sexta-feira, 11 de março de 2011

O assalto

Os adidos de embaixada, categoria que os ingressados na carreira diplomática têm durante os primeiros dois anos de serviço, frequentam, por alguns meses, um curso profissional, em que são docentes diplomatas mais velhos, em serviço ou fora dele, promovido pelo Instituto Diplomático do nosso ministério.

Aqui há uns anos, os novos adidos assistiam a uma palestra de um velho embaixador, homem bem falante, bom contador das coisas da vida, que ilustrava as suas décadas de trabalho com o relato de episódios que entendia exemplares e dignos de nota. Os adidos ouviam com atenção e apreço o seu discurso ameno, seduzidos pela coreografia verbal com que o velho diplomata envolvia as suas experiências pelo mundo, tidas como dignas de registo, para adubar a inexperiência dos auditores. Era um mundo de pequenas aventuras, com cenários muito diversos daqueles que a sua vida lhes proporcionara. Embora os tempos fossem naturalmente outros, não deixava de ser interessante ter acesso àquelas histórias, cujo somatório acaba por tecer a nossa cultura corporativa comum.

Naquele dia, o diplomata relatava um episódio passado na residência que, em tempos idos, ocupara numa capital africana, quando aí era encarregado de negócios, nos anos 60. Explicava ele que se tratava de edifício isolado, com escassa segurança, na periferia da capital, rodeado de um amplo jardim,. Os riscos não eram muito elevados, porque a criminalidade local era então escassa, mas, apesar disso, já por mais de uma vez, houvera indícios de que a casa fora rondada por potenciais assaltantes.

Uma madrugada - contava ele - ouviu, distintamente, ruídos provindos do outro lado da casa, onde habitava sozinho. Pôs-se à escuta e percebeu uma sussurada conversa, no exterior do prédio, entre pessoas que, claramente, estavam já a tentar forçar uma porta ou uma janela. 

A situação revelava-se complexa. Os empregados viviam noutro edifício, mais distante, e, claramente, não tinham ouvido chegar os assaltantes. Embora houvesse quem, em tempos, lhe tivesse recomendado que comprasse uma arma, o bom-senso do diplomata levara-o a não ir por esse perigoso caminho. Naquele instante, porém, perguntava-se sobre que opção tomar.

O relato tinha foros quase fílmicos. Os adidos olhavam, atentos, para o velho embaixador, que, para ilustrar a história, vagueava pela sala, frente a eles, de gesto largo e fácies grave. A certo passo, estacou e inquiriu: "Alguém tem uma ideia do que eu fiz, na ocasião?". Fez-se um silêncio, apenas entrecortado por uns declinantes murmúrios, com opções de ação tão pouco ousadas ou imaginativas que não chegaram a ser formuladas em voz alta.

É, nesse instante, que, com um sorriso, o embaixador revelou a sua "defesa":

- Caros colegas, é muito fácil. Fui à casa de banho!

A sala estacou de espanto. À casa de banho?! Para quê?

- Meus amigos. É elementar! Puxei a autoclismo. Em África, no silêncio profundo da selva, o fragor de um autoclismo a descarregar tem a força explosiva do tiro de um canhão!

A sala escangalhou-se em gargalhadas e a história passou a fazer parte dos anais divertidos da nossa casa.

6 comentários:

Helena Oneto disse...

Quando vi o título pensei tratar-se de um hipotético "assalto", logo à tarde, à nossa Embaixada aqui em Paris por simpatizantes da "geração rasca" ... e lembrei-me de algumas manifestações, em que participei, de protesto contra a política do governo, em alguns aniversarios do 25 de Abril "aux abords" da Rue de Noisiel, fechada aos manifestantes pela polícia. Foi com uma grande gargalhada de "soulagement" que cheguei à "força explosiva" de um autoclismo:)! Muito se ria, de bom rir, nas Necessidades!

EGR disse...

Senhor Embaixador: um dos muitos aspectos interssantes que este blog proporciona relaciona-se com o que a seguir tentarei sintetisar:suponho que todos os cidadãos a que por comodidade chamarei"normais" tem uma ideia que os diplomatas são pessoas sempre preocupadas com o protocolo, tentando usar uma linguagem que jamais possa ferir os interlocutores,atentos as delicadazes do relacionamento internacional,e em função dessas exigencias se tornam seres um tanto deshumanizados.Ora o que as deliciosas histórias que nos conta mostram que,afinal, os diplomatas tem as suas fraquezas,as suas vaidadezinhas,pequuenas invejas inter-pares,enfim são semelhantes a todos nós.
E isso ajuda-nos a compreender melhor o mundo da diplomacia e,pelo menos no meu caso, a valoriza-lo ainda mais.
EGR

Anónimo disse...

História bem deliciosa!!! :)

Isabel BP

Anónimo disse...

Obrigado por nos recordar esta estória deliciosa que também ouvi na minha "classe" de adidos, uns anos mais tarde. Devo dizer que a elegância da escrita do Embaixador Seixas da Costa quase supera a eloquência verbal do saudoso Embaixador CM, que Deus tenha.

Anónimo disse...

Por momentos, achei que o sr. se ia juntar aos assaltantes, fazendo-se passar também por um deles e persuadindo-os de que não valeria a pena, dado haver guarda cerrada ou o recheio não ter valia...

Mas achei a moral da história com requintes de verdadeira sagacidade...
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Por Falar em concurso com as jubilações de pelo menos, 15 embaixadores na calha...e a criação do corpo diplomático europeu...não estará na altura de abrir 30 vagas! é que não se trata de alargar o número de diplomatas mas de manter o número dos mesmos. Dado que necessitam de 2 anos de formação antes, de assumir funções no exterior penso que estamos no limite?!