quarta-feira, 31 de março de 2010

Augusto Maria de Saa

Foi já há cinco anos, contados dias por dia, mas parece que foi ontem. Uma emissão simultânea do programa Ritornello, da RDP2, com a Rádio Cultura, de Brasília, levou ao mundo um conjunto de testemunhos sobre essa figura ímpar da cultura luso-brasileira que deu pelo nome de Augusto Maria de Saa. 

Mobilizada a emissão pelo (afinal não confirmado) boato de que a Pléiade, da Gallimard, se preparava para editar, em papel bíblia, as obras completas de Saa, quando nem Portugal nem o Brasil haviam tido esse cuidado, na Lello ou na Aguilar, várias personalidades escalpelizaram então aspetos da personalidade desse prolífico escritor, de quem foram lidos poemas, recordados episódios e de cujos descendentes, na Rondônia, foram colhidas tocantes memórias.

A Augusto Maria de Saa, cuja morte trágica no cenário do regicídio de 1908 é desconhecida para muitos, é atribuída uma das melhores definições do destino luso-brasileiro: "Brasil e Portugal acabam por ser um verdadeiro enigma da geometria. Trilhando historicamente dois caminhos paralelos, esses caminhos acabam regularmente por se cruzar".

Torna-se muito difícil, no espaço modesto de um post, dizer algo que, ainda que remotamente, possa sintetizar a importância da obra que ocupa o labor do prestigiado Centro de Estudos Saaianos, em Taguatinga, hoje sob a douta direção do professor Romário Ibarapuera. Por isso, permito-me encaminhar os leitores interessados para um breve blogue, criado à época, onde poderão colher outros dados complementares: Memória de Saa.

Ah! convém que se diga: a emissão foi no 1º de Abril de 2005.

terça-feira, 30 de março de 2010

"Le Monde"

Os brasileiros diriam que foi uma "renovada" aquilo que o "Le Monde" ontem tentou fazer ao seu "layout". Mais fotografias e novas secções. Com toda a franqueza, não me parece o jornal tenha ganho muito com a mudança, mas não excluo que esta seja apenas uma mera reação conservadora de quem ainda sente saudades dos pequenos "billets" de Robert Escarpit  (quem se lembra deles?) e da bela austeridade da "mancha" clássica, que só teve um émulo no "Wall Street Journal". Porém, o que mais preocupa quem há muito lê e gosta do "Monde", como é o meu caso, é a notória falta de "golpe de asa" que cada vez mais transparece na construção do diário, ao que se diz fruto de dificuldades financeiras que limitam os correspondentes.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Livros

É um prazer passear pelo Salon du Livre, que nestes dias tem lugar aqui em Paris, olhar as edições cada vez mais bem construídas e apelativas, ficar com aquela sensação angustiante de que há um mundo inatingível, constituído por tudo aquilo que gostaríamos de ter tempo para ler - e nunca teremos. No domingo, ao percorrer as centenas de bancadas e estantes, com uma imensidão de títulos, uns apetecíveis outros indiferentes, senti-me como o Jacinto, naquela noite no 202 dos Champs Elysées, quando, esmagado pela incomensurável sabedoria reunida na sua biblioteca, tomado do embaraço da escolha, acabou, num enfado, por descortinar num canto um velho e datado exemplar do "Diário de Notícias", levando-o como derradeira leitura de cabeceira. É que dei por mim, ao fim de várias horas de folheanço, a apenas comprar um pequeno livro da sempre magnífica "Que sais-je?"...

Ontem, António Lobo Antunes e Jean d'Ormesson dialogaram no espaço principal de debate do Salon du Livre. Com muita pena minha, não pude assistir. Dizem-me que a intervenção do escritor português foi fascinante.

Europa

Para quem se interessa pelo futuro europeu, para quem quer ter um olhar realista sobre os caminhos possíveis na coordenação das políticas económicas europeias, recomendo o artigo que Maria João Rodrigues publica hoje no "Le Figaro", infelizmente não disponível para acesso.

Trata-se de um texto que reflete a aprendizagem das lições da aplicação da Estratégia de Lisboa, dela partindo para a necessidade de deverem ser tidas em conta outras realidades que, há uma década, não eram tão evidentes: "A concorrência internacional intensificou-se com a aparição de novos atores mundiais. a tendência para o envelhecimento é muito mais profunda, a mudança climática exige um outro modo de vida e estamos ainda a digerir uma crise financeira, económica e social sem precedentes".

A antiga ministra portuguesa aponta respostas novas que devem ser consideradas, para além de um quadro em que o crescimento seja o objetivo central: "Temos de nos voltar para um crescimento mais verde, mais inteligente e que favoreça a coesão social. A inovação para o desenvolvimento durável é agora a vantagem comparativa que a Europa deveria forjar".

Este artigo é tanto mais importante quanto se sabe que, no último Conselho Europeu, algumas das propostas da Comissão Europeia para a nova "estratégia" Europa 2020 sofreram grandes resistências, pelo seu caráter constrangente. Talvez assim se percebam melhor os obstáculos de percurso por que passou a Estratégia de Lisboa.

domingo, 28 de março de 2010

Pavão

Aquele embaixador era conhecido por ser uma figura um tanto bizarra. Isso também se refletia na decoração, bem eclética, que espalhava por toda a sua residência oficial. A avaliar pela diversidade das peças, fruto de andanças por vários mundos, o nosso representante diplomático era um colecionador de recordações, muitas das quais de gosto muito mais do que discutível. O facto de ser solteiro, de não ter a seu lado uma sensibilidade feminina que o ajudasse a equilibrar o conjunto, resultava em óbvias e não felizes consequências no aspeto decorativo das suas salas.

Se havia um ponto dessa mesma decoração que se salientava como mais chocante esse era, sem dúvida, o colorido pavão, de "papier maché", adquirido no México, que ocupava um lugar central no salão de entrada, num pedestal colocado sobre um horrível tapete retangular, de cor bem forte e sentido estético bem fraco.

Um dia, o ministro-conselheiro, um tanto a medo, atreveu-se a dizer ao embaixador que, porventura, a colocação do pavão talvez fosse demasiado impositiva para o equilíbrio estético do salão. E adiantou, como sugestão, que podia ser interessante colocá-lo num canto da sala, num lugar mais discreto.

A resposta do embaixador desarmou-o: "Ó homem, você não percebe a razão por que tenho aqui o pavão? Eu sei que as pessoas podem sentir-se um pouco surpreendidas com esta peça, mas ela tem um função muito importante. Quando tenho um almoço ou um jantar, à medida que os convidados chegam, é sempre preciso encontrar um tópico para iniciar a conversa. Ora nada melhor do que este pavão para servir como "point for talk". Nem você imagina a quantidade de pessoas que, olhando para o pavão, começam logo a inquirir onde o comprei, de que é feito, etc. Ora isto é precioso: garantir um tema de arranque de uma conversa é muito importante, o que evita logo falar do clima, do tráfego ou outros temas artificiais de circunstância. E, do pavão, podemos logo passar às questões de arte, de geografia ou dos costumes. O pavão dá-me imenso jeito!".

O ministro-conselheiro ficou rendido ao argumento e mais valorou a "tática" do seu chefe quando este adiantou, com subtil e auto-flagelatória ironia: "E fique você a saber que não me preocupo nada pelo facto de algumas pessoas poderem, no seu regresso a Lisboa, falar do "pavão" do nosso embaixador..."

Irène

Há muitos anos que a Irène fazia parte da paisagem do "Café de Flore", ali no boulevard Saint-Germain. Do seu posto de comando, onde são emitidas "las dolorosas", escrutinava com os seus belos olhos bem azuis toda a sala e, não raramente, espalhava raspanetes para orientar o serviço.

Durante anos, ao passar turisticamente por Paris, via por lá a Irène, sempre elegante, de cabelo à "garçonne", mas nem lhe sabia o nome. Neste último ano, através de amigos comuns, ela passou a ser o nosso primeiro contacto, nas passagens regulares pelo "Flore". Procurava-nos as melhores mesas, dava notícias da passagem de conhecidos. Até ontem.

Ontem, a Irène fez a sua última noite de trabalho. Há meses que nos falava desta data. Vai reformar-se, gozar "a vida que resta". Parecia triste. Sem nostalgias mas com grande simpatia, fomos dizer-lhe adeus. E não fomos os únicos.

Águias

Os meus correlegionários futebolísticos devem achar que, no fundo, não sou um verdadeiro sportinguista. E isso pelo facto de, não me regozijando pela mais do que provável vitória do Benfica no campeonato português, não poder deixar de considerar que, de certo modo, ela acaba por contribuir para animar o nosso futebol, trazendo este ano à ribalta o clube que mais adeptos parece contar entre nós. 

Essa é a razão que torna este sucesso do Benfica em algo a assinalar: nos tempos que correm, haver alguma coisa que faça com que mais de metade da população portuguesa se sinta feliz é obra! É só por aí, confesso, que me sinto "benfiquista"...  

Em tempo: para que não haja dúvidas, aqui e aqui têm os meus únicos hinos clubísticos. 

sábado, 27 de março de 2010

Reizinho(s)

Por uma qualquer razão lisboeta de ocasião, apetece-me hoje deixar aqui a imagem - que alguns já não recordarão - do Reizinho, essa figura dos "comics" com que algumas gerações muito se divertiram.

Ora aqui está uma personagem digna dos sonhos dos bobos da inexistente corte que por aí hasteiam, sob a coragem da noite, a sua patética nostalgia.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Egipto

E, uma vez mais, saio do Egipto sem me cruzar com o professor Grossgrabenstein, esse personagem de "O Mistério da Grande Pirâmide" que Edgar P. Jacobs seguramente criou pela memória futura do meu amigo Caetano da Cunha Reis (se procurarem, encontrarão a sua foto na última fila dos seguidores).

Já agora, se tiverem oportunidade, não percam aquela obra prima da escola belga da banda desenhada.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Carminho

Tinha visto um "video-clip" da autoria do cineasta João Botelho (que é feito de ti, João?) que me chamou a atenção para a sua voz.

Há dias, comprei o seu disco, chamado simplesmente Fado. Fiquei "cliente". Carminho é já uma certeza dentro deste grupo de novos intérpretes do fado. Ouçam o seu "Escrevi teu nome no vento".

Ah! soube que a Carminho (também) é cliente do "Procópio", o que, além do mais, prova que tem bom gosto.

Ainda futebol

Nem Figo nem Ronaldo, nem mesmo Deco, de que muitos também falam, conseguem suplantar o prestigio de que disfruta no Egipto a figura do treinador português Manuel José. 

O Al-ahly - clube que, com o Zamalek, divide os adeptos egípcios - deve-lhe uma imensidão de vitórias, incluindo campeonatos africanos. 

Quando por aqui digo que sou português, a reação invariável é: "Manuel José!".

Quem diria?!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Diplomacia pública

Há dias, a imprensa deu conta da decisão do governo israelita de promover grandes ações internacionais de "diplomacia pública", com vista a contrariar a imagem, que considerava distorcida, que o país usufruía nos media internacionais. 

A este propósito, lembrei-me de uma (vá lá! ousada e pouco disciplinada) atitude que tive, nos anos 90, quando desempenhava funções de encarregado de negócios, na nossa Embaixada em Londres.

Na televisão britânica, tinha passado um filme sobre o trabalho infantil em Portugal, na área do têxtil. Era um retrato infelizmente então muito verdadeiro, espelho de pobreza, de alguma complacência oficial e de falta de empenhamento das estruturas empresariais do setor. Porque os britânicos eram nossos concorrentes no mercado de certos produtos têxteis, havia uma fundada suspeita de que, na origem da promoção do filme, pudessem estar interesses da indústria britânica, o que provavelmente seria verdade.

Do meu Ministério, de Lisboa, recebi uma pergunta: o que é que eu achava que poderíamos ou deveríamos fazer para atenuar o efeito negativo do filme na imagem do nosso país? Que tipo de reação seria mais adequada?

Numa atitude que, por pouco, me não valeu uma reprimenda disciplinar, tive o topete de sugerir, por via oficial, que, sendo irreversível o efeito da imagem entretanto criada, era minha opinião que a melhor forma de evitar, futuramente, a exploração mediática do trabalho infantil em Portugal era... acabar com o trabalho infantil.

A verdade é que, nos dias que correm, com uma ação repressiva e de formação muito eficaz, envolvendo as associações profissionais e o setor educativo, Portugal deu passos gigantes nesta área, diminuindo radicalmente os casos de trabalho de crianças e adolescentes - que eram correntes no têxtil, no calçado e nas obras públicas. Nem tudo está feito, mas imenso se tem conseguido avançar neste domínio, para honra do nosso país, como é internacionalmente reconhecido.

Deixo aqui a nota da "impaciência", quiçá intempestiva, do nosso então diplomata londrino...

Ode Marítima

É excelente e de grande elegância gráfica a edição francesa da "Ode Marítima", de Fernando Pessoa, apresentada pelas Editions La Différence, que agora nos chegou.

Falámos aqui, há dias, da "Vie et Oeuvre d'Eça de Queiroz", de A. Campos Matos, também das Editions La Différence. Devemos a esta editora, sob a atenta direção de Joaquim Vital, o surgimento em França de algumas obras essenciais da literatura portuguesa.

E, já agora, vale a pena notar o fantástico sucesso que teve, este mês, em Paris, a apresentação da "Ode Marítima", no Theâtre de la Ville, uma casa sob a direção do franco-português Emmanuel Demarcy-Mota.

terça-feira, 23 de março de 2010

Palavras

No bar do "Marriot" do Cairo, ontem, um companheiro de viagem estranhou o meu interesse ao ver-me debruçado sobre as páginas do classico "Al-ahram", comentando:

- Nao me tinhas dito que sabias arabe !?"

Não resisti e respondi, com modestia: "Sei muito pouco de arabe. Estava apenas a tentar fazer as palavras cruzadas..."

ps - Nao, nao e o Acordo Ortografico. E apenas a falta de acentos por aqui.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Craques

Aí duas vezes por ano, os telejornais da hora do almoço das televisões portuguesas enchem-se de imagens da chegada ao aeroporto da Portela de novos reforços para os "grandes" clubes. Normalmente, são futebolistas brasileiros, descobertos pelos seus "olheiros". Nas peças, seguramente com base em informações fornecidas pelos clubes, esclarece-se, por exemplo, que se trata de "um excelente médio-ala, com muita rapidez na progressão no terreno" ou "um jogador de área, forte no choque e com um bom pé direito", que marcou, no último ano, x golos no Cruzeiro do Piauí ou coisa assim.

Na entrevista, o "craque", empurrando o carrinho de bagagens, quase sempre de óculos escuros na testa, por vezes já com um cachecol do clube, com um atento "responsável" à ilharga, este por definição agarrado ao telemóvel, diz que o o seu "sonho foi sempre representar o  grande clube que é o Porto (ou o Sporting, ou o Benfica - é indiferente)" e que espera "dar grandes alegrias à massa associativa".

Embora siga com alguma atenção o futebol português, verifico que, não raras vezes, essa é, praticamente, a última vez em que ouvimos falar desse "craque", cuja "adaptação" não terá sido "a mais feliz" e que, meses depois, é cedido a clubes de menores ambições.

Teria imensa graça - mas exigiria uma também imensa e não plausível coragem! - se alguém se dispusesse a fazer uma reportagem sobre o posterior percurso dessa multidão de "craques" que arriba a solo português, confrontando os discursos elaborados sobre eles à chegada - feitos com o apoio "teórico" de "A Bola, do "Record" ou de "O Jogo" - com a avaliação da sua "prestação" efetiva nos clubes de primeiro destino. Mas não deve haver tempo: estão quase a chegar por aí os novos "craques" para a temporada 2010/2011...

domingo, 21 de março de 2010

Espanha

O período da transição da ditadura para a democracia, no final do século passado, é um dos mais interessantes na história contemporânea de um país com tanta História como é Espanha. 

Muitas personalidades contribuiram, durante essa época, para ajudar a colocar um ponto final às "dos Españas", que se haviam confrontado nos anos 30 e que a violência da repressão franquista prolongou algumas por décadas mais, à sombra da absolvição prática de ditaduras na península ibérica pelo "mundo livre", no oportunismo da realpolitik da Guerra Fria . 

Mas houve, claramente, dois homens a quem, nesse contexto, a Espanha ficou a dever um serviço maior: o rei Juan Carlos e Adolfo Suarez.

Desde há muito, tenho lido tudo quanto posso sobre esse período, sobre o estertor do franquismo, sobre as tensões militares que o procuraram prolongar, sobre os difíceis passos para a reconstituição de um sistema político democrático - passos difíceis, até porque dados sob o cenário de fundo das pulsões autonómicas e da ameaça do terrorismo.

Há uns meses, numa livraria espanhola, comprei um livro de que já ouvira falar, do qual haviam sido publicadas já diversas edições: "Suárez y el Rey", uma obra de Abel Hernández, que foi prémio Espasa/Ensayo em 2009. Acabei de lê-lo há dias.

Trata-se de um relato interessantíssimo da relação entre aqueles dois homens a quem a Espanha muito deve, cujo entendimento permitiu garantir a fixação de um quadro institucional de vivência democrática em Espanha. O livro não é uma hagiografia de nenhuma daquelas personagens, deixa entrever a mutação de algumas circunstâncias, que não deixou de pesar nas relações entre ambos, na talvez inevitável contradição entre quem tem por ambição representar a continuidade do Estado e quem titulou um projeto específico para a sua gestão temporal, que as urnas viriam a rejeitar. Trata-se de um trabalho de grande seriedade, no delicado domínio da história contemporânea. Como disse, li muito sobre esse período, mas as pouco mais de 200 páginas deste livro deram-me chaves de compreensão que ainda não tinha.

A fotografia deste post, de 2008, que figura na capa de algumas das edições do livro, onde se vê o rei espanhol a acompanhar um Suárez já afetado pela doença neurológica que o debilitou sem remissão, é, a meu ver, uma imagem muito comovente. No fundo, é o retrato afetivo de uma cumplicidade patriótica que salvou a Espanha de uma tragédia.

sábado, 20 de março de 2010

Diabo na cruz


Concedo que este tipo de música portuguesa pode não ser do agrado de todos. Mas devo confessar (esta expressão não condiz, de facto, com o título do grupo...) que acho interessante este esforço de criação em torno de um certo tipo de música popular portuguesa, que procura dar um tratamento urbano a certas expressões mais próximas de culturas rurais.

Experimentem esta Dona Ligeirinha pelos Diabo na Cruz.

Pirâmides

Permitam-me que, esta noite, vá dormir junto das verdadeiras e já não desta bela réplica que está junto ao Louvre.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Férias

Este blogue passa, por algum tempo, a um registo de serviços mínimos, o qual se sentirá, em especial, no atraso com que aparecerão os comentários nele inseridos.

Futebóis

O futebol, para mim, é uma simples modalidade desportiva. Isto é, um jogo de que gosto muito e sobre o qual julgo até saber alguma coisa. Porém, a gravidade assumida nos discursos de adeptos, dirigentes ou comentadores, o tom pesado com que se analisam, em horas televisivas ou páginas de imprensa, confrontos de emblema ao peito entre o pé-de-obra de empresas nacionais falidas, algumas de dissolução adiada por complacência bancária e cobardia pública, dá-me imensa vontade de rir. 

Como a generalidade dos portugueses, tenho a minha preferência clubística, desagrada-me quando o meu clube perde, fico feliz quando ele ganha. E até me diverte, num estádio, exteriorizar sentimentos, protestar com o árbitro, fazer de "treinador de bancada". Mas distingo sempre, sem a menor dificuldade, a vida do jogo, as coisas sérias de um mero espetáculo, por mais motivante que ele possa ser. Por isso, e de há muito, recuso-me a transformar as derrotas em tragédias ou as vitórias em exaltações. Em toda a vida, nunca perdi um minuto de sono por qualquer delas.

Sei que nem toda a gente pensa como eu, que muitos levam a sério o seu sentimento clubista, que nele encontram um conforto grupal essencial ao seu quotidiano e talvez ao equilíbrio pessoal de afetos. Cada um é como é.
  
Talvez porque penso desta forma, chocou-me muito ouvir ontem a declaração de um energúmeno (assumo a plena responsabilidade pelo qualificativo) adepto do meu clube, um irresponsável de uma seita de apoiantes arruaceiros a merecer cadeia, que sintetizou na televisão, num discurso de anti-espanholismo primário a que já me tinha desabituado, tudo o que de nefasto o futebol pode trazer à sociedade. E pergunto-me se os órgãos de comunicação social portugueses não estão obrigados a não serem veículos neutros de sentimentos de xenofobia e agressividade criminosa.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Turismo

Bela e digna presença portuguesa no Salon du Tourisme 2010, ontem inaugurado em Paris.  Pedro Pauleta, um excelente "embaixador dos Açores", que tem em França uma imagem pública do tamanho da sua simpatia, contribuiu para chamar ainda mais a atenção para o nosso stand.

Os fluxos de turismo francês em direção a Portugal aumentaram em contra-ciclo com a crise. Mas esta é uma área onde há muito a fazer, aqui por França. Que tal se cada português ou luso-descendente convencesse um amigo francês a visitar Portugal ?

Revoluções silenciosas

Não creio ser necessário dizer muito, mas gostava de chamar a atenção para duas "revoluções silenciosas" que ocorreram, nos últimos dias, e que vão afetar alguns  importantes equilíbrios  internacionais. Como todas as ruturas históricas, elas podem vir a ter recuos, mas o seu sentido passou a ser iniludível.

A primeira é a crise nas relações entre Jerusalém e Washington, que dá razão a quantos pensam que, agora, o importante passa a ser ajudar Israel a defender-se de si próprio.

A segunda são as declarações da chanceler Angela Merkel, ontem, no Bundestag. Por elas se aprecia melhor a notável presciência de Helmut Kohl.

Abril

É uma sensação reconfortante ver algumas dezenas de adolescentes portugueses, alunos do Collège Lycée Honoré de Balzac, interessados em discutir o Portugal de Abril, sem dogmas ideológicos, sem partidarites, apenas com vontade de perceberem o que mudou nessa data de que os pais e os livros lhes falam.

E não deixa de ser igualmente curioso notar uma emoção verdadeira nas palavras do "proviseur" Jean Louis Tretel, um "soixant-huitard" à beira da reforma, ao recordar os dias em que a França de então olhou, com um espanto simpático, para a "Révolution des oeillets", nesse "país que parecia condenado ao silêncio".

quarta-feira, 17 de março de 2010

Eça em Paris

Luis dos Santos Ferro é um "queirosiano" sem par. Ontem, numa visita à casa em que Eça de Queiroz viveu em Neuilly, ciceroneou-me como se tivesse passeado pelas salas ao tempo em que o meu antigo colega por aqui foi cônsul-geral de Portugal. Paris foi o último posto do escritor-diplomata e esta foi a cidade onde morreu.

A antiga residência de Eça de Queiroz é hoje propriedade de Philippe Mayer, alguém que "adotou" Eça como um dos seus e que se habituou a conviver com a sua presença nesta casa que tanto comove quem, como eu, sente de muito perto a memória que o escritor deixou por Paris.

"Língua não tem futuro"...

"A língua portuguesa é muito traiçoeira", dizia Herman José, nos seus bons tempos. A julgar pela forma como algumas coisas que afirmei numa entrevista foram reportadas na imprensa, eu diria que ela é particularmente traiçoeira quando nos referimos à... língua portuguesa.

Ontem, à saída de uma comissão parlamentar, na Assembleia da República, já a caminho de um taxi para o aeroporto, fui "apanhado", num vão de escada, por uma repórter da Lusa. Por uma razão que me escapou, perguntou-me sobre a melhor estratégia para a projeção internacional do Português no mundo. Disse e reiterei várias coisas óbvias e simples, todas de sentido idêntico, aliás corretamente transcritas no "take": "O melhor caminho é a articulação forte entre Portugal e Brasil para a promoção da língua portuguesa nos espaços multilaterais e internacionais"; "o Português tem futuro se for apoiado por todos os espaços, Portugal e Brasil, mas também os países africanos, com a sua influência quer nos países vizinhos, quer no espaço das instituições multilaterais"; "é uma acção conjunta em que todos nós temos que nos empenhar para a projeção do Português".

Num jornal português de hoje o título é "Língua não tem futuro 'sem uma relação frutuosa entre Portugal e Brasil'". O que prevalece, no título, é a suposta falta de futuro para a língua. Estupidez ou desonestidade? Ou as duas? Escolham... E ainda há quem diga que eu me preocupo muito com os títulos.

Português

Há dias que começam bem. Foi o caso de hoje. Foram duas horas de convívio, grande parte do qual dedicado a responder às muitas e curiosas perguntas públicas de quase duas dezenas de simpáticos estudantes, na Secção Internacional Portuguesa do belo Collège Jean Moulin, em Chaville.

Com a honrosa presença do "Maire" de Chaville, Jean Jacques Guillet, e da "Principale" do Collège, Catherine Onillon, além de pais das crianças, este encontro pretendeu ser, pela minha parte, um testemunho do grande interesse com que vejo a atividade das Secções Internacionais.

Ontem respondi às perguntas dos parlamentares, hoje às de estudantes portugueses. A vida de um diplomata tem esta interessante diversidade. 

terça-feira, 16 de março de 2010

Parlamento

A Assembleia da República, através da sua Comissão dos Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, iniciou uma nova prática: ouvir os embaixadores portugueses pelo mundo falar do funcionamento das missões diplomáticas que dirigem, dos interesses portugueses que lhes compete defender, das questões que se colocam ao seu dia-a-dia, bem como de várias outras matérias da sua atividade que interessam ao poder legislativo.

Como disse, esta é uma prática nova, que não afeta, naturalmente, o equilíbrio constitucional de poderes. Nem de responsabilidades. É o governo quem responde perante o parlamento. Ao diplomatas, como servidores públicos que têm a seu cargo a execução da política externa, compete prestar esclarecimentos sobre o modo como exercem a sua atividade e como dão sequência às instruções que recebem do poder político. Nem mais, nem menos.

Tive o prazer de inaugurar hoje estas audições, num ambiente muito simpático, muito interessante e muito interessado. E mais não digo, porque a sessão decorreu "à porta fechada".

segunda-feira, 15 de março de 2010

Reunião

"Uma reunião acaba, normalmente, ao final de 20 minutos... só que ninguém dá conta e todos insistem em repetir, nas horas seguintes, embora de forma diferente, os argumentos que os outros já disseram e que estiveram na base das decisões que há muito já foram tomadas".

Quem nos disse isto, hoje à tarde, na Fundação Calouste Gulbenkian, foi o professor Peter Magrath, um especialista de educação americano que, em muito boa hora, o meu querido amigo professor Marçal Grilo convidou para vir a Lisboa falar aos reitores e presidentes dos Conselhos Gerais das universidades públicas portuguesas.

Desta vez, Magrath desmentiu-se a si próprio. Nas cerca de três horas em que o ouvimos e com ele discutimos, nem um minuto foi perdido e todos saímos muito mais conhecedores, não apenas dos exemplos de gestão universitária dos EUA, mas igualmente do modo como cada um de nós, na sua universidade, interpreta o novo modelo de gestão que está em vigor em Portugal. Este é o único caminho para nos ajudar a tornar mais eficaz tal modelo.

Viegas

Há dias, alguns amigos queixaram-se pelo facto de eu ter escolhido João Villaret como o primeiro declamador apresentado neste blogue e alguns perguntaram-me se tinha algo "contra" Mário Viegas. Claro que não tenho. Conheci bem Mário Viegas (1948-1996), com quem fiz serviço militar. Foi uma figura extraordinária da cena portuguesa e a sua ironia faz imensa falta.

Aqui fica a sua "Cantiga dos Ais", um texto (um belo retrato nosso, traçado a ironia) de um poeta português que deveríamos conhecer melhor, Mendes de Carvalho (o qual, a talhe de foice, convém não confundir com o homónimo angolano, também bom poeta, que assina sob o nome de Uanhenga Xitu).

domingo, 14 de março de 2010

Emprego

Julgo que o nome era Silva. António Pedro de Vasconcelos contou-nos, há dias, em Paris, que ele era o funcionário que tinha por missão, nos tempos que antecediam o 25 de Abril, transportar entre o jornal "O Século" e os serviços da Censura (que o marcelismo crismou de "exame prévio") as provas tipográficas que eram submetidas à vistoria, antes da impressão das publicações. Era um vaivém diário constante, da rua do Século à rua da Misericórdia, até se obter a autorização final que permitisse dar ordem de preparação das edições. 

A.P. de Vasconcelos dirigia então o "Cinéfilo", uma revista do grupo controlado pelo jornal - onde figuravam algumas outras, como "O Século Ilustrado" ou a "Modas & Bordados". Sem exceção, tudo tinha de ir à censura, pela mão diligente do Silva, uma figura simpática, que já fazia parte da rotina da casa, bem conhecido de todos os jornalistas.

No dia 25 de Abril de 1974, a manhã estava, como se compreenderá, a ser muito confusa. Marcello Caetano ainda não se tinha rendido, o Carmo ainda não fora ocupado por Salgueiro Maia, a sorte da Revolução estava ainda longe de definida. Soube-se, porém, que o diário "República", muito próximo dos meios democráticos, tinha decidido arriscar e fizera já uma edição especial, sem se sujeitar ao controlo da censura. A vontade dos jornalistas de "O Século" e restantes publicações era, naturalmente, idêntica.

Entretanto, imbuído da rotina profissional, chega o Silva, para recolher as provas da edição seguinte do "Cinéfilo". A.P. de Vasconcelos diz-lhe que não tenciona mandar as provas do "Cinéfilo" para visto prévio. O Silva insiste, sem sucesso, e fica por ali, sem rumo certo, não podendo levar a cabo a sua tarefa habitual. Com as horas a passar, com o adensar das notícias de que o regime se estava a esboroar, parte do pessoal do jornal sai para a rua. A.P. de Vasconcelos convida então o perturbado Silva a acompanhá-lo à zona próxima da rua da Misericórdia, onde se sabia ser grande a movimentação popular, bem perto do quartel onde Marcelo Caetano se refugiara. Por ironia, era também nessa artéria que, num singular contraste, se situavam as instalações do "República" e as da da censura, cada uma do seu lado da rua. 

Aí chegados, o ambiente não enganava: a democracia estava na rua, o edifício da censura estava já como que isolado. A.P. de Vasconcelos, que comungava a alegria comum aos milhares de pessoas que enchiam a zona, nota que a cara do Silva era tudo menos felicidade. Seria saudosismo pela queda do regime? A interrogação não durou muito. O pobre do Silva pergunta-lhe, angustiado: "Ó senhor Vasconcelos, e agora o que é que eu vou fazer?"

O 25 de Abril não foram só alegrias.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Jospin

Lionel Jospin foi primeiro-ministro socialista da França (1997-2002), em "coabitação" com o presidente Jacques Chirac. Afastou-se da política ao ser derrotado na primeira volta das eleições presidenciais de 2002, onde ficou atrás de Jean-Marie Le Pen.

Jospin assumiu, a partir de então, uma postura bastante discreta, não obstante ter publicado alguns livros e, aqui e ali, ter feito algumas declarações públicas, quase sempre ligadas à defesa da sua "herança" governativa. Já sem ambições para as eleições presidenciais de 2012, publicou, há algum tempo, o seu livro "Lionel raconte Jospin", uma conversa com dois jornalistas que pretende ser o seu inventário de memória política.

O livro traz poucas surpresas, para quem seguiu com algum cuidado o percurso de Jospin. Porém, traz a sua versão sobre a sua polémica permanência na órbita trotskista já como militante do PSF, adianta alguns dados às relações entre os socialistas e os comunistas franceses nos anos 80, introduz elementos interessantes sobre as tensões que emergiram na "coabitação" e, muito em particular, revela a sua quota de desilusão quando foi confrontado com aspetos do passado de François Mitterand. Uma novidade, pelo menos para mim: Jospin só por falta de apoios expressos não foi tentado a ser o "challenger" socialista contra Nicolas Sarkozy, nas eleições presidenciais de 2007.

Villaret

João Villaret (1913-1961) foi um "diseur" de poesia que marcou muito a minha geração. Dele guardo a imagem "a-preto-e-branco", como era então a (única) televisão desse tempo. Os seus discos, que recomendo vivamente, são uma apelativa introdução à poesia portuguesa.

Hoje, por uma qualquer razão, aparece-me partilhar esta sua vibrante versão do Cântico Negro, de José Régio. Ouçam-no bem, até ao fim.

quinta-feira, 11 de março de 2010

A conversa

O nosso embaixador, recém-chegado àquele país africano de expressão portuguesa, tinha toda a boa vontade do mundo na sua agenda de ambições, para os anos de trabalho que o esperavam. As relações políticas entre os dois países estavam muito tensas, fruto de traumas históricos ainda não ultrapassados, a que se somavam regulares polémicas conjunturais. Porém, o nosso homem vinha de espírito aberto e queria fazer a diferença.

Uma das suas primeiras visitas foi à Associação de Escritores locais, um órgão que, não obstante a ortodoxia política que o dominava, reunia alguns nomes de reconhecido mérito literário, de que lera algumas obras. Era um gesto de "soft diplomacy" em que colocava algumas esperanças, com vista a quebrar o gelo prevalecente.

O presidente da Associação era um velho resistente, que havia estado envolvido na luta contra a presença portuguesa, conhecido pelo seu radicalismo ideológico. Contudo, como o embaixador reconhecia, tratava-se de um escritor de apreciável qualidade.

E foi isso mesmo que o embaixador começou por dizer, no início da visita de cortesia que lhe fez. Nela adiantou também algumas ideias que trazia para a sua ação na área da cultura - desde os contactos entre academias, o intercâmbio de experiências, a oferta de bibliotecas, bolsas de estudo, etc. Reiterou a sua disponibilidade, bem como a da Embaixada que agora chefiava, para facilitar tudo o que pudesse ajudar a aproximar ambas as literaturas.

Quando acabou de falar, esperou uma resposta. Nada. Em seu lugar, instalou-se um silêncio que se começou a "ouvir" na sala. Curiosamente, deu-se conta de que não tinha ainda escutado a voz do Presidente, que apenas o saudara com um cumprimento de mão à entrada. Ele permanecia na sua cadeira, com uma cara muito branca, num esgar giocôndico indefinível,  por detrás da barba grisalha, a qual, à época, era como que uma marca corporativa da intelectualidade branca e mulata local. Mas, sempre, imóvel e em silêncio.

Para quebrar o gelo desses segundos de vazio, embora com alguma artificialidade, o embaixador ensaiou mais umas frases, desta vez falando do novo país onde estava, dos familiares distantes que por ali tinha, do seu interesse em visitar certas regiões que estavam na memória coletiva de Portugal. Os minutos esgotaram-se, tal como a sua intervenção, e a reação do seu anfitrião foi exatamente a mesma, isto é, nenhuma. 

A diplomacia ensina algumas coisas e uma delas é a capacidade de não revelar a menor surpresa, mesmo perante aquilo que nos choca. E conseguir sair por cima, com arte e até com gozo. Foi o que fez: agradeceu a "simpatia" do acolhimento, disse do gosto que tinha tido em "trocar impressões" com uma figura tão conhecida do mundo cultural do país em que estava acreditado e, com alguma ênfase, sublinhou o prazer que teria, numa próxima oportunidade, de receber o presidente da Associação na Embaixada, "para continuarmos este promissor intercâmbio".

Fora tão longe na provocação quanto a "lata" e a prudência aconselhavam. Fez menção de se levantar, no que logo foi imitado pelo seu potencial interlocutor, sempre silencioso, que esboçou um sorriso, talvez de alívio pelo fim do exercício, na melhor das hipóteses de  subtil reconhecimento pela "capacidade de encaixe" do embaixador. Este despediu-se com um aperto de mão, caminhando para o carro que o esperava no calor abrasador da tarde. Dentro dele, o ar condicionado esfriou-lhe alguma raiva. Dentro de si, sentiu que tinha ganho o dia: aprendera sobre o país, nesses muito breves minutos, uma bela lição.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Partidas

A morte de um familiar que há muito não visitava projetou-me na memória um filme rápido com todas as recordações que sobre ele alimento. São imagens de tempos diversos das nossas vidas, nas quais se cruzam, entretanto, várias outras figuras do passado, mais próximas ou mais distantes, que estes momentos acabam inevitavelmente por convocar. Nestas ocasiões, atravessa-me sempre uma sensação de um tempo que se desperdiçou, de conversas que poderia ter tido e deixei de ter, de um convívio que poderia ter alimentado, de outra forma e com outra intensidade. Sei tudo isso, como também sei, muito bem, que outros familares e amigos estão precisamente nas mesmas circunstâncias e que, por esta inércia e comodismo que me marca os dias, em alguns casos acabarei por os não rever. E sei também que, quando desaparecerem, terei uma reação em tudo idêntica. Às vezes, dou comigo a desculpar-me de tudo isto com a vida errante que levo, quando se trata apenas de um imperdoável descuido com os afetos. Mas regresso sempre à justificação auto-complacente: não acontece isto a toda a gente?

Europa

A Europa esteve no centro de duas conversas diferentes e bem distintas que tive: um jantar ontem com o escritor Amin Maalouf e um almoço hoje com o conselheiro para os assuntos europeus do presidente Sarkozy, Fabien Reynaud.

Duas gerações, duas inteligências brilhantes e duas perspetivas que se cruzam na existência de interrogações - embora não as mesmas - que também partilho.

A sensação que, quase sempre, retiro das conversas que por aqui vou tendo é que a Europa e o seu futuro são hoje muito mais um menu de interrogações de que um manual de respostas credíveis para os problemas que temos perante nós. E que o grau de euro-entusiasmo, para aqueles que o partilham, varia na razão direta da fé que cada um coloca na eficácia das novas instituições, cujo dealbar - todos concordam - se mostra algo titubiante . 

terça-feira, 9 de março de 2010

Futebol

Embora eu navegue por outras ondas futebolísticas, gostava de deixar claro que não me comprazo minimamente com o naufrágio portista perante o Arsenal. A derrota de equipas portuguesas no plano internacional reflete-se sobre todo o futebol português, degrada a nossa imagem desportiva coletiva e - embora haja quem talvez não saiba isso e que tal pode vir a afetar, no futuro, o seu clube - conduz à redução da quota de equipas nacionais nas competições europeias.

Pode ser que eu esteja enganado, mas é minha convicção que o futuro dos clubes portugueses nas altas competições internacionais tenderá a ser, cada vez mais, sombrio. Com efeito, tendo em atenção a progressiva perda de capacidade financeira dos clubes nacionais, que lhes não permite manterem em Portugal os seus melhores valores, apenas na seleção nacional será possível depositar alguma esperança de uma boa representação do nosso futebol . Tal como já sucede com o Brasil, os melhores jogadores tenderão, no futuro, a ser cativados pelos campeonatos estrangeiros, mais ricos e mais atrativos.  

O Futebol Clube do Porto foi, nos últimos anos, uma exceção a esta regra - que se aplica já, de há muito, ao Benfica e ao Sporting. Infelizmente, parece hoje destinado a segui-la.

África(s)

Notei que a cara do nosso embaixador não era das mais felizes. Vim a saber que o ministro dos Negócios Estrangeiros o tinha informado, logo no início da nossa visita oficial ao país africano onde estava colocado, que o seu próximo destino seria... um outro país africano. Curiosamente, um país onde, anos atrás, estivera já em posto por quatro anos.

Ter passado, em duas vezes, oito anos em África, com a perspetiva de um período idêntico numa capital africana onde já servira, aliás bastante distante de Portugal, era uma ideia que não agradava, compreensivelmente, àquele meu colega. Não obstante o grande interesse profissional dos postos, a vida em África acarreta quase sempre problemas específicos, pessoais e familiares, pelo que, muito legitimamente, ansiaria ter agora um outro destino geográfico. O ministro, contudo, não lhe dera qualquer alternativa.

À noite, no jantar na residência oficial do ministro africano que nos recebia, a conversa derivou, a certa altura, para a Revolução do 25 de Abril. Pedagógico, o ministro português explicou ao anfitrião, com algum detalhe, as motivações subjacentes à revolta contra Marcello Caetano. Dentre essas razões, elencou os problemas de carreira e as pulsões democráticas que atravessavam a tropa, para concluir: "Além do mais, os oficiais portugueses estavam cansados de fazer várias comissões de serviço em África".

Foi aí que se ouviu, num sonoro aparte em português, a voz do meu colega em posto: "Como eu os compreendo!". Dei uma gargalhada de solidariedade, cujo significado poucos entenderam, com exceção do nosso ministro. Do outro lado da mesa, o António sorriu.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Música na Embaixada

O dia 8 de Março, dia internacional da mulher, foi ontem comemorado com um concerto musical na Embaixada.

A soprano Eduarda Melo (na foto), acompanhada pela pianista Joana David, apresentou a um público de cerca de 100 convidados um recital variado, iniciado por canções de António Ramos Rosa com música de António Pinho Vargas, seguidas de peças de diversos compositores - Debussy, Mozart, Puccini, Menotti, Bizet, Lehar, Britten, Cole Porter e Gershwin.

Foi a 6ª sessão do programa musical Entre Partituras/Entre Partitions, organizado pelo Instituto Camões/Embaixada de Portugal, que tem vindo a apresentar talentos portugueses em diversas áreas musicais.

domingo, 7 de março de 2010

Franqueza

A linguagem diplomática internacional tem alguns códigos que importa conhecer, para melhor se entender o que pode estar por detrás de algumas declarações públicas.

Uma dos conceitos-chave em que convém atentar é a eufemismo "franqueza". Se acaso se depararem em algum comunicado, relatando um encontro internacional, a nota de que, durante uma reunião, houve um "debate franco" ou uma "franca exposição de posições", podem ficar cientes de que o ambiente foi tenso, confrontacional, muito duro e sem cedência de posições.

Não se pense que esta realidade se restringe a negociações a níveis técnicos. Muitas vezes, em discussões políticas a nível ministerial, ou mesmo primo-ministerial, as tensões sobem a patamares impensáveis. Mesmo entre aliados. Por exemplo, dentro da União Europeia, para quem não saiba.

Uma noite, no auge de um processo negocial complexo, estava com o meu amigo e deputado europeu Elmar Brok, democrata-cristão alemão, algures num bar de hotel, quando vimos passar um responsável político europeu, saído de um jantar "informal" com os seus pares. A nossa curiosidade sobre esse jantar era grande, porque, do resultado da discussão que nele deveria ter lugar, poderiam depender algumas importantes decisões no dia seguinte.

Pela cara carregada dessa figura política, depreendemos que o debate havia sido tenso. Não imaginávamos, contudo, quanto o fora. Convidámo-lo a sentar-se, desejosos de saciar a nossa curiosidade. Disse-nos que necessitava de um bom "Armagnac" duplo, para se recompor. Nunca lhe fora dado assistir a uma discussão tão divisiva dentro da União Europeia. Ao que nos contou, e perante um comentário que ele próprio fizera, recebera de um seu par, de uma grande potência europeia, a "elegante" reação: "A tua opinião sobre isso não interessa. Se voltasse a haver uma guerra na Europa, o teu país quase não teria tamanho para sepultar todos os mortos dessa guerra". Não recordo a resposta que ele teria dado a essa provocação, talvez porque eu me tivesse fixado obsessivamente nesta chocante frase.

Lembrei-me ontem da questão da "franqueza", ao ler a dura e justa resposta dada pelo primeiro-ministro grego, Georgios Papandreou, perante os bem lamentáveis comentários surgidos na imprensa alemã, a propósito da corrupção no seu país, realidade que não enjeita mas que se recusa - e muito bem! - a assumir como identitária do seu país: "os gregos não têm a corrupção nos seus genes, da mesma maneira que os alemães não têm o nazismo nos seus".

Costa Martins (1938-2010)

Morreu José Costa Martins, um dos grandes heróis da madrugada de 25 de Abril. Com um fantástico "bluff", tomou sozinho e neutralizou o funcionamento do aeroporto da Portela, convencendo tudo e todos que tinha imensas tropas sob o seu comando. As quais só chegariam bem mais tarde.

Era um figura seca e determinada. Conheci-o mal. Recordo-me apenas de ter estado em algumas reuniões com ele, no Palácio da Cova da Moura, em Agosto/Setembro de 1974, quando eu era assessor da Junta de Salvação Nacional e ele confrontava, com coragem, o general Galvão de Melo, com o (hoje general) José Manuel Costa Neves, chefe de gabinete deste último, a procurar construir entre ambos cada vez mais impossíveis pontes. 

Viria a ser ministro do Trabalho, cargo em que foi alvo de um miserável processo de calúnias, que a justiça viria a desmontar, mas de que, na opinião pública, nunca se libertaria, situação que ele sofria com estoicismo.

Na sequência dos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975, episódio durante o qual teria um comportamento no mínimo muito controverso, fugiu para Angola, onde acabou por envolver-se nos conflitos de 27 de Maio de 1977. Escapou então, por muito pouco, a ser fuzilado.

Morreu ontem num acidente com um monomotor, ele que tinha sido um orgulhoso oficial da nossa Força Aérea.

Orfeão

Acabo de saber, pelas notícias, que faleceu o maestro Gunther Arglebe. 

A memória dizia-me algo sobre o nome. Tinha razão: a ele se deve, numa infausta tarde de 1967, o "chumbo" que eu e o Albano Tamegão tivemos, naquela que seria a nossa comum e promissora entrada para o Orfeão Universitário do Porto. No meu caso, recordo, com o muito audível argumento de que não tinha "uma voz que interessasse" ao Orfeão. 

O maestro tinha, claro, toda a razão do mundo. A verdade, porém, é que, a partir daí, se perderam duas inestimáveis vocações...

Aqui fica, para compensação e por boa sugestão, o "Desafinado" por  João Gilberto ou, a pedido de outras famílias, por  António Carlos Jobim.

sábado, 6 de março de 2010

Agricultura

Não deixa de ser impressionante a importância que a agricultura mantém ainda no imaginário francês. A realização do Salon de l'Agriculture, que termina este fim-de-semana em Paris, é a mostra de um mundo com uma identidade fortíssima, cujo peso político, embora de declínio, é ainda considerável. O modo como os políticos, com natural favorecimento dos setores conservadores, exercitam a sua coreografia entre os agricultores presentes, é prova de que, por aqui, a "lavoura" está viva e recomenda-se, não obstante também alimentar um recorrente discurso de queixas. 

Como português e como europeu, continuo a ter sérias dúvidas sobre o equilíbrio, racionalidade e justiça do atual desenho da Política Agrícola Comum (PAC) da União Europeia, até porque ela foi estruturada num outro contexto histórico-económico, ligado às preocupações de autonomia alimentar europeia, bem presentes no pós-guerra. E estas minhas dúvidas, estendem-se, bem entendido, ao modo como as ajudas da PAC se distribuem pelos bolsos portugueses que delas beneficiam. Devo, porém, confessar que, ao viajar pela França e ao verificar que o ordenamento do seu território e os estímulos à fixação da sua população devem muito aos apoios dados à agricultura, questiono hoje algumas das minhas antigas objeções à aplicação da PAC. 

Nada disto implica que não devamos debater, com seriedade e firmeza, a questão da hierarquização e do posicionamento relativo das despesas agrícolas dentro do orçamento comunitário. Não podemos admitir que, por supostos e contestáveis direitos históricos adquiridos, seja o dinheiro europeu a contribuir para a existência de duas Europas agrícolas.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Nostalgia?

A publicação simultânea de vários livros sobre o general De Gaulle suscitou ontem um curioso debate televisivo entre os quatro autores. Nas diferenças que projetaram, ficou claro que todos entendem que se vive em França um tempo de nostalgia, para alguns de regresso a num ambiente de um certo "défaitisme", em que a invocação do general, pela direita e certos setores da esquerda, pode aparecer como um reflexo de uma crise de identidade que o país estará a atravessar, agravada pelo confronto que faz entre a realidade contemporânea e a ideia que sempre alimentou do seu papel no mundo. (Para um português, para quem o "sebastianismo" é identitário, foi uma sensação de "déjà-vu").

Para os autores, a algumas questões de raiz europeia, como a relação desigual que a França hoje sofre com a Alemanha unificada ou a deslocação do controlo normativo ("em inglês") para Bruxelas, somam-se agora tensões internas de natureza nova que levam à discussão da sua própria identidade, originando, cada vez mais, discursos nacionalistas de raiz protecionista e "autarcista", com crescentes laivos de rejeição de aberturas ao exterior.

Os escritores foram unânimes em considerar que, no fundo, esta "degaullo-nostalgia" pode ser lida como um implícito voto de desconfiança na capacidade dos políticos atuais. Valha a verdade que, cada um convocando os seus fantasmas históricos próprios, a maioria dos países europeus parece sofrerem de um "malaise" similar, face ao qual - e isso é indiscutível - a ideia europeia não tem constituído um bálsamo com um mínimo efeito atenuador. Bem pelo contrário.

Michael Foot (1913-2010)

O Tim Tim no Tibete, atento como sempre a certas memórias, trouxe-me, há pouco, a notícia da desaparição de Michael Foot. Não se deve dizer isto, mas eu pensava que ele já havia morrido.

Não sei a quantos este post possa interessar, dado que Foot, nos dias de hoje, não será muito conhecido. Porém, ele foi uma figura interessantíssima da vida política britânica, que chegou à liderança do Partido Trabalhista, num registo ideológico tão radical que acabou por ajudar a manter o seu partido longe do poder.

Em 1983, o seu programa eleitoral, com 700 páginas, foi crismado por Gerald Kaufmann como "the longest suicide note in history"... Incluía: saída das Comunidades Europeias, desarmamento militar unilateral, nacionalizações várias, subida drástica de impostos, extinção da Câmara dos Lordes, etc. Ficou "à porta" da abolição da monarquia! 

Quase tão ácido como Kaufmann, o conservador Chris Patten chamava a Foot "a kind of walking obituary for the Labour party", o que levou Kempsell à caricatura que abre este post.

Michael Foot teve uma longa e brilhante carreira como jornalista, durante a qual sempre manifestou, de forma enfática, as suas ideias, abertamente tributárias do marxismo, bem patentes nos seus múltiplos e muito bem escritos livros (a sua biografia de Aneurin Bevan é magnífica e dizem-me que a de H.G. Wells também, numa perspectiva política). Como parlamentar, foi um orador notável, tendo estado presente de forma muito ativa em momentos importantes da história do trabalhismo britânico. Foi ministro de Harold Wilson e sucedeu a James Callaghan como líder, durante a chefia conservadora de Margareth Thatcher. A sua vitória arruinou as muito mais fortes hipóteses de Denis Healey chegar a primeiro-ministro, contribuindo assim para o irónico título que este iria ganhar entre os socialistas britânicos: "the best prime minister we never had"... Deixou o partido a Niel Kinnock, o qual começou a abrir caminho à "modernização" que levaria o "Labour" ao poder, com Tony Blair.

Numa nota (concedo) digna da imprensa cor-de-rosa, gostava de dizer que a morte de Foot não ajuda a resolver o eterno "mistério" que atravessa os exegetas da vida íntima da esquerda do trabalhismo britânico: o seu suposto romance de juventude, durante umas famosas férias em França, com a também antiga ministra Barbara Castle, já há anos desaparecida. Quem, como eu, leu há muito as referências feitas por Foot ao facto e as memórias de Castle ficou sem confirmação absoluta desse "affaire", cuja hipotética existência, por si só, pode ajudar a explicar tanto algumas "políticas de aliança" como certos dissídios no seio do "alto" Labour.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Tristeza

Uma análise de duas páginas que o "Libération" ontem trouxe sobre Portugal foi ilustrada pela fotografia de três jovens. Como o texto foca o problema  das condições de precariedade no nosso mercado de trabalho, é natural que as caras não se mostrem sorridentes e bem dispostas - ou melhor, que o jornal tenha optado por fotografias que não contrastassem com o sentido do texto.

Com todo o subjetivismo que esta minha análise possa ter, sou de opinião, porém, que o "Libération" se sentiu subliminarmente tentado a seguir uma ideia estereotipada, que, sobre os portugueses, subsiste no imaginário de muitos franceses: gente grave, de ar sério, um tanto formal e reservada, que às vezes parece "assustada" com o mundo. Como todas as caricaturas, esta minha leitura também vale o que vale.

Ficou-me desde sempre na memória a capa da 2ª edição (ver supra) do livro "Portugal", de Franz Villier, publicado na Petite Planète, a seguir ao 25 de Abril, que figura na imagem. O que nela se vê é revelador: uma jovem portuguesa de ar vagamente suburbano, já com alguns traços de modernidade na discreta maquilhagem, num fundo tradicional, marcada por uma quase endémica tristeza, que a luz ambiente como que sublinha. A graça - se é que isto tem alguma graça - é que a capa da 1ª edição do mesmo livro (ver infra), feita ainda ao tempo do Estado Novo (1957), era igualmente caricatural: uma mulher rural, xaile negro, olhar neutro e parado, com um pálido roxo pascal a atenuar o branco-e-preto original. A rue Scribe, que então controlava a "diplomacia pública" portuguesa em França, tinha feito o seu trabalho...

Comprazemo-nos, historicamente, a contrariar o "les portugais sont toujours gais", da opereta de Lecocq, que foi buscar a imagem a Alphonse Allais, ao espalharmos, como Mariza o canta tão bem
 
"sempre que se ouve um gemido, 
numa guitarra a cantar, 
ó gente da minha terra,                
agora é que eu percebi,
esta tristeza que trago,
foi de vós que a recebi.

Depois, não nos podemos queixar do "Libération"...  


Greve

Uma greve é um gesto coletivo de protesto que resulta do usufruto dos direitos que a democracia a todos concede. Quem a faz fá-lo por razões que considera importantes e, só por isso, essa sua atitude deve ser respeitada e ponderada.

Desde que cheguei a Paris, há mais de um ano, esta é a terceira vez em que a Embaixada quase se esvazia, pelo exercício do direito à greve do pessoal administrativo.

Esta nota não se prende com as razões invocadas, liga-se ao efeito sobre o quotidiano do serviço.

Para quem não tem razões para fazer greve, a Embaixada, nestes dias, muda completamente de perfil, nos seus corredores instala-se um silêncio ou um mero rumor, como que se os passos dos que ficam fossem dados sobre veludo.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Rússia

Ao saudar, protocolarmente, o presidente russo Dmitri Medvedev, nos salões da Mairie de Paris, não pude ontem deixar de me interrogar sobre o que faz com que a França e a Rússia mantenham, desde há muito, uma espécie de fascínio mútuo, que sempre atravessou titulares muito diversos do poder político nos dois países.

Várias explicações de natureza estratégica podem ser avançadas, no quadro internacional de forças das últimas décadas, desde aquelas que têm os EUA na equação até quantas não esquecem o posicionamento relativo da Alemanha. Mas, pela certa, deve haver algo de mais permanente.

Em 2010, França e Rússia levarão a cabo uma imensidão de realizações culturais, para benefício dos respetivos públicos, para um melhor conhecimento das suas realidades e, de caminho, mostrando a grandeza dos seus patrimónios históricos. Pergunto-me se, há exatamente 110 anos, quando Alexandre III ofereceu a Paris a sua mais bela ponte (na imagem) não estaria a ter consciência de que, com esse ato, ajudaria a ligar ainda mais estes dois poderes europeus.

E volto a Medvedev. Os faustos dos Kremlin ou do Hermitage não estão muito distantes dos dourados e espelhos de Versailles e de outros palácios franceses. Por isso, e contrariamente a outros líderes que visitam Paris, pressenti Medvedev, de certo modo, "em casa", nos espaços do Hotel de Ville. Os franceses fizeram a Revolução, mas guardaram bem o património da monarquia e adaptaram a ele as liturgias da República. Os russos liquidaram o regime dos Czars, mas nem Lenine, Staline e os sucessores, tal como o novo poder russo, dispensaram o usufruto e o prestígio decorrente das amenidades imperiais. 

Clima

Claude Allègre é um cientista e político francês que não teme a polémica. Ministro da Educação no governo socialista de Lionel Jospin, saiu em conflito com o setor. Recentemente, foi dado  praticamente como certo que poderia integrar o governo do presidente Sarkozy, mas isso acabou por não ter lugar.

O carácter mais polémico de Claude Allègre advem, contudo, da sua posição altamente reticente em aceitar alguns dos pressupostos vulgarmente avançados sobre o tema do aquecimento global. Não sendo necessariamente um "negacionista", Allègre tem dúvidas sobre o bom fundamento das teorias de relação causa-efeito que estão em moda e, recentemente, expô-las num livro.

Hoje, no "Le Monde" (de amanhã...), sintetiza em cinco pontos o que pensa:

- o painel da ONU designado GIEC (grupo intergovernamental de peritos sobre as alterações climáticas) é culpado por "erros científicos graves" e o seu método de decisão por consenso, que silencia as opiniões minoritárias, é "incompatível com a ética da ciência".

- o planeta pode estar ameaçado de um aumento a 1 ou 2 graus centígrados de temperatura... mas dentro de um século. Mas pode, igualmente, estar ameaçado de uma baixa das temperaturas.

- o CO2 é uma ameaça quando "em excesso", porque acidifica os oceanos e também porque é de boa política economizar as energias fósseis. Mas é errado imputar-lhe todos os males.

- há uma "ideologia do aquecimento climático" promovida pelos ecologistas. É necessário reencontrar, neste tema, as leis elementares do debate científico - aberto, contraditório sem apriorismos.

- em Copenhague, a "rebelião" dos países emergentes ficou a dever-se à recusa de um "neocolonialismo rastejante, encostado a interesses financeiros de que um dos principais porta-vozes é Al Gore", representando um "ecobusiness" que também existe em França.

Este é um debate sobre o qual não tenho conhecimentos que me levem a dar a menor opinião, mas que sigo com interesse. Tenho, contudo, uma curiosidade: há quantos dias terá sido enviado este artigo para o "Le Monde"? Posso estar enganado, mas suspeito que terá sido antes das recentes cheias...

terça-feira, 2 de março de 2010

Mindlin

Recebi, há pouco, a notícia da morte, em S. Paulo, de José Mindlin. Tinha 95 anos e, desde há cerca de quatro, era membro da prestigiada Academia Brasileira de Letras (ABL). Era proprietário de uma fantástica biblioteca, a mais importante coleção privada do Brasil, recheada de preciosidades, as quais, por decisão do próprio e da família, estavam destinadas a ocupar um edifício próprio na Universidade de S. Paulo.

Em 18 de Março de 2006, fui com o professor Jorge Couto, diretor da nossa Biblioteca Nacional, e o meu colega Luis Barreira de Sousa, ao tempo cônsul-geral em S. Paulo, fazer uma visita à biblioteca de Mindlin, guiada pelo próprio. Era uma moradia no bairro residencial de Campo Belo, com uma área climatizada, dedicada aos seus cerca de 40 mil livros raros, manuscritos, provas tipográficas anotadas, gravuras, etc.

José Mindlin era um advogado e empresário, filho de um casal de russos emigrados para o  Brasil no século XIX, que teve a fortuna de sempre ter dinheiro no momento em que outros vendiam coisas importantes. Estava nas "mailing lists" permanentes dos grandes leilões internacionais e, como nos disse, "eles sabem aquilo de que eu ando à procura". Com uma memória vivíssima e sem falhas, ciceroneou-nos por imensas estantes recheadas de alguns documentos únicos, muitos dos quais ligados a personalidades ou tempos da história portuguesa, de que era um apaixonado. Lembro-me dos olhos "gulosos" de Jorge Couto, um dos nossos maiores especialistas em história luso-brasileira, ao avistar algumas raridades, comentando, com pena, a sua ausência no nosso acervo, em Lisboa: "De facto, este não temos lá!"

No fim da visita, de algumas horas, José Mindlin, acompanhado pela sua mulher Guita (que faleceria um ano depois) ofereceu-nos uma cachaça, com a recomendação: "Não deixem de beber cachaça! Enquanto a beberem é sinal que não morreram..."

À despedida, José Mindlin, que mais tarde passei a encontrar nas minhas frequentes visitas à ABL, teve ainda a simpatia de me oferecer, com uma generosa dedicatória, o livro "Destaques da Biblioteca InDisciplinada de Guita e José Mindlin, Vol I - Brasiliana" (haverá um volume II?), que inventaria o mundo maravilhoso dos seus livros e onde figura o ex-libris que usava, extraído de Montaigne: "Je ne fais rien sans gaité". Notava-se.

Aqui deixo a minha comovida homenagem a este homem que deu aos livros um lugar central na sua vida.

"Público"

O jornal "Público" faz 20 anos. Quando apareceu, o diário representou uma lufada de ar fresco no panorama jornalístico português, com uma importância quase similar àquela que o "Expresso" teve nos estertores da ditadura - e não será por acaso que o "Público" foi criado por gente saída do "Expresso". O "Público" passou a ser o nosso "Le Monde", o nosso "El País", o nosso "La Reppublica". Era, manifestamente, era um corte cultural com a prática de imprensa diária em que, até aí, Portugal tinha vivido.

Sempre tive no "Público" pessoas que mereceram a minha estima e amizade, ao longo destas duas décadas em que, com as limitações da distância, acompanho regularmente o jornal. Devo ao "Público" a simpática atenção que deu às diversas atividades que desenvolvi, em todo o tempo do seu percurso. Nele publiquei  vários artigos, por ele fui entrevistado algumas vezes. A todos os meus amigos do "Público"-  mesmo àqueles que dele se afastaram há muito, como é o caso do seu fundador e idealizador, Vicente Jorge Silva - deixo aqui um forte abraço coletivo de parabéns. Por muita água que tenha corrido sob as pontes, por muito que o "Público" tenha mudado, uma  realidade é indiscutível: há uma imprensa portuguesa antes do "Público" e outra depois da sua aparição.

Dos depoimentos que o jornal pediu a personalidades de grande relevo na vida portuguesa, e que tem vindo a divulgar no seu site, há um que quero destacar em particular, o do meu amigo e embaixador português junto da OCDE, Eduardo Ferro Rodrigues. Concordo, em absoluto, com tudo o que ele disse, a propósito destes 20 anos do "Público".

Imigrantes

Um grupo de ativistas pelos direitos dos imigrantes lançou em França um movimento sob o lema "24 horas sem nós: um dia sem imigrantes". A ideia era simples: organizar, no dia 1 de Março, uma greve de imigrantes neste país, com vista a dar uma imagem de quanto a economia do dia-a-dia francês deles depende.

Não tenho conhecimento do grau de sucesso da iniciativa e até duvido muito que ela se tenha concretizado de forma visível. Os imigrantes são, entre todos os assalariados, aqueles que, por regra, têm maior precariedade no seu vínculo laboral, vivem numa dependência económica que os torna presas fáceis do seu patronato e, finalmente, raramente têm uma consciência política capaz de os conduzir a ações reivindicativas desse género.

Esta iniciativa tem, pelo menos, o considerável mérito de nos levar a uma reflexão: o que seria das sociedades europeias contemporâneas sem o trabalho dos imigrantes?

segunda-feira, 1 de março de 2010

Telejornais

Impressiona-me imenso a incapacidade dos canais televisivos portugueses para limitar a extensão dos seus telejornais. Não sei o que se passa na generalidade dos países do mundo, mas, em todos quantos vivi, os períodos noticiosos das televisões de referência têm sempre uma duração bem limitada, raramente excedendo os 30 minutos.

A adoção rigorosa desse modelo ajuda a priorizar a importância das notícias, facilita a que o tratamento dos temas seja feito com sintetismo e limita aquelas palavrosas ligações "ao local", onde os repórteres apenas repetem o conteúdo das peças, alimentam os "manifestantes das oito" ou dão voz a transeuntes que pouco viram. 

O que mais impressiona nos telejornais portugueses é a total ausência do conceito de "tempo", o qual, aparentemente, é um bem muito escasso em televisão. Muitas vezes, num debate temático, os moderadores interrompem, com facilidade, uma exposição interessante, por falta de um minuto disponível. Porém, num telejornal, um acidente de estrada ou um incidente desportivo tem direito a longo tratamento, com pormenores e comentários cheios de inanidades perfeitamente dispensáveis. O que mais me preocupa é que, pelos vistos, toda a gente acha isto natural...

Este meu comentário vem a propósito do profissionalismo com que ontem vi tratada, ao longo do dia, na televisão francesa, a imensa tragédia provocada pela tempestade, que aqui causou largas dezenas de vítimas. Cada telejornal dos principais canais da televisão francesa, públicos e privados, não alterou o seu formato de meia-hora, tendo, no entanto, tratado o assunto com profundidade, em peças curtas, com notas humanas,  diretos breves e concisos, opiniões de especialistas e - muito importante! - com escassíssimas e muito curtas declarações de entidades oficiais. Tudo isto sem deixar de referir outros temas da actualidade francesa e mundial. E, repito, apenas em 30 minutos.

Tragédia

Depois da Madeira, também a França foi ontem alvo das intempéries, com um número de vítimas mortais a ascender a cerca de meia centena.

O que se torna impressionante é que, contrariamente ao caso da Madeira, esta tempestade estava prevista e as previsões acertaram nas regiões que seriam mais atingidas. A França é, além disso, um país altamente organizado e tinha montado um dispositivo de alerta nacional, normalmente bastante eficaz. Não obstante, a violência do clima ultrapassou tudo o que era possível esperar.

Ontem à tarde, na catedral de Notre-Dame de Paris, onde o cardeal André Vingt-Trois teve a simpatia de dedicar uma missa às vítimas da Madeira, num gesto para com a comunidade portuguesa que pessoalmente lhe agradeci, as palavras do celebrante e o pensamento das largas centenas de presentes alargaram-se naturalmente aos acontecimentos da própria França e, também, ao fatídico terramoto no Chile.

Uma semana para esquecer. Ou melhor, para lembrar.