quarta-feira, 30 de junho de 2010

Rohmer e Godard

Clermont-Ferrand é uma terra que já me trazia à memória a "nouvelle vague" do cinema francês, porque foi a cidade onde Eric Rohmer filmou o mítico "Ma nuit chez Maud". Agora, ao ter sido recebido pelo "maire" se chama Godard (embora Serge e não Jean-Luc), esta memória adensa-se.

No passado sábado, estive em Clermont-Ferrand para inaugurar a nova sede de uma associação portuguesa, que este ano comemora impressionantes três décadas de existência. Um fantástica festa de S. João, com milhares de visitantes, provou bem a vitalidade e a integração dos muitos portugueses que vivem na terra de Pascal e capital da Michelin.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Paulo Jorge (1929-2010)

Com a morte de Paulo Jorge, antigo ministro das Relações Exteriores de Angola, morre também um certo MPLA.

Uma noite, numa conversa em Luanda, nos anos 80, em casa do Fernando Valpaços, Paulo Jorge contou-me uma história que nunca mais esqueci, porque tem um significado interessante.

Eram passadas poucas semanas após o 25 de abril de 1974 e uma delegação do MPLA, chefiada pelo próprio Paulo Jorge, chegou a um certo país do norte de África, para uma visita oficial. A delegação desceu do avião e, para grande surpresa dos seus integrantes, ninguém parecia aguardá-los. Dirigiram-se para a sala de desembarque e aí esperaram. Alguns minutos depois, foram hesitantemente aproximados por umas pessoas que inquiriram se aquele grupo não seria, por caso, a delegação angolana. Paulo Jorge e os seus companheiros confirmaram que sim, para evidente alívio daqueles que eram, afinal, os seus anfitriões. Na realidade, eram as mesmas pessoas que eles já haviam visto ao fundo da escada, à saída do avião, mas que, nesse momento, não tinham feito qualquer gesto de aproximação. Os anfitriões explicaram, um pouco embaraçados: é que não estavam à espera que a delegação do MPLA fosse constituída só por brancos...

Outros tempos. 

Espiões

"Old habits die hard". A notícia de que 10 alegados espiões russos foram detidos nos Estados Unidos, onde estariam a ser infiltrados, pode levar alguns a imaginar um retorno aos tempos da Guerra Fria, um mundo que pensavam já terminado. O mais curioso é que isto se passa quase simultaneamente com o dia em que os presidentes Obama e Medvedev trocaram abraços de cumplicidade e reiteraram o aprofundamento da amizade russo-americana.

A verdade é que o tempo dos serviços de "intelligence" está longe de ter acabado. Eles andam por aí travestidos em outros modelos, mesmo entre países mais ou menos amigos, mas com uma ação agora mais vocacionada para as temáticas económicas e tecnológicas. Este é um jogo eterno de sombras que sempre existiu e há-de continuar a existir, porque é da natureza dos Estados tentar saber um pouco mais para além do que é público, por forma a dar o melhor alimento informativo para suporte das decisões oficiais e mesmo privadas, desde que consideradas de importância estratrégica para a preservação ou promoção dos seus interesses.

Às vezes, continua a ser feita alguma confusão entre o trabalho diplomático e o dos serviços de informações, em especial quando se atua em países não democráticos, em que o acesso à informação é mais complexo. Não nego que, nessas circunstâncias, pode surgir uma "zona cinzenta" entre esses dois mundos, mas é de elementar prudência que os profissionais da diplomacia sejam habilitados com um código claro de instruções que lhe evite o risco de passarem a perigosa "red line" entre o modo legítimo de coletar informação e a tentação de a obterem por meios menos curiais.

Espanha-Portugal

Segundo a TF1, num comentário, prevendo o jogo de hoje: "Des cousins qui ne se font pas de cadeaux"...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Emigrar para Portugal

"E o seu filho, não quer emigrar para Portugal?". A pergunta do antigo presidente Jorge Sampaio deixou sem resposta o senhor Fartaria, que olhou de soslaio o seu filho Isidore, naquela noite em Clermont-Ferrand, aqui há uns anos. A conversa acabou por ter um desfecho feliz.

Isidore Fartaria não "emigrou" para Portugal, mas a sugestão do antigo chefe de Estado acabou por suscitar o seu interesse e levou-o a procurar oportunidades de negócio no seu país de nascimento, de onde saíra com 16 anos, que pudessem dar sequência às inúmeras atividades empresariais em que, entretanto, a família já se envolvera, com sucesso, em França. Como resultado dessa visita e do entusiasmo suscitado para investir no país onde nasceu, o antigo canalizador Isidore Fartaria viria a construiu uma unidade fabril na Marinha Grande, a exemplo das que hoje mantém em Espanha e na ilha da Reunião, complementando assim, desse modo, a sua já diversificada presença empresarial em França.

Há semanas, o presidente da República portuguesa, Aníbal Cavaco Silva, atribuiu a Isidore Fartaria o prémio COTEC Portugal - Associação Empresarial para a Inovação. No passado sábado, tive o gosto de o conhecer pessoalmente em Clermont-Ferrand, onde hoje é uma figura proeminente e muito prestigiada da comunidade de origem portuguesa.

domingo, 27 de junho de 2010

Pierre Grosser

Pierre Grosser é, nos dias de hoje, uma personalidade muito respeitada no mundo da investigação histórica francesa sobre temas de política internacional, área em que a França, quase sempre muito "auto-centrada" na sua própria história, não tem muitos especialistas. Grosser é um deles e, na passada quinta-feira, tive um grande gosto em conhecê-lo pessoalmente, na sede da UNESCO, no dia em que recebeu o Prix des Ambassadeurs. A obra que valeu este prémio já foi destacada neste blogue - "1989 - l'année où le monde a basculé" - e é dedicada a esse ano-charneira em que a queda do Muro de Berlim correspondeu à queda de muitas ilusões e ao nascimento de outras tantas.

O Prix des Ambassadeurs é um galardão anual atribuído a uma obra de história política,  escolhida por um júri, constituído por  um grupo de vinte embaixadores, selecionados sob a égide da Académie Française, para o qual tive o gosto de ser convidado após a minha chegada e de que tenho grande honra de fazer parte. Foi criado em 1948 e já distinguiu obras de figuras da craveira de Saint-Exupéry, Simone Weil, Raymond Aron, André Maurois e Henry Troyat, entre muito outros.

Foi curioso ouvir Pierre Grosser, com um papel determinante na Escola Diplomática do "Quai d'Orsay", sublinhar a sua fidelidade ao trabalho de uma grande figura do pensamento conservador, como é o caso de Raymond Aron - a quem os acontecimentos de 1989 seguramente muito diriam, se acaso não tivesse desaparecido em 1983. Igualmente notei que Grosser increve afirmadamente o seu nome numa linhagem de estudos de história onde estão nomes como Jean-Baptiste Duroselle ou Pierre Milza, que muito ajudaram a minha geração diplomática a melhor compreender o mundo.

Não escondo que me agrada muito ficar ligado, nesta minha passagem por Paris, a uma iniciativa de destaque sobre uma dimensão relevante da vida intelectual francesa. 

sábado, 26 de junho de 2010

Brasil - Portugal

O título deste post não tem nada a ver com o jogo disputado na sexta-feira entre Portugal e o Brasil. Refere-se apenas ao modo como as relações bilaterais são tratadas nas memórias do meu amigo Luiz Filipe Lampreia, antigo embaixador do Brasil em Lisboa e ministro das Relações Exteriores do seu país.

No "O Brasil e os Ventos do Mundo", livro que acaba de sair e que já estou a acabar de ler, aprende-se muito sobre o modo como a potência da América Latina olha as relações internacionais e, em especial, aquelas que são mais relevantes para o seu bem merecido processo de afirmação à escala global. Nesse olhar, há um espaço para a relação com Portugal, que deve ser lido na exata medida da importância que esta tem para a política externa brasileira. 

Anoto duas referências.

Na primeira, Lampreia lembra a crise dos dentistas - uma temática sensível. que deixou algumas feridas na memória pública brasileira. A perspetiva do então embaixador brasileiro em Portugal não valoriza suficientemente, a meu ver, um conjunto de fatores importantes na ordem interna portuguesa que condicionaram então a nossa atitude. Tenho esperanças que, da nossa parte, venha a aparecer ainda a público uma leitura deste caso, que possa "dialogar" eficazmente com a visão de Luiz Filipe Lampreia.

A segunda referência, no contexto da densificação das relações político-económicas bilaterais nos anos 90, prende-se com a CPLP. Registo o que diz: "Essa instituição vem prestando bons serviços à aproximação entre os países que partilham a língua portuguesa, ainda que seu escopo seja limitado e que no Brasil não exista nenhum entusiasmo com a instituição. Na alfândega em Lisboa, por exemplo, existe uma fila especial para os portadores de passaporte da CPLP".

O memorialismo diplomático brasileiro, ao contrário dos escassos trabalhos entre nós publicados, é imenso e tem uma grande importância para a fixação da história contemporânea das relações externas do Brasil.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

"Notas Verbais"

A "nota verbal" é a forma de comunicação mais corrente entre os serviços diplomáticos. Tem esse nome porque, no passado, a entrega de um texto consagrava aquilo que fora dito num contacto pessoal.

Fez ontem precisamente sete anos, surgiu, na blogosfera portuguesa, o "Notas Verbais", um blogue dedicado à política externa e à diplomacia. O nome logo despertou  imensa curiosidade nos corredores das Necessidades, bem como nas suas antenas exteriores. O blogue trazia comentários e notícias sobre a atividade do Ministério dos Negócios Estrangeiros, muitas vezes incisivos, outras vezes neutrais ou meramente informativos.

Ao final de uns tempos de dúvida, o seu autor revelou-se: era Carlos Albino, um jornalista que (creio) iniciou a sua carreira no "República" e que viria, mais tarde, a ser responsável por uma secção de acompanhamento da vida diplomática no "Diário de Notícias". Como dado pessoal curioso, lembro que Carlos Albino teve um relevante papel no processo de transmissão da "senha" radiofónica que lançou o 25 de Abril.

Esta minha nota - que é escrita e não "verbal" - destina-se a destacar que, com intermitências (algumas bem longas), Carlos Albino mantém, com determinação, aquele que é talvez um dos mais antigos blogues portugueses. E que é um espaço opinativo que muito de nós, profisionais da diplomacia, visitamos, com maior ou menor regularidade.

Como é da natureza destas coisas, e que também diz bem da independência do autor, não foram (nem são) raras as vezes em que a minha leitura de algumas das questões que o blogue aborda diferiu, às vezes de forma muito contrastante, com a que era sustentada por Carlos Albino. Em alguns desses casos, porque estavam em causa pessoas que muito respeito ou posições com que eu discordava abertamente, entendi ser minha obrigação dizer-lho por escrito, com toda a frontalidade. Carlos Albino sempre teve a simpatia de acolher, sem acrimónia, essas minhas críticas ou divergências - e, como ele bem sabe. algumas mantêm-se ainda hoje...

Souto Moura

Os franceses ficam sempre encantados quando ouvem uma certa geração portuguesa expressar-se bem na sua língua. Embora lamentando muito, costumo acabar-lhes cedo com as ilusões, informando-os que, com algumas exceções, somos, em Portugal, uma "raça em extinção".

Ontem, ao ouvir Eduardo Souto Moura ler um belo texto num excelente francês - no qual assumiu a inspiração da sua obra na de Mies van der Rohe -, foi muito curioso ver o público presente na sessão anual da Académie de l'Architecture, aqui em Paris, prolongar essa ilusão de que Portugal permanece como sólido pilar do proselitismo linguístico da língua francesa. Não é verdade, infelizmente.

Souto Moura esteve em França para receber um prémio pela sua obra, dado pelos seus pares franceses, consagrando assim um reconhecimento internacional da arquitetura portuguesa que a todos nos honra.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Carta ao Mathis

Olá, Mathis

Soube há pouco, por um jornal, que não te deixaram entrar na escola, aqui em França, porque levavas vestida a camisola da seleção portuguesa. Os teus pais, ao que parece, ficaram aborrecidos com isso.

Queria dizer-te que não deves ficar preocupado com o que aconteceu. Pelos vistos, o objetivo da direção da tua escola foi evitar a possibilidade de outros meninos, de várias nacionalidades - a começar pelos franceses -, poderem meter-se contigo e criar alguma confusão. Se calhar, na tua escola, há meninos da Coreia do Norte...

É muito bom que tenhas sentido orgulho em usar a nossa camisola. A França é o país onde vives mas, como se viu, Portugal é o país que trazes no teu coração. É aqui que, provavelmente, irás fazer a tua vida, no futuro, mas isso não te torna menos português. A França é uma terra onde há muita gente que veio de outros países, como de Portugal, à procura de oportunidades para trabalhar. A França deu-lhes essa possibilidade e os portugueses retribuíram com o seu esforço, com a sua seriedade e a sua honestidade, para a riqueza da sociedade francesa. E aqui estão, também em sua casa. Ninguém deve nada a ninguém. E tu és a melhor prova do sucesso da integração dos portugueses em França, com a tua mãe francesa e o teu pai luso-descendente.

Os portugueses que aqui vivem devem ser sempre leais para com a França que os acolhe, da mesma maneira que a França tem de aceitar que tu, tal como os outros meninos que se sintam ligados a Portugal, possam mostrar isso, nas ruas ou nas camisolas. Pode discutir-se se a escola é o lugar mais indicado para andar com as camisolas da nossa seleção, mas, aos teus amigos de cá, deves lembrar que foi a Revolução Francesa, aquela que está na bela "La Marseillaise", que ensinou o mundo a lutar pela liberdade, a defender a igualdade entre todos e a demonstrar a nossa fraternidade perante os outros.

Para ti, caro Mathis, quero deixar-te um abraço bem lusitano e um convite para, um destes dias, vires, com os teus pais, visitar a Embaixada. E também espero que, qualquer que seja o resultado que a seleção portuguesa venha a ter no Mundial, tragas vestida a camisola das quinas. É que nós, os portugueses, temos por tradição ser muito orgulhosos do nosso país, tanto nos bons como nos maus momentos.

Francisco Seixas da Costa

Em tempo: leiam também o que o Tintin no Tibete escreveu. E vejam e ouçam a história, contada com fluência pelo próprio Mathis, aqui.

"Trivia"

Este post é dedicado a um amigo, que às vezes julgo que aparece anonimamente pelos comentários deste blogue, o qual, tal como eu, é dado ao domínio do misterioso significado de algumas palavras e expressões, comigo trocando livros, de há muito, sobre esse fascinante tema. 

Há umas semanas, uma importante personalidade política portuguesa, que viajava ao meu lado num automóvel, pelas margens do Sena, perguntou-me: "De onde é que vem o nome dos 'bateaux-mouches'?

Apanhado de surpresa - mas com a obrigação inerente a um diplomata em posto, que deve ter resposta pronta para tudo - respondi, com a imparável segurança dos que têm inconfessáveis dúvidas, que me parecia que a designação dada aos barcos que andam pelo Sena, cheios de turistas, derivava da suas grandes janelas de vidro, que se assemelhavam aos grandes olhos das moscas. Não fazia ideia de onde me tinha vindo essa súbita "sapiência", mas tinha-a na cabeça e preferi-a à versão, que ouvira ainda há pouco tempo, de que o nome derivava das vagas de moscas que, no Verão, pululavam pelo rio, atormentando os passageiros desses barcos.

Ontem à noite, estava a jantar numa "péniche", uma dessas embarações que estão ancoradas aos cais nas margens do Sena, onde vive um amigo meu de bom gosto e, ao ver passar um "bateau-mouche", suscitei a minha dúvida. E logo um conviva, mais sábio, me explicou: o nome é já do século XIX e deriva da antiga zona de la Mouche, em Gerland, a sul de Lyon, onde se situava um estaleiro em que os primeiros barcos (que viriam a ser utilizados para transporte de carga e passageiros no Sena) foram construídos.

"Voilà"! Às vezes, as coisas são bem mais simples do que pensamos.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

"Bleus"

A propósito da episódica greve ao treino (e da mais prolongada "greve" aos bons resultados) da seleção de futebol de França, um amigo conservador deu-me ontem uma interpretação bem-humorada: "A França é conhecida, em todo o mundo, por ser um país de grevistas. Para estar à altura dessa tradição, só faltava sermos capazes de organizar uma greve de milionários. Agora já conseguimos!"

terça-feira, 22 de junho de 2010

Aristides Sousa Mendes

Gostava de ter tido ontem comigo, na Embaixada, aqueles que, em Portugal, insistem em não prestar tributo ao gesto do antigo cônsul em Bordéus, Aristides Sousa Mendes, que, nessa qualidade, emitiu alguns milhares de vistos, desobedecendo às ordens recebidas

Gostava de ver essas pessoas confrontadas com a emoção que observei nos olhos de uma cidadã judia, hoje americana, que nesses dias trágicos de Junho de 1940, esteve nas filas do nosso Consulado em Bordéus, entre muitos milhares de refugiados, e que ontem me contou pessoalmente como aí pôde obter um visto gratuito para entrar em Portugal, e daí partir para a liberdade.

Gostava de os ver fazer entender a essa senhora, olhos nos olhos, que Aristides Sousa Mendes não deveria ter emitido o visto que lhe salvou a vida e deveria, com exemplar zelo burocrático, ter seguido as determinações na Circular nº 14. de 11 de Novembro de 1939, segundo as quais "os cônsules de carreira não poderão conceder vistos consulares sem prévia consulta ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (...) aos judeus expulsos dos países da sua nacionalidade ou daqueles de onde provêm".

Gostava.

Coreia do Norte

Muito provavelmente, o meu sentimento patriótico não está, em matéria futebolística, à altura das circunstâncias. Ontem, ao assistir ao descalabro da equipa da Coreia do Norte perante a seleção portuguesa, e embora sabendo que um resultado folgado dava a Portugal uma margem de segurança importante para o apuramento para os oitavos de final, tive um insuperável sentimento de pena por aquele quase anónimo conjunto de jogadores, servido por um guarda-redes digno de um confronto entre-solteiros-e-casados. Para essa atitude contribuiu também o facto - provavelmente, pouco notado por muitos - de que os coreanos, em especial durante a primeira parte, praticamente não cometeram uma única falta, executaram um jogo disciplinarmente irrepreensível.

É que me recordei que, em 1966, no regresso a casa, depois da derrota por 5-3 contra Portugal, e não obstante terem então chegado bem mais longe na competição, os membros da equipa coreana e as suas famílias, segundo reza a história, acabaram por ter alguns problemas no seu país. Infelizmente, com o tempo, os tempos não mudaram muito para os lados de Pyongyang. Ontem, ao ver o resultado avançar para um registo de humilhação nacional, neste que foi o primeiro jogo de futebol transmitido em direto, desde sempre, pela televisão norte-coreana (!), não pude deixar de temer que agora possa acontecer coisa idêntica. A vida ensina-nos que, não raramente, a alegria de uns arrasta a tragédia de outros.

As mulheres e a diplomacia

Há semanas, ao entrar na sala onde ia falar aos novos "adidos de Embaixada" - a categoria de entrada na "carreira" -, não pude deixar de fazer um comentário de alguma surpresa pela circunstância de, entre os presentes, haver muito poucas mulheres. De facto, estava convencido de que, nos últimos anos, havia um progressivo reequilíbrio de género dentro da diplomacia portuguesa, correspondente, aliás, ao maior sucesso académico das mulheres na sociedade portuguesa atual. Pelos vistos, enganei-me.

Fiz parte do primeiro concurso de entrada de diplomatas para o Ministério dos Negócios Estrangeiros ao qual as mulheres portuguesas foram admitidas. Não por acaso, foi o primeiro realizado após o 25 de abril. Para quem não saiba - e para especial benefício de quantos por aí louvam ainda a bondade de hábitos da ditadura -, convém deixar claro que, até essa data, as senhoras não eram admitidas na diplomacia. Ou melhor, algumas senhoras andavam pelo MNE e pelos postos no exterior, mas apenas em lugares de secretárias, dactilógrafas, funcionárias administrativas e, em muitos escassos casos, como técnicas. Foi nesse concurso de 1975, de cujo júri fazia parte um jovem professor de Económicas chamado Aníbal Cavaco Silva, que foram admitidas as primeiras diplomatas mulheres, graças a uma anterior mudança no regulamento de admissão, da responsabilidade do ministro dos Negócios Estrangeiros Mário Soares.

Várias diplomatas assumem hoje importantes funções dentro do MNE ou em postos no exterior, nomeadamente em chefia de Embaixadas. Impõe-se que, no futuro, isso aconteça cada vez mais, porque se torna importante que a carreira diplomática portuguesa seja um espelho verdadeiro da própria sociedade portuguesa.

domingo, 20 de junho de 2010

Os sapatos

Seria possível? Seria a mesma loja? Erick olhava deliciado para o pequeno espaço que acomodava o sapateiro, naquela estreita rua da cidade perdida na Bretanha de onde saíra, à pressa, numa tarde de 1939, quando os alemães, que já haviam ocupado a sua Bélgica natal, avançavam pela França dentro.

Erick era então professor na cidade bretã. As suas origens judaicas haviam-lhe recomendado que procurasse sair de França, tão rapidamente quanto possível. Procurou a fronteira espanhola e, com a ajuda de amigos, conseguiu, algumas semanas mais tarde, chegar aos Estados Unidos. Por aí ficou a viver. Só no final dos anos 50 decidira voltar à Europa, à sua Antuérpia, já como turista. A curiosidade e a memória levou-o também a revisitar aquela pequena terreola da Bretanha, que ficara para sempre ligada a um momento complexo da sua vida.

Agora, perante essa pequena loja do sapateiro, uma recordação, que o acompanhara todos esses anos, mostrava-se bem viva: deixara aí uns sapatos para consertar e, na pressa da fuga, nunca os levantara. Quase vinte anos passados, uma imensa curiosidade fê-lo entrar.

A cara do velhote que o olhou, do fundo da loja, não lhe dizia nada. Mas não resistiu a perguntar se, por acaso, já estava por lá há duas décadas. O homem confirmou: era dono da loja desde sempre. Erick contou então a história dos sapatos que deixara para compor e que nunca tivera ensejo de levantar. O sapateiro olhava-o, com uma curiosidade que, contudo, não acompanhava a emoção de Erick. Não se recordava do episódio, naturalmente. Mas, a certo ponto, inquiriu: "que tipo de sapatos eram?". Erick lembrava-se, porque essa imagem ficara-lhe para sempre: "Eram castanhos, com um desenho levemente ondulado na zona lateral".

Abriu os olhos de espanto quando viu o sapateiro, sem uma palavra, dirigir-se para uma arrecadação interior, de onde saíram então uns ruídos de caixas a serem movidas. Até que a voz do sapateiro, lá de dentro, inquiriu: "Eram de cordões ou de pala?". "De cordões", respondeu Erick, cada vez mais perplexo com o jogo que se desenhava. E o sapateiro, ainda de dentro da arrecadação, voltou a perguntar: "Era uma sola descosida no sapato do pé direito?".

Erick não queria crer no que ouvia. Era isso mesmo! O homem descobrira os seus sapatos! Mas, rapidamente, uma núvem de desilusão lhe passou pelo olhar quando viu o sapateiro sair da arrecadação, sem nada nas mãos. O homem olhou-o com um rosto neutro, profissional, e esclareceu: "Estão prontos amanhã. Pode vir buscá-los da parte da tarde".

Não garanto, claro, a veracidade desta história. Contou-ma o meu velho amigo Frederico Amaral Neves, mais ou menos assim, ontem, ao final da noite, na pastelaria Gomes quase deserta, numa Vila Real em tempo de corridas de automóveis. Achei que merecia um lugar neste blogue.

sábado, 19 de junho de 2010

Diplomacia em livro

Durante algumas semanas, o mundo diplomático parisiense andou agitado com o anúncio da iminente publicação de um livro, escrito por um jornalista, que prometia pôr a nu os bastidores da diplomacia francesa. Porque tenho por vício antigo ler tudo quanto posso sobre a profissão que escolhi, e porque devo também confessar que não sou imune às fragilidades da curiosidade, comprei o volume e, em duas noites, esgotei as suas 394 páginas. E não gostei.

A obra é um potpourri mal escrito, feito de coisas requentadas, de histórias já conhecidas na imprensa, além de um repositório de pequenos ódios de chancelaria, cheio de insinuações e meias-verdades, de tradicionais vingançazinhas de corredor. Escrito "aos solavancos" e desenhado à medida de memórias individuais não inocentes, que têm atrás de si agendas pessoais evidentes e ódios a destilar, este livro acaba por ser "a montanha a parir um rato".

No género, com muito mais graça e muito melhor escrita, volto a recomendar o clássico "Les Ambassades", de Roger Peyrefitte, ou, mesmo, o seu menos interessante "La Fin des Ambassades". E, para quem se quiser rir de forma inteligente com a caricatura da nossa corporação, recomendo sempre o "Esprit de Corps: Sketches from diplomatic life", de Lawrence Durrell. E, mais recente, as divertidas memórias do embaixador brasileiro Guilherme Leite Ribeiro, "Os Bastidores da Diplomacia - o Bife de Zinco e Outras Histórias".

A diplomacia, há que dizê-lo, aparece sempre ligada a um certo glamour, produto de um modelo de outros tempos, que está bem longe de corresponder à sua bem mais comezinha realidade atual. Mas para quem ainda acha graça a cocktails e consegue descortinar um qualquer encanto em jantares formais, o nosso mundo deve parecer um paraíso.

Porque a vida dos diplomatas continua muito presa a esse imaginário, acabando muitas vezes por ser mitificada, ela continua a suscitar um certo voyeurisme, nomeadamente no registo social. que lhe está associado. Confronta-se ainda com uma cultura de despeito que lhe é frequentemente adversa, a qual afeta até alguns políticos - fiquem os leitores deste blogue a saber. Talvez por isso, esta espécie de "exílio" dito dourado é, muitas vezes, vista também com algum ressentimento por algumas outras categorias profissionais. Qualquer pecadilho cometido por um diplomata, por menor que ele seja, cai "como sopa no mel" de um certo jornalismo de escândalo, que desconheceria o facto se acaso tivesse sido praticado por um qualquer técnico de uma direção-geral de outro ministério. Ah! e para esse "jornalismo", o conceito de diplomata é sempre muito extensivo: vai de um profissional de carreira a um funcionário administrativo de chancelaria, passando, naturalmente, por esse mundo muito diverso que são os cônsules honorários.

Ao ler este livro sobre os meus colegas do Quai d'Orsay, onde identifico alguns amigos e conheço ou ouvi falar em muitos outros protagonistas, dou-me conta que, medidas as dimensões diferentes das  nossas carreiras, uma análise similar também poderia ser elaborada sobre os corredores das Necessidades. Valeria a pena? Duvido muito. Não somos muito diferentes. Todas as carreiras diplomáticas têm os seus bons e maus exemplos - no comportamento dos chefes, na vida privada dos funcionários, nos desregulamentos administrativos, etc. São mundos onde se refletem os efeitos do isolamento, das distâncias, dos problemas familiares, das inconstâncias de vida e outras especificidades próprias da profissão.

Correndo o risco de estar a trair um dever de casta, de poder contra mim suscitar uma omertà sem remissão, vou revelar-lhes um imenso segredo: somos exatamente iguais às outras pessoas...   

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010)

O segundo prémio Nobel português (o cientista Egas Moniz recebeu, "a meias", um Nobel da Medicina, em 1949), ontem falecido, foi sempre um homem polémico. Por razões políticas, muitos não o apreciavam e alguns terão tido motivos pessoais para tal. Na literatura, algumas das suas ousadias estilísticas nunca foram bem aceites em certos meios. No plano pessoal, atitudes suas chocavam algumas pessoas e não ajudaram a consensualizar a sua imagem. Nunca se preocupou muito com isso. Por essa razão, o coro de loas que, na hora da sua morte surge por aí, cheira a muita hipocrisia.

Tive o ensejo pessoal de me cruzar com José Saramago, em diversas circunstâncias e em vários lugares do mundo. Tinha com ele uma relação pessoal de simpatia, extensiva a sua mulher, Pilar del Rio. Com ambos tinha combinado, ainda em 2008, no Rio de Janeiro, o projeto de o levar a Paris, para uma "Marathon de la lecture", ideia que a fragilidade da sua saúde não permitiu concretizar.

Faço parte de quantos gostam muito de algumas das obras de Saramago e, mesmo não gostando tanto de outras, o têm por um dos raros génios da nossa literatura. Alguns dão-se ao luxo lusitano de não concordar com isso, no que estão no seu pleníssimo direito. A esses, porém, convém lembrar que a sua opinião é indiferente ao mundo, que consagrou já José Saramago como um dos nomes portugueses mais prestigiados de sempre.

Gaullismo

A França com memória celebra, na data de hoje, o apelo feito há 70 anos, pela rádio, de Londres, pelo general de Gaulle, que consagrou o reerguer do seu país sob ocupação estrangeira.

Charles de Gaulle permanece uma figura política polémica, sem que isso signifique que não seja, a todos os títulos, uma figura maior da história francesa. A sua linha de ação política, de que alguns se reivindicam e de que outros se distanciam, continua a ser objeto de análise. As grandes orientações da sua política externa são regularmente evocadas e postas a par das opções contemporâneas que se abrem à França no campo internacional. No ano em que se celebram os 50 anos das independências africanas, o general é lembrado pelas decisões então tomadas nesse âmbito e pelo quadro da "françafrique" que geriu. Algumas das suas opções em matéria de política económica são hoje olhadas com curiosidade, à luz do intervencionismo que os últimos tempos acabaram por ditar. O carater espartano da sua vida e da sua postura é, frequentemente, constrastado com o dos seus sucessores no cargo.

Gostem ou não os franceses do general de Gaulle como líder político e partidário, o que parece incontestável é que, no seu apelo de há 70 anos, ele soube representar o mais profundo do sentimento da França como país. E essa memória permanecerá sempre como a marca mais prestigiante da sua imagem.

A nova ordem europeia

Confesso que não impressionam muito algumas reações de cariz nacionalista que contestam os modelos de coordenação das políticas orçamentais que ontem foram desenhados em Bruxelas. Não se pode ter "sol na eira e chuva no nabal", isto é, reivindicar o "chapéu" de proteção europeia quando as coisas correm mal e, ao mesmo tempo, pretender ter as mãos nacionais completamente livres para o desenho de decisões em matéria de agravamento do défice público, para satisfazer nichos de mercado eleitoral interno.

Não ignoro que o caminho que a presente crise obrigou a seguir comporta, em si mesmo, alguns riscos em matéria de legitimidade política, à escala nacional. Mais cedo do que alguns gostariam, a questão do conflito de competências entre as instituições políticas dos Estados e as estruturas (noto que não escrevo "instituições") europeias vai colocar-se, com grande acuidade. O assunto pode estar a ser menos sublinhado neste período em que todos estão ainda um tanto aturdidos pela crise, no qual as lideranças europeias demonstram que não conseguem mais do que ser reativas face aos mercados, mas estou convicto de que acabará por ser objeto de uma análise mais fria e mais fina, dentro em breve.

Porém, devo dizer que o que mais me preocupa, em todo o cenário que atualmente se vive, é que toda esta aparente "federalização" da gestão financeira europeia começa a assentar, já não nas instituições regulares, mas apenas nos arranjos, um tanto "ad hoc", impostos pela Alemanha e aceites pelos restantes parceiros como inevitáveis, cujo controlo democrático, a nível europeu, é hoje mais do que discutível. Haveria outra solução? Provavelmente não, mas isso não significa que não devamos pensar o problema, porque a democracia não é um conceito instrumental, mas sim uma condição "sine qua non" para a aceitação das soluções pelas pessoas. De certo modo, estamos, nestes dias, a assistir, no seio da Europa comunitária, a uma reprodução do novo modelo G20 à escala global, com a subalterinzação das instituições multilaterais regulares e a fixação de regras casuísticas ditadas pelos "powers that be".

Alguns, talvez com um realismo à flor da consciência, poderão, um tanto cinicamente, ser de opinião de que, se acaso as instituições decorrentes do Tratado de Lisboa fossem aplicadas em pleno como eixo de gestão das medidas para fazer face a esta crise, o resultado acabaria por não ser muito diferente. Para esses observadores, os desequilíbrios demográficos aceites e projetados por esse  tratado no processo decisório europeu, bem como a "subversão" interinstitucional que decorre do acordo que leva o nome da nossa capital, já haviam criado um dulcificado modelo de "diretório". Não sei se esses "realistas" têm ou não razão, apenas é evidente que já nem esses mecanismos são aplicados... A Europa está perigosa.

(Este texto foi publicado no jornal "Público" em 19.6.10)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Mário Ruivo

Foi o meu primeiro ministro dos Negócios Estrangeiros - dos 19 que já tive (é verdade!). Encontrámo-nos, há dias, por acaso, numa esplanada de Paris. Durante bem mais de uma hora apreciei, deliciado, o entusiasmo que coloca em tudo quanto continua a fazer e as memórias riquíssimas que conserva, de quem atravessou tempos decisivos para Portugal.

O professor Mário Ruivo é, de há muito, a alma por detrás do esforço de tratar os oceanos como uma das nossas mais preciosas riquezas. Em todos os tempos políticos e nas várias e (infelizmente) diferentes vagas de interesse, entre nós, sobre essa temática em que é um reputado especialista internacional, vimo-lo sempre como uma figura indiscutida e indiscutível, cujo prestígio ecoa por toda a parte, com grande benefício para Portugal.

Nessa bela noite de conversa, para além dos oceanos, falou-me de um mar de coisas, desde os seus alvores na política até à sua aventura governativa, dos tempos de Itália e do seu cruzamento com inúmeras figuras que por lá passaram, em momentos difíceis. Mário Ruivo é uma personalidade positiva, com uma dose de compreensão e de entendimento dos outros que traduz a delicadeza de uma grande senhor.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O sorriso

O ambiente era descontraído, a conversa ia mole, entre homens, com tudo o que isso significa de libertação da linguagem, por vezes a níveis vocabulares que o bom gosto desaconselharia. Esse era, contudo, o preço para garantir uma conversa fácil, entre amigos e amigos de amigos, alguns quase desconhecidos, ligados apenas pela vontade de um hora de convívio, nesse ambiente com sonoridades diversas de língua portuguesa. Da matriz imperativa dessa conversa faziam parte, claro, as mulheres.

O nosso diplomata, já há muito em posto, era uma figura bem conhecida dos meios sociais locais, havia-se cruzado, em todo o largo tempo que levava de vida na cidade, com tudo quanto "era gente", conhecia as figuras e as historietas que a cada uma estavam associadas. Como dizem os anglo-saxónicos, o nosso homem "went native", o que significa, muitas vezes, o risco acelerado de propensão para a asneira. Acontece a todos, podem crer...

Naquele fim de tarde, entre cerveja e whisky, a conversa derivou para uma determinada senhora, um figura pública localmente bastante conhecida, embora não pelos respetivos atributos estéticos, cuja ausência, aliás, contrastava com o seu conhecido proselitismo sentimental.

A certo momento da conversa, o nosso homem baixou a guarda da prudência social e lançou para a mesa: "É horrorosa! É uma das mulheres mais feias do mundo! Não entendo como tem tanto sucesso entre os homens". Parte dos circunstantes, apanhada a boleia da má-língua, logo adiantou comentários similares, alguns a roçar o mau gosto, espraiando-se pelos êxitos afetivos da senhora.

Até que, do fundo de um sofá, se ouviu a voz de um comparsa só conhecido de alguns, que até então se tinha mantido pouco loquaz: "Podem achá-la uma mulher feia, mas devem reconhecer que tem um sorriso muito bonito. Aliás, essa foi uma das razões que me levou a casar com ela".

Não valerá a pena tentar descrever a mudança no ambiente, depois desta frase de quem, sendo embora divorciado há muito da senhora em causa, havia feito questão, com apreciável garbo, de vir a terreiro defender a respetiva honra. O ambiente tornou-se irrespirável.

Gabriel Abrantes

Chama-se Gabriel Abrantes, é português, nasceu nos EUA em 1984. Está incluído na exposição coletiva «Dynasty», no Palais de Tokyo e no Musée d'Art Moderne, aqui em Paris. Estudou na École National des Beaux-Arts e é co-realizador de dois filmes de vanguarda, embora a sua obra se espalhe por várias outras dimensões artísticas.

Quem já viu os filmes em exibição em Paris diz-me muito bem desse trabalho. Um destes dias, vou passar pela exposição, que estará aberta até 5 de Setembro. 

terça-feira, 15 de junho de 2010

Osh

Quando Francisco José Viegas, em 1998, no seu romance "Um crime na Exposição", associou o Quirguistão (ou Quirguízia) ao tema da morte, estava, com certeza, muito longe de pensar nas inúmeras vítimas resultantes da guerra civil que agora devasta aquele pobre país da Ásia Central.

A geografia estratégica desenhada na região por José Estaline comporta algumas verdadeiras perfídias de separação étnica, com bolsas de isolamento em países vizinhos que são verdadeiras bombas ao retardador e que configuram hoje a triste herança que a defunta União Soviética deixou na Ásia Central. Há hoje dois "países" no Quirguistão e a zona de Osh, ao sul, não por acaso aquela onde se refugiou o ex-presidente Bakiev, quando há semanas foi afastado do poder no norte, em Bishkek, mantém um conhecido potencial de turbulência entre os quirguizes e os uzbeques. Osh está praticamente na fronteira entre o Quirguistão e o Uzbequistão, em cujo vale de Fergana tiveram já lugar, há anos, incidentes étnicos e religiosos da maior gravidade. A possibilidade de uma conflito entre os dois Estados ou uma tentativa secessionista não estão excluídos.

Há uns anos, andei em trabalho por essas zonas e hoje pergunto-me o que será feito das pessoas que, com grande dedicação, animavam a "clínica legal" criada em Osh, onde assisti a um magnífico esforço de popularização da justiça e do direito, numa iniciativa da comunidade internacional em que tanta esperança se colocava. E, com alguma nostalgia, também me interrogo sobre o destino do belo "bazar" da cidade (na foto), que, por mo terem descrito como um dos mais animados da Ásia Central, insisti em visitar. Da alegria natural daquela população simples, que a "descolonização" apressada de Moscovo deixou nas mãos dos ex-aparatchiks convertidos em novos líderes "democráticos", deve hoje restar muito pouco, depois das quase duas centenas de mortos que se espalham pela cidade.

"Horizons Lointains"

O debate acabou por ser um pouco mais tenso do que eu estava à espera - confesso! -, mas o visionamento do filme sobre Lisboa e a literatura portuguesa, incluído no ciclo "Horizonts Lointains", da cadeia televisiva franco-alemã Arte, baseado numa ideia dos irmãos Patrick e Olivier Poivre d'Arvor (na imagem), animou fortemente, ontem à noite, os salões da Embaixada.

O filme, de cerca de uma hora, constituiu uma visita guiada aos nossos mitos e sonhos, em conversas excelentemente conduzidas por Patrick Poivre d'Arvor com figuras da nossa cultura. Nelas se destaca uma entrevista muito interessante com António Lobo Antunes.

O filme tem a grande virtualidade de "abrir o apetite" para Lisboa e as suas novas escritas, para o Portugal cultural em rápida mutação. O público franco-alemão terá oportunidade de nos olhar um pouco para além do habitual registo de fixação na História e no cultivo de uma endémica nostalgia.

O aberto contraditório sobre o modo de representar filmicamente Portugal, no equilíbrio instável entre a tradição e a contemporaneidade, atravessou o animado debate que se seguiu ao filme, o qual mobilizou o interesse das mais de 100 pessoas presentes. No final, diga-se, fiquei com a sensação de que ninguém se importou em mergulhar em conhecidos "clichés" lusos: vinho do Porto, queijo da serra e pasteis de nata... 

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Telecomunicações

É encorajante encontrar, numa exposição internacional em França, uma empresa portuguesa de alta tecnologia, com uma importante experiência no domínio das comunicações, da eletrónica e sistemas informáticos.

Foi a experiência que tive esta manhã, no salão militar Eurosatory, ao visitar o stand da EID - Empresa da Investigação e Desenvolvimento de Eletrónica, que vende hoje para países como o Reino Unido, a Holanda, a Espanha e a Dinamarca, entre outros.

Felizmente, há por aí um Portugal desconhecido que (já não) espera por nós.

domingo, 13 de junho de 2010

Os nossos vuvuzelas

Qual é a semelhança entre os vuvuzelas e alguns profissionais do lusopessimismo?

Plantam-se por todo o lado, criam um ruído permanente, já estamos todos fartos de os ouvir, cada um tenta ser mais escutado que o outro, não se pode mandá-los calar porque é politicamente incorreto, desconcentram-nos do essencial mas, no final de contas, acabam por não ter qualquer influência no resultado.

Vieira da Silva e Paula Rego

Hoje, Maria Helena Vieira da Silva, a pintora portuguesa que a ditadura portuguesa conduziu a tornar-se francesa, faria 102 anos. A França esquece-a como portuguesa e dá-lhe naturais honras de cidadania artística.

Ontem, Paula Rego recebeu da rainha Isabel II uma importante condecoração do país que a adotou - "Portuguese born british painter", era assim que me recordo de a ver irritantemente sintetizada numa biografia britânica.

Não deixa de ser irónico, mas também significativo, que as duas mais famosas pintoras portuguesas se tenham acolhido a países estrangeiros. Mas também não deixa de ser reconfortante que seja em Portugal que, nos dias de hoje, existam os únicos museus dedicados à sua obra.

Festas

Ontem, um concurso de poesia portuguesa em Neuilly, presença num "rally-paper" de uma associação de jovens portugueses, uma missa com centenas de portugueses na catedral de Notre-Dame de Paris e, ao fim da noite, uma deslocação a Les Ulis, nos arredores de Paris, onde teve lugar um excelente espetáculo promovido por uma estrutura associativa. Hoje, foi o dia da grande festa da Rádio Alfa (foto de 2009).

Ser embaixador de Portugal em França é, neste período do ano, um permanente desafio à ubiquidade. Mas quem corre por gosto não cansa (muito), podem crer.

sábado, 12 de junho de 2010

Europa

Uma intensa agenda de compromissos com a Comunidade portuguesa em França, durante estes dias, impediu-me de aceitar um convite para estar hoje nos Jerónimos, na comemoração dos 25 anos de assinatura do Tratado de Adesão de Portugal às então Comunidades Europeias.

Tive o privilégio profissional de integrar, meses depois dessa data, a primeira equipa que, em Lisboa, passou a coordenar as relações com Bruxelas. A Europa ocupou, desde então,  uma parte importante da minha vida. Dez anos depois da adesão, couberam-me responsabilidades diferentes nessa mesma área, desta feita de natureza política, por um período de mais de cinco anos. Sobre a Europa escrevi e palestrei muito.

Ao fim deste tempo, de tudo o que se passou desde então, às vezes dou comigo a pensar se ainda acredito no futuro do projeto europeu. Quero acreditar, até porque ele é do interesse objetivo de Portugal. Mas cada vez mais me interrogo se, num ambiente político que é bem diferente dos anos de entusiasmo que já se viveram, as coisas irão evoluir no melhor sentido. De uma coisa tenho absoluta certeza: alguns dos países que, desde o início, estiveram no centro do processo integrador europeu vão acabar por arrepender-se da sua recente deriva para a intergovernamentalidade. Resta esperar que ela não acabe por ser trágica para todos os restantes.

No que a Portugal toca, neste dia, um mínimo de justiça obriga a que lembremos a figura histórica que, no momento certo, soube conduzir-nos pelos caminhos da Europa: Mário Soares. 

Sejamos otimistas e ouçamos hoje o meu velho amigo Fausto a cantar o seu "Europa, querida Europa".

1966

Este post é só para quem gosta muito de futebol. E, principalmente, para quem já o acompanha há muito.

É que o início deste Mundial 2010 traz-me, inevitavelmente, a memória da primeira vez em que Portugal chegou a uma fase final. Estávamos em 1966. Não ganhámos - nunca ganhámos! - mas perpassou então pelo país um sonho de vitória, desfeito nas célebres lágrimas de Eusébio, gravadas no preto e branco de uma foto de Nuno Ferrari que correu mundo. Era selecionador Manuel da Luz Afonso e treinador Otto Glória - de há muito que as duas funções passaram a ser exercidas, em toda a parte, por uma mesma pessoa.

Vale a pena recordar estes magníficos "magriços" (nome inventado por "A Bola"). A fotografia é da equipa que disputou e ganhou o segundo jogo, contra a Bulgária (3-0).

De pé, temos a barba serena e alcantarense de Germano, que só assegurou o centro da nossa defesa neste jogo, lugar que seria ocupado pelo sportinguista Alexandre Baptista. Depois, Jaime Graça, então do Vitória de Setúbal, que o Benfica recrutaria em breve e que garantiu sempre a direita do meio-campo, embora com um posicionamento bastante livre nesse setor. A seguir está Festas, um lateral direito do FC do Porto, que viria a dividir o lugar com o sportinguista Morais, há pouco falecido, como aqui se notou. Segue-se o insubstituível Hilário, um permanente "gigante" leão na esquerda da defesa. Depois, o subtil Vicente, do Belenenses, irmão do mítico Matateu, que também garantia o centro da defesa, descaído para a esquerda, que viria a ser substituído, por lesão, nos dois últimos jogos, por José Carlos, também do Sporting, na então chamada posição de "quarto defesa" (para sublinhar a função de apoio ao meio-campo). Finalmente, o guarda-redes do Belenenses, José Pereira, que fez a maioria dos jogos, se descontarmos o primeiro, contra a Hungria, em que Carvalho, do Sporting, esteve na baliza.

À frente, claro, a mítica e indiscutível linha avançada do Benfica: José Augusto, Torres, Eusébio, Coluna e Simões. Como Portugal jogava em 4x2x4, Jaime Graça (na direita) e Coluna (na esquerda) garantiam o "2" do meio campo, para onde Eusébio às vezes recuava, setor que, igualmente, era também apoiado pela subidas de Hilário e/ou Morais (menos por Festas, que sempre jogou mais recuado), o que criava episódicos 4x3x3. Em permanência, apenas Torres estava na zona frontal de área, com os extremos "colados à linha", Simões e José Augusto, embora este sempre um pouco mais "livre" e incursivo no meio campo.

De quantos foram ao Mundial de 1966, não jogaram então o guarda-redes do Porto, Américo, três atacantes do Sporting - o extremo-esquerdo Peres e os avançados-centro Figueiredo (o "Altafini de Cernache") e Lourenço, a quem vi marcar numa tarde, um ano antes, quatro golos ao Benfica, na Luz -, o defesa esquerdo benfiquista Cruz (que tive o gosto de conhecer nos Estados Unidos, em 2002) e os avançados Duarte, do Leixões, e Custódio Pinto, do FC do Porto. Olhando em retrospetiva, as opções de Manuel da Luz Afonso, quanto a deixar estes jogadores no "banco", foram corretas.

Deixo os resultados: começámos por ganhar à Hungria 3-1; depois, como referido. ganhámos 3-0 à Bulgária; de seguida, 3-1 ao Brasil de Pelé. Nos quartos de final, ganhámos à Coreia do Norte por 5-3, depois de estarmos a perder por 3-0. Nas meias finais, perdemos 2-1 com a Inglaterra e, finalmente, na disputa do (inexistente) 3º lugar, derrotámos a Rússia por 2-1. Com quatro vitórias sobre "países comunistas", não admira que a governação salazarista tivesse condecorado tão generosamente os "magriços"...

Foi um belo Mundial!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Amália

Neste que terá sido o primeiro dia de verdadeira primavera em Paris,  com um sol que quase rivaliza com a imbatível luz de Lisboa, acredito que Amália teria ficado contente com a homenagem que lhe foi prestada na capital francesa.

Os líderes municipais das duas cidades, António Costa e Bertrand Delanoe, inauguraram a promenade Amália Rodrigues, um espaço de memória a alguém que, desde há muito, marca o imaginário português em França. O meu antecessor, embaixador António Monteiro, teve muito a ver com a ideia desta homenagem e, porque aparentemente  ninguém o fez, lembro-o eu, aqui e agora.

Como há pouco notou Rui Vieira Nery, numa magnífica palestra sobre a história do fado na "Mairie" de Paris, Amália veio aqui cantar, pela primeira vez, em 1956, num espetáculo em que era uma figura secundária, já no Olimpya, de Bruno Coquatrix. Desde então, Paris rendeu-se-lhe e a cantora passou a ser, em França, um sinónimo de Portugal. Com a vaga migratória iniciada nos anos 60, Amália Rodrigues transformou-se, simultaneamente, no símbolo afetivo da nostalgia de quem por aqui construía, no sofrimento e na audácia, as bases de um seu futuro melhor.

Desde então, o fado anda imenso por França, agora também com outras vozes, como as de Camané ou de Mísia, que hoje acompanharam António Costa a esta que foi a primeira jornada para o futuro lançamento da canção nacional à categoria de "património imaterial da humanidade", no âmbito da UNESCO.

Achei que este post não poderia terminar sem música. Quem quiser, ouça Amália aqui.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Estátua de Camões

Luis Vaz de Camões, cujo aniversário da morte ontem se assinalou, teve um busto seu, em bronze, inaugurado em Paris, em 1912. Ao que consta, a vizinhança não terá apreciado a obra e, num "golpe de mão" noturno, fê-lo desaparecer, menos de um ano depois. Depois de um acidentado percurso, o tal busto acabou, felizmente, na posse da Fundação Calouste Gulbenkian.

Anos mais tarde, em 1924, uma nova estátua - que se vê na imagem - foi instalada ao fundo da escadaria em que a avenue Camoens se cruza com o boulevard Delessert, a dois passos do Trocadéro.

Ontem, numa simples cerimónia evocativa, apenas acompanhado por funcionários da Embaixada, coloquei lá uma coroa floral, com as cores da nossa bandeira. Notei, com agrado,que alguém já tinha tido o cuidado de deixar um ramo de flores ao nosso poeta.

104

Chama-se José Manuel Gonçalves e é, a partir de agora, o diretor do espaço cultural multifuncional "104", criado pela "Mairie" de Paris perto da Porte de La Chapelle, uma audaciosa vitalização das antigas "Pompes Funèbres" da cidade de Paris.

Neste dia que também é das Comunidades Potuguesas, é muito agradável registar esta nomeação que muito dignifica as suas origens.

"Le Monde"

O Irão, o Brasil e a Turquia

1. Alguma coisa está ainda mal explicada no modo como foi lançada a iniciativa que o Brasil e a Turquia tentaram, com vista a desenhar um acordo que permitisse travar as sanções ontem decididas pelo Conselho de Segurança contra o Irão. É difícil acreditar que, em particular no caso do Brasil, que tem a preservar a preciosa credibilidade que tem vindo a criar perante países de quem, em absoluto, depende a sua possível ascensão a membro permanente daquele Conselho, não tenha recebido sinais que hajam sido interpretados como uma "luz verde" para essa iniciativa.

2. De qualquer forma, o facto de, no seio do Conselho de Segurança, os cinco membros permanentes (China, EUA, França, Reino Unido e Rússia) terem obtido um acordo entre si numa questão desta importância para a segurança internacional é, manifestamente, uma muito boa notícia. O cruzamento e a frequente conflitualidade de interesses, económicos e geopolíticos, entre as principais potências raramente proporciona momentos de entendimento desta natureza. O que agora se passou, conjugado com o razoável resultado da recente Conferência de Revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, é um sinal de esperança para a paz e segurança globais. E é, simultaneamente, uma importante vitória para a política externa do presidente Obama, cujo paciente e construtivo diálogo com Moscovo e Pequim está na base deste resultado. 

3. Menos boa é a constatação, que ontem chegou de Washington mas que o bom senso há muito impunha, de que a evolução recente da posição da Turquia configura uma deslocação do seu padrão de interesses à escala global, que vem alterar uma realidade de décadas. Para os EUA, que, sem surpresas, também incluem neste prato da balança a mudança de atitude turca face a Israel, são as reticências que Ancara constata face às suas pretensões de entrada na União Europeia que estarão na base deste comportamento. Pode ser apenas uma parte da verdade, mas não há dúvida que esse posicionamento da Europa continua a ser um erro estratégico grave. Como Portugal, desde há vários anos, sempre assinalou.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Dia de Camões

Quantos, dentre as muitas centenas de convidados que hoje encherão os salões desta nossa Embaixada em Paris, por ocasião do dia nacional português, saberão que a data corresponde àquela que a História assinala como sendo a da morte do poeta que, mais do que ninguém, nos simboliza?

Quantos saberão que, a partir do ano em que essa morte ocorreu, Portugal passaria, por seis imensas décadas, a ver a sua vida tutelada por um rei vindo de fora? E que soube sair dessa situação, com dignidade e coragem?

Poucos se lembrarão dessas duas circunstâncias, sendo verdade que as receções comemorativas não são, seguramente, os locais mais convenientes para convocar temas de solenidade histórica. Mas talvez fosse útil, em especial em tempos que mobilizam algum pessimismo, que aos portugueses fosse lembrado que, desde há cerca de 900 anos, eles constituem uma entidade nacional própria e autónoma, com fronteiras que praticamente permaneceram idênticas desde então. Que lhes fosse dito que, no passado, muitas crises chegaram e de todas elas soubémos sair. Que passámos por períodos de ferozes lutas internas e de resistência a invasões e agressões externas. Que tivemos bons dirigentes e outros a que a História nos podia ter poupado. Que cometemos barbaridades e que fizémos coisas magníficas. Que criámos um imenso império e que, ao fim de alguns séculos, regressámos, pela ordem natural da História, à origem geográfica desta bela aventura que continua a chamar-se Portugal. E que aqui estamos, reconciliados com o mundo e com tudo o que fomos e somos, para continuar esse mesmo caminho.

Quando alguns portugueses contemporâneos por aí andam, com ar de patética gravidade, a espalhar o desânimo e o derrotismo, apetece-me lembrar-lhes que, por muito importantes que se considerem, por muito que se queiram arvorar em vedetas incontornáveis de mais um ciclo de culto da finis patriae, eles são apenas a triste decantação masoquista da sua própria impotência e mediocridade. E que este país vai continuar, malgré eux.  

terça-feira, 8 de junho de 2010

Filosofia portuguesa

Com esta bela foto de Helena Almeida na capa (que, estou certo, vai fazer as delícias do Criativemo-nos), foi ontem apresentado, ao fim da tarde, no Centro Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian, aqui em Paris, o nº 68 da revista Rue Descartes, dedicada ao tema "Philosopher au Portugal aujourd'hui".

Os cultores dessa escola de autoflagelação que hoje domina o sentimento comum português - uma linha teórica que poderíamos apelidar de "comentar e lamentar" - dirão que o título deste volume é um contrasenso. Deixemo-los a falar sozinhos, nos seus blogues e nas suas colunas de padecimento biliar.

Para o que nos interessa, este número do Rue Descartes é um retrato sobre o pensamento filosófico contemporâneo em Portugal. Foi um gosto ouvir falar especialistas franceses e portugueses, em hora e meia de interessante reflexão e escalpelização dos textos, sob a condução de Maria Filomena Molder, sobre alguns dos percursos da nossa filosofia. O texto de Fernando Gil que sobressai nesta publicação - "O hospital e a lei moral" - serviu de eixo para uma análise fascinante de Jean Petitot.

E, já agora, para os visitantes de Paris recomendo, até Outubro, a magnífica exposição de pintura inglesa dos anos 60 que enche as salas do edifício da Gulbenkian na avenue d'Iéna - "Ainsi font les rêveurs/As dreamers do". Verão que não se arrependem. 

"Crisófilos"

O meu colega e amigo Alexander Ellis, que representa o Reino Unido em Portugal, e que partilha com todos nós a utilização da língua portuguesa e com todos os sportinguistas o sentimento da amargura ("Things can only get better"), deu uma curiosa entrevista ao jornal "i" em que qualifica os portugueses de "crisófilos", considerando Portugal "um país viciado na crise".

Vale a pena lê-lo aqui.

O véu

Laurence Ferrari é a imagem de serenidade que, de segunda a sexta-feira, apresenta o telejornal de TF1. "Utilizo-a" para sossegar o espírito, preparando-me assim, cerca de uma hora antes, para o trauma diário do "pacote" de acidentes, crimes & desgraças correlativas, do continente e ilhas, que os nossos jornais televisivos nos irão servir logo de seguida.

A jornalista francesa, cuja delicadeza pessoal verifico ser compatível com um jornalismo rigoroso e acutilante, mas isento de histeria e agressividade medíocre, foi objeto de vários comentários  na imprensa, por ontem ter sido vista a entrevistar o presidente iraniano, usando na cabeça um véu que cobria os seus cabelos loiros. Nada que, como já vi no passado, seja incomum a prestações similares, por parte de colegas suas, em idênticas situações. 

Porém, como a questão do uso de vestuário feminino em ambientes islâmicos (convém notar, para alguns menos atentos, que os iranianos são islâmicos mas não são árabes) está aqui muito presente em França, o tema não deixou de ser especulado por alguns comentadores. Em resposta, Ferrari limitou-se a dizer, e bem: "respeito as regras dos países onde vou". 

Estes são temas polémicos e, nos tempos que correm, acabam por ser dramatizados e às vezes caricaturados. A meu ver, devemos abordá-los com sentido de respeito pelos usos e costumes de cada um, atendendo, em especial, às sensibilidades culturais e religiosas que convocam. Temos o dever de não ser "eurocêntricos" na sua abordagem, embora devamos cuidar em que as nossas próprias formas de estar devam ser objeto de idêntico respeito. Aprendi nesta vida diplomática que o bom-senso, nisto como em tudo, resolve muitos problemas.

A relação com os iranianos levanta uma outra questão protocolar, por vezes desconhecida: os homens iranianos não cumprimentam as senhoras com a mão, porque entendem que, por razões religiosas que não vem ao caso analisar, não devem com elas ter um contacto físico, na esfera social. Assim, para saudar as senhoras que lhes são apresentadas, levam apenas a mão ao peito e fazem uma leve saudação com a cabeça. Já tenho visto muitas senhoras ocidentais, desconhecedoras desta prática, ficarem de mão estendida...

Há cerca de uma década, em Portugal, tive uma experiência curiosa, num pequeno-almoço de trabalho que organizei, num hotel, com uma delegação do Irão, chefiada por um membro do respetivo governo. Fui para esse encontro acompanhado de quatro senhoras, diplomatas e técnicas do MNE, que estavam bem conscientes desse costume. Ao ver-nos entrar, fiquei com a sensação, pela cara dos nossos interlocutores, que a delegação iraniana terá, por alguns instantes, ficado com a impressão de estar a ser vítima de uma provocação, pela quantidade de senhoras que me acompanhava, pouco comum no seu país.  Saudaram-nas ao seu jeito, mas permaneceram estranhamente silenciosos.

Como o ambiente me parecia algo tenso, decidi passar de imediato à mesa. Aí, tudo ficou bem claro: apresentei a minha chefe de gabinete, a diretora do serviço para a política exterior europeia, a responsável pelo departamento que cobria a área do Médio Oriente e a chefe do serviço para as relações económicas internacionais. Todas essas qualificadas funcionárias ali estavam, por direito próprio das funções que exerciam. Os iranianos ter-se-ão assim dado conta, julgo que com alívio, traduzido em alargados sorrisos e na imediata contribuição para um ambiente distendido, que era a lógica do saudável equilíbrio de género, na área diplomática portuguesa, que justificava tão forte presença feminina do nosso lado da mesa. E toda a reunião correu muito bem.

Vinho do Porto

Desde há 14 anos que tem lugar, aqui em França, promovido pelo "Sindicat des Grandes Marques de Porto", com o apoio do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, um prestigiado concurso que agora envolve cerca de 1000 escanções franceses, intitulado "Master of Port". Trata-se de apurar o melhor especialista em Vinho do Porto, um produto para o qual a França é hoje o primeiro mercado internacional - já bem antes do tradicional destino britânico. 

Decidi, este ano, acolher na Embaixada a entrega desse prestigiado prémio, pelo que ontem nela se congregaram, para além dos escanções finalistas, mais de duas centenas de personalidades ligadas à enologia, às revistas da especialidade e a vários outros setores franceses que ajudam a que o Vinho do Porto seja uma das grandes marcas de qualidade do nosso país em França.

Como padrinho da organização, esteve presente o ator de teatro e cinema francês Claude Brasseur, "estrela" da festa, que me falou com saudade de idas antigas a Portugal, que incluíram noitadas de fado em companhia de António Lopes Ribeiro.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Mocidade

A notícia de que algumas escolas vão vestir crianças com fardas da Mocidade Portuguesa é , a meu ver, reveladora de duas coisas.

A primeira é que parece haver, em Portugal, quem não tenha aprendido nada com a História. A segunda, bem pior, é que o facto disto se passar sem um sentimento público de forte rejeição revela um preocupante estado de anemia cívica. 

Só falta que ponham as crianças a fazer a saudação romana/nazi...

Israel e Portugal (2)

Com a ocorrência do 25 de Abril, Israel aproveitou para informar as autoridades portuguesas que "reconhecia" a Junta de Salvação Nacional. Prudente, o nosso MNE registou então, numa nota interna, que Portugal nunca tinha expressamente reconhecido Israel, razão porque o respetivo governo não fora incluído na comunicação geral através da qual dera conta ao mundo do novo regime.

Porque os tempos corriam a favor de um posicionamento prioritário de abertura da diplomacia portuguesa face ao então chamado "Terceiro Mundo", em que os países árabes tinham um papel predominante, e de que decorria naturalmente uma atitude mais pró-palestiniana, o período pós-Revolução não parecia muito favorável a uma aproximação com Tel-Aviv. Melo Antunes, ministro dos Negócios Estrangeiros, assumiu então posições  públicas desfavoráveis aos desígnios israelitas e abriu caminho a que, nas Nações Unidas, num voto que viria a ser considerado muito polémico, o nosso país se ligasse a uma resolução que equiparou o sionismo ao racismo (72 votos a favor, 35 contra e 32 abstenções), afastando-se, neste caso, da posição de vários países ocidentais.

Julgo que se pode considerar que, tendo sido este o gesto anti-israelita mais extremado assumido pela diplomacia portuguesa, ele acabou por criar, paradoxalmente, um ambiente propício a uma viragem na atitude futura de Portugal face a Israel. 

Foi o Partido Socialista quem esteve no centro desta nova atitude portuguesa. Com efeito, estando o Partido Trabalhista no poder em Tel-Aviv, a lógica de apoios dentro da Internacional Socialista acabou por favorecê-lo e Mário Soares veio a mostrar-se crescentemente aberto a favorecer uma maior aceitação de Israel no quadro internacional,  com a contribuição de Portugal. Ao mesmo tempo - e lembremo-nos que estávamos no tempo tenso de 1976 -, esta orientação socialista marcava também, no plano interno, o seu claro afastamento da linha "terceiro-mundista" que o PS considerava ter marcado o consulado diplomático de Melo Antunes. Aliás, o ministro militar teve o cuidado de desenvolver bem o seu ponto de vista no seu discurso de despedida do MNE, largamente citado pela minha colega Manuela Franco, no artigo em cuja factualidade me tenho vindo a apoiar neste e no anterior post e cuja consulta recomendo.

Assim, logo no programa do I Governo constitucional, em 1976, referem-se, embora sem sentido claro de decisão, "as questões do estabelecimento de relações diplomáticas com a China Popular e Israel". Esta clara inflexão fora precedida de visitas partidárias a Israel de Jaime Gama e de Salgado Zenha. Porém, como bem refere Manuela Franco, dentro do MNE essa nova predisposição socialista não apenas não provocou efeitos sensíveis como terá mesmo suscitado algumas surdas resistências. Basicamente, e para o que contava em termos de atitude prática, a política manteve-se a mesma, mesmo sendo já Medeiros Ferreira o novo ministro. 

Embora não disponha, de momento, de datas exatas comigo, recordo que, algures em 1977, uma missão técnico-diplomática que eu integrava, destinada a finalizar um promissor processo de contratação de obras públicas, iniciado no ano anterior, foi sujeita a uma espécie de "quarentena" em Tripoli, na Líbia, durante quase uma semana. Isolados num hotel nos arredores da capital, sem comunicações com o exterior, com os passaportes e bilhetes nas mãos dos nossos anfitriões, verificávamos, com surpresa, uma diferença radical de atitude face à simpatia com que, menos de um ano antes, aí havíamos sido recebidos. Ao final de um período de perplexidade e mesmo de alguma angústia, viémos a ser informados que estávamos a ser "vítimas colaterais" do anúncio da decisão, por parte de Portugal, de que Lisboa e Tel-Aviv iriam estabelecer relações diplomáticas a nível de Embaixada. "For the record", assinale-se que tudo se compôs e os contratos com os líbios acabaram por ser assinados, tendo aberto caminho a uma ininterrupta presença da indústria portuguesa de construção e obras públicas naquele mercado, que ainda se mantém.

A decisão de elevação das relações para o nível de Embaixada (Israel transformaria em Embaixada, logo em 1977, o Consulado-geral que mantinha em Lisboa; Portugal só em 1988 acreditaria o seu embaixador em Roma como não residente; um embaixador residente português em Tel-Aviv apenas se instalou em 1991) poderá ter sido um dos factores de conflito entre Medeiros Ferreira e Mário Soares, com a saída do primeiro de MNE, substituído interinamente pelo segundo. Com esta decisão favorável a Israel, a nossa diplomacia passou então por momentos de grande dificuldade com os países árabes, que chegou a ameaçar os nossos fornecimentos petrolíferos, tanto mais que estávamos em campanha na candidatura a um lugar de membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU. 

No ano seguinte, por insistência do governo de Tel-Aviv, aquela que julgo ser a primeira missão governamental portuguesa visitou Israel. Fui nela integrado e, dessa forma, julgo ter sido o primeiro funcionário diplomático português a deslocar-se oficialmente a Israel (curiosamente, creio que havia sido também o primeiro a ir à Líbia, em 1976, enquanto representante do MNE, se não se contar a deslocação de Manuel Sá Machado, a acompanhar Mário Soares, para coonversas exploratórias, logo em 1974, na qualidade de seu assessor diplomático). Nessa deslocação, no aeroporto de Ben Gurion, em Tel-Aviv, os vários carimbos libios no meu passaporte causaram visível perturbação e atrasaram a nossa entrada. 

Em Portugal, viviam-se os tempos do Governo PS-CDS, sendo Victor Sá Machado, deste último partido, ministro dos Negócios Estrangeiros. Antes da partida da missão, o jovem terceiro secretário de embaixada que eu era foi levado à presença do ministro, acompanhado do chefe de repartição, Queirós de Barros. Foi-me explicado que o ministro da Agricultura, o socialista Luis Saias, que eu acompanharia, tinha uma missão exclusivamente técnica e que estava, em absoluto, fora de causa assumirem-se quaisquer posições políticas, quer com impactos bilaterais, quer relativamente ao conflito do Médio Oriente. Assim se fez, com pormenores curiosos que só o tempo permitirá revelar, não obstante o contraparte do nosso governante, que nos acompanhou grande parte do tempo, o então ministro israelita da Agricultura, se chamar... Ariel Sharon! 

Como atrás se disse, a nossa Embaixada em Tel-Aviv só viria ser aberta em 1991, a tempo de poder acompanhar a nossa segunda presença no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A partir daí, as relações entraram num registo de normalidade, com Portugal a assumir sempre uma posição de grande equilíbrio que, basicamente, tentava conciliar o direito à criação de um Estado palestiniano e a necessidade de preservação de um Estado de Israel com fronteiras reconhecidas.

Em fins de 1995, teve lugar a primeira visita de um chefe de Estado português a Israel. Então já no exercício de funções políticas, acompanhei Mário Soares nessa viagem, em substituição do ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama. Era um tempo de grandes esperanças para o processo de paz no Médio Oriente, posterior aos acordos de Oslo e Washington. Mário Soares era um interlocutor respeitado pelo primeiro-ministro Yitzhak Rabin e pelo MNE Shimon Peres. Nas várias conversas que ambos tivemos com estes responsáveis israelitas, fomos estimulados a ajudar, nomeadamente no âmbito europeu, aos esforços de reconstrução económica que a Autoridade Palestiniana tinha em curso na Cisjordânia e, em especial, em Gaza. Estávamos precisamente com Yasser Arafat, líder da Autoridade Palestiniana, depois de jantar, em Gaza, na noite de 5 de Novembro de 1995, quando nos chegou a notícia do assassinato de Rabin. Com quem tínhamos almoçado.

Nada seria igual, naquela parte do mundo, depois dessa data. O processo de paz ruiu, a unidade palestiniana rompeu-se, Israel evoluiu internamente por caminhos diversos. Como hoje se vê pelas imagens de tragédia que se juntam às notícias que nos chegam.

Com este post termina este bosquejo que fiz sobre as relações entre Israel e Portugal. Admito possa ter erros e aceitá-los-ei de bom grado nos comentários. 

domingo, 6 de junho de 2010

Dário Castro Alves (1927 -2010)

Acabo de saber da morte, em Fortaleza, de Dário Castro Alves.

Antigo embaixador brasileiro em Portugal e, mais tarde, cônsul-geral no Porto, Dário Castro Alves era um grande amigo do nosso país, onde criou forte prestígio e deixou uma marca de profunda ligação à nossa cultura. Autor de extensa bibliografia, tinha um particular fascínio por Eça de Queirós, tendo sido convidado de honra nas comemorações dos 160 anos do nascimento do romancista, que a Embaixada portuguesa em Brasília levou a cabo em 25 de Novembro de 2005.

Em fins de 2008, organizei, também em Brasília, e em associação como Instituto Rio Branco, uma homenagem a Dário Castro Alves, que contou com testemunhos e a presença de muitos dos seus amigos, de antigo colaboradores e de simples admiradores (ver aqui e aqui). Na altura, editámos também uma sua completa biobibliografia.

Dário Castro Alves, um verdadeiro embaixador luso-brasileiro, era um amigo pessoal. Com a sua morte, desaparece uma figura marcante de uma geração brasileira que cultivava uma relação muito forte com Portugal.

Leia mais aqui e aqui.

O Hino

Agora que nos aproximamos do Dia Nacional português, vale a pena notar o triste facto de que ainda há muitos portugueses, mais em Portugal do que no estrangeiro, que não conhecem a letra do Hino Nacional. Verdade seja que o nosso hino não "ajuda" muito, pelas fórmulas arrevezadas que utiliza, tributárias da sua linguagem oitocentista, marcada pela indignação exaltada contra as perfídias britânicas do "mapa cor-de-rosa".

Aliás, e a talhe de foice, vale a pena explicar que aquele suicidário e algo masoquista "contra os canhões, marchar, marchar", presente no refrão, é uma versão retificada da letra original, onde se lia "contra os bretões, marchar, marchar" - porque o hino tinha sido construído para reagir à afronta de Londres.

E, para quantos não saibam, aqui deixo duas outras partes da antiga e longa versão oficial de "A Portuguesa", cujo conteúdo remete claramente para o espírito original anti-ultimatum:

Desfralda a invicta Bandeira,
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu
Beija o solo teu jucundo
O Oceano, a rugir d'amor,
E teu braço vencedor
Deu mundos novos ao Mundo!

e ainda

Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.

A primeira versão oficial do hino, que surgia no "Diário do Governo", tinha aquelas três partes, além de três repetições da estrofe (Às armas...). Por isso, não é raro ser essa a versão utilizada por uma orquestra ou banda estrangeira, na receção a um dignitário português.

Recordo-me de um embaraço por que passei, em 1980, na Noruega, aquando da visita de Estado do presidente Ramalho Eanes. Embora fosse o organizador da visita, não me passou pela cabeça verificar a partitura que ia ser usada pelos noruegueses, isto é, saber se seria a versão curta ou a longa, até porque sou "nulo" em matéria de pautas de música.

No início de um almoço oficial no Rådhus (câmara municipal) de Oslo, acabada que foi a execução da primeira parte do nosso hino (a que é vulgarmente utilizada), os portugueses presentes iniciaram uma salva de palmas, arrastando consigo os noruegueses. Com surpresa, verificaram que a orquestra "arrancou" para uma segunda parte, repetindo a primeira. Chegada ao fim desta, os presentes avançaram então, mais decididos, para nova salva de palmas. E não é que a orquestra "atacou", de novo, com mais uma repetição?!

Por jeito próprio ou como quem "connait la musique" (expressão aqui apropriada), o nosso presidente mantinha-se impávido. O resto dos portugueses mostrava alguma perplexidade, com Fernando Reino, chefe da casa civil de Belém e até há pouco embaixador em Oslo, a fuzilar-me interrogativamente com o olhar. Só sosseguei quando os músicos noruegueses se aquietaram, por fim...

Depois desta cena, e tal como tem acontecido a muitos meus colegas, já me tem sido dado ouvir esta "tripla" versão do hino pelo mundo fora. Nessas ocasiões, o único problema é quando há portugueses a cantar alto a letra do hino. Coitados, lá repetem mais duas vezes o "Heróis do mar...". É que ainda estou por encontrar alguém que saiba a versão completa.