sábado, 12 de março de 2011

Diplomacia democrática

É nestes tempos em que o nome de Portugal e da situação político-económica portuguesa anda nas bocas do mundo que será talvez oportuno recordar as obrigações de uma diplomacia democrática.

Tenho para mim que uma das menos edificantes e mais indignas atitudes que um diplomata pode assumir, perante interlocutores estrangeiros, é enveredar pela crítica às autoridades do país que representa. Mas, devo dizer, torna-se igualmente triste ouvi-los criticar, em público, as forças da oposição que, com toda a legitimidade democrática, são adversários dos poderes instituídos.

Ambas as atitudes relevam, pura e simplesmente, de uma grave falta de sentido profissional. O interlocutor estrangeiro respeita o diplomata que, independentemente das suas ideias pessoais, sabe assumir uma atitude equilibrada na análise da situação política interna existente no seu país, que é capaz de expor, com rigor, equilíbrio e equanimidade, os sucessos ou insucessos do Estado que lhe cabe representar, que defende com empenhamento os interesses deste mas não camufla conflitualidades ou dificuldades existentes no seu mundo político interno, que não edulcora, ao absurdo, o que de negativo possa existir na sociedade que lhe cabe representar.

Já me confrontei, no meu percurso profissional, com colegas estrangeiros de todo o tipo. Convivi com os cegos militantes, para quem os respetivos dirigentes são o máximo existente à face da terra, os quais, no seu parecer sectário, são obrigados a sofrer os custos de uma oposição cuja ação quase ilegitimam, apenas porque esta não cai no seu goto pessoal. Conheci os mal-dizentes crónicos, que remoem em público, dia-após-dia, críticas ou ironias, quando as autoridades eleitas não são da sua cor política, acusando-as de todos os malefícios pátrios, suspirando por uma reviravolta que ponha os do "outro lado" no poder. Num registo mais corporativo, dei às vezes de caras com aqueles que acham que a política externa do seu país é apenas um lamentável desastre, que estão condenados a representar "malgré eux", atitude muitas vezes mobilizada por ódios acumulados ou por queixas profissionais.

Assisti a muitas conversas com todo este tipo de gente e - garanto! -  sempre pude observar a pena que a sua atitude provoca nos interlocutores, em especial em colegas de países onde a diplomacia democrática se pratica e se vive, com naturalidade e sentido de Estado. Onde esses colegas procuram exibir, de forma  mais ou menos espalhafatosa, o que pretendem ser uma hiperfranqueza crítica - face a instituições, forças políticas ou figuras do quadro democrático do seu país -, os estrangeiros que os ouvem apenas nisso vêm deslealdade e ausência de um espírito profissional. Às vezes sorriem, mas, por detrás desse sorriso, está sempre um esgar de desprezo.

A diplomacia democrática é o estado supremo do profissionalismo em matéria de representação externa. Vale a pena recordar isto, nos dias que correm.

8 comentários:

FernandoB disse...

Desabafo ???

Anónimo disse...

Faz bem lembrar isto.

CSC

Helena Oneto disse...

..."diplomacia democrática é o estado supremo do profissionalismo"...
Magistral! alguns dos seus "pairs" franceses deviam aprender a lição...

Alcipe disse...

Muito bem!

EGR disse...

Apenas duas palavras sobre este texto:denso e admirável.
EGR

Santiago Macias disse...

"Tenho para mim que uma das menos edificantes e mais indignas atitudes que um diplomata pode assumir, perante interlocutores estrangeiros, é enveredar pela crítica às autoridades do país que representa."

Totalmente de acordo. Acrescentaria apenas que esse princípio é válido para outras áreas. Nada pior e mais desprestigiante que a crítica feita "lá fora" às instituições que temos no País. Desgraçadamente, vejo muito boa gente fazê-lo, na procura servil de supostas cumplicidades.

Anónimo disse...

Exemplar este texto. Devia ser obrigatório no MNE, nos partidos e em Belém

juliomoreno@sapo.pt disse...

Gostaria de complementar - se tal ousadia me é permitida - que muitos dos princípios enunciados podem e devem ser aplicados no interior de cada país onde os respectivos representantes, os Chefes de Estado, sejam estes Reis ou Presidentes, mais não serão do que diplomatas internos em exercício de funções e, como tal, deverão pautar sempre o seu procedimento, o que nem sempre tem acontecido.