terça-feira, 15 de março de 2011

O guerreiro

Aquele ministro dos Negócios Estrangeiros, oriundo de um pequeno país europeu, levava-se muito a sério no exercício da Presidência rotativa que, naquele semestre, cabia ao seu país. O tempo era de crise política nos Balcãs, com o presidente Milosevic sob forte pressão internacional, em face das tensões que potenciava na Jugoslávia. Por virtude das quase ridículas contribuições que o Estado que representava poderia dar, em caso de eventuais ações militares em nome coletivo, o ministro tornava-se algo caricato, ao falar como se tivesse, atrás de si, umas forças armadas fortíssimas e, em especial, como se lhe fosse possível mobilizar  os parceiros à escala da sua retórica.

Os "cornetos" sonoros dos jornalistas, em frente a um político, são afrodisíacos verbais. À porta de um hotel de uma capital europeia, com as câmaras e as luzes da ribalta a daram-lhe a importância de que precisava, o ministro fez uma declaração forte, afirmativa, tentando mostrar que estava "in charge". No termo do "statement", avisou, tonitruante e solene, de dedo espetado, para um distante Milosevic: "Quero daqui dizer ao senhor Milosevic, com toda a firmeza, que a Europa tem um limite para a sua paciência e que, se necessário, lhe dará uma resposta à altura das suas provocações". No ar, ficou um indelével cheiro a pólvora oral.

Visivelmente "aos ombros de si próprio", o político recuou as suas tropas diplomáticas para o "lobby" do hotel, sob um ressoar de comentários aprovadores de assessores, que lhe asseguravam que tinha "saído muito bem". E lá foi, deliciado, de peito feito, com um esgar de satisfação, para um merecido copo no bar, depois do "aviso" a Milosevic, que deve ter ficado a tremer, lá pelo palacete em Dedinje. Cada um tem o seu "Bei de Tunis" (ainda haverá Bei, por lá?), mas o ministro não devia conhecer o nosso Eça.

Foi por essa altura que um funcionário português, ocasionalmente presente na delegação ministerial, de forma um pouco impertinente mas escolhendo as palavras, ousou dizer àquele chefe da diplomacia (e sou testemunha privilegiada disso): "O senhor ministro vai perdoar-me, mas, ao falar como falou, com as tropas que o seu país tem, fez-me irremediavelmente lembrar uma frase, que ficou famosa, do capelão do regimento de infantaria da minha terra, no início da guerra colonial, em África, em 1961. Ao discursar ao primeiro contingente que partia para Angola, terminou desta forma lapidar: 'Rapazes! Preparêmo-nos para a guerra! Ide!...'"

Apeteceu-me lembrar hoje esta historieta, quando se assinalam os 50 anos do início da "guerra do ultramar", para uns, da "guerra em África", para outros, e da guerra colonial, para a História.

10 comentários:

LOUVA A GREVE PERMANENTE EM DEUS disse...

1895 foi o fim dos Vátuas

não houve uma guerra houve muitas guerrilhas

é uma campanha de 115 anos não de 50

patricio branco disse...

O ministro do pequeno país (territorialmente? militarmente?), que até podia ser portugal, falou em nome de todos os outros, era o presidente de turno da europa, e não em nome apenas do seu.
O comentario depreciativo ou ironico que lhe foi depois feito (com as tropas que o seu país tem)não me parece o mais correcto, cada um tem as tropas que pode ter.
Tambem não sei se o ministro percebeu imediatamente o comentário do funcionário português (se não era o de portugal,teria de conhecer a nossa história colonial) e qual a sua reacção.

Admito que eu não tenha percebido bem o episódio tal como é contado e que tenha de ser contado desta maneira.

patricio branco disse...

Lendo novamente, percebo que a tirada à miles gloriosus do ministro, de dedo em riste apontado para o inimigo milosevic, deve ter provocado o riso nas suas hostes diplomáticas e (assim pensaria o ministro)o terror nas tropas do tirano. Será essa a essencia da entrada que não entendi bem à 1a leitura.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Patrício Branco: estas historietas são escritas um tanto à pressa, ao correr da tecla, quando a ideia surge. Por vezes, o "foco" não acerta, tanto quando deveria, o cerne do episódia.

Santiago Macias disse...

Conheço duas variantes do terrífico ministro, ambas do domínio da ficção, mas que não desmerecem:
1. O filme "O rato que ruge";
2. E um livro, cujo nome não recordo, onde uma personagem se dedicava a fazer comentários de política internacional, dizendo, a dado passo, algo como: amanhã arraso-os com a minha crónica no "Brados de Aljustrel"

juliomoreno@sapo.pt disse...

A “graça”, sendo a “entourage” necessária de muitas coisas sérias, aligeira-as, muitas vezes permitindo ouvi-las e como que as relega para um segundo e menos chocante plano.
Assim, não poderemos negar que a morte de um Chefe de Estado é sempre uma coisa séria, se não em termos internacionais, pelo menos em termos interrelacionais e de bons costumes. Mas é isso mesmo que nos levará a entender o citado Eça quando escrevia que “a morte do Presidente da República” não era "motivo de consternação geral”, pelo contrário, “anima o comércio…” ou então, aquela história, muito mais simples e que há dias narrei no mundo das minhas recordações, atribuida ao Presidente Carmona que, convidado a inaugurar o campo de golfe de Vidago, errou a tacada, como seria natural já que era a primeira que dava em toda a sua vida. Porém, vendo que o prof., despido o casaco – como de costume, devia fazer bastante calor nesse dia! - logo a seguir a emendou com pleno êxito, colocando a bola a meio metro da bandeira, comentou para os circunstantes: -“- Ah!...Mas eu não sabia que era preciso tirar o casaco!...”

Anónimo disse...

Eu conheço esse ministro! Ó se conheço!

Anónimo disse...

Ó Senhor Embaixador, como lhe estou grato, principalmente pelo "Ide", quando acabei de ler as declarações do PR nas comemorações do 50.º aniversário do início da GColonial, onde estive com um espírito e acção completamente àquele de que era portador o casal cavaco na sua "missão de soberania" em Moçambique.
E.Dias

Gil disse...

A mim, lembra-me o imorredouro Editorial d"A Trombeta de Oleiros, Semanário Paroquial", em 1922 e que comecava "Já na passada semana avisámos o senhor Lenine..."

Anónimo disse...

Portugal na questão da Líbia está na mesma. Manda os outros prepararem-se para a guerra mas não vai.