terça-feira, 10 de agosto de 2010

Paredes

Carlos Paredes é um dos muito escassos génios que Portugal produziu. Uma noite de 1975, em casa de Carlos Eurico da Costa, poeta e administrador da empresa de publicidade Ciesa-NCK, Paredes foi apresentar sugestões para a banda sonora de um "spot" televisivo e radiofónico, destinado a mobilizar as pessoas a votarem nas "primeiras eleições livres". A encomenda era do STAPE (Secretariado Técnico para o Assuntos Político-Eleitorais), representado então pelo comandante Luís Costa Correia (que se deve lembrar bem desta cena). 

O músico e compositor chegou, com um ar muito modesto, um  andar desengonçado, quase a pedir desculpa por ali estar. Eu estava fascinado por poder conhecer pessoalmente o autor dos "Verdes Anos" e, recordo-me, sentei-me, reverencialmente, em frente do guitarrista, quando este ensaiou algumas hipóteses de fundo musical para o anúncio. Dedilhou quatro ou cinco temas e, nas pausas entre cada um, dizia algo assim: "Não sei o que acham. Esta parece-me fraquita..." ou "Só me saiu isto..." ou "Se calhar, isto precisa de ser melhor trabalhado!". A mim, cada uma parecia melhor que a anterior!

Deslumbrado, creio que hesitei até ao fim em dar qualquer opinião sobre as peças, tal a sua qualidade. O Costa Correia e o Eurico da Costa pareceram-me partilhar "l'embarras du choix", mas lá acabaram por eleger o tema que, durante semanas, fez parte do nosso quotidiano televisivo e radiofónico.

Só voltei encontrar Carlos Paredes quando, em 1993, acompanhado por Luísa Amaro, fez, em Londres, a convite de Mário Soares, um memorável concerto para a rainha Isabel II, no Guildhall. No final, a rainha fez questão de o conhecer pessoalmente e - recordo - quis ver a sua mão. Ao felicitá-lo, emocionado pelo espetáculo, Paredes inquiriu-me: "O amigo acha que eu estive bem? É que não estava nos meus dias..."

Duvido que alguém possa ser verdadeiramente português se não gostar da música de Carlos Paredes. E, se tiver 10 minutos, ouça isto.

13 comentários:

Anónimo disse...

Duvido que alguém possa ser verdadeiramente português se não gostar da música de Carlos Paredes.

Subscrevo.
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Pa

Redes...

Gosto das Asas da Saudade.

Dancei-o nos verdes anos, mesmo verdes, aí uns dezassete, numa noite de 24 para 25 de Abril...

A coreografia encetava com cravos vermelhos, dispostos bem arrumadinhos no meio do palco atmosfera musical dos verdes anos, prosseguindo com a voz do Interprete: Luis Goes e Eu dançava a Canção da Boneca de Trapo, Poema para um Menino - Poema para o Homem Só - Cantiga para quem Sonha...

Em boa verdade acho que só consegui personificar a Boneca de Trapo...
Isabel Seixas

Bem, nem preciso de Lhe dizer o quanto gostei deste post... Ah!O Pluto e a minha Gina personalizavam o 25 de Abril e distribuíam cravos vermelhos, atirando-os despretensiosamente para a assistência, que avidamente os apanhava como se fossem benzidos.

"Liceu de chaves Fernão de Magalhães 79 Festa do Ps"

Embora eu já fosse livre sem nada partido nem rotura de ligamentos "Essenciais"

Anónimo disse...

A Raínha de Inglaterra já tinha ficado deslumbrada com a Arte de Carlos Paredes quando este interpretou, com Luísa Amaro e o Ballet Gulbenkian, as Danças para uma Guitarra no espectáculo de gala realizado no Teatro D. Maria, em Março de 1985, quando da Visita de Estado a Portugal.

Anónimo disse...

Gostaria de dizer à srª D. Isabel Seixas que considero Carlos Paredes um compositor menor, com uma obra repleta de "rodriguinhos" e trinados lamechas.
Trata-se de música afadistada e de qualidade mais do que discutível.
Isto dito, Paredes foi uma personalidade cativante e com um empenhamento cívico irrepreensível.
Ah, e sou verdadeira, inteira e patrioticamente portugês.

Fernando Rodrigues Machado

Guilherme Sanches disse...

Sabe bem ouvir Carlos Paredes na ressaca de uma orgia de emoções e de recordações.
Um abraço

Anónimo disse...

Pois...
Sr.Fernando Rodrigues Machado
Tem toda a razão do seu ponto de vista e liberdade de expressão...Ainda por cima se faz gosto em dizer-me.

Agradeço-lhe o ter-me feito constatar hoje pelo menos pela segunda vez,

(O meu filho depois de ouvir a sugestão diz que melhores são os Muse e apresentou-me Hysteria)

novas sensibilidades e
suscetibilidades, mas convicções e dúvidas não são certezas como sabe.

Já não Duvido "tanto" que alguém possa ser verdadeiramente português se não gostar da música de Carlos Paredes." Mas Tenho pena

Não tenho conhecimentos para classificar compositores, o meu critério de discriminação positiva é parar para ouvir e escutar com deleite,nesse meu contexto e menor opinião considero Carlos Paredes um compositor Maior.
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Se o autor do "Duas ou Três Coisas" me desse licenca, gostaria de perguntar ao Sr.Fernando Rodrigues Machado se, como parece, é músico. Se o fôr e se a inveja fosse música, estaríamos perante um talento digno de destaque.
Francisco F. Teixeira

Helena Oneto disse...

Carlos Paredes é um "virtuose" da guitarra portuguêsa. Infelizmente nunca ouvi o génio "ao vivo". Boa recordação Senhor Embaixador!

Pedro disse...

Em 1980, ou 1981?, a FPCA (Federação Portuguesa de Cinema e Audiovisuais) organizou um congresso de cinema no Hotel Roma. Paredes fez uma intervenção relativa a bandas sonoras para filmes. E durante o tempo da sua intervenção, para uma sala cheia até mais não poder, tocou tocou tocou.
Electrizante.
Emocionante.

Anónimo disse...

Também não gosto de Chopin, nem de Toni Carreira, nem de Richard Strauss.
Isso não faz de mim músico (mesmo se o for...), nem invejoso; e muito menos faz de mim anti-polaco, anti-português ou anti-alemão.
Por favor!

Fernando Rodrigues Machado

Helena Sacadura Cabral disse...

Assim se vê como eu já devo ter o céu ganho ao ter dado à luz duas versões de Portugal!
:))

Anónimo disse...

Caríssimo Embaixador,

Carlos Paredes um guitarrista português de audição obrigatória!

Grande Amigo e, sobretudo, o expoente máximo da educação e da humildade!

Guardo gratas recordações pessoais de Carlos Paredes e dou grande valor à sua obra!

Fraterno abraço.

Paulo M. A. Martins

Julia Macias-Valet disse...

E que engraçado descobrir hoje que um dia trabalhámos na mesma casa.
Alguns anos nos separaram na Gonçalves Zarco, mas quase que posso assegurar que conhecemos as mesmas pessoas : o Hélder na Produção Gráfica, a Irene na Media, etc.

A escolha de Paredes terá sido influenciada pela magnifica vista sobre o Tejo ?