terça-feira, 29 de março de 2011

José Alencar (1931-2011)

A morte deve ter andado um tanto desorientada, nestes últimos anos, com José Alencar. O vice-presidente de Lula fintava-a com regularidade, sempre com um sorriso nos lábios, num desafio constante, uma espécie de teimosia irónica. Mas tudo tem o seu fim e estava escrito que, um dia, José Alencar ia perder uma das batalhas. Que iria ser a final.

Quando, em 2003, Lula foi aconselhado a ter Alencar na sua "chapa", dificilmente poderia prever que este industrial mineiro, escolhido para lhe dar credibilidade junto do setor privado, se iria transformar num dos seus mais leais apoios, num sustentáculo valioso, que nunca vacilou, mesmo nos piores momentos dos seus dois mandatos.

Praticamente desde a minha chegada ao Brasil, tive o inestimável privilégio de poder manter com José Alencar uma relação marcada por uma forte estima e simpatia, muito influenciada pela grande amizade que se estabeleceu entre os nossos cônjuges. Fizémos parte do grupo dos amigos que o casal escolheu para uma memorável deslocação ao Rio, comemorando o aniversário do seu casamento. Recordo jantaradas divertidas em nossa casa, com José Alencar a contar-nos, com a graça imensa que tinha, as insuperáveis historietas mineiras, daquela gente que "nunca se zanga mas também nunca se reconcilia". Pena tenho de não saber reproduzir as aventuras do "Fernandinho", cuja saga, acabada num posto consular nos Estados Unidos, era um êxito garantido para as audiências. Mário Soares, Jorge Sampaio e Freitas do Amaral, entre outros visitantes portugueses, foram testemunhas do ambiente aberto e franco que a segunda figura da hierarquia brasileira sabia criar à sua volta.

Há uns meses, recebi uma simpática nota manuscrita de José Alencar, em resposta aos votos de restabelecimento que lhe havia formulado, aquando de uma das suas, cada vez mais frequentes, recaídas. Dela transparecia, para além da sua profunda ligação a Portugal, a sua imensa fé religiosa, que talvez tenha sido uma das fontes onde ia beber a sua admirável coragem.

Lamento não ter hoje comigo a garrafa da "melhor cachaça do mundo", que fez questão de me enviar, depois de eu ter elogiado o néctar, num almoço em casa de outro amigo comum, o ministro da Defesa, Nélson Jobim. Nesse dia, ainda abalado por um internamento recente, José Alencar disse-me, em voz baixa: "Temos de arranjar dois copos daquela cachacinha que ali está, com rótulo verde. Mas não diga à Mariza que um deles é para mim..."

Logo que puder, vou beber um copo dessa cachaça pela memória desse amigo, um homem bom e corajoso, que se chamou José Alencar.


Em tempo: em 31.3.11, publiquei um artigo, baseado neste post, no jornal "Correio da Manhã"

8 comentários:

Mário Machado disse...

Nunca votei nele, nem apoiava suas concepções políticas, mas não há como não ter admirado sua luta pela vida.

Admirava também o modo como ele construiu um dos maiores impérios indústriais do Brasil começando com uma simples loja ainda aos 18 anos.

Admirava também a cultura que ele tinha ainda que a vida lhe tenha negado chances de obter o que chamamos de educação formal.

O Brasil ficou um tanto mais triste, um tanto menor, um tanto mais medíocre e ainda assim aliviado em saber que agora o guerreiro poderá descansar.

Jaime Ribeiro disse...

Notável o seu comentário sobre o falecimento de José Alencar. Um dia, gostava, tenho a certeza, que me fizessem um obituário como este. Obrigado, JRibeiro

roskoff disse...

A tradução fica muito má

é só um reparo...


The death must have been somewhat disoriented, in recent years, with Jose Alencar. Vice President Lula's feint it regularly, always with a smile, a constant challenge, a sort of stubbornness ironic. But everything has its purpose and it was written that one day, Jose Alencar would lose one of the battles. What would be the end.

When, in 2003, Lula Alencar was advised to have on your "plate", could hardly anticipate that this mining industry, chosen to give him credibility with the private sector, was to become one of its most loyal support, a mainstay valuable, that never wavered, even in the worst moments of his two terms.

Read more: http://duas-ou-tres.blogspot.com/#ixzz1I2CYtWwq

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Roskoff: o traditor automático está longe de pretender ser uma "tradução". Trata-se apenas de dar ao leitor uma ideia do assunto sobre o qual se escreveu. Nada mais.

patricio branco disse...

Bonita evocação duma personalidade amiga. Sim, é de beber um calice da cachacinha de rótulo verde à "saude" ,ou seja, à memória do finado (parece-me que é termo usado no brasil: "dados biograficos do finado Marcelino" belo titulo de livro que li há anos).
Ontem, quando minha mulher me disse faleceu j a não identifiquei a pessoa, quem é? o antigo vp do brasil, na verdade desconhecia totalmente. Hoje, depois de ler a entrada, percebi como era a pessoa e até o senti mais proximo que lula da silva do qual muito leio e ouço mas de quem não conheço historias intimas.

Margarida disse...

A forma franca e despretensiosa que tem de escrever sobre figuras que se tornam históricas, devolve-lhes a naturalidade a ponto de as tornar próximas do cidadão comum.
Tivera eu o copinho da cachaça, e de bom grado lha passaria clandestinamente, para lhe alegrar o instante.
De vaga personalidade longínqua a quase terno membro da família: acho que ele gostaria desta passagem amorosa.
Ergamos os copos!
Boa viagem e, se Deus quiser, até qualquer dia!
Há muita histórias que também eu quero ouvir - e rir junto!

Anónimo disse...

Considerei muito bonitas as palavras do Mário Machado.

Apresento-lhe a minha admiração por tão sentida homenagem a um compatriota porque cada vez são menos os que conseguem ter lucidez suficiente para separar as diferenças políticas.

Isabel BP

Anónimo disse...

Figura única e marcante,mesmo para um português a viver no Brasil e que não acompanhou a história desde o começo...