domingo, 20 de março de 2011

"Off"

Dois jornalistas franceses, ligados à revista "Marianne", decidiram publicar em livro algumas revelações, fruto da sua proximidade pessoal com o presidente Nicolas Sarkozy, ao longo de vários anos.  Chama-se "Off - o que Nicolas Sarkozy nunca nos deveria ter dito".

Interessa aqui pouco o conteúdo do livro, aliás bastante menos importante do que se poderia supor, escrito por profissionais que, manifestamente, nunca estiveram próximos da linha política do presidente francês, como este, aliás, sempre soube. O mais relevante, a meu ver, é a circunstância desses jornalistas se terem sentido agora tentados a revelar factos e opiniões que, no entendimento do presidente e naquele que até agora era o deles próprios, eram considerados "off" - isto é, como fazendo parte daquilo que ambas as partes haviam convencionado, explícita ou implicitamente, não tornar público.

No ano passado, li vários livros, aqui em França, que se baseavam nesse mesmo procedimento, de que o mais sugestivo, a começar pelo título, era o "Si vous répetez, je démentirai...". A diferença é que nenhum desses livros afirmava, de forma clara, a legitimidade de ser quebrado o "off", procedendo apenas a algumas indiscrições, parte das quais desculpabilizadas pelo tempo.

Ora este novo livro coloca em debate, de forma declarada, o problema das relações entre a imprensa e as pessoas que com ela lidam, a preservação no tempo de códigos de honra e de respeito mútuo, que hajam sido estabelecidos no passado. O trabalho fá-lo logo na sua introdução, ao propor-se "quebrar, de uma vez por todas, esta regra de bronze que, desde há tantos anos, desde que os jornalistas modelam parcialmente a opinião pública, governa a relação entre os jornalistas e os responsáveis políticos: a conivência, a cumplicidade, a compreensão mútua".

Todos os que passaram pela vida pública - políticos, diplomatas ou outros - tiveram, seguramente, experiências de relacionamento com profissionais da comunicação social, aos quais, algumas vezes, confidenciaram factos ou ideias, na certeza (ou na convicção) de que esses jornalistas as não utilizariam ou, outras vezes, que utilizariam sem os citar. 

No que me toca, tive e tenho na comunicação social pessoas em cuja discrição confio, embora sempre de forma razoável. E digo "de forma razoável" porque há tentações a que a maioria dos jornalistas não consegue resistir, se a notícia revelada fôr demasiado apelativa, se configurar uma "caixa" irresistível. Noutras funções, consegui sempre fazer uma gestão muito prudente do que pode ou não ser dito; mas também já cometi alguns erros de avaliação. No essencial, essa é apenas uma questão de bom-senso, que depende mais do "informador" do que do próprio jornalista.

Devo confessar que, para além da curiosidade de consumidor da "coisa política", que me fez mergulhar no livro, bastante pelo ineditismo do procedimento dos seus autores, não deixo de ficar preocupado por esta quebra de códigos comportamentais revelar - vamos chamar as coisas pelos seus nomes - um triste abandalhamento das regras de convivência no cenário público.   

6 comentários:

Santiago Macias disse...

Abandalhamento é a palavra apropriada. O que faz com que a prudência seja mais firme e o silêncio mais denso.
Mas há também quem embandeire em arco e goste de ser protagonista e cultive perigosas proximidades. Recordo o caso de um magistrado, que confiou em quem não devia, e que viu as conversas tidas com um jornalista nada escrupuloso transcritas nas páginas de um tablóide.

Anónimo disse...

Subscrevo na integra, até acho que deveriam ser ajuizados no âmbito do desrespeito pelo sigilo profissional...

Aliás nem sabendo que tenham que efetuar um pagamento qualquer de propina em busca de qualquer habilitação obrigatória consigo legitimar acho inadmissível, mais senhor embaixador isso nem me parece dos Franceses(Só são dois).

Pode ficar sossegado que não compro o livro, mal por mal, prefiro os alcoviteiros declarados ó menos já estão batizados...
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Para mim, que sou jornalista, as coisas são muito claras: quando se fala com o jornalista não se devem fazer confidências. Mas o jornalista é também uma pessoa, tal como o político ou o diplomata. Quando se fala com a pessoa podem fazer-se confidências, que nunca devem ser divulgadas! Portanto é uma questão de esclarecer bem as coisas antes, durante e depois das conversas.

Anónimo disse...

Essa prática já não espanta ninguém... Hoje em dia, em certas profissões, não existem códigos, não existe honra, não existe "palavra"... Tudo isso são "coisas do passado". Tudo vale; para as audiencias, para a grandes tiragens, para o "shar"... e ainda há quem alimente tudo isto. Por conseguinte, isto não me espanta.
Carla Silva

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
O seu post é de uma importância extrema, nesta sociedade mediatizada, em que nem sequer se sabe distinguir privado, particular e público.
Ainda ontem Pacheco Pereira - que não aprecio pessoalmente, mas a quem reconheço várias qualidades - abordava a questão. E bem.
De facto, os políticos têm direito à sua privacidade, desde que a não exponham na sua vida política.
Snu Abecassis acabou por ser, à época, um exemplo disso.
É por isso, que nunca ninguem me viu em posses de filhos ou a pisar o seu local de trabalho.
Exercendo os três, como exercemos, profissões muito expostas, a gestão tem de ser de um enorme bom senso. E fugir às fotos conjuntas, sempre que isso seja possível.
Talvez por estas razões me tenha irritado tanto a ida de todos os políticos aos Gato Fedorento...

Anónimo disse...

"Abandalhamento" mesmo!!!

Isabel BP