sábado, 3 de setembro de 2011

Notas de fim de semana

1. É muito bem escrita, como sempre, a crónica de ontem de Ferreira Fernandes, no "Diário de Notícias". Esta é sobre o estilo de discurso do professor Vitor Gaspar, o novo ministro das Finanças. Já conhecia o tempo e modo desse estilo quando, há já bastantes anos, fiz com ele parte de um júri, no Ministério dos Negócios Estrangeiros. O que a mim mais me impressiona, na forma da sua expressão, que agora é algo de verdadeiramente inédito na política portuguesa, é o ritmo desarmante que sustenta, impávido, perante os estímulos provocatórios dos interlocutores. 

2. Sei que vai chocar algumas pessoas que se diga isto. Mas a revolução líbia só ficará consagrada, na plenitude das suas credenciais de tolerância, no dia em que puder haver rádios, jornais e partidos políticos que critiquem abertamente, sem sentirem o medo de quaisquer represálias, as novas autoridades, ainda que transitórias, que vierem a assumir o poder em Tripoli. E isto, claro, antes de quaisquer eleições.

3. Recomendo vivamente o texto (não tem link livre) de Pedro Mexia, no "Expresso" de ontem, intitulado "Os Alfonsos Guerras". E, mais ainda, recomendo o já antigo livro de Jorge Semprún, que serve de pretexto à crónica - "Frederico Sanchez vous salue bien" -, no qual ele conta a sua experiência de homem do mundo da cultura inserido na política. Só não o recomendo a Francisco José Viegas porque sei que ele já leu tudo.

4. É excelente a notícia de que os trabalhos fotográficos de Gérard Castello-Lopes, de cerca de meio século de atividade, vão ser apresentados no novo Centro Cultural Gulbenkian, em Paris, em abril de 2012. A partir de última semana de outubro, a Gulbenkian de Paris abandonará as instalações da avenue d'Iéna e passará a estar aberta num prédio no boulevard de La Tour-Maubourg.

18 comentários:

Isabel Seixas disse...

Bem a imagem é fabulosa, os quatro elementos pensadores suscitam mesmo reflexões criticas com serenidade sobre a atualidade...
Que bom é Domingo e chove , os incendios prescritos estão por inerência proscritos assim como uma deflagrada crise se deita no que não tem remédio remediado está, só para alguns...

E nós... Bem estamos
Isabel Seixas

patricio branco disse...

coincidencia, mas folheei ontem o "federico sanchez se despide de ustedes", penso que é o mesmo citado no blogue com titulo francês, fala da experiencia como ministro da cultura com felipe gonzalez, figura que aparece constantemente.
Folheei o a proposita da entrada sobre o sr morisi, um pseudonimo fez-me associar o outro, fui buscar o livro à estante.
Ontem, pilar saramago estava na festa do avante, vi na tv, e há uns dias foi entrevistada por manuel goucha. A dado ponto mostrou o que me pareceu desprezo por bernard pivot ("como se chamava aquele senhor, nem me lembro, o de apostrophes" e goucha lá disse o nome, "sim, esse") por ele ter perguntado a josé saramago "qual o papel dum comunista no mundo actual?" (depois do desmantelamento da urss e muro).
Pareceu-me uma pergunta concreta e interessante, alem de que pivot homenageou saramago ao convidá lo para o seu programa.
Estas divagações vêm a proposito de semprun, ex comunista, e do seu federico sanchez.

Ao contrario, para mim, o ministro das finanças tem o condão de me irritar quando fala de modo tão frio e insensivel, sempre com a mesma cara, dos sacrificios que nos exige cada vez mais. E quando acrescenta a modo de consolação e vidente que vamos sair bem da crise, mas sempre com os tais scrificios, tal como o pm grego diz que em 2013 a grecia sairá.
Sinto que estão a brincar connosco e que os governos abandonaram qualquer dose de humanismo nas suas actuações, de dramas neorealistas passamos a ver filmes de terror todas as noites, que é o que são os telejornais (ex. o ministro da saude disse implicitamente que os transplantes de orgãos iam ser cortados, que é isto senão um episódio de terror e crueldade?)
Pouco a pouco estou a deixar de ver as noticias, quando aparecem certas figuras ou anuncio de medidas corto.

Sobre gerardo castello lopes, maravilhosas fotografias de lisboa e não só as suas. É algo de bom que temos para mostrar e paris vai gostar. Outro grande mestre fotógrafo português foi fernando (josé) lemos, valia a pena tambem uma exposição dele.

Isto já vai longo, bom domingo.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Patrício Branco:
Tem toda a razão e oportunidade falar de "Federico Sanchez se despide de ustedes" (depois traduzido em francês com o título "Federico Sanchez vous salue bien"), porque a primeira edição foi em espanhol. É precisamente essa versão original que eu tenho. A maioria da obra de Semprún foi escrita em francês. O primeiro livro que escreveu em espanhol foi a "Autobiografia de Federico Sanchez", um livro magnífico de que já falei no blogue.
Quanto a Fernando Lemos, um extraordinário fotógrafo português, não o ponha no passado! O Fernando, que tenho o privilégio de conhecer, vive em S. Paulo e está bem ativo.
Eu não falei daquilo que o ministr das Finanças diz. Apenas me referi ao modo como se exprime. Creio que ficou claro.

Isabel Seixas disse...

Agora, Quem precisa de transplante...

No entanto não se pode dizer que haja incongruência nos discursos face à filosofia subjacente com as práticas...

Mesmo assim quem me dera ser surpreendida...

Até pela advocacia dos utentes que agora mais que nunca e mesmo que queira não cumpro por ausência de recursos.

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Isabel Seixas: eu pronunciei-me apenas sobre a forma do discurso.

Helena Sacadura Cabral disse...

1. Curiosamente a mim a tranquilidade de Gaspar - pese embora o conteúdo do que diz - transmite-me confiança que é coisa que já nutro pouco pela classe política. Não só pela nossa. A de França arrepia-me igualmente. Sarkozy enerva-me, Aubry irrita-me, Segolene faz-me rir, e Hollande...pois Hollande ainda será o melhor que se arranja depois de terem partido as pernas a DSK.
O meu maior problema é constatar que nunca mais vejo os tão anunciados cortes na Despesa. Já era tempo...
2. A mim não me choca nada. Pelo contrário. Basta olhar para a lista de homens da transição!
3. Os homens das letras não deviam ir para a política. Perdemos os primeiros e a segunda não fica mais rica. Mas o poder, dizem, é afrodisíaco. E os prazeres pagam-se a preço elevado. É pena!
4. Tudo o que se faça para divulgar a obra e o homem Gerard Castello Lopes é de apoiar.

Helena Oneto disse...

A imagem, como diz a Isabel, é fabulosa e os 5 primeiros comentários a estas reflexões são mais que pertinentes.

Livros a ler e fotografias a ver na "nova" Gulbenkian! Chouette:)!

Isabel Seixas disse...

Sr. Embaixador eu já tinha percebido, fique descansado.

Reconheço um bom coração com ou sem décibeis é a vantagem de saltar as idades e emboscadas do deslumbramento.

Também só me pronunciei porque a forma como o Sr. bem saberá nem sempre condiz com o conteúdo, apenas o dita, às vezes alto e bom som com a maior das ternuras e serenidades e outras baixo para não ferir tanto dada a desfaçatez.

E reconheço a letalidade mesmo com silenciador ...

Cunha Ribeiro disse...

E foi assim, a falar do que escrevem, desta maneira simples e cordial, que o Colunista F.Fernandes me revelou o Sr. Embaixador- Escritor, Seixas da Costa, e Este me devolveu, oportuníssimo, Ferreira Fernandes.

E voltei a gostar de OS ler...

patricio branco disse...

pegando no que diz HSC, eu diria que a mim não me preocupam os politicos escritores do tipo disraeli, vaclav havel ou sedar senghor; nem os manuel alegre ou pacheco pereira, escritores com forte consciencia politica.
A mim preocupam-me os politicos que não escrevem nem leem, os que são analfabetos até do que são a propria função e objecto da actividade politica que escolheram ter.

Indo directo ao assunto, sem fazer trocadilhos, a politica tentou escritores (almeida garrett, cesar molina, semprun, vargas llosa) e a escrita tambem tentou politicos (giscard d'estaing, douglas home, carter, dominique villepin).

patricio branco disse...

ps. caro FSC, alegra-me saber que fernando lemos continua activo.

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Patrício Banco
Só que, os políticos até deviam saber escrever - cruzes, dão com cada calinada do tipo ha-dem -, e aqueles que refere sabiam mesmo.
Os outros, que a política tentou, como julga que ficaram mais conhecidos? Tirando Semprun, não terão marcado mais a literatura?
F. Viegas é um homem a muitos títulos interessante. Mas, e oxalá me engane, vai encontrar muitas dificuldades e até perder alguns interesses. Que, ao menos, mantenha o de bom gastrónomo!

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Dra. Helena Sacadura Cabral: a mais deliciosa desculpa, na sua falsa benevolência, sobre o "hádem" foi de alguém que disse: ele estava a referir-se ao "Aden Arabia", do Paul Nizan...

Alcipe disse...

Escritores políticos? O Malraux. O Neruda. O Tagore. Bons políticos? Não sei, mas relevantes foram. Bons escrtores? Têm dúvidas?

Isabel Seixas disse...

Bons escritores... consigo chegar lá, agora Bons politicos "instalou-se-me" cá uma dúvida sobre o requisito decisivo para Os definir...

A sério, mas também tem a ver com a dualidade de espectativas geradas
barra obtidas...
Quantos mais talentos manifestos maior a exigência profissional e menor a tolerancia face a insucessos.

Além de sujeitos à avaliação de crivos de subjectividade à luz ou escuridão de cada um e cada qual, ou sinais de tempos...Quota parte de influência de por detrás de mim virá quem de mim bom fará...

Agora Bons escritores, para mim têm de me impulsionar a lê-los,motivo pelo qual aqui poiso, até... A sua paciência deixar

Anónimo disse...

Senhor Embaixador!
Será que não quis dizer "pávido" e não "impávido"?

patricio branco disse...

D. diniz poderá ser considerado um bom politico ou governante tambem bom escritor?

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador a benevolência desse "alguém" supera a minha...
Caro Alcipe, não é que o meu amigo veio lançar ainda maior nevoeiro nesta questão? Ora vejamos
Bom político? Louçã!
Marcante? Sem dúvida. As marcas que ele já me/nos deixou.
Escritor? Sim. Prosa técnica acessível apenas a iluminados, como alguns meus familiares (há de tudo na família).
Os homens que refere foram grandes escritores. Mas foram sobretudo grandes homens. Da política? Sei não, como diz o nosso irmão brasileiro.