sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Encontro

- Já não se lembra de mim?! Pudera! Com a vida que tem...

Era um homem pequeno, magro, de olhar penetrante, tenso, um sorriso que não era mais que um esgar. Tinha-se aproximado pela rua, aos zigzags, e agora, no passeio, travava-me o passo.

Costumo ter boa memória visual, mas, por mais que me esforçasse, não me recordava dele. Podia ser que com o fluir da conversa...

- É natural que já se tenha esquecido de mim. Passou já tanto tempo. Mas eu não esqueço aquelas palavras simpáticas que, há anos, me dirigiu, sobre o meu trabalho. Ficaram-me para sempre.

Que teria eu dito? Continuava mudo, encurralado no passeio estreito, com os carros à disparada, a impedir um início de retirada. O meu esquecimento seria da idade? É que continuava sem me lembrar de nada. O que já me incomodava.

- Pois eu, depois de ter por lá andado - bons tempos! -, tive uma vida muito complicada. Traições, sabe? Não se pode confiar em ninguém.

Onde é que teria sido o "lá" onde ambos nos tínhamos, ao que parece, encontrado? Sem nomes, relatou invejas que o tinham prejudicado, perseguições de que fora vítima, uma carreira profissional arruinada. Até a família! Tudo tinha corrido mal.  Estava no desemprego.

Por essa altura, eu tinha passado aquele limiar temporal em que já me não era possível, com decência, perguntar quem ele era, onde nos conhecêramos, o que realmente fazia ou fez. O discurso do homem, culto e rico na expressão, revelava-me alguém bem preparado, mas, igualmente, uma personalidade abalada, perturbada. Continuava a acreditar que, por uma qualquer referência que acabasse por surgir, ainda ia "agarrar" a origem da figura e ligá-la a uma circunstância que me fosse comum.

Informou-me que lhe aparecera uma oportunidade para dar aulas. Começava na semana seguinte. E, algo críptico, acrescentou:

- O problema vai ser aguentar até lá.

Crendo ter vislumbrado uma escapatória, peguei na palavra, porque até então não tivera espaço para qualquer deixa, e disse-lhe que, se essa oportunidade se abria, seria apenas uma questão de tempo até pôr a sua vida em ordem. E adiantei umas platitudes de sala de espera de médico, como "o mundo dá tantas voltas" ou "sabe-se lá o dia de amanhã" ou "vai ver que tudo acabará por correr bem".

Vi, com alívio, que o meu interlocutor concordava, assentindo com a cabeça.

- Tem toda a razão, disse. Mas há-de concordar que é dificil, como no meu caso, estar sem comer quase há 24 horas. Mas vou aguentar! Não se preocupe...

Aí, fraquejei. Levei a mão à carteira e preparava-me para tirar uma nota, quando ele reagiu:

- Não, não! Nem pense nisso! Não junte uma humilhação mais àquelas por que tenho passado. Nunca perdoaria que o meu amigo ficasse com uma má impressão de mim. Posso ter fome, mas tenho a minha dignidade e, em especial, quero conservar a minha imagem. Como lhe disse, nunca esqueci as suas palavras. Basta-me isso! Eu cá aguentarei...

A cena invertera-se. Ele estóico, eu a pedir-lhe que aceitasse, dada a situação em que estava, uma simples nota para aconchegar o estómago. Não tinha nada a ver com humilhação ou dignidade, disse-lhe. Eu tinha muito gosto...

A relutância do homem começou a esbater-se. Condescendente, lá cedeu:

- Bom, se o meu amigo quer mesmo fazer-me esse favor, eu posso aceitar. Mas com uma condição! Isso é imperativo! Sem ela, não aceito! O meu amigo vai dar-me o seu endereço, para eu lhe enviar, logo que receber o primeiro salário da escola, aquilo que agora faz o favor de adiantar-me. Tenha paciência! Isso não dispenso! Nem eu aceito esmolas nem o meu amigo, pessoa que muito admiro, alguma vez seria tentado a dar-mas. Eu conheço-o!

Concordei, claro, "flattered" e aliviado com afastamento da suspeita de que eu pudesse ousar dar-lhe uma esmola. E lá lhe avancei alguns euros, acompanhados de um cartão pessoal. Sei lá porquê, senti-me aliviado. Parecia que o homem me acabara de fazer um favor. Na verdade, eu estava grato por ter recuperado a minha "liberdade", saído daquela conversa tão intensa. E lá se foi ele, rua abaixo.

Já passaram alguns meses, nunca mais tive notícias, claro. Quem seria o homem? Teria ele a menor ideia de quem eu era, antes de ter visto o meu nome no cartão?

19 comentários:

Anónimo disse...

este seu texto lembra_me j.r. migueis

bh

Mônica disse...

Eu acho que este senhor te levou na conversa direitinho.
Mas talvez voce deve te-lo conhecido. Porque não perguntou logo onde?
Ou ai não pode perguntar?
Cultura cada país tem a sua.
com carinho Monica
Mas eu ia perguntar antes. Acho!

Anónimo disse...

Há encontros que saem melhores que a encomenda...
Pior que desencontros.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro/a bh: muito obrigado, mas nem compare...

jj.amarante disse...

Foi teatro, com grande probabilidade.

Isabel Seixas disse...

Agora é desconcertante esse respeito que o sr. guarda a memórias prováveis de insondáveis, ainda o levam à falência.
E andamos nós à procura de estrategas, esse é que foi, aí está um homem que quase parecia mulher...

catinga disse...

Há muito tempo havia um destes vigaristas de rua que costumava atacar na zona das Avenidas Novas. A história que contava ia variando mas andava sempre à volta da necessidade dele voltar para qualquer sítio e não ter dinheiro para o transporte. Só que o indivíduo gaguejava e voltava constantemente atrás quando não se percebia a lógica da sua história, o que acontecia frequentemente porque ele, ou era doido, ou não tinha jeito nenhum para aquilo. Por exemplo, ele precisava de 50$00 para voltar ao quartel (andando à civil) mas, mais do que isso, necessitava de que fôssemos comprar o bilhete com ele a Sete Rios. A série de pormenores sem sentido era grande e em pouco tempo uma pessoa se cansava daquilo.

Numa das vezes em que me abordou, confrontei-o: "Então, a semana passada era para voltar ao quartel, hoje é para ir para o trabalho?". Ao mesmo tempo que lhe virava as costas ouvi um grande urro por trás. Desde então, nunca mais veio ter comigo mas, ocasionalmente, lá o via tentando endrominar alguém cuja face já denotava o ar incrédulo que se esperaria...

Um dia, estava eu deliciando-me com o descanso da Gulbenkian e vejo a personagem cruzar-se com outro jovem que, saudando-o com familiaridade, lhe perguntou: "Então, vais hoje ao Técnico?"

Anónimo disse...

Para o conto do vigário é preciso haver pessoas recetivas. Mas na primeira quem quer cai e que nunca o diabo (o vigário) leve mais. Era melhor, de facto, ficar pela primeira sugestão da consciência e dar-lhe o dinheiro. Insistir até que nunca empresta como aconselha a baronesa Nadine de Rothschilde, para não ter o trabalho de gestão das dividas e acabar por ficar sem o dinheiro ao pedi-lo e perder também o amigo ao mesmo tempo.

Fada do bosque disse...

Só por esta história tão bem escrita, até que não perdeu muita coisa, Sr. Embaixador... e nós ficamos todos a ganhar! :)
Quanto ao homenzinho, quem sabe um dia o Sr. Embaixador não vai ter a recompensa de um gesto tão amável? Mesmo que a não tenha, a educação, o altruísmo e o bom coração estiveram acima de tudo!!
De qualquer forma foi um gesto de bondade. Quantas vezes não me aconteceu já de ter ficado com e impressão de ter sido levada por lorpa? Não faz mal... que seria dos finórios, se não fôssemos assim? :)
Para a próxima, pergunta logo de onde conhece.

Anónimo disse...

ERA UMA VEZ

Parece um conto do vigário, lá isso parece...

E se não for???
E se a sua mão amiga foi a jangada que o salvou do naufrágio???Há vidas tão complicadas...e nem tudo o que parece, é.

Deixe lá Sr. Embaixador, na dúvida...
foi o " escuteiro" e a sua diária boa acção.

zamotanaiv disse...

Agora no Porto há a moda dos toxico-dependentes virem com umas conversas mirabulantes para tentar sacar uns trocos. Vestem-se bem e estudam a conversa.
Fui apanhado uma primeira vez e a partir daí deixei de ligar.
Em Lisboa, no BA à noite havia um com essa técnica mas no Porto agora, já deve haver uma escola de dar tanga ao transeunte.

Helena Sacadura Cabral disse...

História deliciosa, esta. Também eu fui, uma vez, bem levada à certa, porque se serviram do nome de um amigo que seria comum.
Esse amigo, em casa de quem deixara a carteira, saíra e ele estava sem comer e sem transporte, desde a manhã. Eram nove da noite.
Conhecendo a irregularidade de vida do amigo comum embarquei em mil escudos que me seriam pagos ainda nessa noite...
Que dizer?! Há mulheres crentes!

Margarida disse...

Acho que nos tornamos personagens incautas de uma bela peça.
Sucedeu-me, mas não dei o dinheiro por mal empregue, tão magnífica foi a representação do velhinho. Falo muito a sério.
Com ar de quem desfaleceria a qualquer instante, apoiava-se, frágil, à parede granítica de uma loja na zona do Bolhão.
Os esgares eram sucessivos, parecia perto de uma apoplexia eminente. Tombava a noite e caí eu.
Que tinha vindo a pé de Gaia para uma consulta no Porto, que estava doentíssimo e sem recursos, necessitando de regressar a casa, mas sem saber como (nunca pediu nada). Quase chorava (magnífico, garanto-lhes!), e eu com ele.
Impus-me na aceitação da nota, que também se cansou de recusar.
E como a devolveria?! Mas era impensável! (não era especialmente culto, mas exprimia-se bem)
Aceitou-a e afastou-se em queixumes e manquejamentos que causariam piedade até ao mais insensível.

Tempos depois, noutra zona da cidade, apreciei a sua performance de novo.
Quase me dispus a desmascará-lo, mas parei. A tempo.
É formidável. E merece!
É, de facto, idoso, parece, realmente, doente, se vivesse muito razoavelmente não necessitaria de tal expediente e proporciona-nos o que muito actor profissional por aí não consegue.
Então para quê impedir que o show continue?
No fundo, faz de nós pessoas melhores: oferecemos, mais do que dinheiro, o nosso tempo, a nossa compaixão, o amor ao próximo, que tantas vezes vai escasseando por racionalizarmos em excesso.
Deu-me um instante de humanidade, e agradeço-lhe.
Que lhe tenha feito muito bom proveito o que comeu ou bebeu por minha participação.
E que continue, por muitos e bons anos!
Aplauso e fecha-se o pano.

Julia Macias-Valet disse...

Margarida ...
CLAP, CLAp, CLap, Clap.....

Que se levante o pano que queremos um "encore" !
Bravo ! Bravissimo !

Helena Sacadura Cabral disse...

Minha querida Maggie ao menos consigo houve compaixão, performance, teatro. Comigo foi tudo mais racional.
Minha senhor desculpe o incómodo. Sei que é amiga de X, estive em casa dele a combinar uma audição, esqueci-me da pasta com a carteira lá dentro. Voltei logo para trás, mas já tinha saído. Tenho estado à porta dele desde então, mas nada.
De repente, lembrei-me que eram amigos e sabia que morava aqui porque já vira o seu filho Miguel à sua porta. Conheço, aliás, os dois. Chamo-me Afonso Daun e Lorena e só ousei incomoda-la porque já não consigo aguentar a fome.
Rápido a apanhar a lorpa. Tudo isto dito a rigor, com ar intelectual, de quem fala para igual que pode compreender a situação.
Portanto, a minha credulidade teve menos desculpa. E os meus filhos ainda hoje me gozam e dizem que se ele tivesse dito que era o Zé dos Anzóis eu não caía... É Karma!

Helena Oneto disse...

Cair no conto do vigário acontece a muito boa gente mas ser "levado" com panache por artistas "de haut vol" é mais raro.
Belas historias a ilustrar nobres sentimentos!

Isabel Seixas disse...

Bem o "olhar" da Margarida...
faculta-nos uma lente...Delicioso Um ponto de vista que nos torna humanos e capazes na troca e partilha de géneros...

Assim é só fazer uma prospeção de mercado do valor de bilhetes num teatro em que a plateia sejamos só nós...

Pensando bem a ausência de comboio cá em chaves tem-nos sonegado grandes atores.

Ainda temos sempre os miudos que pedem mas dão pensos rapidos, os senhores que dão o avistar de um lugar para o carro em troca da moeda já com um ar de modernidade e profissionalismo através do telemóvel à cinta e um fumar com alguma classe, senhoras e senhores com mensagens pungentes sobre fome e multiparidade em placas de cartão num português sempre em desacordo mas apelativo que suscita a nossa piedade, ( alguns "então atores" com dentes de ouro e em cenários que denotam hábitos de higiene clandestinos ...irrelevante)e eu confesso, a sério, que depois da Margarida nada será igual...

Masmesmo assim só vejo alguns filmes uma vez...
Também; haja paciência.

Por falar nisso Sr. embaixador desculpe a extensão...

Paulo de Abreu e Lima disse...

Há uns vinte anos atrás vivia na casa dos meus pais na Praça de Alvalade. Pelo parqueamento "trabalhava", como arrumador de carros, o Luís. Nessa altura, em que não havia parquímetros, surgiram os primeiros "profissionais" do ramo, porquanto não era líquido que o produto desse trabalho (muito superior ao salário mínimo de então) fosse única e exclusivamente para aliviar vícios mais tóxicos, digamos assim. O Luís era pago para arranjar lugares de estacionamento disponíveis, ficar com as chaves dos carros em segunda fila e avisar os seus proprietários, que por vezes "apenas" iam ao banco, da presença da autoridade. Um rapaz de confiança, portanto, conhecido por todos os porteiros, estafetas e residentes da zona. Na altura eu ainda andava na faculdade e, cada vez que ia almoçar a casa, recorria aos seus préstimos. Eu, muitos outros e o meu vizinho e colega na UCP, actual ministro deste governo, socorriamo-nos de Luís e bonificavamo-lo com umas moedas. Um dia, fora do seu expediente (ou como quem diz, fora de horas), pelas sete da tarde, surge-me aos gritos e aos prantos de desespero. Não se dirigia especialmente a mim, afastava-se uns dez metros aos berros e voltava os mesmos em sôfrego soluçar dizendo que a sua mãe morrera e não dispunha de dinheiro para ir ter com ela ao enterro numa aldeia do norte para prestar a última homenagem com uma coroa de flores. Aflito, não sabia o que fazer além de lhe manifestar os meus pêsames, que prontamente agradecia, mas... o chato era mesmo não ter dinheiro para pegar a "carreira" rumo ao norte. Com uma coroa de flores. Peguei na carteira e sem querer que ele visse qual das notas eu estava a escolher, tirei a primeira que me apareceu à mão - cinco contos - e dei-lha cheio de comiseração.

Nesse mesmo dia, tive um jantar no Café Creme com amigos e conhecidos. E ao som do acordeão do francês e dançarino Michel, radicado em Portugal desde esses tempos, fiquei na mesa ao lado de uma amiga de uma amiga, recém formada em Serviço Social. Contei-lhe o que se passara duas horas antes, ao que me esclareceu não ter ficado muito convencida com a estória do Luís e, em amena conversa, aconselhou-me como deveria eu ter procedido.

Passadas umas semanas avisto o Luís a receber mais umas moedas do actual ministro, depois do estafeta e depois veio ter comigo:
- Doutor, a minha mãe está a morrer...!

Meses depois, soube que tinha morrido de uma overdose e mais nenhum arrumador recebeu dinheiro de quem quer que fosse naquela Praça. Aprendi que não se deve dar "esmolas" (os pedintes sabem a quem e onde recorrer se quiserem ser realmente auxiliados) e a amiga da minha amiga passou a ser minha mulher e mãe dos meus filhos. Já quanto ao Professor Vitor, não sei se continuou a dar "esmola" ou a ter outro procedimento, mas, inteligente como sempre foi, terá aprendido a ter mais cautela. Aliás, com toda a certeza, muito facilmente poderemos passar a ver...

patricio branco disse...

era tudo invenção dele, podia ter sido com outra pessoa, calhou ao fsc nessa ocasião