sábado, 28 de agosto de 2010

Salazar

Filipe Ribeiro de Menezes, um investigador português residente na Irlanda, publicou uma biografia política de Salazar nos Estados Unidos, como aqui já se referiu, há meses. Essa obra está prestes a ser editada em português, pela Dom Quixote.

De uma entrevista que concedeu à última "Visão", acho interessante citar:

"Não encontrei nada que me fizesse acreditar que Salazar alguma vez pensou, a sério, e desejou, sinceramente, retirar-se da cena política e, sobretudo, da presidência do Conselho de Ministros."

"Salazar era mais dono do seu tempo do que qualquer seu sucessor o conseguiu ser. Não tinha de comparecer perante o parlamento, raramente reunia o Conselho de Ministros, não se tinha de preocupar em manter a liderança partidária, não tinha de ir a Bruxelas semana sim, semana não... Tinha a vida que queria e trabalhou como quis."

"Salazar desejava o poder, e convenceu-se que governaria melhor que qualquer outro português. Estou convencido de que ele acreditava ser (ou que a certa altura acreditou ser) uma figura providencial."

"Se o Estado Novo mal sobreviveu a Salazar não foi devido ao enorme vazio que este deixou e que Marcelo Caetano não conseguiu colmatar - foi porque, graças à guerra colonial, Salazar deixou o regime numa situação impossível de resolver."

"O homem que se orgulhava de ter 'nascido pobre' é insensível à pobreza extrema que se encontra no país, ou à emigração que a política económica dos seus governos provoca."

"O facto de Salazar nunca ter denunciado o Holocausto, mesmo depois de finda a guerra, conta contra ele."

"O 'orgulhosamente sós' foi muito mais perigoso para a soberania nacional, e o papel de Portugal no mundo, do que qualquer outra política desde então seguida."

7 comentários:

Anónimo disse...

Aterrador
é o adormecimento da multidão
com alguém alerta, mas na prisão
Aterrador é o torpor que nos veta a postura de um "Homem"que neutraliza outros homens com a verdadeira loucura insidiosa a governar num jogo de autoindagação de poder, ainda por cima é capaz...

Trinta anos de fascismo
Dez de contas sindicais
Quarenta de ditadura
Arre..... que é demais

Pois nem duvido que o livro é capaz de ser uma boa reflexão sobre quarenta anos de solidão...

Por mim...
O Sr., o Escritor dava por mais bem empregue o tempo se fizesse uma biografia Sua.
Isabel Seixas

patricio branco disse...

Alem de alguns erros crassos do pós 25 de abril, Portugal continua a ser um país marcado pelo ferro de salazar que causou cicatrizes e deformações que só muito lentamente poderão saír: a pesada burocracia, o desprezo pela instrução e preparação profissional, o parlamentarismo irresponsável (só o uninominal é um verdadeiro parlamento), a falta de autonomia das regiões, a centralização do poder, a fraca industrialização, a tendência das autoridades em atribuir ao cidadão individuo todos os males, etc, etc.
franco, que tambem nunca pensou deixar o poder (ambos sairam por velhice, doença e morte) teve ao menos o mérito de iniciar a industrialização e desenvolvimento económico do país (e tolerar o cultural) e até de fazer a descolonização das colónias que a Espanha tinha, livrar-se a tempo de elas.

Anónimo disse...

Exm.º Sr. Patrício Branco,

Subscrevo inteiramente o que escreveu. No entanto, para efeitos de análise histórica, não nos esqueçamos que, de entre os raros aspectos positivos do Salazarismo, está a nossa não participação na Segunda Guerra.

António Mascarenhas

Anónimo disse...

É curioso o muito que ultimamente tem sido escrito e publicado sobre Salazar. Interessante também é constatar o crescimento de um certo saudosismo daquele putrefacto regime. Sobretudo na blogosfera. Coincidência, ou não, associado a esse tolo saudosismo, esses mesmos autores apresentam-se-nos como monárquicos e católicos excessivos. A crise económica (e social) que vivemos, onde muita gente desespera, sem perspectivas de futuro, será, de algum modo a causa deste saudosismo manhoso. Que alguns dos seus aderentes sejam gente simples não me surpreende e até posso compreender. Já gente mais esclarecida, só revela que nunca se adaptaram à Democracia e que sempre a rejeitaram.
Quanto ao livro de que o Post fala, cá fico à espera, para então me decidir a ler.
P.Rufino

Helena Sacadura Cabral disse...

Numa democracia vale a pena perguntar porque é que tal acontece, se hoje somos mais letrados e mais desenvolvidos.
É urgente perceber a razão de um tal sentimento. E urgente fazer com que tal não aconteça!

Anónimo disse...

Não sei se estou a dizer uma barbaridade, mas parece-me que existe um sentimento de impotência em relação ao futuro ,num país à beira do abismo,mas de que somos todos responsáveis.Temos muito a tendência de apregoar e exigir os nossos direitos e esquecemos os nossos deveres.Falta-nos Ética, faltam-nos Príncípos para regermos o nosso dia a dia.Não adianta culpar só os governantes.Temos todos que mudar mentalidades e mudar a nossa maneira de "fazer".
Não é fácil mudar mentalidades num país de facilitismo, de cunhas, de esperteza saloia, de deixa-andar...
Isabel

Alcipe disse...

Penso que é um excelente livro, talvez o melhor (que eu saiba) que se escreveu até agora sobre Salazar.

Quanto à curiosidade pelo nosso passado recente, acho-a altamente saudável; e a recuperação política de Salazar é feita por sectores muito restritos da nossa sociedade, que nem têm expressão política significativa.