sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Feiras

Num debate na Assembleia da República, o líder do CDS/PP tinha feito uma crítica a alguns aspetos da presidência portuguesa da União Europeia que então decorria, nesse início do ano de 2000, em que eu tinha alguma responsabilidade na matéria. Não era nada de muito radical, mas apenas o tom habitual dos partidos de oposição, que sempre procuram certos "nichos" de divergência pontual, mesmo quando subscrevem, por razões de Estado, o essencial da ação do governo na área externa. Como era o caso.

Nesse seu discurso, a que o primeiro-ministro estava a dar resposta aos temas substantivos, o líder oposicionista tocara, em moldes que recordo críticos, a questão da distribuição geográfica das reuniões europeias que a presidência portuguesa estava a realizar pelo país, como era habitual nesses longínquos tempos em que os Estados membros ainda pesavam alguma coisa no exercício das presidências semestrais. Já não recordo bem, mas talvez porque Aveiro não estivesse nesse mapa...

Da bancada do governo, fiz então chegar, discretamente, àquele lider partidário uma pequena nota manuscrita, que dizia basicamente o seguinte: "Achei muito injusta a sua crítica ao mapa de reuniões comunitárias no território português. Com efeito, deve ter notado que a cimeira final da presidência portuguesa está marcada para uma determinada cidade, num gesto que pretende ir ao encontro daquilo que se sabe ser objeto de um carinho especial da sua parte. Não foi por acaso que escolhemos Santa Maria da ... Feira!".

Não deixarei de perguntar ao meu atual ministro se se lembra da gargalhada sonora que deu ao ler a minha nota, para imensa perplexidade de deputados de várias bancadas e dos meus colegas de governo.

8 comentários:

Margarida disse...

As gargalhadas francas estão nos genes...

Aclim disse...

Gosto da política da mesma forma que gosto do ex...

Abraço

Anónimo disse...

Bingo...
Humor Requintado
Achei o máximo.
Isabel Seixas

Ah! A propósito

As "Chaves" também abrem Portas...

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai! Senhor Embaixador que já começo a ter saudades desses tempos, logo eu que de passadista não tenho nada.
No jantar de família de hoje vamos todos rir com essa história, porque o seu Ministro, sei, tem óptima memória!

José Sousa e Silva disse...

Excelente, como de costume !
Que dizer perante tal ?
Apenas isto :
Muito obrigado e Parabéns, Senhor Embaixador !!!

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai Isabelinha bem precisava de umas chaves para abrir outras portas - celestiais -, bem mais difíceis do que as da minha outra família.
É que por causa dos portões familiares, há uma série de postigos que se me fecham...
Foi toda a vida assim. Começo a estar cansada e qualquer dia, ainda ponho as trancas à porta!
:))

Helena Sacadura Cabral disse...

Cara Aclim
Sempre lhe digo que gosto muito mais do meu ex do que de política...

Anónimo disse...

Há de facto sentires que nem sequer até por sensatez e respeito nos devemos outorgar o direito de dizer que compreendemos.

Já tive portas trancadas
(com madeiras virtuais mais possantes qua as nobres castanho, carvalho e cerejeira)
por inerência
exatamente por ser eu a detentora das chaves...

ó vida que nos fazes

Reféns e reféns de nós
dos dogmas que erigimos
para mostrar que somos melhores

Continuamos a invejar o brinquedo do irmão...
Caindo nas próprias ratoeiras
que nos abrem caminhos ao medo e nos obrigam a viseiras.
É não há Bela sem senão

Isabel seixas