradeira e longa conversa ao telefone. Relembrámos então a sua velha amizade com a minha família e, em especial, um último jantar em que havíamos estado juntos, aquando de uma iniciativa do jornal "Aurora do Lima". Prometi visitá-lo no Natal, compromisso que não cumpri. Faleceu em Viana, hoje, com 86 anos.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

De acordo!

A intervenção pretendia-se incisiva, com um argumentário que o diplomata tinha por inequívoco. Aquela reunião, em sessão restrita, entre delegados de Estados da então União Europeia a "quinze", estava a destinada apenas a confirmar a "separação das águas", no âmbito de uma negociação muito complexa, em que as posições assumidas por cada país eram mais ou menos expectáveis. No fundo, pouco mais havia a fazer do que constatar a impossibilidade de se gerar um consenso, ainda que mínimo, com todas as consequências políticas que esse impasse iria gerar, obrigando o assunto a subir a outras instâncias.

Tendo acabado de tomar a palavra, o diplomata recostou-se na cadeira, colocou o auscultador da interpretação simultânea no ouvido e dispôs-se a escutar as duas intervenções que se iriam seguir, oriundas de delegados de países que, de uma forma há muito evidenciada, estavam abertamente do outro lado da "barricada".

E, no entanto... o nosso homem começou a ficar perplexo quando ouviu o primeiro dos oradores afirmar que concordava, no essencial, com aquilo que acabara de ser dito, felicitando-o mesmo pela "evolução" que mostrara, na "nova" posição assumida. Pensou tratar-se de um equívoco desse colega, facilmente corrigível. Mas, com espanto, escutou o orador seguinte dizer, basicamente, a mesma coisa, também se congratulando com a sua intervenção.

O diplomata ficou angustiado. A sala começava a olhar para ele. Não sabendo bem o que fazer, não podendo "agarrar-se" a coisas substanciais, porque aquelas duas intervenções tinham sido curtas e genéricas, limitado-se a "apoiar", com assumido entusiasmo, a sua intervenção, decidiu pedir a palavra à presidência da sessão. Esta procurou dissuadi-lo, até porque havia ainda mais oradores inscritos. Em desespero, o diplomata pediu então para fazer um "ponto de ordem" - um vetusto truque, em torno de aspetos da "ordem de trabalhos", que permite efetuar uma interrupção e que, com habilidade e rapidez na passagem da mensagem, dá ocasião para dizer o que se quer:

- "Senhor presidente. Esta minha intervenção prende-se com as que os dois oradores precedentes fizeram. Verifiquei, com surpresa, que eles concordaram com o que eu disse. Ora eles não podem estar de acordo comigo, porque eu sei que não estou de acordo com eles! Por isso, ou eu me enganei no que disse, embora não consiga perceber em quê, ou a interpretação não funcionou. De qualquer forma, peço que da ata desta sessão não conste que eu disse o que parece que terei dito..."

A sala explodiu de riso, claro!

Índia

Almocei hoje, num pequeno grupo, com o antigo ministro - das Finanças e, posteriormente, dos Negócios Estrangeiros - da Índia, Yashwant Sinha, figura destacada do maior partido da oposição do seu país. Ao meu lado, o antigo ministro francês das Finanças, Francis Mer, lembrou-me, a certa altura da conversa, a fantástica realidade de que quase metade do eleitorado democrático do mundo está na Índia.

Para o que aqui nos importa, devo dizer que fiquei impressionado ao ver Sinha afirmar, de forma espontânea, quando abordou as relações do seu país com a União Europeia: "Foi graças a Portugal, na sua presidência em 2000, que a Índia recebeu o estatuto de "parceiro estratégico" da União Europeia. Isso representou uma mudança muito importante nas nossas relações com a Europa".

Recordo bem esses tempos. A ideia foi avançada por nós numa "troika" de diálogo político da UE com a Índia, em fins de 1999, em Helsínquia. Ela foi acolhida com visível desagrado por parte da então MNE finlandesa, Tarja Halonen (hoje presidente da República do seu país), que não terá apreciado ver o exercício que conduzia ser desvalorizado pelo anúncio de um "upgrading" cuja titularidade lhe iria fugir. É a vida... Graças à cumplicidade do comissário Chris Patten, a quem tínhamos informado da nossa iniciativa, foi possível conseguir concretizar, em escassos meses, essa ideia. As autoridades indianas viriam a demonstrar, posteriormente, e em diversas ocasiões, o seu forte apreço político por esse gesto de Portugal. A referência hoje feita por Yashwant Sinha ao assunto demonstra que o mesmo terá ficado registado na memória diplomática indiana.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Cadeiras

Aquele adido cultural, enviado para uma das novas embaixadas abertas num antigo país comunista do leste europeu, estava a revelar-se uma figura um tanto irritante, na constante exibição de uma pretendida omnisciência. A sua escolha fora bastante contestada, mas pressões bem executadas e amigos nos lugares certos no tempo exato haviam-lhe feito ganhar o lugar. Constava mesmo que ainda não tinha acabado o respetivo curso universitário.

A embaixada era pequena, embora nela existisse um espaço que, futuramente, teria condições para vir a ser utilizado para a realização de atividades culturais. Mas a falta de qualquer equipamento tornava, por ora, completamente inútil a presença do adido, o qual, desde a sua chegada, nada mais fazia do que "mandar bocas" e passear-se pelos escritórios. O embaixador e o secretário, numa reação que também não deixava de ter algo de corporativo, estavam já a começar a ficar fartos do indesejado adido.

Um fim de tarde, espojado nos sofás do gabinete do embaixador, o nosso homem desenvolvia as suas já habituais projeções sobre o manancial de ações que, um dia, pretendia levar a cabo, para glória da cultura portuguesa naquelas inóspitas paragens. Tratava-se de mera conversa virtual, que não conseguia convencer os diplomatas, fartos desse desfiar de ilusões e já desconfortáveis com a forçada coabitação com o "dolce fare niente" do cavalheiro, cujo ócio era bem pago pelo erário.

Mas o adido não era pessoa para se deixar abater perante esse palpável ceticismo dos diplomatas e continuava no seu mundo de futuros. Para tornar mais credíveis os seus projetos, simplificava mesmo as necessidades. Nesse dia, para encurtar argumentos, adiantou:

- Estive a pensar e, na prática, só preciso, para começar, de uma mesa e de umas 40 cadeiras.

O embaixador olhava para ele com um ar translúcido de cansaço com a conversa, o que terá encorajado o secretário de embaixada a dizer, em voz baixa:

- Talvez 41...

Intrigado, o chefe da missão olhou para o seu colaborador direto, tentando perceber o preciosismo. O adido também. O secretário não teve então outro remédio senão esclarecer, agora já com um sorriso algo ácido, consciente de que iria degradar para sempre as suas relações com o homem da cultura:

- É que, se você pedir mais uma cadeira, pode acabar o curso...

Garanto a veracidade do essencial desta história.

Mário Lopes

Mário Lopes é um homem simples, com o sorriso simpático de quem está de bem com a vida. Uma vida que ele soube construir a pulso, desde que chegou a França, até atingir o patamar cimeiro que hoje tem na sua profissão, aqui em Paris.

Há dias, recebeu, pela segunda vez, o título do "melhor cabeleireiro de França". E tem blogue. Leia mais sobre ele aqui.

Parabéns, Mário. 

A outra África

... mas a África não são só tragédias políticas e humanas.

Cabo Verde deu, no passado fim de semana, uma imagem de sólida maturidade democrática. Mais um, como o sublinha (e bem!) um comentador.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Sudão

Valerá a pena afivelar, como hoje o faz parte da comunidade internacional, um sorriso de satisfação pela secessão da parte sul do Sudão, depois de um referendo? Os diplomatas são profissionais do otimismo, mas, devo confessar que tenho alguma relutância em assumi-lo como sentimento num processo em que apenas está resolvida uma parte formal das muitas e decisivas questões que, a partir de agora, se vão colocar aos dois novos Estados. A guerra civil foi terrível, com dois milhões de mortos ao longo de quase 20 anos, pelo que alguns entendem que, pelo menos, o futuro sempre será melhor. Pode ser que seja.

Os EUA, inspiradores deste processo, e as Nações Unidas, que o credibilizaram, não podem agora "lavar as mãos", com facilidade, quando estamos apenas no intervalo de um jogo em que falta disputar a segunda parte: das questões de delimitação fronteiriça aos mecanismos para a distribuição dos réditos do petróleo (e alguém duvida que o nome deste novo país, qualquer que ele venha a ser, será sempre sinónimo de "petróleo"?), das regras de atribuição de cidadania às transferência das populações que está por realizar e, "last but not least", a delicada questão hidrográfica e dos acessos por via terrestre. Para além do muito que ninguém fala: desmobilização militar, desarmamento, desminagem, implantação de estruturas de Estado, etc.

Nestes tempos de celebração, poucos referem também uma questão que talvez se repute já um preciosismo histórico: a circunstância desta independência representar uma quebra à sábia "regra de ouro" da Carta da antiga Organização da Unidade Africana, que previa o respeito pelas fronteiras do colonialismo, como travão à "balcanização" étnica ou religiosa do continente. Esperemos apenas que mais este precedente (infelizmente, não único) não venha a ser usado, futuramente, em outros cenários de conflito, por partes de Estados que legitimamente podem sentir-se tentados a reclamar idêntico tratamento. Pode ser que tenham a sorte de não ter petróleo...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

"Contrepourrisme"

O programa humorístico "Les Guignol" inventou, esta semana, o conceito de "contrepourrisme" ("contre" ou "pour"), para qualificar a atitude diplomática de alguns países ocidentais face aos regimes cadentes na Tunísia e Egito e às revoluções que os assolam - que passaram de um apoio mais ou menos explícito ao "statu quo ante" à súbita colagem às virtualidades da revolta popular que se voltou contra os mesmos, acompanhada por uma fervorosa denúncia de autoritarismos que, durante décadas e até semanas antes, ninguém parecia ter notado.

Esta diplomacia do embaraço não se ficou, contudo, deste lado do Atlântico. Com efeito, ela afetou igualmente a administração americana, com o espetáculo, pouco comum, de vermos um enviado especial de Washington ao Cairo vir a assumir posições públicas que contrariam a linha oficial do seu próprio governo.

Os dias não estão fáceis... 

Escudero

Hoje, já quase com 80 anos, revisitei, na televisão francesa, Leny Escudero, essa voz magnífica da minha juventude.

Com a vivacidade que nunca perdeu, Escudero lembrou a sua chegada a França, em 1939, com os pais, refugiados da guerra civil de Espanha, uma memória que esteve muitas vezes presente na sua obra. E notou o caráter trágico desse tempo, relembrando um facto que, frequentemente, é branqueado pelo pretenso "equilíbro" das atrocidades: morreram muitas mais pessoas depois do fim da guerra, assassinados sob as ordens de Franco, do que durante o próprio conflito.

Mas, para aligeirar este post dominical, ouçamos, com prazer, Escudero no seu inesquecível "Pour une amourette".

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Ximenes Belo

Há nomes que desaparecem no tempo, não obstante terem estado presentes, de forma muito pronunciada, no nosso passado.

Ao ler há pouco, no Notas Verbais, que ia ser atribuído um prémio ao bispo Ximenes Belo, lembrei-me de quando Portugal inteiro vibrava com a coragem desse religioso, que soube dar voz e unidade à luta dos timorenses pela sua liberdade. Ximenes Belo foi um exemplo de determinação, causando mesmo algum incómodo à diplomacia da Santa Sé, cuja atitude perante o caso timorense - e esta é a minha opinião, que não escondo - nem sempre esteve à altura da responsabilidade exigível a um poder de influência que, historicamente, se reivindica de uma ética de princípios que não me parece compatível com exasperantes taticismos florentinos. O bispo Ximenes Belo viria a afastar-se de Timor-Leste, por razões de saúde. Vive atualmente em Moçambique, onde exerce atividade religiosa.

Em 1999, fui obrigado a abandonar uma tarefa que estava a fazer em Nova Iorque, no âmbito de uma Assembleia Geral da ONU, para me juntar, em Genebra, ao bispo Ximenes Belo e a José Ramos Horta - as duas figuras distinguidas, em 1996, com o prémio Nobel da Paz. Tratava-se de procurar garantir a condenação da Indonésia na Comissão dos Direitos do Homem das Nações Unidas, depois da violência que se desencadeara no território, na sequência do referendo que consagrou a vontade de independência dos timorenses. A Indonésia continuava numa posição muito relutante, pelo que consagrar o seu isolamento político no plano internacional continuava a ser essencial. 

O governo de Jacarta havia mobilizado todos os seus recursos e influências para derrotar a moção que queríamos ver aprovada. O trabalho de sensibilização de várias delegações em Genebra, muito bem conduzido pelo embaixador Mendonça e Moura, seria por nós os três apoiado, nos dois dias que antecediam a votação, numa ronda intensa de contactos. Na memória ficou-me a recordação quase caricata de ir, com o nosso embaixador, bater à porta da residência do representante diplomático de um país lusófono africano, que necessitava de algum estímulo para estar presente, na manhã seguinte, naquela importante votação.

O dia do voto foi dramático. A Comissão era presidida pela irlandesa Ann Anderson, que, há dois anos, vim a encontrar, aqui em Paris, como embaixadora do seu país. Outra irlandesa, Mary Robinson, era, à época, Alta-Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Visitei-a logo após a minha chegada à Suíça e, naquilo que dela dependia, deu total apoio às nossas pretensões. Articulei com o bispo Belo e com Ramos Horta o teor dos nossos discursos. E tivemos sucesso: a Indonésia sofreu uma esmagadora derrota e saiu condenada dessa votação.

Porque o mundo que fala a nossa língua é (e ainda bem!) o que é, lembro-me que grande parte da conversa entre mim e os dois representantes timorenses, no "Falcon" que nos levou depois a Lisboa, acabou por ser sobre... futebol português.

Mirandês

A Fundação Gulbenkian levou a cabo, no passado dia 3, um interessante debate em torno da língua mirandesa. O Mirandês é uma língua (de raíz ásturo-leonesa) falada em áreas dos concelhos de Miranda do Douro e de Vimioso, por alguns milhares de pessoas. Durante muitos anos, não teve forma escrita, sendo um modo de expressão nas famílias e entre cidadãos do meio rural.

O autor de um livro sobre o tema, publicado em França, "Le Portugal bilingue", Michel Cahen, acompanhado pelo professores José Meirinhos e Maria Benedita Basto, fez uma apresentação sobre as peculiaridades daquela que é a segunda língua oficial de Portugal, dos riscos que a sua sobrevivência corre e dos esforços que têm sido feitos para a promover, como um fator de orgulhosa singularidade de uma micro-região. Entre outros aspetos, foi curioso ver sublinhado pelo professor José Meirinhos o facto do Mirandês nunca ter sido objeto de "apropriação" política ou regionalista, situação muito comum em línguas minoritárias.

Não deixa de ser de destacar que algumas dezenas de pessoas se tenham mobilizado, no final de tarde, em Paris, para se deslocarem à Gulbenkian, para assistirem a este debate. Entre essas pessoas contava-se, há que dizê-lo, o embaixador de Portugal, que é tão transmontano como o próprio Mirandês.

O blogue Froles Mirandesas, colocou este post em língua mirandesa. Aprecie aqui:

La Fundaçon Gulbenkian lebou a cabo, ne l passado die 3, un antressante debate an torno de la lhéngua mirandesa. L Mirandés ye ua lhéngua (de raíç ásturo-leonesa) falada an árias de ls cunceilhos de Miranda de l Douro i de Bumioso, por alguns miles de pessonas. Durante muitos anhos, nun tubo forma scrita, sendo un modo de spresson nas famílhias i antre cidadanos de l meio rural.

L'outor dun libro subre l tema, publicado an Fráncia, "Le Pertual bilingue", Michel Cahen, acumpanhado puls porsores José Meirinhos i Maria Benedita Basto, fizo ua apersentaçon subre las peculiaridades daqueilha que ye la segunda lhéngua oufecial de Pertual, de ls riscos que la sue subrebibéncia cuorre i de ls sfuorços que ténen sido feitos pa la promober, cumo un fator d'ourgulhosa singularidade dua micro-region. Antre outros aspetos, fui curjidoso ber sublinhado pul porsor José Meirinhos l fato de l Mirandés nunca tener sido oubjeto de "apropiaçon" política ó regionalista, situaçon mui quemun an lhénguas minoritárias.

Nun deixa de ser de çtacar qu'alguas dezenas de pessonas se téngan mobelizado, ne l final de tarde, an Paris, para se zlocáren a la Gulbenkian, para assistíren a este debate. Antre essas pessonas cuntaba-se, hai que dizir-lo, l'ambaixador de Pertual, que ye tan strasmuntano cumo l própio Mirandés.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Nuno Teotónio Pereira

Nuno Teotónio Pereira é uma figura pública discreta. A imprensa só fala dele a espaços. Arquiteto de profissão, marcou um tempo muito importante nesse domínio, deixando o seu nome ligado a obras emblemáticas.

Mas Nuno Teotónio Pereira é muito mais do que um profissional brilhante. É uma figura ética que, desde sempre, soube afirmar posições de grande rigor cívico, em especial na área do cristianismo crítico, a que a política não esteve nunca alheia. Corajoso opositor do Estado Novo, foi por ele sujeito à prisão e à tortura.

Os nossos caminhos cruzaram-se em algumas "aventuras improváveis", pelos tempos de abril. Contudo, conheço-o mal, o que não impediu que sempre por ele tivesse um grande respeito e admiração.

Pelos vistos, não estou só. Hoje, pelas 16 horas, nos seus 89 anos, será homenageado na sala de conferências da igreja que, com Nuno Portas, desenhou e que foi construída na rua Camilo Castelo Branco, em Lisboa. Na ocasião, falar-se-á das cooperativas "Pragma" e "Confronto", iniciativas que, nos anos 70, mobilizaram Nuno Teotónio Pereira, suscitando as iras e a repressão do regime ditadorial.

Guerra colonial

Faz hoje 50 anos, iniciou-se em Angola a revolta contra a administração portuguesa, tema que, no ano passado. nesta mesma data, aqui abordei. Iniciava-se a nossa primeira guerra colonial.

Um amigo chamou, há poucos dias, a minha atenção para o facto de eu utilizar, com regularidade, a expressão guerra colonial, entendendo-a, aparentemente, como algo agressiva face a certos setores nacionais. Perguntou-me por que não falava em "guerra do ultramar" ou "guerra de África".

No léxico público português, o conceito de "guerra do ultramar" está ligado à ficção de que os territórios africanos que estiveram sob administração portuguesa, até 1974, eram "províncias ultramarinas", escondendo desta forma a realidade atrás das palavras. O facto de estarem "para além do mar", conceito de natureza geográfica, não retira a dimensão colonial à realidade que se pretende qualificar. Curiosamente, parece esquecer-se que o termo "colónias" (e até o de "império colonial") foi utilizado até muito tarde, pelo Estado Novo. Só quando os ventos descolonizadores se tornaram ameaçadores no plano internacional é que apareceu oficializado o conceito de "províncias ultramarinas" - no nunca convincente mito do "Portugal do Minho a Timor". Mais tarde, e como alguns se lembrarão, Marcelo Caetano viria mesmo a crismar com o equívoco nome de "Estados" os territórios de Angola e Moçambique, a exemplo do que fora usado para o "Estado da Índia".

As "possessões" (outro termo que, significativamente, se usava no salazarismo, paralelamente ao conceito de "ultramar") africanas e asiáticas eram simples colónias e, como tal, foram sempre consideradas pela comunidade internacional - a qual, valha a verdade, nunca foi "inimiga" de Portugal mas sim da ditadura que sobrevivia no nosso país. Contrariamente aos tempos do Estado Novo, em que quem falasse de "colónias" tinha a certeza de vir a sofrer represálias, hoje é perfeitamente legítimo, na democracia que a Revolução do 25 de abril nos trouxe, referir o "ultramar" ou as "províncias ultramarinas".

É óbvio que esta questão se prende com o problema da "guerra". Para alguns, o conceito de "guerra do ultramar" é mais confortável e a ideia de guerra colonial pode ser lida como potencialmente deslegitimadora da luta dos nossos soldados, entre 1961 e 1974.

Nada de mais errado. As Forças Armadas portuguesas conduziram, nesses 13 anos, um esforço de preservação da soberania portuguesa sobre as suas colónias, conforme lhe era ordenado pelo regime então vigente. Fizeram-no com o profissionalismo e o sentido patriótico a que sempre nos habituaram, arcando com sacrifícios em termos humanos que o país deve reconhecer e prestigiar. Os militares portugueses que intervieram nas guerras que Portugal disputou nessa África - todos os combatentes, mas, em especial, os feridos e os mortos - não são de "esquerda" nem de "direita", sendo patético ver a sua dignidade, muitas vezes, refém de aproveitamentos sectários, como se vê em algumas romagens de saudade. Esse militares lutaram por Portugal, na perspetiva do país que o regime impunha, defendendo o que lhes apontavam como sendo a nossa bandeira. E, contrariamente a certas vozes que por vezes emergem, tão patriotas eram os soldados que lutavam contra os movimentos independentistas das colónias (chamados então de "terroristas") como quantos se opunham, no interior ou exilados no estrangeiro, ao regime ditatorial que vigorava no país. Desigualizá-los em patriotismo é assumir a ideologia da ditadura. Hoje isso não é proibido, mas não deixa de ser significativo.

Convém também lembrar que foram essas mesmas Forças Armadas - as quais, com o seu esforço, tinham dado ao regime muito tempo para uma resolução política da questão colonial - que derrubaram o regime ditatorial e instauraram o sistema democrático. Foi a necessidade dessa rutura, que teria sido evitável se tivesse havido uma negociação tempestiva, que conduziu a uma independência atribulada das colónias, com dramas humanos - para os portugueses e para os povos colonizados - que eram perfeitamente escusados.

Por tudo isso, porque as coisas são o que são, continuarei a usar, aqui e como noutros contextos, a expressão guerra colonial. Outros podem optar por uma "terceira via", para fugir ao dilema: falar das "guerras de África" ou das "campanhas de África". Eu continuarei a chamar as coisas pelos seus nomes.