sábado, 12 de março de 2011

Telefonema

Foi há mais de três décadas. Eu estava sozinho na minha sala de trabalho, no MNE. Os restantes colegas já haviam saído para o almoço.

O telefone tocou. A voz masculina era de alguém jovem. O tom era algo agreste, sem vontade de expressar um mínimo de cortesia. O pedido feito era relativamente simples de satisfazer: fornecer o número de telefone de casa de um determinado embaixador português, no estrangeiro. 

Estranhei o facto de a pessoa ter ligado exatamente para o serviço onde eu estava colocado, embora nós nos ocupássemos das relações económicas com a área regional onde a embaixada se situava. As telefonistas ou o serviço de pessoal do MNE seriam as entidades mais indicadas para dar a informação. Referi isso ao meu interlocutor, até porque não estava a apreciar a forma pouco delicada como ele se me dirigia e, também porque, por várias razões, os números de telefone das residências dos embaixadores não são públicos e não devem ser dados, indiscriminadamente, a toda a gente.

- Sou filho do embaixador. Ou você me quer dar o número do telefone ou não quer!

Voltei a não apreciar o tom mas, até porque conhecia o pai, homem amável e muito cordial, fui procurar o número. Ditei-o, o filho do embaixador repetiu-o e desligou o telefone, sem agradecer. Imagino que terei ficado furioso, mas logo esqueci o assunto.

No dia seguinte, ia a sair do ministério, encontrei uns colegas à conversa, no pátio:

- Já sabes do filho do embaixador "fulano"? Suicidou-se, ontem.

- A que horas? - perguntei, para legítimo espanto de todos, intrigados com a minha especiosa curiosidade.

- Parece que foi ao fim da manhã.

Desde esse dia, procuro recordar a voz desse rapaz, que vivia sozinho em Portugal. Devo ter sido das últimas pessoas com quem ele falou. Terá chegado a contactar o pai? Nunca tive coragem de lhe perguntar e agora é tarde. porque também já desapareceu, aliás de uma forma com o seu quê de trágico.

A condição diplomática introduz, às vezes, fortes tensões nas pessoas e nas famílias, fruto das inevitáveis separações a que obriga, dos isolamentos que provoca e dos desequilíbrios que potencia.

9 comentários:

Tá na laethanta saoire thart-Cruáil an tsaoil disse...

A condição de imigrante e de militar também o foi durante anos

e entre 1947 e 1974
poucos foram os filhos de imigrantes e militares de carreira que sucumbiram ao felow de se

geralmente o suicida tem bom nível de vida

nunca vi muitos miseráveis com propensão para o suicídio puro e simples

mesmo no marasmo da fome
lutam pela existência

patricio branco disse...

interessante entrada sobre um episódio trágico. Aparentemente, já não havia contactos entre o pai e o filho pois este nem tinha o telefone daquele.
O tom do telefonema e do pedido parece mais indicar urgencia, desespero, que falta de cortesia, embora, formalmente, tambem a haja.
Ignora-se se o filho telefonou ao pai e o que falaram. Possivelmente, se houve telefonema, tambem não teria sido conversa cordial. Simples despedida, ou acusações, chantagens psicológicas, choros?
No caso de ter havido conversa, sabe~se lá se a tragica decisão final só foi tomada a seguir. Alem do mais, são coisas que não se perguntam aos que ficam.

patricio branco disse...

bom telefone, solido, pesado, preciso a marcar, fazendo aquele ruido caracteristico de quando o disco volta para trás, da marca ericson

Anónimo disse...

E a energia nuclear? afinal? é segura? era o que o Japão dizia... estamos entendendidos ou .. até à próxima, como sempre?

juliomoreno@sapo.pt disse...

O suicídio sempre me impressionou.
E tanto mais quanto é certo que, por força das minhas obrigações profissionais, tive de ver alguns suicidas ao longo da minha vida!
Que tremenda força destrutiva deve ter, armazenada dentro de si próprio, aquele que se suicida! Que tenebrosos medos, conjecturadas certezas, ódios ou desesperanças não estarão presentes em tais espíritos! E que tipo de loucura ou de fria determinação será necessária para executar a operação final: - saltar da cadeira, premir o gatilho, despoletar a granada ou atirar-se do precipício!
Felizmente que tal nunca me aconteceu pois acho que nunca encontraria as palavras certas para apresentar condolências a uma mãe ou a um pai de um suicida…

Anónimo disse...

O suicídio merece o máximo respeito porque revela um acto de desespero e nem sempre os sinais são visíveis de modo a dar o devido apoio.

Não gosto de tecer comentários depreciativos em relação aos demais comentadores porque deve-se respeitar a opinião dos outros - isso é que é a Democracia - mas, aflige-me os pobres de espírito que na sombra do anonimato escrevem meros disparates.

Qual a ligação entre um tema tão delicado como o suicídio e a energia nuclear?

Falta de sensibilidade e respeito pelo próximo!!!

Isabel BP

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Quando temos filhos, raramente pensamos nas consequências que sobre eles irão ter as nossas escolhas. E o contrário também é verdadeiro. Eu que o diga!
E, depois, nem todos têm a mesma capacidade de resistência. Há gente que não aguenta o embate de ser filho de "alguem". Ou porque pensam de forma diferente ou porque a comparação lhes é desfavorável.Em nenhum dos casos a situação é fácil.
Nem para os pais nem para os filhos. E exige de uns e de outros forças bem superiores ao que se possa julgar. E uma tolerância do tamanho do mundo.
Diz-se que a mãe de Alvaro Cunhal terá tido uma vida amargurada pelas escolhas do filho!

cuynha ribeiro disse...

Extraordinária narrativa Sr Embaixador. Parabéns!

Anónimo disse...

A morte por suicídio é tão letal, quanto a morte por homicídio,por enfarte, aneurisma, politraumatismo acidente mortal,Paixão, Desamor...

Tenho alguma dificuldade em detetar a severidade...De todas acho que é Maior... até pela insondável incompreensão a que é vetada...

Estou em crer que o prelúdio é o desvanecer da dor de alma que provoca cada um dos sintomas que antecedem a Outra...

Isabel seixas