segunda-feira, 21 de março de 2011

Lugares vagos

Éramos quatro portugueses, em visita de trabalho a um país daquilo a que, à época, se chamava o "terceiro mundo".

Ao segundo dia de uma missão que devia demorar três, fomos confrontados com atrasos pelos quais não tínhamos a menor culpa, exclusivamente devidos à desorganização das autoridades locais.

Explicámos a dificuldade da nossa situação, tanto mais que as saídas internacionais do país eram muito limitadas, os aviões para Roma, de onde tínhamos vindo, andavam quase sempre a abarrotar e, estando próxima uma época de festas, seria muito difícil encontrar lugar nos voos que saíam dessa capital.

Os nossos interlocutores mostravam-se muito calmos: "partem depois de amanhã, não se preocupem". Mas nós preocupávamo-nos. E se tudo se atrasasse mais? O dinheiro que tínhamos era limitado, à época não se usavam ainda cartões de crédito no país. Pior: nem sequer havia uma embaixada portuguesa no local. Mas que se podia fazer?

Na véspera da nossa nova data de partida, os nossos anfitriões perguntam-nos: "Não se importam de ir pela Suíça? Arranjámos-lhes lugares na nossa linha área."

Olhámos uns para os outros, num instante de coordenação visual, que traduzia uma ânsia de sair dali, cruzada com a desconfiança sobre a fiabilidade dos aviões locais. De Genebra ou de Zurique, lá arranjaríamos maneira de regressar a Lisboa. E, claro, aceitámos. Nem eles estavam à espera de outra coisa.

No dia seguinte, ao chegarmos ao aeroporto, fomos surpreendidos pelo facto da viatura que nos transportava entrar na própria pista, indo-se colocar ao fundo da escada de acesso ao avião. Alguém se havia encarregado já dos nossos passaportes e da troca dos bilhetes. Mas não tínhamos ainda os cartões de embarque. Pela movimentação logística, percebemos que os passageiros do nosso voo já estavam a bordo. Nós continuávamos dentro da carrinha que nos tinha transportado.

De repente, vemos subirem para o avião, em passo apressado, uma meia dúzia de polícias. Passou pouco mais de um minuto, até se ouvirem, no alto da escada, algumas vozes mais exaltadas. Olhámos e vimos os polícias descerem a empurrar quatro cidadãos, em trajes locais, que protestavam contra aquilo que era, manifestamente, a sua retirada forçada do avião. Passaram por nós e foram levados para o edifício do aeroporto.

- Caros amigos, podem embarcar, estão quatro lugares à vossa espera, lá em cima. Têm é de levar as vossas malas na cabine... Desejamos-lhes uma boa viagem! Voltem sempre!

Nem queiram saber a cara com que entrámos no avião, o modo como os restantes passageiros nos olharam, bem como o insuperável embaraço que tudo aquilo representou. Nunca mais me esqueci disto!

* Por razões que julgo óbvias, só agora (Agosto 2011) acho prudente revelar que isto se passou na Líbia

11 comentários:

António P. disse...

Caro Embaixador,
Fico à espera, um dia, de um livro seu. As histórias aqui contadas já são um começo.
E não espera pela reforma :)
Cumprimentos

Anónimo disse...

De facto!!!
Na Sua vida!!!...

Qual longa metragem...
Isabel Seixas

patricio branco disse...

Divertida fotografia. No aeroporto da portela há 50 anos?
Sentido pratico o dos anfitriões do pais visitado.

Julia Macias-Valet disse...

Not so fair... : (

Anónimo disse...

Cara Embaixador, faço minhas as palavras do Sr. António P.. As histórias aqui contadas por sí são simplesmente "deliciosas", mesmo nas mais "aspras", o seu sentido de humor, boa disposição,optimismo, é inegavélmente bem visível. Cá fico à espera de um livro de histórias, e digo "histórias", porque a palavra "memórias", para mim tem um sentido como que "postomo", logo, não gosto muito... Bem haja!!!
Carla Silva

Anónimo disse...

Bem... em Portugal também se faz mais ou menos isso: passar um passageiro para lista de espera para meter um VIP. Quem não sabe disso?

Carlos Albino disse...

Lá por essa, mas quem duvida de que iremos ter as Novas Cartas de Paris?

juliomoreno@sapo.pt disse...

Apraz-me contar também uma peripécia que me aconteceu quando, por questões profissionais, tive de me deslocar, durante dois anos e duas vezes por mês, às Canárias naquele mesmo avião das 17h30 com escala técnica no Funchal e chegada prevista a Las Palmas para as 20h20.
Um dia, acompanhado por um engenheiro que tinha convidado a viajar comigo porque iria necessitar dos seus conselhos técnicos e quando já sobrevoávamos a Gran Canária e estavamos prestes a aterrar em Gando, o meu amigo, olhando pela vigia o espelhado da lua nas vastissimas estufas que os imensos plásticos cobriam e que se espalham um pouco por toda a ilha, comentou: - "Magnífico, já vejo os lagos que são imensos!...".
Lembro-me que, sem coragem para rir, pensei em quanto daria um "canário" para que aquelas palavras correspondessem à realidade...

Helena Oneto disse...

Esta foto ilustra muito bem a situação do nosso país hoje. Amanha veremos quem "embarca" e quem fica em "terra"...

Anónimo disse...

Gostei imenso do post e da respectiva fotografia... perco-me com fotografias a sépia e a preto e branco.

Isabel BP

Anónimo disse...

O comentário do comentador Júlio é de uma ternura trocista , mas engraçado também é que inicialmente não percebi porque um canário(pássaro) gostaria de lagos para além de matar a sede claro...

fique descansado já regressei à geografia das canárias...Estou a acordar ao relantim...e a espreguiçar-me malcriadamente para a assembleia, bem sei, que é sério, como se não o sentisse.

Mas a sério gostava de ver se fosse eu a ter de vagar o lugar... Pf...Garanto-lhe que ia ser o bonito...

Isabel seixas