domingo, 28 de fevereiro de 2010

Águas de Março

No início deste mês, em que esperamos que as águas abrandem a sua fúria, ouçamos estas  "Águas de Março" de Tom Jobim pela voz mágica de Elis Regina.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Títulos

Diverte-me analisar a construção dos títulos na imprensa. Os livros sobre jornalismo estão cheios de conselhos sobre a matéria, mas a realidade é que é a imaginação e a qualidade do tratamento do assunto que contam.

Alguma imprensa francesa, especialmente a menos convencional, procura explorar jogos de palavras e, muitas vezes, surpreende pelo brilhantismo. Outra, à revelia de belos tempos do passado, tem a "graça" de uma primeira página do "Novidades", de "A Voz", do "Diário da Manhã" ou do "Diário de Notícias" do tempo do (também) meu antecessor  neste posto, Augusto de Castro (para quem saiba o que esses jornais significavam).

Um bom título é um chamariz importante e já tenho visto crónicas, antecedidas de uma frase apelativa, na qual o autor começa por confessar que usou o título apenas para atrair o leitor, não tendo o texto nada a ver com ele...

Dizia-se que alguns jornalistas do semanário "O Independente", que marcou uma época na imprensa em Portugal, inventavam belos títulos e, depois, iam à procura de um assunto para encher a notícia.

Sendo que o rigor jornalístico parece hoje algo minoritário ou arqueológico, assistimos cada vez mais a verdadeiros atentados à deontologia. Um dos truques correntes consiste em transformar uma resposta de sim ou não, dada a uma pergunta inesperada e às vezes tonta e decontextualizada, num título, com uma frase que não foi, de facto, dita.

Querem um exemplo? Pergunte-se, por exemplo, ao presidente da TAP, se já voou numa companhia "low cost". Com toda a certeza, o engº Fernando Pinto  irá responder "não". Conheço pelo menos um certo jornal português que, sem a menor dúvida, iria puxar para título "Nunca viajei numa 'low cost'", com tudo o que isso tem de subliminarmente negativo. É isto sério? Não é, claro.

Mas há muitos outros "golpes". Um dia, em outras funções, dei uma longa entrevista a um jornal cuja seriedade era para muitos duvidosa. Apenas fui convencido por conhecer o jornalista, em cujo profissionalismo confiava. A entrevista correu bem e, se bem me lembro, o texto ficou irrepreensível. Mas nem tudo iria correr bem com essa entrevista. A certo passo, o jornalista perguntou-me se Portugal não pagava demasiado para o orçamento da União Europeia. Esclareci, num tom académico, que os países contribuíam de acordo com o seu PNB (produto nacional bruto), isto é, de acordo com a sua riqueza. Foi então que cometi um erro, ao ousar acrescentar uma ironia: até gostaríamos de pagar bem mais, porque isso significaria que éramos um país mais rico. O inevitável aconteceu: tive "direito" a primeira página, com grande fotografia, e a "citação": "Queremos pagar bem mais para a Europa!". Imagino a cara dos leitores...

Tours

Ontem, em Tours, onde fui ao lançamento de um "Portuguese Business Club" e encontrar um ativo setor da nossa comunidade, comentei com o "maire" da cidade, Jean Germain, um bom amigo de Portugal e dos portugueses, a beleza da sala da "Mairie" onde estávamos. 

Para minha imensa surpresa, disse-me ser aquele exatamente o local onde Léon Blum havia proferido o seu famoso "discurso de Tours", em 27 de Dezembro de 1920.

Num instante, confrontei-me com a memória daquele que é talvez o grande "separar de águas" entre socialistas e comunistas. O "discurso de Tours" é considerado uma das peças políticas mais relevantes do século XX, porque foi através dele que o chefe socialista marcou o seu afastamento face às ideias de Lenine e a sua rejeição em aderir à III Internacional (Internacional Comunista), o que conduziu à melhor definição de uma linha democrática dentro do socialismo francês, que acabou por ter consequências muito importantes em todo o mundo. Com o "discurso de Tours", Blum ajudou a abrir um caminho autónomo, em termos de prática política com efeitos na governação, a uma corrente de pensamento que viria a ser determinante a partir de então e que, em França, daria aos socialistas a autoridade para poderem lançar, com os comunistas, o "Front Populaire" e, muitos anos mais tarde, o "Programme Commun". 

Quem vive em França corre o sério "risco" de encontrar a História pelas esquinas do quotidiano.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Madeira

É um gesto de grande simpatia, para com Portugal e a nossa comunidade em França, aquele que foi anunciado pelo cardeal André Vingt-Trois, arcebispo de Paris, ao promover, na catedral de Notre-Dame, pelas 18.30 horas de domingo, dia 28 de Fevereiro, uma missa pelas vítimas da tragédia da Madeira.
 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Marcello Mathias

A propósito de uma troca de comentários sobre os diplomatas e a escrita, suscitado pelo anterior post sobre Eça de Queirós, lembrei-me de anotar aqui hoje a figura de um meu predecessor neste posto, o embaixador Marcello Mathias (1903-1999).

Em 1973, surgiu nas livrarias de Lisboa um romance, editado pela Bertrand, com o título "Lusco Fusco", assinado por Pablo la Noche. A obra tinha uma real qualidade literária, apoiada numa escrita culta, um tanto nostálgica, mas com passagens de uma vivacidade inesperada. Foi bem acolhida pela crítica e viria a obter um prémio literário. Veio então a saber-se que o autor era, nem mais nem menos, o embaixador Marcello Mathias, o que suscitou grande curiosidade. Mais tarde, o romance veria a ser editado em França pela Robert Laffont, onde ganhou também um prémio literário, já com o nome verdadeiro do autor e tendo por título o pseudónimo utilizado na edição portuguesa: "Pablo la Nuit". Em Portugal, foi recentemente reeditado pela Quetzal.

Marcello Mathias é uma das grandes figuras da diplomacia do Estado Novo. Muito próximo de Salazar, seria por este convidado para o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, função que exerceu entre duas estadas como embaixador em Paris, cidade onde permaneceu mais de duas décadas. É do maior interesse para a história contemporânea o livro que publicou sob o título "Correspondência Marcello Mathias/Salazar (1947/1968)". Num registo de curiosidade, por ele se fica também a saber algo mais do propalado romance sentimental entre o ditador e a jornalista francesa Christine Garnier.

Deve muito à habilidade e inteligência diplomática de Marcello Mathias o resultado favorável da  complexa negociação que permitiu a ida para Portugal do valiosíssimo espólio artístico que Calouste Gulbenkian possuía em Paris, uma tarefa para a qual contribuiu a sua grande influência junto do poder político francês da época. O facto muito excepcional de, como embaixador, ter recebido das autoridades francesas a Grand-Croix de la Légion d'Honneur diz muito. 

Há já uns bons anos, num jantar algures no mundo, ao lado de um dos seus filhos, o também meu predecessor em Paris, embaixador Leonardo Mathias (outro filho, Marcello Duarte Mathias, é um consagrado escritor e também embaixador), Manuela Margarido, à época representante diplomática de S. Tomé e Príncipe em Bruxelas, contou uma história curiosa. Com várias peripécias interessantes, Manuela - uma personalidade  notável, infelizmente já falecida - revelou que fora graças a uma intervenção de Marcello Mathias que, um dia, conseguira evitar ser presa pela PIDE.

À conversa, estavam presentes dois jovens governantes da mesma geração política, um português e outro estrangeiro. Ambos partilharam uma forte e quase jocosa surpresa pelo facto de um dignitário do anterior regime se ter recusado a ser cúmplice de uma arbitrariedade. Talvez porque não percebessem que, sendo embora um fiel "da situação" - como se designavam os apoiantes do regime -, Marcello Mathias era um homem que havia já tido um papel importante na libertação de Alain Oulman, o compositor francês de Amália, das cadeias do regime.

Na troca de palavras que se seguiu, para além de terem provavelmente entendido que as voltas da vida não são tão lineares como as lógicas das ideologias, só posso dizer que os dois governantes aprenderam algumas coisas sobre a dignidade, coisa que o exercício episódico do poder nem sempre ensina.

Eça

Há mais de três décadas, uma editora oficial que oferecia os livros que publicava (é verdade, havia disso!), chamada "Terra Livre", deu à estampa as "Imagens do Portugal Queirosiano", de um (até então) para mim desconhecido A. Campos Matos. Vim a saber tratar-se de um arquiteto que se dedicava ao estudo de Eça de Queirós (um "queirosiano", como de diz em Portugal, ou um "ecista", como se diz no Brasil). A partir daí, adquiri tudo quanto Campos Matos publicou, incluindo as duas edições e o suplemento do magnífico "Dicionário de Eça de Queirós", que coordenou.

Surge agora, editado em Paris, da autoria de A. Campos Matos, pela mão das "Editions de la Différence", com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, o livro "Vie et Oeuvre d'Eça de Queiroz". Trata-se não apenas da primeira das (até agora) oito biografia existentes do escritor que surge em língua francesa mas, igualmente, da primeira cuja edição original é aqui publicada.

Os interessados em adquirir o livro devem ter alguma calma. É que, segundo a Amazon, ele só estará disponível no dia 4 de Março. Perdoarão, no entanto, que este "colega" mais novo do antigo cônsul português em Paris usufrua o privilégio de já dispor de um exemplar...

Na impossibilidade de mostrar uma imagem razoável da capa do livro, fica, pelo menos, a clássica fotografia que a ilustra, onde o nosso Eça figura no seu jardim em Neuilly.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Esquina

Ao passar, hoje à tarde, por um "bistrot" francês de esquina, cheio de movimento e barulho, veio-me à memória este fantástico quadro de Edward Hopper - "Nighthawks".

(Tal como uma amiga que hoje me escreveu, também eu fiquei um dia "pregado" ao chão, por largos minutos, no "The Art Institute of Chicago", ao ver este quadro).

Com Rothko e com o "nosso" Hogan, Hopper faz parte do trio dos pintores cujas obras me tentam à ruína.

Em tempo: ao passar por aqui, vejo que houve mais quem hoje lembrasse Hopper.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Espanha e Portugal

É reconfortante, embora seja apenas uma declaração de meridiana justiça, ouvir o presidente do governo espanhol, José Luis Zapatero, elogiar a cooperação portuguesa na luta contra o terrorismo que ainda assola a Espanha.

Ao longo de muitos anos, os sucessivos executivos portugueses têm revelado uma postura exemplar na sua atitude perante as ameaças colocadas pelo terrorismo à democracia espanhola. Portugal tem sempre manifestado um profundo respeito pelo esforço desenvolvido pelas autoridades espanholas no sentido de erradicarem os desafios que os grupos terroristas colocam à liberdade constitucional espanhola, independentemente dos partidos políticos que têm titulado o poder eleito em Madrid.

A Espanha é uma grande democracia que tem sabido compatibilizar a sua diversidade, nomeadamente expressa nas diversas autonomias, com a manutenção de um modelo político assente num escrupuloso respeito pelas variadas expressões ideológicas, num registo de acção que, sem excluir uma forte tensão ideológica, preserva e promove os valores essenciais do Estado de direito.

Com particular ênfase após a entrada comum para as instituições europeias, Portugal e a Espanha têm aculturado uma relação de entendimento que pode hoje considerar-se exemplar. Soubémos encontrar soluções mutuamente aceitáveis para problemas como o dos rios partilhados, para a temática da pesca em áreas de fronteira ou para o sensível tema dos comandos da NATO, entre muitos outros. Na Europa, continuamos a desenhar, dia após dia, um sereno terreno de conjugação de esforços, que se prolonga nas instituições multilaterais onde a nossa cooperação e complementaridade são evidentes.

O destino de Portugal e de Espanha, como nações diferentes que cultivam a sua identidade muito própria, joga-se no quotidiano. Temos uma intensa interação económica e empresarial, com vantagens mútuas, agora infelizmente afetada pela crise que ambos sofremos. Porque partilhamos os mesmos valores, porque nos revemos nos mesmos princípios, temos estado muito à vontade para trabalhar no combate a flagelos como o terrorismo ou a criminalidade organizada. A Espanha sabe que pode contar conosco, da mesma forma que nós temos a certeza de que a Espanha comunga as nossas preocupações na preservação do modo como as suas questões securitárias são tratadas, à luz do pleno respeito pelos Direitos Humanos e pela preservação de um quadro institucional respeitador da dignidade da pessoa humana, na observância estrita dos parâmetros constitucionais e da ordem jurídica própria de cada país.

A magnífica relação entre Portugal e a Espanha é uma grande conquista que ficamos a dever, simultaneamente, à democracia e à Europa. E, vale a pena sublinhá-lo, é consequência da consciência comum de que hoje alimentamos uma sã cultura de vizinhança, que é uma riqueza de que ambos os povos se devem orgulhar.

Parques

Há dias, num parque de estacionamento de Paris, reparei que o som ambiente eram passarinhos. Tempos mais tarde, noutro espaço idêntico, verifiquei que tinha sido aplicado um "spray" com agradável cheiro a flores. Noutro ainda, emprestavam aos clientes guarda-chuvas, cestos para compras e até bicicletas!

Aos preços exorbitantes que por aqui são praticados, um destes dias ainda vamos ter direito a uma refeição incluída...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Línguas

O bom conhecimento de línguas estrangeiras era um requisito que, no passado, nos habituámos a esperar do pessoal de bordo, nos voos internacionais. Se bem me lembro, a TAP era nisso um bom exemplo. Verifico agora que tais hábitos se foram perdendo...

Numa deslocação a Portugal, no passado fim de semana, fui confrontado com uma intervenção em francês, através dos altifalantes do avião, que me deixou estupefacto, pela pobreza da pronúncia daquilo que estava a ser lido e pela inenarrável construção lexical das frases que penosamente eram improvisadas. Já não é a primeira vez que testemunho cenas idênticas, razão por que entendi dever referir o caso aqui.  

Não seria possível haver uma horas (mais) de formação em língua francesa do pessoal de bordo da TAP que presta serviço nos voos para este país? 

Havia um antigo ministro do Estado Novo que, para justificar a sua escassa apetência para as línguas estrangeiras afirmava que elas se deviam falar "patrioticamente mal"*. Alguns dos seus colegas no período democrático, que muitos conhecemos, seguiram com zelo as pisadas deste governante.

A TAP, contudo, é um negócio e é pena vê-lo "poluído" por deficiências de formação de recursos humanos, que se tornam ainda mais chocantes num mercado que a companhia pretende e deve seduzir.

* ver comentário

Madeira

Num corredor do aeroporto de Orly, ao final da tarde de ontem, caminhava lado a lado com um cavalheiro francês, de chapéu de palha com uma fita que dizia "Madeira". Não resisti e perguntei-lhe se vinha do Funchal. Assim era e acrescentou: "É um povo magnífico.  Vou lá há muitos anos. E volto para o ano!"

A Madeira merece e bem precisa da fidelidade de todos os seus amigos.

Por que não visita a Madeira nas suas próximas férias?

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Gazza

Numa tarde de Maio de 1991, rumei ao mítico estádio de Wembley, hoje desaparecido, para ver uma final da Taça de Inglaterra, entre o Tottenham e o Nottingham Forest. Quem não gosta de futebol deve ter dificuldade em compreender a emoção que representava assistir a uma "cup final" em Wembley, que a rotina da imprensa desportiva sempre qualificava como a "catedral" londrina do futebol mundial.

O Tottenham - os "spurs", como se diz no jargão - acabaram por ganhar o jogo, mas a minha curiosidade em ver atuar aquela que era uma das maiores estrelas do futebol britânico da época ficou frustrada, logo no início da partida: Paul Gascoigne, "Gazza", lesionou-se gravemente nos primeiros minutos de jogo (na imagem, de branco, Gascoigne comete a falta em que se lesionou).

Ao assistir a esse incidente, não pressenti que estava a testemunhar o início do fim de um mais talentosos jogadores da história do futebol inglês. Desde esse dia, Paul Gascoigne nunca mais foi o mesmo. A sua recuperação não foi completa, a sua vida errática por vários clubes foi marcada por um trajeto de drogas, álcool, episódios policiais, conflitos amorosos e dissidências familiares. Ontem, num jornal, li que Gazza é hoje um sem-abrigo, que procura a caridade pública.

De certa maneira, Gascoigne teve um destino similar ao de outras estrelas cadentes que o futebol produz, como foi o caso de George Best e, entre nós, de Vitor Baptista.

Vale de Almeida

João Vale de Almeida, um português que era até há pouco diretor-geral das Relações Externas da Comissão Europeia, foi nomeado representante da União Europeia em Washington, com a categoria de embaixador. Este é, sem a menor sombra de dúvida, o mais importante posto de representação externa da União. Muitas pessoas saudaram esta nomeação e sublinharam a justiça da mesma. Com efeito, Vale de Almeida é um dos mais competentes funcionários portugueses nas estruturas europeias e, também sem a menor dúvida, merece este posto e vai fazê-lo com a elevada qualidade profissional a que já nos habituou, em todas as funções que antes desempenhou.

Isso não significa, contudo, que considere isto uma boa notícia. E embora lamentando muito, não acompanho o coro nacional de satisfação pelo novo destino de Vale de Almeida.

A colocação de Vale de Almeida em Washington é um duro golpe para o equilíbrio interno do Serviço Europeu de Acção Externa (SEAE), o "ministério dos Negócios Estrangeiros" da Europa, dirigido pela sra. Ashton. O facto de ele não ter transitado do lugar que ocupava para a coordenação do SEAE é uma objetiva derrota da Comissão Europeia e representa a prevalência dos "powers that be" no seio da nova relação interinstitucional potenciada pelo Tratado de Lisboa. Assim, repito, a honrosa designação de Vale de Almeida está muito longe de ser uma boa notícia.

Em tempo: leia-se isto.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Diplomatas

A revista "Sábado" traz esta semana uma nota sobre os concursos de admissão à carreira diplomática, na qual um colega meu, co-responsável por esses exames, dá conta de confrangedoras lacunas de cultura geral de muitos dos candidatos.

O panorama é sempre o mesmo. Grande parte dos licenciados que se apresentam a concurso, para além de revelarem um muito fraco domínio da língua portuguesa, demonstram uma ignorância patética em áreas culturais básicas, muitas vezes somada a um estranho desinteresse pelas questões de política internacional da atualidade. Valha-nos o facto de que, lado a lado com este tipo de candidatos, aparecem sempre outros de grande qualidade.

Fiz já parte do júri desses concursos, há mais de 15 anos, e recordo-me da nossa surpresa ao depararmo-nos com casos similares. Tenho imensas histórias que só não acho divertidas porque são uma trágica ilustração da pauperização em que caiu o ensino e a formação cultural da nossa juventude. Recordo apenas uma. 

Um dia, na chamada "prova de apresentação", durante a qual o candidato conversava com três examinadores sobre vários temas, perguntei a um deles qual o último livro que tinha lido. Sem qualquer rebuço, disse-nos: "Para falar verdade, nunca li nenhum livro completo. Na faculdade, só líamos páginas ou capítulos de livros, em fotocópia". Assim, não vamos lá...  

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Virgem Suta

Reconheço que o nome do grupo é estranho, como estranho pode parecer o seu som. Porém, na linha de um certo estilo de nova música portuguesa que me parece interessante que seja conhecida, aqui lhes deixo o link para o "Linhas Cruzadas" do Virgem Suta.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Censura

Com o tema da censura a ser suscitado por aí, falemos do tempo em que ela existia.

A censura, no tempo do Estado Novo, era uma atividade que o regime tinha colocado nas mãos dos militares. Em Lisboa, eram famosos os "coronéis" que, dia-a-dia, se dedicavam a assinalar, a lápis azul, aquilo que, nos textos da imprensa, entendiam como podendo ofender os seus mestres ou os costumes oficialmente protegidos.

Na província, a "Comissão de Censura" (depois, com Marcelo Caetano, passou ao eufemismo de "Exame Prévio") tinha também os seus militares. Em Vila Real, era o  velho capitão Medeiros.

No final dos anos 60, já na universidade, comecei a publicar alguns artigos em "A Voz de Trás-os-Montes", um jornal local ligado à diocese, que ainda existe. Iniciei-me na escrita desportiva mas, na "primavera marcelista", ousei entrar pela política interna. Os textos eram muito rebuscados, cheios de duplas leituras, só acessíveis a alguns "happy few", um pouco à moda do que então lia no "Diário de Lisboa", no "República" ou na "Seara Nova". Agora, ao revê-los, fica patente a sua total inocuidade, garantida pelo reduzidíssimo número de potenciais leitores, afastados pelo caráter quase impenetrável da escrita. 

Por uma ou duas vezes, o capitão Medeiros ironizou com o meu Pai sobre as minhas "ideias avançadas", expressão para designar tendências esquerdistas que pressentia nas entrelinhas. Ao diretor do jornal, o padre Henrique Maria dos Santos, o nosso censor local passou também algumas mensagens de aviso, no sentido de eu me "deixar de espertezas". Lá fui, contudo, continuando a escrever, com algum cuidado mas sempre sem grandes obstáculos. Aliás, o capitão Medeiros deve ter ficado menos preocupado quando, a partir de certa altura, passei a dedicar-me apenas a temas de política internacional. Até um dia!

O tema era a Rodésia e eu analisava os problemas entre o Reino Unido e o independentismo branco de Ian Smith, bem como as polémicas entre a ZAPU e a ZANU. O texto era algo hermético, com muitos e dispensáveis detalhes, que eu tinha bebido na imprensa internacional. (Com os diabos! Só temos 20 anos uma vez!)

Uma tarde, o capitão Medeiros encontrou o meu Pai na rua Direita, esse eixo de Vila Real, e deu-lhe os parabéns: "Parece que o seu filho está a entrar no bom caminho! Escreveu um bom artigo sobre a Rodésia!". O meu Pai, que ainda não tinha lido o texto, conhecendo-me bem, estranhou, mas agradeceu o elogio.

Dias depois, o diretor do jornal, à porta da Gomes (essa pastelaria mítica da cidade), disse-me: "O capitão Medeiros está furioso. Afirma que você o enganou com o texto sobre a Rodésia. Levou uma advertência dos serviços centrais da censura, em Lisboa. Já me disse que, por este caminho, não o deixa publicar mais nada".

O que acontecera? O pobre do capitão Medeiros deixara-se "enrolar" nas minhas considerações e, em especial, permitira a última e fatal frase que eu incluíra no texto: "Ou muito me engano ou a Rodésia tem à sua frente um futuro negro". 

A quatro décadas de distância, eu estava longe de imaginar que, por detrás da procurada ambiguidade da minha frase, acabaria por residir uma triste e insuspeitada presciência...

Botul e Crabtree

A vida intelectual francesa tem andado divertida com a polémica em torno de Jean-Baptiste Botul. Na mais recente obra do filósofo Bernard-Henry Lévy, "De la Guerre en Philosophie", o autor cita, a certo passo, as conferências proferidas por aquela figura aos neokantianos do Paraguai, a seguir à Segunda Guerra Mundial. Lévy já havia usado excertos de Botul numa conferência na Ecole normale supérieure, em 2009.

O facto é que Botul é uma figura inventada, criada em 1995 por um jornalista do satírico Canard Enchainé. O filósofo caiu na esparrela e agora, mais do que das 1340 páginas do livro, só se fala de Botul. Conviremos que é uma grande ingenuidade acreditar na existência de uma massa crítica de neokantianos no Paraguai! Pensando melhor: talvez houvesse alguns, entre refugiados centro-europeus da época...

Vem esta evocação a propósito - ou a despropósito - de um jantar que hoje terá lugar no University College, em Londres, reunindo os cultores da memória de Joseph Crabtree. Desde 1954, existe na capital britânica a Crabtree Foundation,  que congrega um grupo de cerca de 400 cidadãos que, uma vez por ano, na terceira quarta-feira de Fevereiro, se reúnem, num solene jantar de "smoking", para ouvir um deles falar de um dos diversíssimos aspetos das extensas vida e obra de Crabtree.

Segundo os anais, Crabtree viveu exatamente um século - de 1754 a 1854. O seu percurso é o de um personagem quase renascentista, tendo sido escritor, viajante, político e uma multiplicidade de coisas mais, como os tempos recomendavam. Poemas por si assinados apareceram publicados em antologias de poesia inglesa. A admiração por este destino de eleição levou à gestação de um verdadeiro culto intelectual, a que eu próprio acabei por não ser insensível. Desde 1992, passei a ser um dos "scholars" estrangeiros da Crabtree Foundation, para onde entrei então pela mão do Bartolomeu Cid dos Santos, com quem lancei as bases, com o Helder Macedo e o Luis de Sousa Rebelo, do "Portuguese chapter", que, há uns anos, realizou no Hotel Lawrence, em Sintra, um encontro dedicado a "Crabtree e Byron". De Lisboa, Nova Iorque, Viena e até de Brasília,  tenho procurado deslocar-me, com regularidade, aos jantares anuais em Londres. No ano passado, fui aqui de Paris. Hoje, só o não faço por total impossibilidade de agenda. Crabtree - "the great Man", como é saudado no brinde inicial, que anualmente é feito em frente do seu retrato (na imagem) - e a sua fantástica obra merecem-no bem.

O leitor, menos familiarizado com estas coisas, talvez ainda não conheça Joseph Crabtree. Por isso, se estiver interessado, pode ler as "The Crabtree Orations", vol I (1954-1994) e vol II (1995-2004), ed. Brian Bennett & Negley Harte, The Crabtree Foundation, London, 1997 e 2004. Um pequeno, quiçá despiciendo, pormenor, que talvez me tenha escapado de referir: Joseph Crabtree nunca existiu. A sua vida e obra têm sido criadas pela conferências que sobre ele se produzem.


Em tempo: sobre este assunto, ler a crónica de Ferreira Fernandes no Diário de Notícias sob o título "Da mentira como obra de arte".

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Verificação de palavras

Dado que este blogue tem sido objeto de ataques de spam (alguma vez havia de ser...), peço aos leitores que, pelo menos por algum tempo, tenham a paciência de preencher a irritante identificação de letras antes de publicarem os seus comentários.

Ídolos

Sou geralmente muito cético em relação à valia dos programas de televisão através dos quais emergem novas "estrelas" da música. A experiência mostra que, com escassíssimas excepções, esses jovens ídolos acabam por constatar que a vida na música profissional é muito mais incerta e precária do que o sonho que alimentaram e pelo qual muitos abandonaram, entretanto, os estudos.

Porque o último "ídolo" eleito, Filipe Pinto, é um estudante de engenharia da UTAD, a universidade a cujo Conselho Geral presido, faço uma pausa no meu ceticismo e aqui lhe deixo um sincero voto de grande sucesso. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Vitor Constâncio

Vitor Constâncio acaba de ser escolhido para vice-presidente do Banco Central Europeu. 

Esta é uma nomeação que começa por honrar o próprio, porque representa o reconhecimento internacional do seu elevado prestígio e das suas qualificações. 

Mas esta ascensão de Vitor Constâncio é, do mesmo modo, algo de que Portugal se deve orgulhar, por ver um seu antigo ministro das Finanças e governador do seu banco central selecionado entre diversas personalidades da "fina flor" da banca europeia, para aquele que é o "board" decisivo para a gestão da moeda única.

Fugindo um pouco a regras que impus a mim mesmo neste blogue, devo dizer que acho tristes, mesquinhos, lamentáveis e sectários alguns comentários negativos que se ouviram, e ouvem, na pátria de Vitor Constâncio, tanto agora como no período que antecedeu esta sua eleição. Como já achei o mesmo no tocante à nomeação de Durão Barroso para a presidência da Comissão Europeia, não obstante a aberta posição contrária de alguns amigos meus. 

Julgo que não será por acaso que a última palavra do poema que melhor nos caracteriza, Os Lusíadas, é "inveja".

OqueStrada

Por vezes, há novas sonoridades musicais portuguesas que a vida no estrangeiro só nos permite conhecer com algum atraso. 

Tinham-me falado, já há meses, nos OqueStrada, um grupo que pratica uma música com uma curiosa mescla de influências. 

Numa saltada a Lisboa, procurei o seu disco. Estava esgotado na Fnac do Chiado e só o obtive no El Corte Ingles.

Valeu bem a pena. Conheçam-nos aqui.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Grécia

A resposta europeia à crise grega, assumida no último Conselho Europeu, deve ser lida como uma primeira tentativa no sentido de acalmar os mercados e procurar testar até que ponto estes são, ou não, sensíveis a uma manifestação de solidariedade política dos parceiros, a qual, por ora, tem muito de retórica. É por esta razão que só os próximos dias poderão dizer se o PM grego Georgios Papandreou estava certo quando a qualificou como uma reação "tímida".

A Europa do euro cedo percebeu que a crise grega, tendo em si dimensões nacionais muito específicas, se pode transformar numa grave "infeção" da zona da moeda comum. E esse é um cenário que não interessa a ninguém - a começar na Alemanha e a acabar em Portugal.

A Alemanha não prescindiu do marco para ter de viver com uma moeda instável. Os fantasmas dos tempos de Weimar nunca desapareceram em Berlim. Quando o ministro dos Finanças alemão, Theo Weigel, impôs, nos idos de 1997, o seu discutível pacote de "critérios de convergência", o objetivo era, precisamente, "blindar" a nova moeda do potencial laxismo de países como a Grécia ou Portugal. A suprema ironia foi que, anos depois, a Alemanha e a França iriam estar entre os primeiros países a ultrapassar essas mesmas metas quantitativas...

Para um país como Portugal, a crise grega, bem como o modo como a ela a Europa reagir, não é de todo indiferente. É que sendo a Grécia, neste conjuntura, o elo mais fraco do tecido monetário europeu, com indicadores bem mais gravosos que os nossos, a verdade é que, num cenário piorado de crise, Portugal surgirá inevitavelmente na linha de fogo, como um dos alvos seguintes. Por isso, e mesmo que não houvesse outras razões - e elas existem, no plano político e estratégico -, a resolução favorável do problema grego é-nos muito importante.

Comecei por dizer que à eventualmente "tímida" atitude europeia do último Conselho Europeu vão seguir-se, se necessário for, outras medidas. Por isso, e por ora, estamos perante um mero "deitar o barro à parede", para ver se as coisas podem ficar por aqui. É que a fragilidade do caso grego não interessa a ninguém e os ministros das Finanças do Eurogrupo sabem que têm ao seu dispor algumas outras armas para reagir, se acaso, como muitos receiam, os mercados se não contentarem com o discurso político que há dias saiu de Bruxelas.

É no quadro destas novas medidas, que podem vir a tornar-se necessárias, que tem condições de germinar uma nova doutrina para a gestão económica da Europa, para a criação de um "governo económico europeu" que alguns líderes reclamam, por ora ainda sob forte ceticismo da Alemanha.

Um país como Portugal tem todo o interesse em ver esse projeto florescer. De certo modo, ele acabaria por ser um movimento compensatório daquilo que parece desenhar-se como o enfraquecimento da Europa comunitária, isto é, de um projeto que tínhamos por muito favorável, com a Comissão Europeia no seu centro propulsor. Se a "outra" Europa que o Tratado de Lisboa parece consagrar, marcada por um forte pendor intergovernamental, conseguir gerar um tecido comum mais sólido, em matéria de políticas económico-financeiras, talvez alguns tenham de rever algumas leituras recentes, e menos favoráveis, sobre os caminhos por onde a União Europeia atualmente anda. No que me toca, gostaria muito de encontrar razões para o fazer.

Imprensa lusa

É um quiosque na avenue Friedland, junto à Étoile, no topo dos Champs Elysées, bem conhecido dos portugueses que vêm a Paris. Durante anos, em passagens episódicas, era lá que me abastecia de imprensa portuguesa, muito embora os preços fossem, já então, muito elevados. Desde que vivo em Paris, compro sempre aí os nossos semanários.

Os donos do quiosque são um casal bem disposto, que anos de contacto com clientes portugueses já aculturaram, arriscando mesmo algumas palavras na nossa língua, quando se torna necessário sair de algum beco de incompreensão.

Todos os dias, a partir de quatro e meia da tarde, se os aviões não se atrasarem, por lá chegam os pacotes da nossa imprensa. À volta do quiosque, numa cavaqueira que tem como pretexto a espera pelos jornais, está quase sempre, desde há muitos anos, um grupo de mais de uma dezena de portugueses. Para eles, a prioridade são "A Bola", o "Record" e  "O Jogo", como não podia deixar de ser. E alguns jornais diários, em especial daquilo a que os ingleses chamam "popular press". A política doméstica não parece mobilizá-los muito, pelo menos a julgar pela relativa indiferença com que sempre os vejo olharem para o "Expresso", "O Sol", a "Sábado" ou a "Visão".

Este já clássico ponto de encontro lusitano nos Champs Elysées - sempre só homens, claro! - é, as mais das vezes, marcado pelos debates acesos sobre futebol. O forte léxico utilizado nalgumas das conversas convoca um conjunto de expressões de raíz bem popular, coloridos e sonoros plebeísmos que trazem à memória o ambiente das aldeias portuguesas, com os falares diferentes a identificarem bem as regiões de origem. São gente simples, muitos já reformados, que gozam agora as horas livres que justamente ganharam, depois de uma vida dura de trabalho em França.

Liga de Paris

Perseguidos pela ditadura militar, alguns dirigentes republicanos portugueses exilaram-se em Paris, no final dos anos 20 do século passado. Aqui formaram a Liga de Defesa da República, vulgarmente conhecida como a Liga de Paris, de que uma das principais figuras foi Afonso Costa (na imagem).

Neste ano em que se comemora o centenário da República, convidei o professor Fernando Rosas, catedrático da Universidade Nova de Lisboa e diretor do seu Instituto de História Contemporânea, a organizar, na Embaixada em Paris, um colóquio sobre a Liga de Paris. Nomes como os professores Luís Farinha, Cristina Clímaco e Yves Leonard apresentarão também comunicações.

O colóquio terá lugar no dia 14 de Maio. Porque os lugares são limitados, os pedidos de acesso devem ser dirigidos à Embaixada de Portugal em Paris, pelo e-mail  diffusion.ambportparis@gmail.com ou através do espaço de comentários deste post.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Disneylândia

Portugal, Natal de 2009. Perguntou-me onde eu vivia. Disse-lhe e, por reflexo natural, inquiri: "Já esteve em Paris?". A resposta: "Não. Passei lá por perto um vez, "muito de raspão", na ida de dois dias, com o meu filho, à Disneylândia."

Um destes dias, vou mesmo à Disneylândia.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Parlamentos

O Parlamento Europeu votou uma resolução que rejeitou  uma decisão dos 27 Estados membros da União Europeia que permitia aos EUA terem acesso aos dados bancários dos cidadãos europeus e que era destinada a reforçar a luta contra o terrorismo.

Para os defensores da privacidade, trata-se de uma vitória. Para quantos receiam as facilidades que possam ser concedidas às movimentações terroristas, tratar-se-á de uma derrota. 

O tema é  complexo e sério. Para o que aqui importa, apenas gostava de notar que, por uma vez, os Estados Unidos passam a ter de ouvir, da parte da União Europeia, uma resposta semelhante àquela que, desde há décadas, as diferentes administrações de Washington dão aos seus interlocutores externos, aquando de certos compromissos que assumem no plano internacional: "Nós aprovamos, mas falta agora o Congresso concordar". E, muitas vezes, o Congresso não concordou com o que o presidente americano subscreveu, como foi o caso do Acordo de Quioto.

A força do Parlamento Europeu - uma instituição que não corre o risco de ser dissolvida, a meio dos seus mandatos de cinco anos, e que ganhou, com o Tratado de Lisboa, fortes e acrescidos poderes - constitui um dado muito importante, e por ora não muito bem medido, nas novas equações europeias de poder. Casos como este vão, com certeza, tornar essa avaliação mais urgente e conduzir também, com mais rapidez, ao início desse interessante  tema de discussão que é o equilíbrio das suas competências com as dos parlamentos nacionais. Quem pensava que o debate interinstitucional europeu era coisa do passado pode estar certo que se enganou.

Diplomacia

A França e a Irlanda disputam amanhã, para o torneio da Seis Nações em râguebi, um importante jogo. Na memória dos confrontos desportivos bilaterais permanece, contudo, o polémico França-Irlanda em futebol, de há meses, que ditou a qualificação francesa e a exclusão irlandesa para o mundial da África do Sul, depois de uma escandalosa falta não punida. 

Hoje, antes de um almoço de trabalho, o diretor político do MNE francês comentava para o embaixador irlandês: "Estou certo que vai ser um grande jogo". Ao que o meu colega irlandês retorquiu: "E, desta vez, podem estar seguros de que não protestaremos se jogarem com a mão..."

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Conselho Europeu

Há pouco, foi divulgado que o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, propôs que os líderes europeus passem a reunir-se uma vez por mês. Percebe-se o interesse de Van Rompuy nesta proposta, mas confesso que não acredito na sua exequibilidade.

A União Europeia, que já é uma instituição marcada por uma "reunionite" aguda e por alguma "summit fatigue", não tem condições para se transformar numa espécie de governo europeu, com encontros regulares. É fácil a Van Rompuy ir de Bruxelas... a Bruxelas. Porém, obrigar, todos os meses, primeiro-ministros da Estónia, de Chipre ou de Portugal a efetuarem longas viagens aéreas de ida-e-volta, para um encontro de escassas horas, é uma ideia que põe à prova a racionalidade da vida da União Europeia. Ou a sua irracionalidade. 

Lauro Moreira

Chama-se Lauro Moreira. Foi, até há dias, o embaixador brasileiro junto da CPLP.

Há três anos, quando foi para Lisboa, vaticinei, junto de muitos amigos portugueses, que a sua presença entre nós iria ser um sucesso. Enganei-me: foi um imenso sucesso. 

O Lauro é uma grande figura da cultura, um diplomata do afeto (agora, de vez, sem "c"), que soube, como ninguém, trazer o Brasil para a CPLP - e a CPLP nunca será nada sem o Brasil! Acabou agora o seu percurso português, mas ele sabe que "ficou" por Portugal. E, uma vez mais, provou-se que há diplomatas que fazem a diferença.

Um abraço fraterno ao Lauro e à Liana.

Tascas & restaurantes

O surgimento recente, em Lisboa, de algumas "tascas" da moda, com petiscos a preços relativamente moderados, sob a responsabilidade de consagrados chefs de cozinha, trouxe-me à ideia um "princípio" que pode ter alguma validade: em tempo de "vacas gordas", algumas tascas sobem de ambição e transformam-se em restaurantes; em dias de crise, os restaurantes percebem os sinais do tempo e optam por "evoluir" para tascas...

Será assim?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Artigo

Publico hoje diário económico francês "La Tribune" um artigo intitulado "La dette, le Sud et les idées reçues", cujo texto completo pode ser lido aqui.

Uma versão portuguesa do artigo pode ser lida aqui

Sobre o assunto, pode ler também o Expresso on-line.

O chefe

                             
 
O Miranda era um "velho primeiro-secretário". Este conceito "de corredor", por esses anos 70, abrangia quantos se eternizavam na categoria que antecedia a ascensão a conselheiro - a partir da qual, à época, se podiam chefiar missões diplomáticas "com credenciais de embaixador". Porém, o concurso para conselheiro era muito limitado, o que criara uma multidão de "velhos primeiros-secretários".

O nosso Miranda tinha vindo da América Latina, por onde andara em mais do que um posto. Essa era uma zona geográfica em que o regime anterior apostara bastante, por ser terreno fértil para colheita de apoios para a impopular política colonial. Contudo, na hierarquia psicológica dos postos que a carreira alimentava, o continente latino-americano, com exceção do Brasil, não fazia parte dos destinos profissionais de maior prestígio, o que também marcara o percurso do Miranda, que agora fora parar à nossa Repartição.

A Repartição tinha um chefe e, abaixo dele, não havia qualquer hierarquia formal, exceto a antiguidade. E nesta, por razão óbvia, o Miranda imperava sobre nós, funcionários que nunca tinham sido colocados no estrangeiro. Por isso, partindo o chefe de férias, o Miranda assumia a direção da Repartição. E assim aconteceu, num certo dia.

Na manhã seguinte, ao chegar à minha secretária, dou de caras com uma pilha de documentos "para dar andamento", muito superior à média habitual. Fui ver e dei-me conta que parte substancial da papelada era do pelouro do Miranda. Procurei-o na sua sala, mas não estava. Lembrei-me então de ir ao gabinete do chefe da Repartição.

E lá estava o Miranda, com os pés sobre a mesa, regalado a ler o "Diário de Notícias" a que função dava direito. Perguntei-lhe por que diabo tinha canalizado todos os papéis do seu pelouro para mim. A sua resposta, marcada pela surpresa, foi cristalina: "Ó homem! Eu agora estou a chefiar!"

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Irão

Ontem este blogue foi visitado por um internauta do Irão, o 107º país a consultar-nos, conforme se pode constatar na coluna ao lado. Se até este heterodoxo "Dois ou três coisas" pode daí ser acedido, isso diz alguma coisa das amplas liberdades internáuticas que se vivem naquele país. E que só se espera se mantenham.

Há uns anos, fui a Teerão, chefiando uma missão da União Europeia. Ao final de um dia de contactos oficiais sem história, o nosso embaixador decidiu proporcionar-nos um espetáculo folclórico, numa espécie de restaurante típico. No palco, sucederam-se as "performances" dos artistas. Só homens. Não nos demoramos muito.

À saída, o aspeto engravatado do nosso grupo suscitou a curiosidade de alguns jovens, que nos perguntaram de onde vínhamos. À minha resposta, os sorrisos abriram-se: "Portugal!? Figo!". Os iranianos adoram futebol. Hoje, com certeza, diriam "Ronaldo!".

Saberão eles o nome do clube onde esses excelentes jogadores nasceram para o "esforço, dedicação, devoção e glória"?  

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

"Talent de rien faire"

Conversando ontem em Lisboa com um amigo, como eu funcionário no MNE desde há bem mais de três décadas, trocámos experiências comuns relativamente àquilo que podemos designar como alguma tentação diplomática para o imobilismo.

Com efeito, parece subsistir ainda, em certos setores, uma escola de pensamento, ancorada em sólida prática, que favorece, como reação imediata perante a pressentida necessidade de se atuar em face de algo que afeta interesses nacionais, um "é melhor não fazer nada" ou "não vale a pena reagir". O argumento sistemático é o de que é contraproducente promover iniciativas, porque elas poderão conduzir a efeitos mais gravosos do que as consequências já produzidas pelos factos e que, por isso, "é preferível estar quieto". Tenho anos de experiência de ouvir isto, com a tibieza travestida de sábia prudência.

Não sou adepto das decisões precipitadas, de se saltar para o terreiro à primeira provocação. Também não excluo, em absoluto, que, num caso ou noutro, esse tipo de atitude - ou não-atitude - possa ter razão de ser. Mas o que tenho observado é que, muitas mais vezes, tal não é senão uma escusa comodista para não ter de arriscar, para "fugir entre as pingas", para tentar que o tempo acabe por anular a necessidade de uma tomada de posição. E o que me preocupa é que, em alguns casos, esse tropismo seja já intergeracional.

Por estas e por outras é que alguns acabam por dar razão ao dito injusto segundo o qual "um diplomata é alguém que pensa sempre duas vezes antes de não fazer nada".

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Opinião

Há dois dias, a propósito da reação que suscitou um comentário tido por anti-semita de um responsável político regional, teve lugar num canal de televisão um aceso debate sobre o tema da liberdade de opinião em França.

Para a generalidade dos comentadores, a sociedade francesa de hoje é bastante mais aberta do que o era há algumas décadas. O agravamento dos choques geracionais, a vitória de algumas ideologias e um conjunto de outros fatores vieram derrubar tabus e permitir a emergência de uma sociedade menos controlada. A exceção mais notória, identificada por um dos participantes, é a apologia das ideologias racistas, perante a qual existe já uma proteção legal que, no passado, não era considerada essencial. Neste quadrante limitativo, o anti-semitismo apresenta-se hoje como o desvio que provoca uma mais forte reação, por virtude da assunção do Holocausto como uma memória histórica que deve merecer uma atenção particular.

Esta temática prende-se também com o "politicamente correto", o padrão que o pensamento convencional considera dever prevalecer, nas palavras e nos atos, relativamente a certas questões de sociedade. Estão neste caso temas raciais, de género e, em escala menor, questões religiosas e de discriminação social - os que agora me ocorrem. Não há total consenso sobre este catálogo de "contrainte sociale", que se estende de coisas de mero bom-senso (proteção ambiental, proteção das crianças) até áreas mais divisivas (tabaco, grau de defesa dos animais).

O percurso das ideias, neste domínio, tem sido muito grande, embora com regressões significativas. Recordo apenas como o sacrossanto princípio de impedir o "racial profiling", que marcava o quotidiano dos EUA desde os anos 70, se esboroou, de um dia para o outro, depois do 11 de Setembro. 

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Mónaco

No território do Principado do Mónaco vivem cerca de 300 portugueses. Atravessando uma rua, entra-se em Beausoleil, já em França, onde residem muitos dos cerca de 2500 que, diariamente, constituem aquela que é hoje uma prestigiada comunidade estrangeira que trabalha naquele pequeno país. 

Existem por lá algumas empresas de construção civil pertencentes a portugueses, diversos estabelecimentos comerciais e, naturalmente, associações recreativas lusitanas. As autoridades monegascas desfazem-se em elogios à nossa comunidade e à sua serena e responsável contribuição para o desenvolvimento do território.

Quem chegou ao Mónaco há mais tempo diz-me que, nos últimos anos, se nota a vinda de novos migrantes portugueses, parte dos quais oriundos de outros destinos onde o desemprego começou a sentir-se.

Em 48 horas, fui encontrar um interessante mundo português por detrás do mundo de "glamour" do Principado, aliás com uma importante quota-parte no quotidiano deste. Espero ser possível vir a melhorar o apoio oficial português a esta comunidade.

Sem comentários

Extrato de artigo de hoje no "Libération", que vivamente recomendo:

"Já ninguém o contesta: a situação das finanças públicas da zona euro, incluindo a da Grécia, não justifica um pânico como o que se criou nos mercados financeiros, os quais, a partir de agora, apostam claramente na fragmentação da zona euro. De acordo com as nossas informações, que nos chegaram simultaneamente das autoridades do mercado e de estabelecimentos financeiros, um grande banco de investimentos americano e dois muito importantes "hedge funds" estariam claramente por detrás dos ataques contra a Grécia, Portugal e Espanha. Com que finalidade? Ganhar o máximo de dinheiro, criando um pânico que lhes permita exigir da Grécia taxas de juro cada vez mais elevadas, continuando a especular. Por que não citamos nomes? Porque se trata de um conjunto de perspectivas que um tribunal poderia julgar insuficientemente fundadas no caso de um processo. E como diz um operador de mercado: "Com essa gente não se brinca!"

Mais adiante, o artigo responde à pergunta: "Como atuam as agências de 'rating'?:

"Ei-las de novo a trabalhar. São três - Standard & Poor's, Moody's, as duas anglo-saxónicas, e Fitch, a francesa - e distribuem classificações pela terra inteira. O seu trabalho é avaliar a capacidade de quem pede empréstimos para reembolsar as suas dívidas. Nenhum produto financeiro escapa ao seu zelo: quer as obrigações emitidas pela Danone, quer os "produtos" criados pelo bancos, mas igualmente os fundos estatais - como será amanhã o caso do 'grande empréstimo' a instituir pela França. Uma boa nota, o AAA, e eis o investidor descansado. Uma má nota, B ou menos - cada agência tem o seu sistema - e logo as taxas de juro sobem e, com isso, a fatura final. E é com os seus alertas sobre as dívidas públicas que elas fazem tremer os Estados... Têm, no entanto, uma grande 'lata', comenta um operador, porque foram elas quem construiu a bomba dos 'subprime'".

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Caixa

Alguns chamarão a isso "nacionalismo económico" e falta de abertura para a lógica de um mercado financeiro europeu aberto e competitivo, outros acharão que se trata apenas de patrioteirismo primário. Digam o que quiseram, soube-me muito bem, em Beausoleil (a exactamente 10 metros do Mónaco), ouvir falar apenas português, numa movimentada agência da Caixa Geral de Depósitos, que hoje visitei por ocasião da minha entrega de credenciais. E isso também não se deve, necessariamente, ao facto da Caixa ter sido o meu primeiro emprego.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O "4 de Fevereiro"

Há precisamente 49 anos, um grupo de independentistas angolanos foi responsável, em Luanda, pelo chamado "4 de Fevereiro", a primeira ação armada que foi organizada contra a presença portuguesa em Angola. Com ataques de surpresa a prisões, forças policiais e outros pontos estratégicos da capital angolana, que causaram vítimas mortais, as escassas centenas de ativistas do "4 de Fevereiro" instabilizaram por horas Luanda, sendo subsequentemente alvo de forte repressão - militar, policial e civil -, a qual atingiu também diversos setores da população autóctone residente na cidade.

A data de 4 de Fevereiro de 1961 constituiu, assim, o início das revoltas coloniais contra Portugal, as quais, a partir de 1964, se iriam estender a Moçambique e à Guiné. Entretanto, no final desse ano de 1961, a União Indiana iria invadir o Estado da Índia, pondo um ponto final à presença da administração portuguesa naquele território.

O movimento de "4 de Fevereiro" foi, em si mesmo, um acontecimento bastante complexo, muito mais do que algumas versões simplistas que sobre ele foram mais tarde conhecidas e divulgadas. A sua génese política é também importante para se entenderem as raízes do que foram as profundas clivagens entre os grupos político-militares angolanos, que, logo após a independência do país em 1975, se saldou numa mortífera guerra civil, que, com diferentes formatos, se prolongaria até 2001.

Quando vivi em Angola, nos anos 80, tive o ensejo de conhecer e falar com algumas das figuras envolvidas no "4 de Fevereiro". Pude então saber algo mais sobre esse movimento e, em especial, informar-me com maior detalhe sobre a importância que nele teve uma figura religiosa, o Cónego Manuel das Neves, pároco envolvido na mobilização e no apoio logístico da revolta, que viria a ser preso e expulso para Portugal. Aí ficou com residência fixa, tendo morrido em Soutelo, em 1966. Muito pouco se falou sempre sobre esta figura do nacionalismo angolano e talvez valesse a pena refletir por que razão isso aconteceu.

O "4 de Fevereiro" seria apenas o início, simbólico e trágico, da revolta angolana. Em 15 de Março de 1961, membros da  UPA (União dos Povos de Angola), que mais tarde se viria a transformar em FNLA, estiveram na origem de sangrentos e chocantes ataques a populações civis em zonas rurais no norte de Angola.

O efeito conjugado daqueles dois acontecimentos teve uma forte repercussão em Portugal, que iniciou então o envio de forças militares que, por 13 anos, conseguiram assegurar a permanência da soberania portuguesa no território. 

As ondas de choque político que esses acontecimentos provocaram, ligadas a outros eventos políticos que então se registaram na sociedade política portuguesa, viriam a contribuir para transformar esse ano de 1961 num dos mais difíceis e movimentados anos da história do Estado Novo. Disso falaremos um destes dias.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Rosa Lobato de Faria

Como muito portugueses, conhecia Rosa Lobato de Faria apenas pela escrita e pela televisão. Pareceu-me sempre uma figura serena, de bem consigo mesmo, muito alerta para as coisas novas que poderia dar à sua vida e para o que desta poderia retirar, com algum sentido lúdico. A sua intervenção multifacetada no espaço público é disso prova clara, sendo que, para tal, era ajudada por uma interessante bagagem cultural. Dava, além disso, a confortável sensação de ser uma personalidade que aceitava com naturalidade o correr do tempo e da idade.

A televisão trouxe-a, com frequência, à presença dos portugueses residentes no estrangeiro, os quais, estou seguro, vão estranhar a sua ausência. É que Rosa Lobato de Faria fazia já parte de um património de memória do seu país à distância. Neste caso, com um belo e franco sorriso, o que já começa a ser raro, em particular nos dias que por aí andam. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Agradecimento

Diversas e amigas mensagens saudaram o aniversário deste blogue. De todas elas, permitam-me que destaque a qualificação feita pelo nosso por "Criativemo-nos", que crismou este "Deux ou Trois Trucs" (sic) como "terna aldeia íntima num cenário cosmopolita".

Um sincero muito obrigado a todos. E, como diria aquele locutor de TV, "prontos", acabaram as comemorações.

Alexander Ellis

Alexander Ellis é o embaixador britânico em Portugal, de quem já aqui falámos. Viveu em Portugal há mais de uma década, tendo regressado há pouco anos.

Num comentário, Helena Oneto recorda o texto que este meu colega publicou em Dezembro passado, no seu blogue genialmente chamado Um bife mal passado, intitulado "Dez coisas que melhoraram em Portugal nos últimos 15 anos". 

Com a devida vénia ao autor e com um antecipado pedido de desculpa ao operoso grémio dos cultores das desgraças pátrias, transcrevo o seu texto:

Chegou a época do espírito natalício. Então, deixemos de lado quaisquer miserabilismos e concentremo-nos nas coisas boas - não como escape mas como realidade. Vivi em Portugal há quinze anos. Agora, de volta, quero sugerir dez coisas, entre muitas outras, que melhoraram em Portugal desde a minha primeira estadia. Não incluo aqui coisas que já eram, e ainda são, fantásticas (desde a forma como acolhem os estrangeiros até à pastelaria). Aqui ficam algumas sugestões de melhorias:

- Mortalidade nas estradas; as estatísticas não mentem - o número de pessoas que morre em acidentes rodoviários é muito menor, cerca de 2000 em 1993 e de 776 em 2008. A experiência de conduzir na marginal é agora de prazer, não de terror. O tempo do Fiat Uno a 180km/h colado a nós nas auto-estradas está a passar.

- O vinho; já era bom, mas agora a variedade e a inovação são notáveis, com muito mais oferta e experiências agradáveis. Também se pode dizer a mesma coisa sobre o azeite e outros produtos tradicionais.

- O mar; Lisboa, em 1994, era uma cidade virada de costas para o mar; poucos restaurantes ou bares com vista, e pouca gente no mar. Hoje, vemos esplanadas e surfistas em toda a parte. Muita gente a aproveitar melhor um dos recursos naturais mais importantes do país.

- A zona da Expo; era horrível em 1994, cheia de poluição, com as antigas instalações petrolíferas. Agora é uma zona urbana belíssima, com museus e um Oceanário entre os melhores que há no Mundo.

- A saúde; muitas das minhas colegas têm feito esta sugestão - a qualidade do tratamento é muito melhor hoje em dia, apesar das dificuldades financeiras, etc. A prova está no aumento da esperança de vida, de cerca de 74 em 1993 para 78 anos em 2008.

- Os parques naturais; viajei muito este ano do Gerês a Monserrate ; tudo mais limpo, melhor sinalizado, mais agradável. O pequeno jardim está, de facto, mais bem cuidado.

- O cheiro. Sendo por natureza liberal nos costumes sociais, não fui grande fã da proibição de fumar - mas, confesso, a experiência de estar num bar ou num restaurante em Portugal é hoje mais agradável com a ausência de tabagismo. E a minha roupa cheira menos mal no dia seguinte.

- A inovação; talvez seja fruto da minha ignorância do país em 1994, mas fico de boca aberta quando visito algumas das empresas que estão a investir no Reino Unido ; altíssima tecnologia, quadros dinâmicos e - o mais importante de tudo - não há medo. Acreditam que estão entre os melhores do mundo, e vão ao meu país, entre outros, para prová-lo.

- O metro de Lisboa. É limpo, rápido, acessível e tem estações bonitas.

- As cores; Portugal tem e sempre teve cores naturais bonitas. Mas a minha memória de 1994 era o aspecto visual bastante cinzento das cidades, desde a roupa até aos carros. Hoje há mais alegria - recordo um português que me disse, talvez com tristeza, que o país estava a tornar-se mais tropical. Em termos de imagem, parece-me um elogio!

Esta é a minha lista. E a sua?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Aniversário

Faz hoje precisamente um ano que começou a editar-se este "Duas ou Três Coisas". Data que coincide com aquela em que assumi funções como embaixador português em França.

Como se deduzirá do subtítulo do blogue, a ideia inicial era não seguir um ritmo regular de publicação de posts. Isso não aconteceu: não houve um único dia em que o blogue não tivesse sido atualizado e, as mais das vezes, houve mesmo mais do que um post por dia. Neste primeiro ano, foram publicados 710 posts.

O número de leitores tem vindo a sustentar-se, com variações sazonais, estando numa média de cerca de 350/dia.

De 105 países do mundo (num mundo que tem 192) apareceram visitantes, alguns esporádicos, outros mais ou menos fiéis. Portugal, França e Brasil, sem surpresas, têm estado na vanguarda das visitas. Mentiria se dissesse que não gostava de ver mais visitantes oriundos de França, porque isso significaria uma maior adesão da comunidade de origem portuguesa, a quem se dirige prioritariamente o meu trabalho profissional.

160 leitoras ou leitores inscreveram-se como "seguidores", sem grandes recuos, o que significa que ficaram "clientes". Isso, aliás, é bem patente na "família" dos comentadores, onde se destaca um grupo sólido, simpático e ativo (activo, para contentar todas e todos), que, de quando em vez, não dispensa criticar o escriba - e faz muito bem!

Estou muito grato a quem tem tido paciência para me ler, embora também compreenda quem possa, entretanto, ter desistido de seguir o que aqui se escreve. Alguns posts podem ser algo "pesados", outros "ligeiros" demais, a minha perspetiva sobre as coisas pode, muito legitimamente, não interessar a muitos. E há, também, quem tenha pouco tempo para "andar por blogues". Eu, por exemplo...

Um ano é muito tempo, foram muitas horas. Olhando para trás, acho que é capaz de ter valido a pena.

Vamos continuar? Repito o que escrevi no primeiro post: "se a assiduidade dos leitores o justificar, o exercício continuará. Se não for esse o caso, o blogue terá o destino óbvio". Voilà!

Manuel Serra (1932-2010)


Hoje sabemos melhor o que foi o chamado “28 de Setembro” de 1974 - um equívoco momento de confronto entre setores ultra-conservadores, apoiantes de um movimento para dar plenos poderes ao general Spínola, e forças políticas da esquerda, que habilmente aproveitaram o ensejo para afastar o polémico presidente da República que, no 25 de Abril, haviam sido forçadas a aceitar e que se tornava progressivamente mais incómodo. É que, à época, assistia-se a um crescente ambiente anti-25 de Abril, alimentado pelo próprio Spínola, que estava a colocar a esquerda e o Movimento das Forças Armadas à beira de um ataque de nervos.

Nessa noite, eu tinha sido destacado para uma determinada tarefa, juntamente com o António Reis - o líder dos milicianos da Escola Prática de Administração Militar, de onde eu era originário, embora, à época, eu fosse adjunto da Junta de Salvação Nacional, instituição a que os acontecimentos desse dia em breve iriam pôr termo. (Por coincidência, ontem recebi um e-mail do António a informar-me que vem a Paris dentro de dias). Íamos sob o comando de um jovem alferes “do quadro”, o Manuel Geraldes,  uma generosa figura do MFA, que não vejo nem contacto há  mais de 30 anos (e de quem, hoje mesmo, por uma outra coincidência impressionante, recebi um abraço através de um amigo comum). Levávamos connosco uma “praça”, um soldado, o Moura. O Moura tinha na sua mão uma intimidante metralhadora G3. Estávamos a entrar para o meu carro pessoal,  um Fiat 128, algures nas “Avenidas Novas”, a altas horas da noite. Por razões que demorariam a explicar, a tensão do momento então muito grande. Aquela noite do 28 de Setembro acabou por ser muito complexa e longa.

De súbito, uma surpresa: começa a vislumbrar-se, à distância, vinda do alto da rua, uma figura de estatura baixa, estranhamente com as mãos no ar, como se estivesse a render-se. Naquele enquadramento noturno, sem vivalma em roda, a cena era patética e infundia uma súbita insegurança. O soldado Moura começou a demonstrar uma perturbação agitada, com jeitos de querer afirmar a capacidade operacional de que a sua condição de barman da messe da EPAM era “sólida” garantia: num instante, põe a patilha da G-3 na posição de disparo, leva a arma ao ombro e, num derradeiro e precioso segundo, é travado pelo Geraldes com um “está quieto!” e o afastar a arma do alvo.

Aparentemente sem se aperceber do nosso nervosismo e do risco de vida que estava a correr, a personagem continuava lentamente a aproximar-se, agora já se lhe ouvindo coisas, numa voz procuradamente surda, para não alertar a vizinhança, tais como “Sou eu! O Manel”. Lentamente, pudemos identificar quem lá vinha.

Era o Manuel Serra, o sempiterno revolucionário dos golpes da Sé e de Beja, figura que, meses depois, titularia uma célebre cisão de esquerda no Partido Socialista, com a criação da Frente Socialista Popular, afastando-se de Mário Soares. As vidas políticas dos últimos meses haviam-nos feito, entretanto, cruzar com essa curiosa personalidade, com um brilho quase adolescente nos olhos e um sorriso cúmplice, oriunda do cristianismo radical, que há muito trazia a revolução nas veias.  Nos anos 60, ainda antes do fracassado golpe de Beja, em que participou de forma activa, o Manel havia sido protagonista de uma lendária fuga de uma embaixada em Lisboa, onde estava refugiado, vestido de padre... Depois do 25 de Abril, por uma escolha que a confusão política proporcionou, tinha sido nomeado o inesperado chefe de gabinete desse igualmente improvável ministro que foi o jornalista Raul Rego.

- “Então, rapazes, há novidade? Vi-vos por aqui e vinha perguntar se necessitam de alguma coisa. Temos ali duas viaturas com pessoal, armas e granadas, para o que der e vier. Não precisam mesmo de nada? Está tudo em ordem?”.

Ficou a ideia que o Manel e os seus amigos andavam nessa noite pela cidade, numa espécie de piquete do ACP, para “avarias” de outra natureza. Demos os abraços da praxe e presumo que devemos ter esclarecido que “está tudo sob controlo”. No fundo, sem lho revelarmos, estávamos imensamente aliviados por se ter conseguido travar a precipitação quase trágica do Moura, o qual talvez nunca tenha entendido bem quem era aquela alma penada e meio careca, saída do escuro da rua, afinal amigalhaço dos seus superiores, a quem estivera prestes a dar um tiro.

E lá foi o Manel de volta, pela noite, à busca da revolução que sempre lhe consumiu os dias.

Dias que hoje terminaram, aos 78 anos, em Lisboa. Adeus, Manel!