quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Volta a Portugal

Com as etapas antecedidas, na televisão, por uma cobertura musical frenética e um tanto "pimba", começou ontem a Volta a Portugal (a 72ª!) em bicicleta. Dado que parece serem os municípios que subsidiam as etapas, não admira que os presidentes das Câmaras sejam hoje vedetas regulares dessas transmissões, nelas debitando diariamente banalidades regionalistas. Se isto pode contribuir para estimular o turismo interno, tudo bem.

Em abono da verdade, devo dizer que, para além dessa espécie de Poulidor português que se chama Cândido Barbosa - um popular ciclista, que nunca conseguiu ganhar uma Volta -, a quase generalidade dos nomes dos participantes diz-me muito pouco. E, talvez por essa razão, olho hoje muito desinteressado para o espetáculo.

Nem sempre foi assim. Na minha juventude, a chegada da Volta a Vila Real era um momento de grande emoção, tanto mais que então acompanhávamos, ao segundo, a evolução da classificação geral (e, também, de montanha e por pontos). Pela rádio, ficava a saber-se, a certa altura, que "já chegaram ao Alto de Espinho!", pelo que imaginávamos a descida rápida desses 15 km, que antecedia a curta subida para a meta na cidade. Depois, nas horas seguintes, era o espetáculo bizarro e colorido dos ciclistas sentados pelas esplanadas da avenida Carvalho Araújo, de chinelos, antes de recolherem às pensões Excelsior, Mondego, Coutinho ou Areias - salvo as equipas ricas, que se permitiam os luxos do hotel Tocaio.

Mas é da cobertura televisiva que também queria falar hoje, para lembrar um nome do jornalismo desportivo que, na minha memória, permanece ligado à Volta a Portugal: Amadeu José de Freitas. 

Era um homem simpático, com uma voz agradável, um grande nome da rádio e do jornalismo desportivo, que teve responsabilidades de direção naquele que foi o terceiro mais importante jornal desportivo do país, o "Mundo Desportivo" (ou outros eram, naturalmente e por essa ordem, "A Bola" e o "Record", vindo depois o regional "O Norte Desportivo"). Escreveu vários livros, acabando por ter uma morte trágica.

Creio que muitas gerações de telespectadores foram "educadas" no ciclismo através de Amadeu José de Freitas, para além de o terem "conhecido" como um dos mais capazes relatores de futebol - ao lado de Artur Agostinho ou Nuno Braz. Nunca o encontrei pessoalmente, mas ele faz parte das figuras que muito me ajudaram a entender o ciclismo português. Aqui lhe deixo o meu tributo, acompanhado da música que, desde há muito, associo à Volta.

9 comentários:

Santiago Macias disse...

Não me parece, mesmo nada, que intervenções como as que refere contribuam para estimular o turismo interno. Ou o que quer que seja.
E para câmaras municipais de pequena dimensão, como a minha, os valores envolvidos neste género de iniciativa são incomportáveis e duvidoso retorno.
Em todo o caso, a 72ª edição da Volta abrange apenas meio Portugal: a 6ª etapa termina em Castelo Branco, a 9ª em Leiria e a 10ª em Lisboa. Mas os patrocínios é que mandam, efectivamente.

António P. disse...

Caro Embaixador,
Fez bem em recordar o Amadeu José de Freitas.
No tempo do "Mundo Desportivo" já havia o "Record" ?
Cumprimentos

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro António P: o "Record" e "O Mundo Desportivo" coexistiram desde os anos 40 e os anos 70! Julgo que ambos eram então bi-semanários. Se não me engano, o "Record" saía às 3ªas e sábados. "O Mundo Desportivo" saía (tenho a certeza!) às 4ªs feiras e, creio, aos sábados. Quem tiver melhor memória, que diga.

José Martins disse...

Senhor Embaixador,
Cá estou eu, mais uma vez, a apreciar a volta a Portugal, etapa a etapa, com os ingredientes da música “pimba” e o comunicador, pivô, principal, a bambalear o “traseiro” e a exibir as suas palhaçadas ao pouco público rural que se vai observando, durante a festa do largo, de quando os homens do pedal vão correndo quilómetros em direcção à meta.
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Evidentemente que naquela festa regional, lá estão as individualidades mais gradas, do sitio, a ser entrevistadas e, também, a tia Maria a mostrar as suas especialidades culinárias e a tia Teresa como antigamente bordava e costurava as ceroulas de atilho do marido o tio Manel.
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Em não chamo ao Cândido Barbosa o Poluidor português, mas o Alves Barbosa de há mais de meio século que ganhava as etapas todas e a volta. O Cândido, mais uma vez na volta a Portugal, foi a figura central, ontem, o mais entrevistada pela RTP que os portugueses, aguentam de cara alegre, a arquejar que nem uma rã quando, antes do contra relógio e a fazer o aquecimento.
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Falou em esperanças e terminou o seu contra relógio, em classificação modesta. O Cândido, nunca haja tido canelas na volta, não irá ter na idade de 35. Faz monte e objecto para entrevistas dos jornalistas da RTP que acompanham a volta. E lamenta-se dos azares do dia, como o neto diz: “se o meu avô não tivesse morrido, ainda hoje era vivo”.
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Sim,sim a volta a Portugal deu a volta e perdeu todo o interesse que tinha, quando eu era um miúdo de uns 12 anos (já lá vão 63 anos) era melhor que o futebol a festa desportiva nacional. A “canalha”, onde eu estava incluído, nos passeios das ruas do Porto, riscava a giz a volta a Portugal e depois com as “sameiras” (cápsulas que fechavam as garrafas de laranjadas) movidas pelo polegar da mão e encontrado o ganhador da volta a Portugal de rua.
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As estradas de Portugal, as bermas cheias de gente e os jovens e velhos a pedalar as suas pasteleiras, das aldeias, para os pontos estratégicos da estrada para verem os corredores passar.
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Era a festa da estrada e as mulheres, sempre generosas com uma cantarinha de água para oferecerem aos ciclistas, ou os borrifar, a pedalar sob a canícula do sol de Agosto.
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No meu tempo havia jornalistas, desportivo, inteligentes, que voltavam ídolos perante as massas, ao relatarem a volta e o homem do dia pela rádio, porque ainda não tinha chegado a televisão a Portugal. Hoje vá que não vá e valha-nos ao menos o Marco Chagas que ganhou 4 voltas e nos vai dando, dia-a-dia, a panorâmica da volta.

Saudações de Banguecoque
José Martins

aires disse...

neste calor, em todos sentidos, que aqui se vive,

é refrescante vir aqui reviver cenas dum tempo eventaualmente comum de cresciemnto e descoberta dos "mundos"...

abraço grato

Anónimo disse...

Embora os senhores referidos ocupem aquele espaço de deslumbramento e pasmo inatingível que me era permitido à época retratada, gostei imenso do post era o grande acontecimento desportivo que podíamos ver ao vivo e acompanhadas pelos Pais com tanta alegria.

(Claro que no 2ºdia dia de festa de Bornes, Segunda feira, havia corrida de burros bem aliciante pela imprevisibilidade do burro, e de sacos com a graciosidade das quedas )

A "cobertura musical frenética e um tanto "pimba", Tem uma intensidade de alegria pura e despretensiosa que se não fosse o parece mal me suscitava de facto o andar à volta sem bicicleta( gosto da música sem voz).

Revi-me no texto do Seu comentador José Martins não senti qualquer distância geográfica ou cronológica...
Isabel Seixas

António P. disse...

Caro Embaixador,
Na minha adolescência/juventude não me lembro do "Record".
Quanto ao "Mundo Desportivo" penso que saía às 2ª, 4ª e 6ª já que a "Bola" saía às 2ª, 5ª e sábados.
Mas a memória já não é o que era :))
Bom dia

Anónimo disse...

O comentador António P. está certo no que se refere aos dias em que se publicavam o "Mundo Desportivo" e "A Bola".

O "Record" saía às terças e sábados.

Do "Norte Desportivo" só me lembro que saía ao domingo à tarde (era bi-semanal, mas não me recordo qual era o outro dia de saída), depois dos jogos de futebol. Eu comprava-o na segunda de manhã, quando, a caminho das aulas, chegava à Estação Nova, em Coimbra.

Àquela hora "A Bola" e o "Mundo Desportivo" ainda não tinham chegado. Vinham no rápido de Lisboa, que só chegava perto do meio-dia.

Bons velhos tempo. Ou não?


Carlos Serra

Anónimo disse...

Ainda a propósito dos jornais
desportivos, peço que me releve o abuso, mas gostaria de partilhar uma anedota verdadeira.

Estava de férias em Alfarelos, que dista cerca de 2 quilómetros da estação da C.P. com o mesmo nome.

Nessa época, o único lugar onde podia comprar o jornal era no quiosque da Bertrand que havia na estação (e que, além de jornais e revistas, também vendia livros. Hoje nem edifício da estação existe, quanto mais Bertrand).

Uma afilhada dos meus avós tinha de se deslocar à estação e eu pedi-lhe que me comprasse o Mundo Desportivo. Para não haver trocas disse-lhe: "É o jornal que custa dez tostões".

Quando ela voltou, algum tempo depois, foi uma risota pegada. A senhora apareceu-me com o jornal humorístico "Os Ridículos", que também custava dez tostões.

Lá tive de saltar para a bicicleta e ir fazer a troca.

Carlos Serra