terça-feira, 30 de agosto de 2011

Geografias

Na passada semana, o "Libération" trazia um longo artigo sob o título "Angola, quartier d'esclaves", com fotografias antigas, a preto e branco. Preparava-me para ler mais uma catilinária sobre a política colonial portuguesa quando, pelo texto do que veio a revelar-se um interessante artigo, fiquei informado de que, no fim do século XIX, terá sido criada, no Estado americano da Louisiana, aquela que foi considerada, por muitas décadas, "a pior prisão da América". Teve o nome de "Angola" por ser esse o nome que o anterior proprietário do terreno teria dado ao local, pelo facto dos escravos que aí tinha serem provenientes daquela antiga colónia portuguesa (o que, historicamente, parece um pouco estranho, convenhamos). "Angola" foi uma pentenciária bárbara, onde morreram violentamente muitos condenados, sujeitos a incontáveis violências. E por lá havia um cadeira elétrica. Dois jornalistas, nos anos 30, revelaram que, à época, aquele era "o lugar do mundo que mais se aproximava da escravatura". A prisão "Angola" ainda existe, nos dias de hoje, embora com outras condições.

Num registo bem mais pacato, mas que também se liga a nós, não quero deixar de assinalar que, num interessante livro, acabado de sair, que compila documentos essenciais para a compreensão da relação franco-alemã na altura da reunificação ("La diplomatie française face à l'unification allemande"), vim ontem a deparar com o curioso nome do principal especialista em assuntos alemães do Comité Central do então quase moribundo PCUS. Chamava-se Portugalov. Fui tentar perceber de onde poderia o homem ter tirado o nome. Uma fonte aponta para os Portugalov serem descendentes de judeus expulsos de Portugal no final do século  XV. Esta explicação pode ser lida aqui.

A imagem que ilustra este post, para muito leitores, provavelmente nada terá a ver com ele. O que, se calhar, é verdade. É apenas uma fotografia feita, há dias, em Lisboa (onde?), por uma amiga. E como gosto delas (da amiga e da fotografia) decidi publicá-la. Liberalidades a que se pode dar quem gere um blogue sem agenda...

9 comentários:

Aclim disse...

Interessante, nada vem ao acaso.

Abraço

Magnolia disse...

Li todo o post, tentando perceber a relação com a fotografia.A foto é bem ao meu gosto e apreciei o sentido de liberdade.

patricio branco disse...

não é má ideia explicar ou legendar, de vez em quando, ocasionalmente, as ilustrações dos posts: a sala do clube onde se tomava chá, o nome do pintor de paris, a bonita fotografia da amiga.
Mas ocasionalmente, apenas.
A interpretação da ilustração tambem é uma parte interessante do blogue.

Isabel Seixas disse...

Sem palavras adorei...
Também já gosto das duas.
Só... Permita-me o que é que a Sua Amiga fez ou não fez ao rosa?...
Pecadinhos por omissão? Não?
Pronto
Isabel seixas

Gil disse...

A história do tráfico negreiro de Angola é muito interessante e curiosa.
E, de facto, nos séculos XVII e XVIII, até à abolição da escravatura pelos liberais portugueses, chegou a ser a sua principal "indústria".
O destino do tráfico com origem em Angola foi, sobretudo,o Brasil (ainda hoje o candomblé brasileiro reconhece as "nações" de Angola, Benguela, Cabinda e Congo) e ,depois, a América Espanhola, essencialmente Cuba.
Mas muitos deles, em percentagem pequena, menos de 10%, mas, ainda assim, algumas centenas de milhar, foram para os EUA.

José Sousa e Silva disse...

Pois então, se me der licença, deixo aqui um episódio passado junto à foz do Rio Zaire (actual Soyo/Angola) de que fui protagonista :
- "Porque não cultivam aqui cana do açúcar com tão excelentes condições para a cultivar ?
- Nem pensar. Não se pode falar nisso desde o tempo dos nossos avós.
- Por que não se pode falar nisso ?
- Não sabemos, mas não pode.
- Pois então fiquem sabendo que a cana do açúcar foi a "mãe" do tráfico da escravatura.
- Como é que sabe e nós não sabíamos ?
- Está escrito nos livros de História e de Antropologia Cultural.
- Não deve ser isso. O Senhor deve ser feiticeiro e essa farda da Marinha é só para fingir. "

Anónimo disse...

nao posso deixar de me lembrar
do termo 'goober' que em algumas partes do sul dos estados unidos se utiliza como sinonimo de 'ji-nguba', o nosso amendoim (ji é o plural)

'nguba' é usada tambem algures na colombia


palavras com tempo dentro


bem haja

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Isabel Seixas: Conhecendo-a bem, não creio que a minha amiga tenha feito qualquer "photoshop" político no sentido que insinua.

Isabel Seixas disse...

Sr. Embaixador peço desculpa pela minha falta de senso de oportunidade.

Constatei e senti a falta ...