domingo, 31 de julho de 2011

Lídia Jorge

Já passava das três da manhã quando, num "zapping", surgiu na SIC Notícias uma conversa de Lídia Jorge com António José Teixeira. Fiquei a ver e ouvir até às quatro. Com grande proveito.

Lídia Jorge é uma intelectual atípica. Fala sobre as coisas com uma desarmante sinceridade, sem aqueles falsos improvisos, recheados de frases feitas (e testadas), que alguns dos seus colegas escritores utilizam, para se darem ares de grande originalidade, em especial quando são chamados a pronunciarem-se sobre temas do quotidiano. Há uma candura quase provocatória naquilo que diz, na forma simples, mas ao mesmo tempo profunda, como olha à sua volta, à nossa volta.

À inteligência das questões colocadas pelo António José Teixeira, a escritora não retorquiu com circunlóquios, mesmo quando os temas eram delicados e a curiosidade do entrevistador se mostrava intrusiva, como ´no da política interna da atualidade. Respondeu sempre, serena, genuína, revelando dúvidas, interrogando-se. E ajudando a interrogarmo-nos.

Há muito que gosto de ouvir e ler Lídia Jorge falando de nós, dos portugueses, com uma postura crítica sem auto-flagelação, com uma compreensão por onde perpassa a subliminar tristeza, que também nos é comum, de que tudo "tenha de ser assim". É a atitude de alguém que percebe o país, mas que não desiste dele, que não se refugia numa espécie de desespero cívico.

Posso estar enganado, mas tenho a sensação de que muitos de quantos possam assistir a esta entrevista sentir-se-ão identificados aquilo que Lídia Jorge nela diz.   

Em tempo: Lídia Jorge passou a colaborar, aos sábados e domingos, com umaa notas algarvias no "Público". A julgar pelas primeira, vale a pena não perdê-las. 

12 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Tem toda a razão, Senhor Embaixador.
Lídia Jorge é um caso quase raro na actual literatura nacional.

Anónimo disse...

Por sorte também aproveitei daquela "inteligente" entrevista. Ganhei no modo simples, e ao mesmo tempo metafórico, de como se podem expressar ideias e sentimentos sobre realidades tão actuais, especialmente no quotidiano do nosso velho continente. Também de si, Senhor Embaixador, esperava que mais uma vez se prestasse a aprender, com a humildade sábia, com que nos presenteia sempre.

ASB disse...

Tive a oportunidade de ver a entrevista e compartilho a sua opinião. Lidia Jorge faz uma análise lúcida, simples e franca da nossa situação. Foi simultaneamente reconfortante e inquietante.
Atentamente,
Adelaide Bernardo

Anónimo disse...

Aqui em casa somos leitores, de há muito, de Lídia Jorge, escritora que muito respeitamos e apreciamos.
Curiosamente, ainda recentemente li no JL um pequeno e interessante artigo de LJ sobre Loulé, a propósito do tema "viagens na nossa terra".
Uma intelectual frontal, de convicções, uma Mulher que admiro, uma excelente escritora.
P.Rufino

Anónimo disse...

Também vi a entrevista. Gostei da simplicidade e da naturalidade com que a Professora Lídia Jorge elevou os problemas dos portugueses "comuns", a quem a maior parte dos políticos e dos intelectuais sempre tratam como "números"... Talvez, quem sabe, porque não conhecem as figuras de rectórica? Como a professora analisa os nossos dias, despojando-se dessas metáforas, que tão bem domina!

Aclim disse...

Não conheço lidia Jorge vou pesquisar na net.

obrigado pela dica

Abraço

Carlos Cristo disse...

Junto-me aos aplausos à brilhante e quase desconcertante Lídia Jorge.

patricio branco disse...

ouvi há cerca de 30 anos um elogio à então estreante escritora lidia jorge, que acabava de publicar o dia dos prodígios. Veio de joão gaspar simões com quem falava na sua casa na calçada das necessidades, um fim de tarde de verão. Casa cheia de estantes de livros, em varias divisões, no corredor, livros também nas mesas. A conversa, depois de queixas sobre o seu editor, que não cumpria o prometido sobre a reedição de obras suas, passou para a nova literatura e novos escritores portugueses e foi então que jgs disse que acabava de ler uma obra duma jovem escritora, "o dia dos prodígios" de lidia jorge - "aquilo é deveras bonito, fresco, escrito numa linguagem cheia de graça, leia".
Na verdade, apesar do conselho do mestre critico literário, nada li de lidia jorge, nem então nem depois, e acho que me portei mal. Assim como não li outro escritor que deve ser da mesma geração, joão de melo.
Mas ainda devo estar a tempo.
Ouvi uma parte da citada entrevista de l j na televisão, que apanhei por acaso, quase no fim. Uma voz fresca, usando o mesmo qualificativo de jgs, e uma grande naturalidade a expressar a sua opinião sobre o actual governo e situação, incluindo politica cultural.

ERA UMA VEZ disse...

Anos oitenta. St.Eulália. Algarve.
Estavam a decorrer as obras de apoio à praia, aliás muito bem sucedidas.
Estacionar, era nessa altura coisa pouco provável, as crianças impacientes, o pai tentava adivinhar um espaço para a viatura e eu, logo eu, mantinha-me estranhamente calma naquela manhã quente de Verão.
"O DIA DOS PRODÍGIOS" era o livro do momento.Com ele descobria Lídia Jorge, mulher que como eu reconhece o cheiro do mato do nosso Sul, entre o barrocal e a praia, perfume de figos, medronho e alfarroba.
Quase a desistir"vamos embora, isto está impossível.Não papá, é aqui que estão os nossos amigos"

E eu lia,lia, o resto era uma longínqua música de fundo.
Subitamente levanto os olhos e ali a poucos metros, alcofa no braço, Lídia Jorge caminhava na nossa direcção. De um salto saí do carro e ali estava na sua frente, livro em riste, falando, algarviando sobre tudo, sobre as nossas raízes, sobre a possibilidade de as nossas mães terem andado juntas na escola.
E ela sorria, conversava, combinava um encontro para saber a minha opinião sobre o livro...
Lá à frente a praia... e nós, ali,indiferentes, no meio do pó e das betoneiras,dos carros que se degladiavam... falávamos até de literatura.
Insólito momento.

Para além da lucidez que refere, dos livros escritos, não esqueço um fantástico artigo, publicado no Expresso há uns anos atrás, sobre a nossa terra de contrastes.

Lídia Jorge não envelhece. Às vezes a natureza é justa!

ERA UMA VEZ disse...

Caro Patrício Branco

Se o Sr Embaixador me permite, quero dizer-lhe que ler "Gente Feliz com Lágrimas" de João de Melo é a viagem verdadeira ao íntimo dos verdadeiros Açores,absolutamente dura mas deliciosa.
Ainda hoje...o visito,o espreito, como se faz com uma jóia rara...

patricio branco disse...

caro era uma vez, obrigado pelo incentivo. Os açores contêm algumas das mais belas e impressionantes paisagens que me foram dadas a ver em portugal e a sua cultura e gente não ficam atrás.
Gente feliz com lágrimas será portanto o reflexo disso(a essencia e a alma dos açores e dos açoreanos)na literatura, pelo que acredito que é livro que tem de ser lido.

Anónimo disse...

Obrigada pela sugestão, de facto vale mesmo a pena a pena,(não que tenha duvidado).Encontrei a entrevista no "As cores da Vida"
Isabel seixas