quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Perdigões

Há dias, veio-me à lembrança uma história curiosa que, vai para uns anos, um velho diplomata me contou, a propósito das dificuldades que, por vezes, surgiam no Protocolo do Estado, antes do 25 de Abril.

A hierarquia a estabelecer entre os convidados para refeições oficiais nem sempre é uma coisa óbvia e, muitas vezes, a solução final encontrada acaba por ser contestada. Já deparei com situações bem delicadas, com um ou vários convidados a ficarem furibundos com os lugares que lhes foram atribuídos num almoço ou jantar. Algumas regras básicas existem e são essenciais, mas o bom-senso e a experiência acabam sempre por ser o melhor conselheiro para as decisões neste domínio, em especial quando se misturam personalidades oriundas de meios muito diversos, sem uma "ordem" natural entre si. Percebo que estas coisas possam parecer "chinesices" a quem não é do "métier", mas posso garantir que, em todo o mundo, esta questão tem sempre a maior importância.

Comentava eu com esse meu colega uma dificuldade com que um dia nos havíamos confrontado na gestão protocolar de uma mesa, e que tinha provocado um incidente sério, quando ele me perguntou: "E os "perdigões"? Ainda têm problemas com eles?"

Era a primeira vez que eu ouvia falar dos "perdigões"! Foi então que o meu amigo me esclareceu que, nos seus tempos no MNE, havia sido criada essa figura "protocolar", para designar personalidades cujo "ranking" relativo com outras entidades, nomeadamente oficiais, era discutível, mas cuja importância pela função ocupada justificava claramente um "upgrading" nos planos das mesas. De onde vinha o nome? Claro, de Azeredo Perdigão, então presidente da Fundação Calouste Gulbenkian.

Não tenho ideia de que, nos dias de hoje, o nosso Protocolo de Estado ainda utilize esse conceito, mas de uma coisa estou certo: com esse ou com outro nome há certas figuras, dentre os convidados regulares dos banquetes oficiais, que requerem um cuidado à altura dos antigos "perdigões". 

15 comentários:

Anónimo disse...

Bela história Embaixador. E o livro ?

Anónimo disse...

Sr Embaixador ,transporte para um livro todos estes textos deliciosos .


Carlota Joaquina Teixeira

José Ricardo Costa disse...

Será, digamos, uma espécie de classe média dos protocolos...

JR

Santiago Macias disse...

Recorda-se, certamente, de um desses personangens que era, há uns anos, conhecido em Lisboa como "o perdigoto". Não sei se era o único.

Fernando Frazão disse...

Os textos do Sr. Embaixador são sem sombra de dúvida excelentes e merecedores de atenta leitura.
Tenho no entanto sérias dúvidas sobre a necessidade e oportunidade de os dar à estampa.
é uma questão geral em relação à blogoesfera.
É esta, no meu entender, um meio próprio de comunicação com caracteristicas específicas que dificilmente convivem com o prelo.
Acresce o facto de estar sempre disponível para consulta on-line o que diferencía os "posts" das crónicas dos jornais que são publicadas em material, digamos, perecível.
Já comprei dois ou três livros de "bloggers" que não resistiram à tentação e garanto que não têm um décimo da graça e do interesse.

Francisco disse...

A propósito de precedências, dizia-me um velho diplomata britânico: "Those who care don’t count, those who count don’t care".

Anónimo disse...

Presumo que critérios como ordem alfabética,idade, Género, Gravidez,incapacidade,berço,posição hierárquica do conhecimento cientifico,etnia,casta,país, impulsividade que representa,Seraão ou não determinantes.

Se calhar o sorteio...

Só a categoria profissional por ordem decrescente...

Brainstorming.
De qualquer forma que bom fazer refeições sem perdigões.
Isabel Seixas

José Martins disse...

E o "manga de alpaca" de Banguecoque continua inspirado nos "contos" do Senhor Embaixador Seixas da Costa e cá vai indo a despejar do "caco" as memórias.
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Mas eu também tenho um caso de um jantar, onde eu estou sentado e o cozinheiro esqueceu-se de aquecer a sopa e colocou-a, gelada na mesa.
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Eramos 12 os convidados comeram a sopa e nenhum reclamou...
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No dia seguinte fui ao aeroporto despedir-me de um dos convidados, o senhor Américo Amorim e esposa e enquanto lhe faziam o check-inn da bagagem, ficamos por ali a conversar e diz-me: "A comida não estava má.... agora nunca comi sopa fria na minha vida...."
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Regresso à embaixada e o embaixador diz-me: "Então o que lhe disse aquela gente do jantar?"
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Transmiti-lhe:" o senhor Américo Amorim disse-me gostou da comida, mas nunca tinha comido. em sua vida, sopa fria..."
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Embaixador retorquiu: "Fui o estúpido do cozinheiro que se esqueceu de aquecê-la!"
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Saudações de Banguecoque
José Martins

Anónimo disse...

E os “penetras”? Um dia, numa Embaixada algures na África profunda, pergunta-me o Chefe de Missão: “ouça lá, oh fulano, você sabe quem é aquele casal?” Não sabia, respondi-lhe. Foi-se averiguar e era um casal penetra. Havia 4 mesas, cada uma para 10 pessoas, em princípio todas “marcadas”. “E agora, embaixador, como vai ser?”, perguntei. A resposta veio nestes termos: “Se tudo correr como é hábito neste Continente, para além dos “imprevistos previstos”, ou seja os penetras, coisa que por vezes acontece, também devem faltar outros convidados, que nunca dizem que não vão vir. Se assim for o problema fica resolvido. Você já viu pela pinta deles que são gente endinheirada, convêm pois aguardar. E depois, só depois, se não faltar ninguém, se pensa numa solução”. E assim foi. Falaram 5 convidados, pelo que os penetras acabaram por ficar. Já depois de todos terem saído, comenta o Embaixador: “tipos divertidos, simpáticos, os tais penetras! Pena não ter percebido quem eram!”
"Adido de Embaixada"

Helena Sacadura Cabral disse...

Ó Senhor Embaixador uma vichysoise gelada deleitaria, de certo, o Senhor Américo Amorim!
É ótima e faz-se muito cá em casa...

José Martins disse...

Senhora Drª Helena Sacadura Cabral,
O caldo "vichysoise" era comida muito fina para o senhor Américo Amorim, mas o caldinho da horta migado com boroa de Avintes e papas de sarrabulho quente de queimar a língua
Nos seus verdes anos, no distrito de Gaia, ainda não tinha ali chegado as sopas com nomes francesados...
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Mas sim as dos lavradores.
Saudações de Banguecoque
José Martins

patricio branco disse...

talvez "peixes gordos"...

patricio branco disse...

as melhores sopas frias ( a de banguecoque poderia ser excelente mas não provei) são sem dúvida o salmorejo o gaspacho e a vichyssoise, isto das que conheço.
No verão, claro.
a melhor receita de vichyssoisse é a do general petain, creio...

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro José Martins
Com o dinheiro que Américo Amorim tem julgo que não comerá muitas vezes esses belos caldinhos.
Em compensação cá por casa há menos dinheiro mas mais variedade...
Ainda lhe mando a receita do meu caldo verde que vem publicada no meu livro "A minha cozinha", a página 39.
Assim comerá uma bela sopa e ajuda a autora!

José Martins disse...

Drª Helena Sacadura,
Esqueço as sopas do Sr. Américo Amorim e então por esmola (de uma sopa) lhe peço a sua receita de caldo verde, que será servido, num dos próximos almoços(farta alarves) dos "patrícios" lusos residentes em Banguecoque.
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Evidentemente que a sua receita de caldo verde chegará à comunidade lusófona através do blogue Aqui Tailândia.
Saudações de Banguecoque
José Martins