quinta-feira, 17 de março de 2011

Badinter

Fui apresentado a Robert Badinter, há quase dois anos, aqui em Paris. Disse-lhe então do prazer que tinha em conhecê-lo pessoalmente, pelo profundo respeito que a sua figura de retidão ética me inspirava, desde há muito. E, devo confessar, não há muitas pessoas a quem eu me sentisse tentado a dizer o mesmo.

Robert Badinter foi, durante quatro anos, ministro da Justiça de François Mitterrand e proponente da medida legislativa que, em outubro de 1981, proibiu a pena de morte em França. Tinha na minha memória a campanha de vilificação de que então foi alvo, com acusações miseráveis, que o qualificaram como "o advogado dos assassinos".

Num tempo em que, um pouco por todo o lado, a política imediatista tende a esconder os princípios por detrás do populismo, vale a pena relembrar que Badinter soube conduzir a França para a linha da frente da defesa das liberdades - abolição dos tribunais militares, supressão do delito da homosexualidade, sujeição ao Tribunal europeu dos direitos do Homem, etc.

Badinter acaba de publicar uma memória desse tempo de honra para a vida pública francesa, sugestivamente intitulado "Les épines et les roses". Lê-se de um trago, como retrato que é de uma bem sucedida mas complexa experiência política. Nele, Badinter não deixa de notar que a democracia está longe de ser a reprodução mecanicista do sentimento popular: quase 2/3 dos franceses eram favoráveis à manutenção da pena de morte, no momento em que ela foi abolida. Liderar, politicamente, é também ter a coragem de tomar medidas impopulares, quando se entende que o bem público as justifica.

5 comentários:

ava n'tesma disse...

e o bem público varia com os tempos

logo é um bem que público deva ser

e um mal que privado seja

quem ajuiza que a vida é um bem supremo

e o seu fim um mal desnecessário?

Anónimo disse...

Subscrevo, na integra.
Isabel Seixas

patricio branco disse...

Por associação, recordo da 1ra tomada de posse de mitterrand uma extraordinária cena, passada em directo na televisão ainda a branco e negro: a longa caminhada solitária que fez questão de fazer esse dia, pelos corredores ou claustros do panteon, até ao tumulo de napoleão, onde depôs um ramo de flores.
Foi seguido pelas câmaras e ressoavam os seus passos nas abóbodas desses corredores. Algo encenado, simbolico, mas estranho e impactante. Talvez existam videos no you tube.

Helena Sacadura Cabral disse...

É verdade Senhor Embaixador. Acrescento apenas que a seu lado - não atrás - esteve sempre uma grande Mulher!

Helena Oneto disse...

Quelle chance!
Tenho uma admiração enorme pelo casal Robert e Elisabeth Badinter.
Bela e oportuna homenagem, Senhor Embaixador.