segunda-feira, 28 de março de 2011

Asas diplomáticas

Era (e é) um homem bastante mais velho do que eu, com um ar "grave" mas com uma imensa graça, um diplomata de linguagem franca e certeira. Chefiou postos importantes e, em todos eles, soube manter uma postura que tinha o seu quê de snobe, de aristocrático, sempre bastante irreverente, ao jeito algo britânico que cultivava.

Viajar com ele, pelo mundo, era uma delícia, pelas notas de ironia que, a cada passo, o quotidiano lhe sugeria, pelos qualificativos que colava à figura de colegas. Não se sabe bem porquê, um embaixador britânico, com um "stiff upper lip" exagerado, ficou por ele eternamente crismado de "Serafim", um antigo assessor diplomático de Belém era o "Brzezinski da Reboleira" e, a propósito de um ministro que, em meados de um qualquer Dezembro, estava a tomar-se ares de "grandeza", comentou alto, à mesa de uma reunião de trabalho, para ele ouvir: "é por esta altura do Natal que os 'pinheiros' têm o seu momento de glória"...

Um dia, viajávamos em grupo para uma capital europeia, cujo nome não é para aqui chamado. Ainda no avião, disse-me, algo angustiado como sempre foi pelas coisas da gastronomia:

- O nosso colega, que hoje oferece o almoço, é um dos embaixadores mais forretas da nossa carreira. Desde há décadas que, em casas dele, nunca comi outra coisa que não fosse frango. Você vai ver!.

Não fiquei nada preocupado, apenas curioso em saber se o meu colega tinha ou não razão.  Eu não conhecia o nosso anfitrião, que nos aguardava no aeroporto. Pareceu-me um homem simpático. Ainda antes de nos acomodarmos no hotel, fomos diretamente para o almoço que nos oferecia na residência da embaixada.

Como o grupo era grande, o embaixador tinha previsto mesas redondas. Eu ficava numa mesa distante da do meu companheiro, que o dono da casa, por óbvias razões de antiguidade, tinha levado para junto de si.

O almoço começou. Os convidados mais importantes, à volta do embaixador, foram os primeiros a ser servidos. A certo passo, o meu olhar cruzou-se com o do meu companheiro de viagem, sentado nessa mesa principal. Então, sem denotar qualquer particular expressão facial, esse meu amigo voltou-se ostensivamente para mim e, com os braços em ângulo reto, aproximou e afastou, por várias vezes, os cotovelos do corpo. O gesto não era nada elegante e, para alguns, terá parecido apenas um casual e inopinado exercício de descontração muscular. Só eu percebi: o almoço era, de facto, frango!

19 comentários:

Teresa disse...

Babo com histórias destas, deliciosas.
Tive uma em tempos relação próxima com o Embaixador Calvet de Magalhães, transcrevi e revi-lhe em computador a biografia de Antero de Quental para a Bertrand. O que lembro com encanto são as conversas, principalmente quando nos descobrimos ambos apaixonados por Oscar Wilde, e ele me revelou que, aquando da sua passagem por Cantão (ou teria sido Xangai? Não, acho que era Cantão) tinha lido as transcrições completas dos três julgamentos. Discussões fervilhantes, cada um a lembar mais apontamentos ao outro, numa simbiose indiferente aos 50 ou mais anos que nos separavam.

Anónimo disse...

Oh! como gosto desse Seu amigo.

Ainda não havia o pingo doce se não até a batata frita tipo pala pala estaria incluida...

Mas não consigo ser insensivel a esta galinha linda de sensual, juro que me identifico com ela sem pruridos até na eventual estupidez natural tão querida...

Isabel Seixas

patricio branco disse...

Frango, alimento humilde, economico, que escapa portanto à crise, mas tambem versatil, com o qual se podem preparar bons pratos, adapta se a todos os sabores. Não seria o caso da história contada, claro, há outras aves mais nobres para a ocasião. Mas foi oportunidade para "abanar as asas" em direcção do amigo cumplice.
Frango de caril, de fricassé, assado nas brasas, com molho de amendoim (pode ser preparado com a manteiga de amendoim americana), com limão e cebola (yassa), caldo ou consomé de frango, frango cozido com legumes...
A propósito de calvet de magalhães, folheei há tempos na livraria uma biografia almeida garrett (personalidade, personagem e escritor que me interessa) escrita por calvet de magalhães.

Julia Macias-Valet disse...

Caro embaixador, aproveito este texto "à volta da mesa" para lhe transmitir un artigo que me enviou hoje de manha uma amiga italiana. A Laura (professora de italiano da Universidade de Nanterre) falou-me ontem deste assunto; encontramo-nos por vezes ao fim da tarde para falar do nosso sul e dos problemas que por la se vivem.

http://www.courrierinternational.com/article/2011/01/18/nourrir-les-esprits-mais-d-abord-les-corps

http://aeiou.expresso.pt/escolas-lutam-contra-a-fome=f613964

Julia Macias-Valet disse...

A proposito de biografias, estou a ler neste momento uma de Fernao de Magalhaes "Magellan" de Stefan Zweig...a qual recomendo.

Anónimo disse...

Tenho a desconfiança de que a figura desta estória é o Embaixador Carlos Simões Coelho. Mas falta o cachimbo.

RB

Anónimo disse...

Caro/a RB,
Essa do Embaixador Simões Coelho fez-me recordar uma, suposta, exclamação dele, em tempos: “África para mim?”
Rilvas

Teresa disse...

Julia,
É uma das grandes biografias de Stefan Zweig, autor hoje menosprezado. Leia a de Maria Antonieta, que continuo a considerar modelar pela análise psicológica minuciosa, e a de Balzac.
E o fascinante O Mundo de Ontem.
(desculpe, não resisti, tenho paixão por biografias)

Helena Sacadura Cabral disse...

Patricio Branco tem toda a razão. O humilde frango pode trabalhar-se como o bacalhau. Ou seja, de cem maneiras mais!
A "estória" excelente como é hábito!

Anónimo disse...

É claro que é o Simões Coelho. Lembro-me de uma das "bocas" dele.

Helena Sacadura Cabral disse...

Caras Teresa e Julia
Ainda bem que trouxeram à baila Zweig e as citadas biografias.São excelentes.
Infelizmente hoje está muito esquecido. Mas eu pertenço a uma geração que aprendeu muito com ele!

Julia Macias-Valet disse...

Obrigada Teresa pelo seu simpatico conselho.

"...autor hoje menosprezado." Onde ? Em Portugal ?
Aqui em França faz parte do programa de 3ème (9° ano de escolaridade). O meu filho (15 anos) leu "O jogador de Xadrez" no ano passado. Do programa de Historia-Geo fazia parte a 1a e a 2a guerra mundial...afinal tudo esta relacionado...

papoila disse...

Que história deliciosa!

Anónimo disse...

Esse embaixador devia ser admirador do Tio Patinhas... que grande forreta! :)

Isabel BP

Anónimo disse...

Era o Simões Coelho.

patricio branco disse...

insistindo nas minhas divagações culinárias de asas cito mais uns pratos de frango que gosto: croquetes e empadas de frango (empadas, normalmente, diz se de galinha!), arroz de frango, paella, empadão de frango (o chicken pie inglês, que maravilha),frango de tomatada, salada fria de frango com alface, batata, cenoura e maionese. Todos os pratos quentes de frango, humidos ou sem molho, se acompanham bem de batatas fritas aos palitos e alguns de arroz branco.
O frango ou galinha é como o bacalhau da carne, concordo com HSC. E optimo produto para tempos de crise, para quem não quer gastar muito.
Enfim, gostaria de ter algumas receitas de frango do embaixador que ofereceu o almoço, especialista nesse produto, mas tal não é possivel, pelo que me fico pelas minhas e outras. Ah, esquecia-me, frango cozinhado com cerveja.
Bom produto para a crise e para quem gosta, mas não muito apropriado para o tal almoço, que só confirmou a fama do hospedeiro.

Helena Oneto disse...

Estas "asas" voaram muito bem:)!

Anónimo disse...

Em 1971 nas casas de pasto servia-se frango dourado na panela de aluminio em azeite, temperado com sal e vinho branco, polvilhado de colorau, acompanhado de batata frita arroz pão e meia caneca de vinho da casa meio a martelo tipo pizorga/murraça,doze e quinhentos para feijões verdes/magalas.

Isabel Seixas

Teresa disse...

Julia,
Desconhecia que Zweig fizesse parte do programa escolar francês. Sabe, fui aluna de Vergílio Ferreira (uma honra e um privilégio!), que o tinha em fraca conta.
Para si e também para a Helena: esqueci-me de mencionar outra biografia de Zweig: Maria Stuart. A Helena terá certamente lido, foi em tempos autor muito vendido em Portugal. Li a maior parte dos seus livros entre os 14 e os 20 anos - sem esquecer, claro, 24 Horas na Vida de Uma Mulher, mas é às biografias que volto sempre.
Considero o seu Maria Antonieta, por exemplo, francamente superior ao trabalho muito mais recente de Antonia Frasier, viúva de Harold Pinter, de quem suspeito que não voltarei a ler nada. Já o seu The Six Wives of Henry VIII deixava muito a desejar quando comparado com o homónimo, uns bons dez anos mais antigo, de Allison Weir.
Um abraço a todos.