quinta-feira, 14 de julho de 2011

Olá, amigo!

Estou contigo. Entendo que merecias ser tratado, em Portugal, de outra forma. O modo, ainda que simpático, como o polícia te interpelou, há dias, naquela esquina do Terreiro do Paço, soou a estranho. Que diabo! Chamar-te a atenção pelo fumo! Como se isso fosse um grande crime, no meio da rua, com a tua idade...

Faz agora precisamente 21 anos que nos encontrámos pela primeira vez, em Londres, estavas tu recém-chegado da tua Alemanha natal. Durante mais de quatro anos, tivemos um convívio muito agradável, quase quotidiano. Deste mostras de te adaptares bem aos costumes britânicos. Sentias-te verdadeiramente em casa.

Mudaste-te depois para Portugal, onde cuidámos em encontrar lugar para te acolheres e teres ocupação, embora nem sempre contínua. Em certos períodos, convivemos pouco, andávamos mais com outros amigos. É que tu havias-te habituado, desde muito cedo, a ir, de forma muito radical, pelos caminhos da esquerda. Cada um é como é, mas essa tua idiossincrasia teimosa, devo dizer-te, chegou a preocupar-nos, temendo que pudesse ter consequências nefastas, que te levasse a inconvenientes choques, que não te adaptasses ao novo ambiente. Gostes tu ou não, as coisas, aí por Portugal, são o que são...

Passaste muitas férias conosco, fizemos imensas viagens em conjunto. Com a nossa vida saltitante, tempos houve em que nos separámos, por longos meses. Mas sempre nos reencontrávamos, pelas nossas idas a Lisboa. E foste nossa companhia regular por esse país fora. Testemunhaste alegrias, estiveste presente em alguns momentos menos bons. Mostraste ser um amigo fiel e seguro. Às vezes, encontrávamos-te um pouco em baixo, sem energia, a tua saúde preocupava-nos, pregaste-nos alguns sustos, mas sempre te recompuseste. Não vale a pena esconder que tens alguns vícios - para além do fumo! -, porque pertences a uma geração marcada pelo excesso do consumismo. Infelizmente - sei que não vais gostar que diga isto, mas aqui vai! -, bebias (e bebes!) um pouco demais. Nunca vimos remédio para isso mas, reconhecerás, sempre tentámos conduzir-te da melhor forma que sabíamos. Gastámos contigo tudo quanto foi necessário para que nada te faltasse, para o teu pleno bem-estar. E sempre te perdoámos todos os teus excessos, porque gostamos de ti.

Mas a vida é o que é. Agora, tudo assim o indica, mais cedo ou mais tarde, vais deixar-nos, de vez. Podes crer que, quando esse momento chegar, vamos ter muitas saudades tuas. Mas ainda não é tempo para falar de coisas tristes. Hoje à noite, em Lisboa, vamo-nos encontrar de novo. Iremos ao Procópio e, depois, partiremos juntos para férias, no norte do país. Até logo, carro amigo!

(Carta aberta ao meu BMW, de 1990, com britânico volante à direita, o único carro que possuo em Portugal e que agora vai deixar de ser autorizado a passar pela Baixa lisboeta e, dentro de um ano, de circular por toda a cidade, por exceder os níveis de poluição determinados por lei).

23 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Extraordinárioooooooooo!!!!!!!!!!!

Anónimo disse...

Soberbo, caro Seixas

CSC

Helena Oneto disse...

Excelente! Acredito que lhe doa de o deixar porque eu desfiz-me do meu magnifico Renault, velho de 21 anos, porque bebia de mais.

Boas férias!

Anónimo disse...

Enternecedor, aposto que o fumo é branco, só pode.

Isabel Seixas

Anónimo disse...

Até estou em crer que a minha velha amiga vai carpir umas rimazitas em honra,,,e Honra lhes seja feita ...
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Caro FSC, parabéns. (Elogios de anónimo não prestam, mas a velha também gostou muito).
Cara Isabel Seixas, a velha senhora não foge a desafio seu, mas diz-se hoje pouco inspirada. Nem lhe saíram palavrões - bom para mim, que não tive de os 'traduzir':

um bê eme não tem sexo
não me serve cá pra nada
e inda morria perplexo
com a minha versalhada

dê-lhe a jovem terna poesia
branco fumo e doce companhia.

Anónimo disse...

Citando 'douta e veneranda' figura do nosso antigamente: "Só tenho um adjectivo... gostei"!
xg

Paolo Barchiesi - Roma disse...

"Objets inanimés, avez-vous donc une âme, qui s'attache à notre âme et la forcent d'aimer?" - Lamartine

patricio branco disse...

se estão autorizados a circular os carros de colecção, modelos com 40,50 anos e mais, é porque deve haver um estatuto especial para esses carros que, afinal, andam poucos kms porque são de estimação e poupados.
Há meses vi numa zona de serviço na autoestrada lisboa évora um magnifico citroën, modelo arrastadeira, de 1955 ou 56, com motor original (perguntei ao dono).
Se a limitação é só na baixa de lisboa e porto, paciencia. Mas devem poder continuar a circular dentro de outro regime de carro antigo ou de colecção, ou não?

Margarida disse...

Fico radiante com a sintonia face ao seu amigo de quatro rodas, igualzinha àquela que nutro pela minha "Quatrelle" de 23 anos, num soberbo e pouco discreto amarelo solar.
Ainda há dias fomos nela à capital e seus famosos arrabaldes turísticos, e portou-se que nem uma heroína, a minha linda-maravilhosa-querida-fofa-menina! :)
Fugimos antes dessa interdição imbecil. Porque não passa disso (como essa treta do sinal de televisão 'terrestre', mais uma desculpa frouxa para parecermos modernos e sermos roubados infamemente em tempos desajustados; adiante).
Mais valia cobrarem um xis para se circular no centro, à semelhança de utras capitais, ou reduzir a necessidade, atravésd e transportes públicos eficazes.
Mas, como todas as medidas essencialmente tontas, está feito!
Atacarem a poluição efectiva, a industrial e aquela causada pelos humanos, é que já se revela complicado, não é?
Coitadinhos dos nossos popós... :(
Agora só faltava que o liberal e tolerante Porto seguisse essas 'rodadas' pseudo ecológicas!
Rais'partam as "modernices"!
Voltamos aos carros de bois, querem?
:P

Guilherme Sanches disse...

Só tenho um "advérbio de exclamação" - gostei! E sendo da autoria de quem nem sequer gosta de carros, melhor ainda. É uma declaração de amor de ir às lágrimas.
Que bem!
Um abraço

Alexandre Rosa disse...

estás obrigado a fazer um guião para um filme....alguém fez o Grand Torino...tu podes fazer o "meu BM"..que texto bonito..
abraço

José Sousa e Silva disse...

Perante tão excelente Post não tenho palavras para comentar.
Então fico em silêncio que é a voz que fala mais alto porquanto pode-se cortar a palavra mas não há maneira de fazer calar o silêncio.

Carlos Cristo disse...

Os meus sentimentos !!!!

Julia Macias-Valet disse...

Que bela declaração de amizade !

Nunca me ocorreu fazer uma ao Carocha (amarelo canario de 72) que guardamos religiosamente ao fundo da garagem esperando que uma receita milagrosa um dia lhe volte a dar vida. O nosso "tractor de luxo" é um velho amigo muito querido do qual nos recusamos a separar : )
...e na minha familia nao temos uma paixão especial pelas máquinas !

Helena Sacadura Cabral disse...

Ó meu estimado Embaixador
Que delicioso texto este seu.
Que partida lhe prega o seu querido BMW que tem um volante à direita e uma idiossincrasia de esquerda!
Mas creio que a Senhora Merkle gosta mesmo e dos modelitos com volante à esquerda e condução à direita...
É a vida, mas 21 anos à esquerda e sem contusões, é obra!
:))

Anónimo disse...

Excelente!!! Espectacular!!!
Ass: o anónimo das 2.04 do outro dia

Anónimo disse...

Há carros que transbordam sexappeal...
Até pelas paixões que suscitam.
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Excelente, Senhor Embaixador!

Se juntarmos essa medida “lisboeta” dos níveis de poluição à medida “agrícola” da gravata... Os políticos portugueses que não se desfaçam das suas brilhantes ideias em prol do bem-estar nacional!

Isabel BP

Cunha Ribeiro disse...

Que maravilha de texto! Cheguei a pensar que falava de um filho! Como é possível ter pensado nisso!? Era engraçado que os leitores confessassem eles tamb+em em quem pensaram antes do desenlace...

Acho que o vou arquivar...

Parabéns!

Helena Sacadura Cabral disse...

Ò minha estimada Isabel BP o que eu já me ri consigo e comigo, com a medida agrícola.
Já estou como o Ruben de Carvalho: espero que fique só por aqui. Porque de tanga já nós andamos e a receita foi de um rapaz muito apreciado.
Que Deus nos dê paciência. Porque no inverno vamos levar o edredon, ou quem sabe, talvez a mantinha...porque o edredon já se foi!

José Torcato disse...

Senhor Embaixador,um final digno de Alfred Hitchcok.Que nunca lhe falte esse sentido original de escrever!!

rui sousa disse...

Senhor Embaixador,em Bornes o seu querido amigo BMW,vai sempre poder circular.